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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

‘O melhor modelo de universidade é o que aposta na diversidade’

Nos últimos tempos, o professor Ivan Domingues, do Departamento de Filosofia da Fafich, tem se debruçado sobre o presente e o passado das universidades para tentar compreender os novos caminhos a serem trilhados por essa instituição nascida no final da Idade Média. Sua reflexão sobre a universidade, em especial a UFMG, vem sendo materializada tanto em conferências – como a feita no Fórum de Estudos Contemporâneos, promovido pela Pró-reitoria de Planejamento no ano passado – quanto na participação em instâncias destinadas a propor mudanças para a Instituição.
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Como coordenador do Seminário Universidade do Futuro, protagonizado pelo Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (Ieat), ele trabalha na análise da proposta de criação de bacharelados interdisciplinares. Já no Instituto Brasil Europa, consórcio de universidades brasileiras e europeias financiado pela União Europeia, Domingues contribui com a dupla missão de instalar um doutorado transdisciplinar e interinstitucional em políticas públicas e de formular novo conceito de extensão, mais atrelado a atividades de difusão do conhecimento e de educação superior. Toda essa imersão tem deixado preocupado esse filósofo com formação pela UFMG e pela Universidade de Sorbonne, na França. Para ele, a universidade contemporânea, principalmente a brasileira, está massificada, burocrática e confusa, com uma carga de atividades que deixa os docentes extenuados e distantes do ensino inovador e da pesquisa avançada. “Os fundamentos estão abalados”, resume ele.
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Nesta entrevista a DIVERSA, Ivan Domingues faz minuciosa análise do papel histórico da universidade – “ela nunca teve o monopólio da geração e disseminação do conhecimento” – e defende a adoção de modelos mais flexíveis e ajustados às realidades regionais. Sobre a UFMG, que completou 85 anos em setembro passado, o filósofo valoriza o que chama de “ethos unificado”, que se caracteriza pela lealdade institucional, e permitiu à Instituição crescer em qualidade e quantidade. Mas vê sinais de fadiga. “Nosso ethos persiste, mas com fissuras, e elas precisam ser soldadas”, adverte.
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Como a Universidade enfrenta o fato de não ter mais o monopólio de geração e disseminação do conhecimento? Isso a torna menos relevante que no passado?
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No meu modo de ver, a universidade nunca teve o monopólio. Isso é uma presunção equivocada. É uma ideia que não fica em pé se for examinada com mais cuidado. A universidade só foi criada nos séculos 12 e 13. E antes disso já havia produção e difusão do conhecimento na Academia de Platão, no Liceu de Aristóteles, no Jardim de Epicuro, na Biblioteca de Alexandria, nas escolas médicas de Hipócrates e nos tribunais da Magna Grécia e do Império Romano, que eram o centro não só da produção como também da práxis jurídica. No final da Idade Média, o panorama muda, com a criação das universidades, em sua maioria, ligadas à Igreja. Antes das universidades, também existiram as escolas monásticas, importantíssimas, e que se encarregavam da formação do clero. Havia ainda as corporações de ofício que também geravam conhecimento técnico de acordo com as necessidades da sociedade da época.
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O que eram essas corporações?
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Elas se ocupavam do ensino técnico, e a diversidade era enorme: tabeliães, ourives, escultores, marceneiros, mestres de obras e toda sorte de artesãos, cujas técnicas eram transmitidas pela tradição oral e com a ajuda da experiência. A esse grupo se associam as chamadas artes mecânicas, que abarcavam um conjunto de disciplinas técnicas e práticas: a produção de lã, o ofício de agricultor, a fabricação de armamento, a arte da navegação, os ofícios ligados ao teatro e a própria medicina. Havia também os ateliês de arquitetura, que abarcava a engenharia, a engenharia civil, e estava associada a um sem-número de profissões ligadas à arte da construção e da decoração dos edifícios, religiosos e civis. A universidade veio se integrar a essa paisagem bem mais tarde, quando passou se ocupar de três formações: Teologia, que também abrangia a Filosofia, Medicina e Direito. Era uma formação em que o humanismo cristão predominava.
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E depois?
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Na renascença e na era moderna, surgem novas experiências e reagrupamentos, com índole mais laica. Especialmente na modernidade, quando muitas universidades foram criadas, como Harvard, que data de 1636, e cujo fundador era egresso de Cambridge. O modelo segue sendo as universidades medievais, de formação mais humanista, porém logo elas passam a sofrer a concorrência das academias de ciência, como a de Florença, a da França e a Royal Society de Londres. Newton tinha um pé na universidade e outro na academia. Ele ensinava em Cambridge e atuava na Royal Society, da qual foi presidente por cerca de 20 anos. Descartes desenvolveu pesquisas em anatomia e fisiologia fora da universidade e nunca ensinou na universidade, assim como Pascal. Enfim, esses exemplos mostram que o monopólio das universidades não resiste a um exame mais apurado. Esse sistema bipolar foi transformado no século 19 graças à experiência da Universidade de Berlim, fundada por Humboldt [Wilhelm von Humboldt]. Essa dicotomia entre ensino e pesquisa desaparece, e a ciência é levada para dentro da universidade. Tanto que muitas universidades passaram a seguir o modelo humboldtiano. Já nos séculos 20 e 21 o sistema ganha muita escala. E junto surgem laboratórios e institutos de pesquisa independentes que passam a desempenhar papel muito importante na pesquisa e produção do conhecimento. Merece destaque a Royal Institution, fundada em 1799, em Londres, o primeiro laboratório público de pesquisa, contando em seus quadros com os primeiros cientistas assalariados, e que existe até hoje. Já as grandes corporações privadas, as mais conhecidas, surgiram a partir da metade do século 20. Resumindo, monopólio nunca houve; hegemonia, sim, por certos períodos. De qualquer forma, diferentemente dos institutos de pesquisa, a universidade tem uma particularidade que é a de permitir a aliança entre o conhecimento e o ensino; a pesquisa e o ensino.
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Houve uma era de ouro das universidades?
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Se houve, penso que foi o século 20. A Idade Média foi importante porque marca o início, mas a explosão começa em meados do século 19. A maioria das universidades dos Estados Unidos é dessa época, e o apogeu americano veio depois da Segunda Guerra – pelos motivos que todos sabemos. A partir daí, as universidades americanas superam as europeias.
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O sistema universitário norte-americano se consolidou muito rapidamente...
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Os Estados Unidos têm escala, densidade e diversidade, sendo uma referência interessante para o Brasil, que tem diversidade e escala parecidas. Lá, o modelo humboldtiano fincou raízes muito cedo. Porém, a partir da segunda metade do século 19, podemos falar em universidade propriamente neo-humboldtiana; o prefixo neo é por conta das mudanças. A fundação do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts] é um marco, por causa da introdução da tecnologia. Se, com Humboldt, há a associação entre humanidades e ciência, no MIT as engenharias e a tecnologia passam a ocupar lugar central na universidade. A agenda da inovação tecnológica ganha relevância em muitas universidades, e um novo modelo passa a imperar.
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O que significa essa ideia de refundação da universidade defendida pelo senhor?
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Quando digo isso é porque, no meu modo de ver, a universidade brasileira está fundada, mas precisa ser refundada, e refundar é algo como consertar um navio avariado em alto-mar; o reparo tem que ser feito com o navio em movimento. Eu não quero exagerar na metáfora. É só uma ideia. A universidade está fundada, mas os fundamentos estão abalados.
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Que fundamentos são esses?
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O tripé ensino-pesquisa-inovação nunca se consolidou. Não se trata de resgatar alguma coisa, uma ideia original de universidade. O tempo da universidade medieval já passou. Significa, no meu modo de ver, relançar o projeto da universidade neo-humboldtiana, baseada no tripé ensino-pesquisa-inovação. Essa ideia de que a universidade brasileira precisava ser fundada é do Darcy Ribeiro. Por ocasião da criação da Universidade de Brasília, há 50 anos, ele dizia que a universidade brasileira era um aglomerado, um conjunto de faculdades reunidas em torno de uma reitoria. E ele tinha razão. Quase todas seguiam esse modelo, uma federação de faculdades de Engenharia, Direito, Medicina. Ele mostrava os números. Nos anos 1950, a UFMG tinha 3,6 mil estudantes e a USP, cerca de 9 mil. Se compararmos com os números de hoje, veremos que alguma coisa de extraordinário aconteceu. A UFMG passou de pouco mais de três mil para mais de 52 mil alunos, quase 20 vezes mais em cinco décadas. E desdizendo o Darcy, acredito que hoje a universidade está fundada. O que ela precisa é ser refundada, e isso não tem nada de dramático, é da natureza das instituições. Não se trata de criar uma universidade nova como a projetada pelo Darcy Ribeiro, que imaginava que a maior de todas, localizada na capital federal, teria não mais do que 10 mil estudantes. A Unicamp foi fundada com projeção de um teto de 10 mil alunos, com a perspectiva de que o sinal deveria ser aceso quando chegasse a esse limite. O que se vê hoje é outra realidade, é a construção de uma universidade de massa. E isso criou um monte de problemas. Os fundamentos precisam ser juntados, reforçados, trabalhados, por vários processos de reparos e modificações. As universidades de elite são pequenas. Stanford tem 15 mil alunos; Harvard, 21 mil; Oxford,16 mil; Cambridge, 14 mil. Universidades com 30 mil, 40 mil alunos, já são instituições de massa, e as nossas principais universidades, as federais e as estaduais paulistas, já ultrapassaram – e muito – esse teto.
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Em que bases esse trabalho deve ser feito?
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É preciso pensar modelos, propostas, projetos diversificados. A essência da universidade é o ensino e ele tem que ser associado à pesquisa. Já a inovação tecnológica abre um caminho novo. Nós já percorremos um caminho, chegamos relativamente tarde, mas isso não é desculpa. Parte das americanas também começou relativamente tarde, e as asiáticas também. É preciso propor um modelo diversificado capaz de atender a certas vocações, inclusive regionais. O MIT foi fundado para atender um projeto de desenvolvimento da região de Massachusetts. Em boa medida, o nosso problema deve-se a um modelo jurídico único à europeia que estabelece o mesmo arcabouço para todas as instituições. Temos que dispor de modelos diversificados, com vocações diferenciadas. A universidade que está na Amazônia precisa pensar um projeto, inclusive geopolítico, diferente daquele que existe no Sul do país.
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O senhor entende que a universidade está assumindo atribuições que não são suas?
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Sua pergunta não é fácil de responder (risos). Mas nesse contexto de expansão, de universidade de massa, há um sentimento generalizado de que ela ficou irracional, com uma estrutura resistente, pesada e burocrática, em que os meios engolem os fins. O professor está soterrado pelas demandas, tarefas que não têm nada a ver exatamente com ensino e pesquisa. Por outro lado, há aulas demais e pesquisas de menos, o que condena o aluno a uma total passividade. É um modelo em que o professor é o centro, a fonte do saber, e o aluno, o receptor. Isso está completamente ultrapassado. Nas universidades europeias e americanas, a carga de aulas é muito mais baixa, e a de pesquisa, muito mais elevada. É preciso dar um choque de racionalidade administrativa. Racionalizar melhor os processos nas diferentes frentes de ensino, pesquisa, extensão, inovação e assim por diante. Um colega do Canadá, que conhece bem o Brasil, comentou, a propósito do nosso modo de trabalhar nas instituições acadêmicas, que o governo e as instâncias superiores vivem desconfiados de que o professor não trabalha. O resultado disso é uma universidade “tarefeira”.
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Sobre a questão das atribuições, não chamaria exatamente de excesso, mas de superdimensionamento. Veja o caso da extensão. Algumas fazem mais, outras menos. Na França, a Sorbonne tem pouca extensão. A Universidade de Paris 4, por exemplo, oferece cursos de francês para estrangeiros. Oxford tem um grande centro de extensão, mas que funciona mais como prestação de serviços. A nossa extensão tem outro sentido, inclusive para suprir certas carências sociais.
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Parece que ela tenta preencher uma lacuna deixada pelo Estado...
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Pois é, faz parte da cultura da nossa universidade assumir esses encargos. Isso ocorre com as federais e as estaduais paulistas. O Hospital das Clínicas da Universidade de Campinas atrai pessoas de países vizinhos, da Bolívia, por exemplo. E como o de Campinas, os hospitais das Federais ultrapassam a dimensão de hospital-escola e passam a prestar um serviço à comunidade que adquire dinâmica própria e ocupa o primeiro plano. Defendo que alguma extensão as universidades devem fazer, não podem ficar exiladas intramuros. Só que isso precisa ser redimensionado. Há muito business e prestação de serviços em nossas atividades de extensão. É preciso voltar a focalizar a formação e o ensino.
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A extensão hoje ocupa um lugar mais importante do que a graduação na universidade brasileira?
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A extensão ficou inflada, inchada. Na extensão, repito, faz-se business, prestação de serviços e assistência. Quando falo de refundação, tenho em mente que é preciso pensar em profundidade os fundamentos da extensão, remodelando-a. Recentemente, trabalhamos no contexto do Instituto Brasil Europa, um projeto de pós-graduação lato sensu, que vai tentar propor um conceito mais robusto de extensão que não envolva apenas prestação de serviço, business e assistência, mas assuma também um compromisso maior com a difusão do conhecimento e com a educação continuada. Parece-me uma boa direção para pensar a extensão.
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Ainda sobre a graduação. Ela não enfrenta uma crise até mesmo em função dos encargos administrativos, das tarefas e da obrigação de publicar cada vez mais?
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Há uma tendência de ver a graduação como estorvo e patinho feio. A graduação também deve ser repensada profundamente. É preciso implantar um projeto mais inteligente, menos “aulista”, com mais pesquisa, menos engessada e cartorial, mais aberta a novas experiências, flexível. Nesse sentido, estamos realizando um seminário, A Universidade do Futuro, e em um de seus módulos, nos dedicamos a examinar a proposta de implantação de bacharelados interdisciplinares na UFMG. Já existem experiências parecidas nas universidades federais da Bahia e do ABC. São inspiradas em práticas das universidades americanas, que desenvolvem bacharelados interdisciplinares em grande escala na Califórnia e em outros estados que duram, em geral, dois anos e que oferecem uma formação mais ampla para o estudante que ingressa na instituição; depois essa formação é afunilada nos cursos profissionais. É uma proposta boa, pois evita uma opção precoce, da qual o aluno vai se arrepender depois e que vai obrigá-lo a fazer outro vestibular ou buscar uma reopção. Outra experiência é a de Harvard, que implantou há anos o currículo de General Education, graças ao qual é fornecida uma formação geral humanística, científica e tecnológica ao conjunto dos alunos da universidade logo nos primeiros anos.
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O produtivismo e a cultura dos rankings são marcas da universidade contemporânea. Como o senhor vê esses fenômenos?
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Só há culto aos rankings em ambientes com uma cultura produtivista e governada pelo marketing. Medir uma produção é uma forma de mostrar quem é quem, tirar a instituição ou o indivíduo do anonimato e patrocinar a concorrência. Os rankings permitem fazer a comparação e dão uma ideia de qualidade. Parece que vieram para ficar, só que provocam toda sorte de distorções, e isso me causa grande preocupação. Os rankings trocam o médio pelo curto prazo e sacrificam a qualidade, medindo-a pela quantidade. O ranking é comandado pela lógica do publish or perish, do publicar ou morrer, e isso tem a consequência de dividir o mundo entre vencedores e derrotados. Agora, você imagina uma academia dividida entre vencedores e derrotados, funcionando em bases de concorrência e não de cooperação?
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Como vê a questão das cotas? Elas comprometem a ideia de mérito?
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É uma matéria muito controversa e polêmica. Mas não acho que seja uma escolha entre cotas e mérito. É entre justiça e mérito, e creio ser possível balancear e equilibrar os dois princípios. Entendo que o mérito é sagrado, e se o governo e as universidades abrem mão dele e insistem em canetadas populistas fatalmente vão causar estragos terríveis e levar décadas de esforços à ruína.
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Mas a adoção das cotas é um processo sem volta...
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Exato, é uma questão que está posta. Em princípio, sou favorável a ações afirmativas por cotas, seja por critérios étnicos ou socioeconômicos, favorecendo as escolas públicas, desde que temporalizadas, limitando-as a determinado número de anos. É uma maneira de fazer justiça por meios políticos. Agora, a comparação com os Estados Unidos é inevitável. Lá se fazem ações afirmativas há mais de 50 anos, e o assunto ainda desperta muita polêmica. Há muitos estados que faziam ações afirmativas e não fazem mais, como a Califórnia, onde a população hispânica e de afro-americanos é muito grande. A universidade do Texas, por outro lado, faz uma ação afirmativa na linha da adotada pela UFMG [o bônus, aplicado nos vestibulares 2009, 2010, 2011 e 2012], só que muito mais ousada. Ela admite cerca de 80% dos seus estudantes sem vestibular, selecionando os melhores alunos nas escolas públicas. Já o Brasil chegou muito mais tarde, e a nossa população de não brancos é de 50%, bem superior à dos americanos. Chegou tarde e é urgente fazer isso. Temo, todavia, que a ênfase em critérios étnicos termine por racializar tudo e complique mais ainda as coisas, ao passo que o nosso problema maior, de longe, é a desigualdade social e econômica, que vem causando estragos históricos em todas as camadas pobres, independentemente das etnias ou das raças. Tenho a sensação de que as coisas estão sendo feitas a toque de caixa, com muito voluntarismo e pouca reflexão. A impressão que dá é que as medidas governamentais são populistas e imediatistas. Pegam o ensino pelo alto e deixam de lado o início e o meio, ou seja, os ensinos fundamental e médio. Não vejo nos governantes uma preocupação sincera em melhorar esses níveis de ensino. O médio vive um verdadeiro apagão e Brasília finge que não está acontecendo nada. Recentemente, o MEC propôs mais uma reforma de currículo. Meu medo é que as universidades paguem sozinhas a conta das cotas e, sem o sentido do mérito, acabem sucateadas. Daí as minhas reservas. Se a escola pública um dia for resgatada no primeiro e segundo graus, promovendo a democratização do acesso e a qualidade do ensino em nosso país, a política de cotas perderá a razão de ser e será esquecida.
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Que análise o senhor faz das principais tendências das universidades contemporâneas? As instituições asiáticas, por exemplo, cresceram muito.
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Os asiáticos alcançaram coisas incríveis. O Japão, a Coreia e, agora, a China.
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Suas instituições já conseguem penetrar nesse grupo de excelência formado pelas universidades americanas e europeias?
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Já sim. Muitas delas já aparecem entre as top 100 dos rankings internacionais, como o de Shangai. Vivemos num mundo cada vez mais globalizado, e, em termos geopolíticos, vê-se que a balança pende para a Ásia. Isso está criando uma nova dinâmica, que repercutirá cada vez mais nas instituições de ensino superior. Algumas das universidades asiáticas estão buscando aproximação com as americanas e inglesas. No caso da China, há escala e muita ambição. Mas a Coreia, que é menor, salvo engano tem um terço da população do Brasil, acumula realizações extraordinárias no ensino superior, inclusive com um modelo jurídico que favorece a aproximação com grandes empresas, como a Samsung.
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O Brasil está perdendo o bonde da história?
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Há uma janela de oportunidades observada pelos demógrafos e economistas. A população brasileira ficou mais estável, o país está mais rico, o crescimento populacional se estabilizou, os recursos podem ser melhor distribuídos. É uma janela única. Agora, ela só será aproveitada se houver investimento forte em educação, em ciência e tecnologia. E isso não está sendo feito. É urgente. É para ontem. Caso contrário, a janela vai fechar. Alguns economistas dizem que o melhor momento já passou e que estaríamos condenados nos próximos tempos a ser um país com uma população envelhecida e de renda média.
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Como o senhor analisa a trajetória da UFMG. Que futuro o senhor vislumbra para a Instituição?
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Tenho uma ligação muito forte com esta universidade. Aqui, fiz graduação e mestrado. Meu doutorado foi na França, na Sorbonne, mas com apoio da UFMG, que manteve meu salário de professor, e da Capes, que me concedeu a bolsa. É com orgulho que eu vejo a UFMG bem ranqueada. Sua história é muito positiva, e ela cresceu muito em quantidade e qualidade. Houve um esforço coletivo muito grande. Nós, professores, temos um ethos unificado, caracterizado pela aderência e coesão institucionais, que ajudaram muito a UFMG em sua história recente. Só que ela está cansada, as pessoas estão meio exauridas. Nosso ethos no fundo é o do mineiro, aclimatado a um meio específico, que é a academia, e ele ainda persiste, mas com fissuras, e elas precisam ser soldadas. Não quero estabelecer uma dicotomia intergeracional, mas pessoas que ingressam agora chegam com muita pressa.
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Como fazer essa “soldagem”?
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O ethos está dentro da gente, temos ou não o temos, e ele só se fortalece sendo exercitado. Soldar as fissuras e consertar os defeitos das instituições não é muito diferente da operação de reparar as avarias do navio em alto-mar, que deverá ser feita com o navio em movimento, e não com ele parado. Este é o caso da UFMG e da universidade pública brasileira. Como eu já disse, elas já estão fundadas, precisam ser refundadas, e a refundação é interna e passa pelo ethos. O mal que nos aflige pode ser facilmente diagnosticado e tem duas etiologias: uma é o produtivismo, que atinge uma parcela dos docentes; a outra é o tarefismo, cuja escala é maior ainda, atingindo virtualmente a todos e só poupando os egoístas e indolentes existentes em quaisquer instituições. Como erradicar esses males que, mesmo se vieram de fora, hoje estão absolutamente interiorizados? Convenhamos, não será fácil. No limite, teríamos de nascer de novo, e nisso consiste a refundação. As forças de resistência e da mudança deverão ser encontradas dentro de nós para resultar em um novo pacto.
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Em que termos esse pacto deve ser firmado?
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O pacto deve envolver uma agenda política, associada à escolha dos dirigentes e dos reitores. Mas não é só. Será preciso também dar um choque de gestão e de racionalidade, desonerando os docentes de parte das tarefas administrativas, transferidas a quadros técnicos mais qualificados e mais bem pagos. O pacto também deverá dar lugar a uma nova agenda do conhecimento que não sofra tanto a pressão dos mercados e do aumento da produtividade, que vai junto com o aumento do descarte e da entropia. As próximas gerações terão esse grande desafio. Universidades centenárias passaram por crise parecida e, bem ou mal, sobreviveram, mas mudando.
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O senhor entende ser sustentável o recente processo de expansão da universidade brasileira?
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Nesse sentido, sempre apresentei minhas reservas em relação ao Reuni do jeito que foi feito. Ele perdeu o “Re” e ficou com o “Uni”. A questão do tamanho não foi pensada. Os chineses não querem passar de 40 mil alunos, e nós já estamos com 52 mil. A USP tem quase 90 mil. Universidades desse tamanho são ingovernáveis. Penso que o caminho talvez seja expandir as federais em diferentes pontos do Brasil, escolhidos estrategicamente. Essa expansão é essencial para o nosso projeto de desenvolvimento. O país tem poucas universidades. A Região Metropolitana de Belo Horizonte tem espaço para outra federal, nas imediações de Betim e Contagem. É preciso projetar outras instituições com qualidade, focadas nas questões regionais. Não podem ser moldadas por camisas de força que as impeçam de desenvolver novas experiências. O melhor modelo é o que aposta na diversidade. Se na natureza diversidade é riqueza, na cultura não é diferente.
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Fonte: REVISTA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS - Ano 12 - Número 20 - abril de 2013. https://www.ufmg.br/diversa/20/entrevista.html

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Formação de docentes é ineficiente, conclui pesquisa

Cerca de 70% das ações de municípios, Estados e do governo federal voltadas a atividades de qualificação de Docentes no exercício da rede pública brasileira no exercício têm baixa eficácia. Essa é a principal conclusão do estudo "Formação Continuada de Professores no Brasil", produzido pelo Instituto Ayrton Senna (IAS) e Boston Consulting Group (BCG), que ouviu cerca de 3 mil Professores, diretores de Escolas, gestores de secretarias de Educação e acadêmicos.
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A principal mensagem do documento sugere que avançar na formação continuada dos 2 milhões de Professores em atuação nas redes municipais e estaduais é a opção "mais acionável", um atalho, para melhorar a qualidade da Educação brasileira. Nas entrevistas, os Docentes elencaram seis problemas nas políticas atuais de formação continuada: falta de incentivos formais (ajuda de custo), falta de tempo, problemas de conteúdo, falta de prioridade, desalinhamento das ações de formação com plano de carreira, e alta rotatividade.
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Dos pontos levantados pelos Professores, Daniela Arai, analista de projetos de Educação e desenvolvimento do IAS, diz que o mais preocupante é a "desconexão" entre as atuais práticas de formação e a realidade do cotidiano dos Professores na sala de aula. "Não há ações customizadas e práticas, relacionadas com o dia a dia da sala de aula, resultando em ações de baixa eficácia. Mentorias foram relatadas por menos de 2% dos profissionais brasileiros, mas são consideradas as mais eficazes em redes de Ensino nacional e estrangeiras consideradas referência", avalia Daniela.
Diante do diagnóstico apresentado pelo estudo do IAS e do BCG, o ministro da Educação, José Henrique Paim, reconheceu que a formação continuada e inicial de Professores no Brasil é o maior gargalo do setor atualmente. "É preciso priorizar políticas que aproximem as necessidades do Professor no trabalho e de sua formação ao longo da carreira", comentou Paim.
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O ministro também disse que sua gestão prioriza a formação Docente e que o MEC está reorganizando o financiamento público dessa área. "Boa parte dos recursos do ministério vai para formação inicial [bolsas de estudo para Alunos de pedagogia e licenciaturas]. Os recursos que temos no MEC sofreram ao longo dos anos vários processos de reorientação", acrescentou o titular do MEC.
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Paim citou o exemplo do [Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), lançado em 2012], que tem como eixo a formação continuada de Professores para atingir o objetivo alfabetizar plenamente crianças até o fim do terceiro ano do Ensino fundamental. "O estudo do IAS não contemplou o Pnaic, que trabalha justamente com o foco na formação continuada para a Alfabetização. Estamos no meio de um processo, a organização do sistema de formação é resultado de um diagnóstico que está sendo feito, esse estudo ajuda", completou Paim.
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Douglas Woods, executivo do BCG, diz que o Brasil precisa de atividades mais eficazes de treinamento. "As iniciativas de formação têm que ser mais práticas e menos teóricas, acontecer de fato dentro da sala de aula."
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Fonte: Valor Econômico e Todos pela Educação

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A doença da "normalidade" na universidade

Renato Santos de Souza*
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Doença sempre foi algo associado à anormalidade, à disfunção, a tudo aquilo que foge ao funcionamento regular. Na área médica, a doença é identificada por sintomas específicos que afetam o ser vivo, alterando o seu estado normal de saúde. A saúde, por sua vez, identifica-se como sendo o estado de normalidade de funcionamento do organismo.
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Numa analogia com os organismos biológicos, o sociólogo Émile Durkheim também sugeriu como identificar saúde e doença em termos dos fatos sociais: saúde se reconhece pela perfeita adaptação do organismo ao seu meio, ao passo que doença é tudo o que perturba essa adaptação. Então, ser saudável é ser normal, é ser adaptado, certo? Não necessariamente: apesar de Durkheim, há quem considere que do ponto de vista social, ser normal demais pode também ser patológico, ou pode levar a patologias letais.
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Os pensadores alternativos Pierre Weil, Jean-Ives Leloup e Roberto Crema chamaram isto de Normose, a doença da normalidade, algo bem comum no meio acadêmico de hoje. Para Weil, a Normose pode ser definida como um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou por maioria em uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte. Crema afirma que uma pessoa normótica é aquela que se adapta a um contexto e a um sistema doente, e age como a maioria. E para Leloup, a Normose é um sofrimento, a busca da conformidade que impede o encaminhamento do desejo no interior de cada um, interrompendo o fluxo evolutivo e gerando estagnação.
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Estes conceitos, embora fundados sobre um propósito de análise pessoal e existencial, são muito pertinentes ao que se vive hoje na academia. Aqui, pela Normose não é apenas o indivíduo que adoece, que estagna, que deixa de realizar o seu potencial criador, mas o próprio conhecimento. E não apenas no Brasil, também em outras partes do mundo.
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Peter Higgs, Prêmio Nobel de Física de 2013 disse recentemente que não teria lugar no meio acadêmico de hoje, que não seria considerado suficientemente produtivo, e que, por isso, provavelmente não teria descoberto o Bosão de Higgs (a “partícula de Deus), descrito por ele em 1964 mas somente comprovado em 2012, quase 50 anos depois, com a entrada em funcionamento de uma das maiores máquinas já construídas pelo homem, o acelerador de partículas Large Hadron Collider. Higgs contou ao The Guardian que era considerado uma “vergonha” para o seu Departamento pela baixa produtividade de artigos que apresentava, e que só não foi demitido pela possibilidade sempre iminente de um dia ganhar um Nobel, caso sua teoria fosse comprovada. Ele reconheceu que, nos dias de hoje, de obsessão por publicações no ritmo do “publique ou pereça”, não teria tempo nem espaço para desenvolver a sua teoria. À sua época, porém, não só o ambiente acadêmico era outro como ele próprio era um desajustado, um anormal, uma espécie de dissidente que trabalhava sozinho em uma área fora de moda, a física teórica expeculativa. Então, sua teoria é também fruto desta saudável “anormalidade”.
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A mim, embora não surpreendam, as declarações de Higgs soam estarrecedoras: ou seja, com os sistemas meritocráticos de avaliação de hoje, que privilegiam a produção de artigos e não de conhecimentos ou de pensamentos inovadores, uma das maiores descobertas da humanidade nas últimas décadas, que rendeu a Higgs o Nobel em 2013, provavelmente não teria ocorrido, como certamente muitos outros avanços científicos e intelectuais estão deixando de ocorrer em função dos sistemas atuais de avaliação da “produtividade em pesquisa”. É a Normose acadêmica fazendo a sua maior vítima: o próprio conhecimento.
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Aliás, nunca se usou tanto a autoridade do Nobel para apontar os desvios doentios do nosso sistema acadêmico e científico como em 2013. Randy Schekman, um dos ganhadores do Nobel de Medicina deste ano, em recente artigo no El País, acusou as revistas Nature, Science e Cell, três das maiores em sua área, de prestarem um verdadeiro desserviço à ciência, ao usarem práticas especulativas para garantirem seus mercados editoriais. Schekman menciona, por exemplo, a artificial redução na quantidade de artigos aceitos, a adoção de critérios sensacionalistas na seleção dos mesmos e um absoluto descompromisso com a qualificação do debate científico. E afirmou que a pressão para os cientistas publicarem em revistas “de luxo” como estas (de alto impacto) encoraja-os a perseguirem campos científicos da moda em vez de optarem por trabalhos mais relevantes. Isto explica a afirmação de Higgs sobre ser improvável a descoberta que lhe deu o Nobel no mundo acadêmico de hoje.
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O próprio Schekman publicou muito nestas revistas, inclusive as pesquisas que o levaram ao Nobel: diferentemente de Higgs, que era um dissidente, Schekman também já sofreu de Normose. Porém, agora laureado, decidiu pela própria cura e prometeu evitar estas revistas daqui para adiante, sugerindo não só que todos façam o mesmo, como também que evitem avaliar o mérito acadêmico dos outros pela produção de artigos. Foi preciso um Nobel para que se libertasse da doença.
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A atual Normose acadêmica se deve à meritocracia produtivista implantada nas universidades, cujos instrumentos, no Brasil, para garantir a disciplina e esta doentia normalidade são os sistemas de avaliação de pesquisadores e programas de pós-graduação, capitaneados principalmente pela CAPES e CNPq. Estes sistemas têm transformado, nas últimas décadas, docentes e alunos em burocráticos produtores de artigos, afastando-os dos reais problemas da ciência e da sociedade, bem como da busca por conhecimentos e pensamentos realmente novos. A exigência de produtividade é um estímulo ao status quo, obstruindo a criatividade, a iniciativa, o senso crítico e a inovação, pois inovar, criar, empreender, fugir ao normal pode ser perigoso, pode ser incerto, pode ser arriscado quando se tem metas produtivas a cumprir; portanto, não é desejável: o mais seguro é fazer “mais do mesmo”, que é ao que a Normose acadêmica condenou as universidades e seus integrantes ao redor do mundo.
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Eu escrevi em um artigo de 2013 que a meritocracia leva a uma ilusão de eficiência e progresso que não podem se realizar, porque as meritocracias modernas são burocracias. Como bem ensinou Max Weber, a burocracia é uma força modeladora inescapável quando se racionaliza e se regulamenta algum campo de atividade, como acontece no sistema científico atual. Para supostamente discriminar por mérito pessoas e organizações acadêmicas, montou-se um tal sistema de regras, critérios avaliativos, hierarquias de valor, indicadores, etc., que a burocratização das ações acadêmicas tornou-se inevitável. Agora é este sistema que orienta as ações dos acadêmicos, afastando-os de seus próprios valores, desejos e convicções, para agirem em função da conveniência em relação aos processos avaliativos, visando controlar os benefícios ou penalidades que eles impõem. Pessoas sob regimes de avaliação meritocráticos se tornam burocratas comportamentais; e burocratas, como se sabe, pela primazia da conformidade organizacional a que se submetem, tornam-se inexoravelmente impessoalistas, formalistas, ritualistas e avessos a riscos e a mudanças. Tornam-se normóticos, preferindo, no caso da academia, uma produção sem significado, sem relevância, sem substância inovadora porém segura, a aventurarem-se incertamente em busca do novo.
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Agora, depois de já ter escrito isto naquele artigo, descubro que o Nobel de Medicina de 2002, o sul-africano Sydney Brenner, em entrevista de fevereiro deste ano à King’s Reviw, afirmou exatamente o mesmo. Dentre outras coisas, disse ele que as novas ideias na ciência são obstruídas por burocratas do financiamento de pesquisas e por professores que impedem seus alunos de pós-graduação de seguirem suas próprias propostas de investigação. É ao menos alentador perceber que esta realidade insólita não é apenas uma versão tupiniquim da busca tardia e equivocada por um lugar o sol no campo acadêmico atual, mas uma deformação que assola também os “grandes” da arena científica mundial. E também constatar que os laureados com a distinção do Nobel tem se percebido disto e denunciado ao mundo.
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De certa forma, todos na academia sabem que estes sistemas de avaliação acadêmicos têm levado a um produtivismo estéril, mas isto não tem sido suficiente para mudar nem as condutas pessoais, nem as diretrizes do sistema, porque a Normose é uma doença coletiva, não individual. Ela advém da necessidade de legitimação do indivíduo frente ao sistema de regras, normas, valores e significados que se impõe a ele. Por isto é que o pesquisador australiano Stewart Clegg afirmou, certa vez, que “pesquisadores que buscam legitimação profissional podem com muita facilidade ser pressionados a aprender mais e mais sobre problemas cada vez mais desinteressantes e irrelevantes, ou a investigar mais e mais soluções que não funcionam”.
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Mas agora me advém uma questão curiosa: por que tantos Nobéis tem denunciado este sistema? Creio que porque do alto da distinção recebida, eles já não tem mais nenhum compromisso com a meritocracia acadêmica, e podem falar do dano que ela causa às ideias realmente inovadoras que, inclusive, podem levar à láurea. Mas também porque o Nobel foge à lógica da meritocracia, ele não é um mecanismo meritocrático, portanto, não é burocrático. Ele é até mesmo político, antes de ser meritocrático e burocrático! É um reconhecimento de “mérito” sem ser uma “cracia”. Ou seja, não há, através dele, um sistema de governo das atividades científicas, e por isso ele não leva a uma racionalidade formal, pois ninguém em consciência normal pautaria sua atividade acadêmica quotidiana pela improvável meta de, talvez já na velhice, ganhar o Nobel; e mesmo que tivesse este excêntrico propósito como pauta, teria que fugir da meritocracia que governa os sistemas científicos atuais para chegar a um lugar reconhecidamente distinto, pois ser normal não leva ao Nobel.
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Mas este não é o mundo da vida dos seres acadêmicos de hoje, aqui vivemos em uma meritocracia burocrática, e num contexto assim, pouco adiantam as advertências da editora-chefe da revista Science, Marcia McNutt, publicados no Estadão, de que a ciência brasileira precisa ser mais corajosa e mais ousada se quiser crescer em relevância no cenário internacional. Segundo ela, para criar essa coragem é preciso aprender a correr riscos, e aceitar a possibilidade de fracasso como um elemento intrínseco do processo científico. Mas quando as pessoas são penalizadas pelo fracasso, ou são ensinadas que fracassar não é um resultado aceitável, elas deixam de arriscar; e quem não arrisca não produz grandes descobertas, produz apenas ciência incremental, de baixo impacto, que é o perfil geral da ciência brasileira atualmente, segundo ela. É a Normose acadêmica “a brasileira” vista de fora.
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Somos todos normóticos em um sistema acadêmico de formação de pesquisadores e de produção de conhecimentos que está doente, e nossa Normose acadêmica tem feito naufragar o pensamento criativo e a iniciativa para o novo em nossas universidades. Sem eles, porém, não há futuro significativo para a vida intelectual dentro delas, nem na ciência nem nas artes.
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Texto de Renato Santos de Souza, publicado no E-Book: NASCIMENTO, L.F.M. (Org.) Lia, mas não escrevia (livro eletrônico): contos, crônicas e poesias. Porto Alegre: LFM do Nascimento, 2014. Fonte: Pragmatismo Político

terça-feira, 1 de julho de 2014

Educação: um caso a se pensar, em uma cidade do interior de Minas

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Lúcio Alves de Barros*
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Em recente pesquisa feita com apoio da Fapemig e da Faculdade ASA na cidade de Brumadinho (MG) em uma escola estadual, foram de capital importância alguns achados acerca das experiências no trabalho e nas violências vivenciadas pelos docentes. Mas antes de descrever alguns aspectos é necessário dizer que não é por ser uma cidade de interior de pequeno porte, ou talvez esquecida pelos desavisados e críticos de plantão, que ela não seja um bom objeto passível de pesquisa e contribuição ao campo acadêmico. Pelo contrário.
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Em primeiro lugar, cumpre mencionar a inexistência de uma “violência dura”, de grande clamor público, e de uma “criminalidade violenta” ou casos nos quais a polícia tem que atuar a todo momento. Os professores entrevistados afirmaram a inexistência dessas práticas dentro e fora da escola – que, por sinal, é muito organizada, limpa e cuidada. As violências encontradas são de pequeno porte, como incivilidades, maus-tratos e indisciplina.
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Em segundo lugar, é curioso e digno de admiração o respeito dos professores em relação aos estudantes. Os docentes, com larga experiência e formação, alguns tendo até mestrado, demonstraram uma “força sem igual”. Acreditam categoricamente na educação como prática libertadora e que estão auxiliando e “formando pessoas” para melhores dias. Muitos deles asseveraram inclusive que já conseguiram recuperar as esperanças de muitos adolescentes e jovens que andavam descrentes com a vida. A ação dos professores nesse sentido é de “gestor de emoções”, o que vem auxiliando na formação dos alunos e nas relações cotidianas.
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Em terceiro lugar, é bom deixar claro que lecionar em uma escola pública do interior parece agradável e bom para os docentes pesquisados. As estratégias de defesa dos professores nessas escolas não passam de ações cotidianas construídas na base da solidariedade e na sociabilidade com os responsáveis. Em uma cidade de interior, as pessoas se conhecem, ainda trocam informações e têm acesso umas às outras em vários espaços de relações sociais. Não por acaso professores entram em contato com os pais – alguns antigos amigos de infância – e descrevem a situação e o que anda ocorrendo com o filho/estudante naquele espaço. Mais que isso, professores chegam a fazer valer sua autoridade, “chamando a atenção” e recebendo respeito e admiração de pais e alunos.
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Finalmente, a escola estadual (pública e gratuita) em Brumadinho, a despeito dos problemas encontrados no campo da falta de recursos e de professores devido ao jogo de designações do estado, anda firme e com as próprias pernas. Possui professores engajados e estudantes que possuem excelentes trajetórias no interior da instituição escolar. Muitos – o que não deixa de ser um orgulho para os docentes – passaram para universidades e estão inseridos no mercado de trabalho. É digno de nota o papel da direção da escola, que oferece a discricionariedade, a autoridade, o apoio, a liberdade e a defesa incondicional dos professores em casos de conflitos e negociação. É nesse ambiente que encontramos a escola estadual em pesquisa. É neste ambiente que acreditamos que as escolas do interior, públicas e de qualidade, são possíveis e talvez ofereçam um ambiente (de paz, tranquilidade e segurança) muito mais aconchegante para os alunos estudarem.
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Agradeço à Gabriela Rasuck, que auxiliou na pesquisa. Sem ela, o trabalho por certo não existiria.
Publicado em 01 de julho de 2014.
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Professor na Faculdade de Educação - UEMG / FAE / BH
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Fonte: Revista Educação Pública - http://www.educacaopublica.rj.gov.br/suavoz/0161.html

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Professor brasileiro é um dos que mais trabalha, afirma relatório da OCDE

Os professores brasileiros de escolas de ensino fundamental, gastam, em média, 25 horas por semana só com as aulas. O número é superior à média de aproximadamente 30 países, como a Finlândia, Coreia, Estados Unidos, México e Cingapura. Lá, os professores gastam, em média, 19 horas por semana ensinando em sala de aula, ou seja, um porcentual 24% menor. O posição brasileira é inferior apenas à do Chile, onde os professores gastam quase 27 horas em aulas.
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O docente brasileiro, contudo, usa até 22% mais de tempo que a média dos demais países em outras atividades da profissão, como correção de "tarefas de casa", aconselhamento e orientação de alunos. Todos os dados são da mais recente Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) divulgada nesta quarta-feira (25) na França.
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Junto com o Brasil, não foram apenas países ricos e integrantes da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) - coordenadora da pesquisa - que participaram do estudo. Outras nações emergentes e também países menos desenvolvidos fizeram parte da pesquisa. Polônia, Bulgária, Croácia, Malásia e Romênia fazem parte do conjunto de nações integrantes da edição 2013 da Talis. Os dados foram obtidos junto a mais de 14 mil professores brasileiros e cerca de 1 mil diretores de 1070 escolas públicas e privadas de todos os estados do País. Os docentes e dirigentes responderam aos questionários da pesquisa, de forma sigilosa, entre os meses de setembro a novembro de 2012. Cada questionário tinha cerca de 40 perguntas.
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Em âmbito nacional, o estudo foi coordenado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC). Em 2007, o Brasil também participou da primeira rodada da pesquisa, a Talis 2008, que foi publicada no ano seguinte.
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Objetivo: A pesquisa tem como principal objetivo analisar as condições de trabalho que as escolas oferecem para os professores e o ambiente de aprendizagem nas salas de aula. De acordo com o Inep, "a comparação e análise de dados internacionais permite que os países participantes identifiquem desafios e aprendam a partir de políticas públicas adotadas fora de suas fronteiras".
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Diferente do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), que prioriza a avaliação dos alunos, do seu contexto e da escola, no Talis, o foco está mais centrado nos docentes. "O programa Talis é um programa de pesquisas que visa preencher lacunas de informação importantes para a comparação internacional dos sistemas de ensino", afirma estudo da Universidade Federal do Paraná liderado pela pesquisadora Rose Meri Trojan.
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"Desperdício"
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A pesquisa também quis saber do professor quanto tempo de aula é voltado, efetivamente, para a aprendizagem. E o número é pouco animador para o Brasil. Mesmo com uma carga de 25 horas de aulas por semana, mais de 30% do tempo desses encontros regulares é "desperdiçado" em tarefas de manutenção da ordem dentro da sala e em questões burocráticas, como o preenchimento de chamadas e outras atividades administrativas. Só o tempo gasto para por "ordem na bagunça" dos estudantes representa 20% do tempo total da aula. Com serviços administrativos, são gastos 12%. De aula mesmo, ou seja, atividades de aprendizagem, o professor dispõe apenas de 67% do tempo. É a pior situação entre todos os países avaliados. Na média dos países pesquisados, quase 80% do tempo é voltado, exclusivamente, para a aprendizagem.
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"Precisamos otimizar mais o tempo em sala de aula. O Brasil ainda tem como foco o ensino, mas é preciso se voltar para a aprendizagem. Não podemos desperdiçar tanto tempo com outras questões", afirma Ocimar Alavarse, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, um dos principais fatores de dispersão do aluno é a própria defasagem que ele tem em termos de conhecimento por uma série de fatores, inclusive os socioeconômicos. "Os alunos que chegam no fundamental veem com baixa proficiência ou possuem uma diferença muito grande em relação aos demais estudantes. Isso é um dos fatores que faz com que ele não fique atento às aulas e o professor precise gastar mais tempo organizando a dispersão", fala Alavarse.
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Deslocamento - Além de usar mais horas por semana ensinando, parte dos professores brasileiros ainda sofre com o desgaste em descolamentos. Isso porque, muitos deles trabalham em mais de um estabelecimento.
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"Ainda temos que enfrentar o desafio da reorganização do corpo de professores nas escolas públicas. O ideal era que ele estivesse vinculado a apenas uma escola. No entanto, é comum docentes, especialmente dos anos finais do ensino fundamental, ensinarem em mais de um estabelecimento, já que certas matérias que eles lecionam têm uma carga horária e número de turmas limitado", afirma Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.
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No Brasil, cerca de 40% dos mais de 2 milhões de professores da educação básica dão aulas em cinco ou mais turmas. E aproximadamente 20% deles ensinam em pelo menos dois estabelecimentos. Já em São Paulo, 26% dos professores dão aulas em duas escolas. Os dados são do Censo Escolar 2013 divulgado no início deste ano pelo MEC.
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Perfil - Além dos dados sobre condições de trabalho e ambiente de aprendizagem, a pesquisa da OCDE também traçou o perfil do docente brasileiro. Confira os números da pesquisa aqui.
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'Educação não é mercadoria: setor privado precisa de uma regulamentação urgente'
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Depois da participação na aprovação, pelo Congresso, do Plano Nacional de Educação (PNE) - uma das principais bandeiras de reivindicação da União Nacional dos Estudantes (UNE) -, a entidade vai focar sua atuação, a partir de agora, na regulamentação mais efetiva do ensino superior privado do País. Essa supervisão mais eficiente das 2.112 faculdades, centros universitários e universidades particulares (87% do total de instituições de ensino superior do Brasil) será possível com a aprovação do projeto de lei que cria o Instituto Nacional de Supervisão e Avaliação da Educação Superior (Insaes). Isso é o que afirma a presidente da UNE, Virgínia Barros, de 28 anos.
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"Quem se posiciona de forma contrária ao projeto fala que é mais um instituto que vem para inchar o Estado brasileiro e aumentar a burocracia. Eu não concordo com essa avaliação. Acho que o Insaes vem para aumentar a eficiência do próprio Estado no processo de fiscalização", afirma Vic, como é mais conhecida.
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Confira, no vídeo, a posição da UNE sobre a regulamentação do ensino privado, o balanço da gestão no primeiro ano de mandato encerrado agora em junho, além de outros temas envolvendo políticas públicas, movimento estudantil, eleições e Copa. Aqui.
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Superinstituto - O novo 'superinstituto' do Ministério da Educação (MEC) prevê a criação de mais de 500 cargos públicos ao custo que ultrapassa os R$ 40 milhões. O Insaes passaria a assumir algumas atividades da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) do MEC e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), ambos responsáveis pela regulação do setor.
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Hoje, tanto o Inep quanto a Seres sofrem com falta de pessoal e infraestrutura, o que compromete a fiscalização da qualidade do ensino ofertado pelas instituições privadas. Contudo, o projeto - que foi apresentado pelo executivo federal em 2012 -, ainda está em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara. O Ministério da Educação (MEC) esperava que ele fosse apreciado ano passado para que passasse a valer a partir deste ano.
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O setor privado, em geral, critica a criação e a formatação do instituto. Atualmente, o total de estudantes matriculados em faculdades e universidades de ensino superior no País ultrapassou a marca de 7 milhões em 2012. Mais de 70% desses alunos estudam em instituições privadas.
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60% dos professores no Brasil são obrigados a trabalhar em mais de uma escola, diz estudo

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Menos da metade dos professores de ensino fundamental no Brasil pode se dar ao luxo de laborar num único colégio. O dado, revelado pela Pesquisa Internacional de Ensino e Aprendizado (Talis, na sigla em inglês) da OCDE, o clube dos países mais desenvolvidos, joga luz sobre um problema que, de acordo com especialistas, afeta diretamente a qualidade da educação.
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Segundo o levantamento, que a OCDE realizou junto a cem mil professores em 34 países e cujos resultados apresenta hoje em Paris, apenas 40% dos docentes brasileiros que atuam nos primeiros anos do ensino têm dedicação exclusiva, contra 82% na média das nações pesquisadas. De acordo com a gerente da área técnica do movimento Todos Pela Educação, Alejandra Meraz Velasco, por trás dessa realidade estão os salários insuficientes e o baixo número de professores em determinadas áreas.
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— Os profissionais de exatas, por exemplo, encontram oportunidades mais atraentes que a sala de aula quando se formam. Isso gera um déficit que acaba sendo tratado com o deslocamento de profissionais — observa. — A consequência é um prejuízo no envolvimento do professor com o projeto pedagógico das escolas.
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A vida em mais de uma escola é o caso de Marcelle Aguiar, professora de inglês de 33 anos. Para alcançar renda mensal de R$ 3.500, ela precisou assumir 19 turmas em quatro escolas. Marcelle trabalha para a rede municipal do Rio, onde atua num colégio na Pavuna e outro em Acari, e também para a rede municipal de Magé, na qual dá aulas em mais dois colégios.
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— Seria infinitamente melhor se pudesse receber um bom salário para atuar em apenas uma escola. Teria mais tempo para planejar atividades e vínculos ainda mais fortes com os alunos — pondera.
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Além da rotina pesada, a professora também já precisou enfrentar escolas inseridas em contextos de violência, como comunidades marcadas pelo tráfico de drogas. Segundo ela, muitas vezes esse peso recai diretamente sobre o professor:
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— Em alguns casos, os alunos liberam toda a sua agressividade na escola. Os colégios cada vez mais têm que estar preparados para agir como agentes transformadores. Mas, para isso, é preciso apoio de psicólogos e assistentes sociais, já que determinados aspectos fogem ao nosso alcance.
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O cenário descrito por Marcelle também aparece na pesquisa da OCDE, que pediu a professores e diretores (15 mil deles apenas no Brasil) que respondessem a questionários com perguntas sobre liderança escolar, ambiente de trabalho, satisfação e eficiência, práticas pedagógicas e expectativas, avaliação, aprendizado e desenvolvimento de oportunidades. Dos 34 países, somente em Brasil, Malásia e México mais de 10% dos diretores relataram que experimentam episódios de vandalismo ou roubo em uma base semanal. Para a organização, “não surpreende que, tanto no Brasil quanto em outras nações, gestores escolares tenham relatado níveis mais elevados de inadimplência em suas escolas, além de níveis mais baixos de satisfação no trabalho.”
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Nosso país também aparece ao lado do México, da Suécia e da Bélgica no quesito respeito ao professor: quase um terço dos professores trabalham em escolas onde houve relatos de intimidação ou abuso verbal por parte dos alunos. O Brasil é um dos únicos também onde mais de 10% dos diretores disseram ter presenciado agressões verbais a seus professores toda semana.
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MULHERES SÃO ESMAGADORA MAIORIA
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O estudo também comprova uma realidade que qualquer um que já entrou numa escola de ensino fundamental percebeu: as mulheres são a esmagadora maioria dos professores. Mais especificamente, 71% deles (na média de todos os países pesquisados, são 68%). Embora 96% dos docentes por aqui tenham diploma de graduação, somente 76% completaram cursos de licenciatura. Esse índice fica abaixo da média mundial, de 90%. Mesmo assim, os profissionais de educação básica daqui acumulam uma experiência profissional de 14 anos, só dois a menos que a média.
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Também na direção das escolas, só 25% são homens, contra 51% na média da OCDE. As gestoras têm formação mais elevada que seus empregados professores: 96% delas completaram graduação com licenciatura, e 88% fizeram algum tipo de treinamento para assumir o posto administrativo. No entanto, se os diretores nos 34 países da pesquisa somam tempo médio de experiência profissional de 30 anos, por aqui o número cai para 21. Outro ponto bastante enfatizado pela TALIS é a questão da avaliação de professores e de como ela impacta o dia a dia na sala de aula. Por aqui, 80% dos docentes disseram ter implementado melhores práticas letivas depois de receber bons retornos de seus superiores, contra só 62% na média da OCDE.
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A atual coordenadora da pré-escola na Escola Americana, Isabela Baltazar também já foi professora da instituição e defende que, em ambas posições, o retorno sobre o trabalho em sala de aula é fundamental para o bom rendimento:
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— Dando este tipo de suporte, temos professores mais confiantes. Isso passa mais segurança ao aluno.
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SOBRE A TALIS
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Esta é a segunda edição da Pesquisa Internacional de Ensino e Aprendizado, sendo a primeira realizada em 2008 com pouco mais de 20 países. Para o Talis 2013, foram ouvidos cerca de 100 mil professores e diretores de escolas em 34 países. No Brasil, cerca de 15 mil docentes e mil gestores de escolas atenderam aos questionários enviados pela OCDE.
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A organização os pediu que respondessem questões que versavam sobre liderança escolar, ambiente de trabalho, satisfação no trabalho e eficiência, práticas pedagógicas e expectativas, avaliação e feedback, aprendizado e desenvolvimento de oportunidades.
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Fonte: O Globo on line e Todos pela Educação

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Maioria da população não vê melhora no país após manifestações

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PUBLICADO EM 10/09/13 - 15h37
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A maioria dos brasileiros acredita que não houve melhoras no País após as manifestações, de acordo com pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) em parceria com a MDA Pesquisa, divulgada nesta terça-feira, 10. O porcentual de entrevistados que apontou que não houve melhora depois dos protestos é de 54%. Outros 42,6% acreditam que o Brasil melhorou após os protestos, ao passo que 3,4% não responderam ao questionamento.
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Entre os entrevistados, 32,7% acreditam que o governo não atendeu às reivindicações das manifestações e apenas 0,6% apontaram que o governo atendeu todos os pedidos. A maioria, 63 3%, acredita que o governo atendeu algumas das reivindicações. A pesquisa foi feita em 135 municípios, de 31 de agosto a 4 de setembro. A falta de projetos em áreas prioritárias, como saúde, educação e transporte, é apontada por 42,6% dos entrevistados como o maior problema administrativo da presidente Dilma Rousseff. Em segundo lugar, aparece a falta de diálogo com a população, com 14,5%. O excesso de burocracia nos órgão do governo ficou em terceiro, com 10,2%, seguido da dificuldade em fazer investimentos, com 6,6%. A criação de 39 ministérios aparece com 6,3% e a falta de obras, com 5,7%. 4,8% apontaram outro problema e 9,2% não sabem ou não responderam.
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Como maior virtude do governo Dilma Rousseff, a resposta mais frequente foi a ampliação de benefícios aos mais carentes, com 48,4%. Em segundo, o combate à corrupção, com 17,3%. Também aparecem o crescimento econômico, com 6,6%, o aumento de investimentos, com 5,3%. Responderam outra coisa 2,5% dos entrevistados e 19,8% não sabem ou não responderam.
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Inflação
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Questionados sobre a inflação, 75,9% dos brasileiros acreditam que a alta de preços não está controlada, contra 15% que acha que a inflação está sob controle. Outros 9,1% não souberam ou não responderam. Da mesma forma, a maioria da população tem preocupações com a economia do País. Segundo a pesquisa, 40,2% dos entrevistados estão preocupados com o quadro econômico, enquanto 12,6% estão muito preocupados. Já 16,5% estão pouco preocupados, 12,7% estão indiferentes e ainda outros 12,7% estão empolgados ou esperançosos. Para 40,5% dos entrevistados, a economia estava crescendo, mas agora está estagnada. Para 23,7% a economia está crescendo, para 14,6% não está crescendo e ainda para 9,9% o Brasil está em recessão.
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Apagão
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A maioria dos brasileiros, 63,7%, acredita que o Brasil pode ter 'eventualmente' problemas com apagão de energia elétrica e 16,9% disseram que pode ter 'frequentemente'. Outros 15% disseram que o País não terá problemas com apagão de energia elétrica. O porcentual de pessoas que não responderam ou não sabem foi de 4 4%. Também é maioria quem acredita que o Brasil não está bem preparado para evitar apagões: 68,7%. Outros 24,5% disseram que o País está preparado.
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Agência Estado (O Tempo - MG)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Pesquisa pública, publicação privada

Às pesadas prateleiras das bibliotecas universitárias se somam cada vez mais uma enxurrada de publicações especializadas on-line, que oferecem, sem atraso e normalmente de graça, os últimos resultados dos laboratórios de pesquisa.
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por Richard Monvoisin
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"Publicar ou apodrecer”: a sentença do zoologista Harold J. Coolidge1 resume a vida de um pesquisador. Pouco importa, para seu prestígio acadêmico, que seu modo de ensinar seja brilhante, seus estudos sejam bem fundamentados ou que ele seja gentil com os colegas: a avaliação do trabalho de pesquisa repousa de forma definitiva apenas na soma e na qualidade dos artigos publicados nas revistas científicas. A exposição ordenada dos resultados, passando pela humilhação da releitura por especialistas no assunto – o que chamamos normalmente de releitura dos pares, ou peer-review–, é a chave para isso.
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As publicações são especializadas de acordo com a área de pesquisa. Assim, um especialista em história moderna da França tem à escolha uma dezena de revistas nacionais, e cerca de uma centena de periódicos acolhem os trabalhos de pesquisa feitos em física. Para escolher em que porta bater é preciso adaptar as pretensões, levando em conta o fator do impacto da revista, quer dizer, seu valor no mercado do saber. Esse valor é fundado não na audiência, mas no número médio de citações dos artigos da dita revista em outros artigos científicos.2 É conveniente acertar o alvo: muito baixo (uma revista pouco conhecida), e o artigo não será apreciado de acordo com seu valor, independentemente de sua qualidade; muito alto (as melhores publicações), e ele pode ser bloqueado durante meses pelos avaliadores, para no final ser recusado. Por ser feroz a concorrência entre as equipes de pesquisa, corre-se, então, o risco de ser ultrapassado na linha de chegada.
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Além de o autor do artigo não ser pago, seu laboratório deve, frequentemente, participar nos gastos de secretaria ou impressão. Em troca, ele recebe capital simbólico (reconhecimento, prestígio): o direito de indicar o título do artigo – envolto na aura de seu fator de impacto – em seu curriculum vitae. Os leitores-avaliadores do artigo, por sua vez, são cientistas anônimos solicitados pela revista; eles também são remunerados apenas em capital simbólico. Quando um pesquisador submete um texto numa área muito específica, seus juízes às vezes participam da mesma corrida. Claro, a honestidade e a boa-fé predominam e, em caso de conflito de interesses patente, é possível recusar antecipadamente um avaliador concorrente. Mas as disputas por influência e os conluios são inevitáveis. A pesquisa moderna se transforma, então, em uma arena percorrida por centenas de hamsters na qual, como nos clássicos videogames, se multiplicam poças de óleo, cascas de banana e rasteiras.
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Essa mecânica não cooperativa parece hoje “sem fôlego”3 e pesa na qualidade de produção do conhecimento. As grandes revistas estão congestionadas; resultados não acabados, de interesse medíocre, são por vezes publicados de maneira precipitada; os resultados negativos – quer dizer, sem conclusão –, que no entanto são muito úteis, nunca são publicados.4
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E o sistema de releitura pelos pares está longe de garantir a honestidade de todas as publicações. Resultados fraudulentos, maquiados para melhor seduzir, às vezes até completamente forjados, superam regularmente esse filtro. Podemos citar os casos de Jan Hendrik Schön, físico alemão dos laboratórios Bell desmascarado em 2001; de Hwang Woo-suk, biólogo sul-coreano descoberto em 2005; ou do psicólogo Diederik Stapel, que se demitiu em 2011. Depois de ter estudado os 17 milhões de publicações científicas, de 1950 a 2007, referenciadas pela base de dados Medline, os pesquisadores Murat Çokol, Fatih Ozbay e Raul Rodriguez-Esteban observaram que a porcentagem de retratações de artigos pelas revistas “tem aumentado” significativamente desde os primeiros escândalos científicos, nos anos 1970. Esses casos tinham conduzido à instalação do Office of Research Integrity (ORI), escritório norte-americano pela integridade na pesquisa.5
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A avaliação dos pesquisadores é comprometida: a busca por citações engendra uma forma de tráfico de influências, levando, por exemplo, à citação de amigos. Encontram-se igualmente artigos assinados por dezenas de nomes: os dos jovens pesquisadores que realizaram o essencial do trabalho e os dos diretores de laboratório, claramente menos implicados – revelando um procedimento que pode ser legítimo no caso de trabalhos fundadores que tenham efetivamente contado com um grande número de participantes. Impõe-se, assim, o que o sociólogo Robert K. Merton chamava de “efeito Mateus” (São Mateus: “Porque, àquele que tem, se dará e terá em abundância; mas, àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado”), um encadeamento de mecanismos pelos quais os mais favorecidos, no caso os mais citados, tendem a ganhar vantagem sobre os outros, que irão encher as colunas das revistas medíocres e pouco lidas.
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Esse sistema se revela, além do mais, muito dispendioso para a comunidade científica. O contribuinte financia uma pesquisa que o cientista publicará – muitas vezes à sua custa – em uma revista endossada por uma empresa privada, que outros pesquisadores deverão avaliar gratuitamente e que as universidades deverão, em seguida, comprar a preço de ouro. É possível dizer, com efeito, que a literatura científica custa caro. A metade do orçamento de funcionamento das bibliotecas universitárias vai embora nas assinaturas, o que prejudica imediatamente os estabelecimentos menos ricos e tem repercussões sobre astaxas de matrícula dos estudantes.6
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Ascensão da Elsevier
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Uma editora, a Elsevier, cresce em poder e chama a atenção. Sua história começa nos anos 1580, em Louvain, na Bélgica. Um certo Lodewiejk Elzevir (1542-1617), tipógrafo, fundou uma empresa de publicação e difusão de livros, em particular de clássicos latinos. A empresa familiar subsistiu com dificuldade por algumas décadas, depois desapareceu com o último de seus representantes, em 1712. Em 1880, em Amsterdã, nasceu a Elsevier, em homenagem a essa antiga editora. Em pouco mais de um século, ela tomou conta de uma grande parte da publicação científica no mundo. Em 1993, a fusão das empresas Reed International e Elsevier PLC criou a Reed-Elsevier, segundo maior conglomerado de edição mundial, atrás da Pearson.7 Agora proprietária da revista Cell, do Lancete de coleções de livros como Gray’s anatomy, a Elsevier publica 240 mil artigos por ano em cerca de 1.250 revistas. Seus lucros se aproximaram de 1 bilhão de euros em 2011.8 Para algumas bibliotecas, a assinatura anual dos jornais da editora representa cerca de US$ 40 mil. Para os 127 estabelecimentos franceses onde as compras de assinaturas eletrônicas são gerenciadas pela Agência Bibliográfica do Ensino Superior, as publicações Elsevier custaram 13,6 milhões de euros em 2010.
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Até agora, nos Estados Unidos, os Institutos Nacionais de Saúde tinham o costume de exigir dos pesquisadores que colocassem em acesso livre o resultado dos trabalhos financiados pelo contribuinte. Quando, em dezembro de 2011, foi apresentado ao Congresso um projeto de lei proibindo esse procedimento, muitos cientistas se revoltaram. Em 21 de janeiro de 2012, o matemático Timothy Gowers, ganhador da medalha Fields em 1998, anunciou que boicotaria a partir de então a Elsevier. Depois de um artigo no Guardian, em Londres, e depois no New York Times,9 ele foi acompanhado por outros 34 matemáticos. Logo foi lançada uma petição intitulada “The cost of knowledge” (“O custo do conhecimento”), assinada por mais de 10 mil pesquisadores acadêmicos. A Universidade Paris 6, que gasta mais de 1 milhão de euros por ano com essas assinaturas, entrou no boicote.
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As bibliotecas, de mãos atadas, podem apenas apoiar o boicote; por exemplo, o conselho de administração da Universidade Harvard, que conta todo ano com US$ 3,75 milhões para comprar revistas, encorajou seus 2,1 mil professores e pesquisadores a colocar suas pesquisas à disposição on-line.10 “Espero que outras universidades façam a mesma coisa”, declarou Robert Darnton, diretor da biblioteca.11 “Estamos todos confrontados com o mesmo paradoxo. Fazemos as pesquisas, escrevemos os artigos, trabalhamos no referenciamento dos artigos de outros pesquisadores, tudo de graça... Em seguida, compramos o resultado do nosso trabalho por um preço escandaloso.” Já existem algumas soluções, em particular na área da publicação livre e aberta (com os sites PLoS, HAL, arXiv...). A longo prazo, a comunidade dos pesquisadores não terá outra escolha a não ser desenvolver melhor essas soluções a fim de burlar o sistema.
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*Richard Monvoisin - É pesquisador e membro do Coletivo de Pesquisa Transdiciplinar Espiríto Crítico e Ciências (Cortecs), em Grenoble
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Ilustração: Orlando
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Referências
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1 Harold Jefferson Coolidge, Archibald Cary Coolidge: life and letters, 1932.
2 Deve-se o fator de impacto a Eugène Garfield, fundador do Institute for Scientific Information, cujo primeiro Science Index data de 1963.
3 Laurent Ségalat, La science à bout de souffle? [A ciência sem fôlego?], Seuil, Paris, 2009.
4 Brian Martinson, Melissa Anderson e Raymond de Vries, “Scientists behaving badly” [Cientistas se comportando mal], Nature, Londres, n.435, 9 jun. 2005.
5 Murat Çokol, Fatih Ozbay e Raul Rodriguez-Esteban, “Retraction rates are on the rise” [Taxas de retração estão em ascensão], EMBO Reports, 2008.
6 Ler Isabelle Bruno, “Pourquoi les droits d’inscription universitaires s’envolent partout” [Por que as taxas de matrícula universitárias aumentam em todos os lugares], Le Monde Diplomatique, set. 2012.
7 Livres Hebdo, Paris, 22 jun. 2012.
8 Reed-Elsevier, Annual reports and financial statements 2011. Disponível em: <www.elsevier.com/about/annual-reports>.
9 “Scientists sign petition to boycott academic publisher Elsevier” [Cientistas assinam petição para boicotar a editora acadêmica Elsevier], The Guardian, Londres, 2 fev. 2012; “Mathematicians organize boycott of a publisher” [Matemáticos organizam boicote a editora], The New York Times, 13 fev. 2012.
10 Faculty Advisory Council Memorandum on Journal Pricing, “Major periodical subscriptions cannot be sustained” [Principais assinaturas não podem ser sustentadas], 16 abr. 2012. Disponível em: <http://www.harvard.edu/>.
11 Ler Robert Darnton, “La bibliothèque universelle, de Voltaire à Google” [A biblioteca universal, de Voltaire ao Google], Le Monde Diplomatique, mar. 2009.
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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Tortura é aceita por 44% em BH

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Por Lucienen Camera - Jornal O Tempo - 06/06/2012 - A sensação de impunidade no Brasil faz crescer também o clamor da população por punições mais rígidas aos criminosos, afirmam especialistas. Prova disso, é a pesquisa divulgada ontem pelo Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP), que aponta que quase metade dos brasileiros (47,5%) concordam totalmente, em parte ou discordam em parte com a tortura de presos para obtenção de provas. Em Belo Horizonte, o índice segue a tendência nacional, com 44,2% dos entrevistados incluídos nessa categoria em 2010, contra 34% registrados pelo levantamento em 1999.
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A maioria dos belo-horizontinos também se mostrou a favor da pena de morte e da prisão perpétua para estupradores, que atualmente ficam no máximo 12 anos na prisão, conforme o Código Penal. No ranking de punições (veja infográfico), a prisão perpétua aparece como a número um para os autores de estupro, com 37,54% dos votos, seguida da pena de morte, que ficou com 35,88% das opiniões. Juntas, as duas opções somam 73,42% das respostas da capital mineira.
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O resultado segue a tendência de outras dez capitais envolvidas na pesquisa da USP. No Brasil, 73,8% dos entrevistados se declararam a favor da pena de morte e da prisão perpétua para estupradores, com destaque para a pena de morte, que teve a maioria dos votos - 39,47%. Também cresceu no país o índice dos que aceitam "em parte" a tortura, passando de 8,8% em 1999 para 18,25% em 2010.
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Intolerância. Para o psicólogo Renato Alves, pesquisador do NEV, o aumento daqueles que concordam "em parte" sugere um enfraquecimento das antigas convicções. "As pessoas vêm se movimentando para uma mudança, estão menos tolerantes com o crime", explicou. Por outro lado, ele salienta que, embora o estudo indique essa mudança de posicionamento da socieda de, ainda é maior o número de pessoas que discordam da tortura para a obtenção de provas.
Em Belo Horizonte, 55,74% disseram discordar totalmente. O dado indica, em contrapartida, uma queda de no índice de pessoas que se manifestaram contrárias a tortura, já que, em 1999, a discordância era de 66%.
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Caiu também o número de belo-horizontinos que discordam totalmente da pena de morte. Em 1999, 44,44% dos entrevistados acreditavam que nenhum crime justificava o uso da prática, o que baixou para 35,47% em 2010. E além dos estupradores, principais alvos das escolhas por penas mais severas, a lista também inclui políticos corruptos e sequestradores.
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A pesquisa - Dinâmica. Para alcançar o resultado, foram ouvidas 4.025 pessoas acima de 16 anos em 11 capitais brasileiras. A intenção do NEV é que o estudo sirva de base para futuras políticas públicas.
Depoimento
"Como cidadão, espero que a Justiça seja feita" 
Gustavo Neves - pai de Bárbara Neves, 22, vítima de latrocínio
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Mês passado perdi minha filha Bárbara (em 23 de maio, na capital). Perdi da pior maneira possível: assassinada fria e covardemente! Uma menina maravilhosa: linda, cheia de vida, cheia de planos para uma vida que apenas começava. Um orgulho para qualquer pai. Minha filha foi vítima do que podemos chamar de "momento Brasil". Um país onde a corrupção, a falcatrua e a impunidade convivem harmoniosamente. Ministros envolvidos com o crime organizado, políticos que nem merecem comentários. Uma crise de caráter generalizada. Como cidadão, espero que a Justiça seja feita. Como pai, encontrar os assassinos não faz a menor diferença. Do fundo do meu coração, o único sentimento que tenho é de compaixão. Imagino a vida desses criminosos. Imagino o momento do crime. Uma pessoa em sã consciência não atira na cabeça de uma menina indefesa. Perturbação mental? Drogas? Educação? Este não é o caso, não é o que deve ser avaliado. Minha filha foi assassinada por alguém que, de certa forma, é, também, uma vítima. Eu nunca poderia imaginar estar passando por isso. Mas estou. Aconteceu comigo, com minha amada filha.Pode acontecer com você. Precisamos dar um basta.
Fonte: O Tempo (MG)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Educação, escola e paradoxos no campo da violência - Parte III

Lúcio Alves de Barros
Professor da FAE-UEMG, doutor em Ciências Humanas
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Débora Luiza Chagas de Freitas
Graduanda de pedagogia da FAE-UEMG
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Este é o relatório final de pesquisa, apresentado ao Centro de Pesquisa da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), ao Programa Institucional de apoio à pesquisa (PAPq/UEMG) e ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UEMG/Estado).
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A pesquisa analisa as relações sociais produzidas em uma escola estadual de Belo Horizonte. Tais relações tinham como latente a sociabilidade fundamentada nas relações de violência. Partimos da ideia de que a violência é um conceito polissêmico e recebe roupagens de acordo com os interesses dos agentes envolvidos bem como da localidade da instituição escolar e da posição ou papel social que o agente por vezes incorpora.
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Nesta terceira parte, ressaltamos alguns dados da pesquisa, que mostram que estudantes e professores estão encarcerados em relações paradoxais. No caso de alunos e alunas, tais relações, principalmente as consideradas violentas, não são claras e, por vezes, carregam as incongruências, os conflitos e os entendimentos tácitos e manifestos sobre o que os agentes entendem por violência. Distantes do senso comum, os atores não navegam – conforme acreditam alguns – num campo no qual a violência é aberta e perceptível. Sabemos que não se vê o que não se deseja. Por outro lado, tornou-se impossível fechar os olhos aos fatos que, aparentemente, tornaram-se normais e corriqueiros. Nesse sentido, pelo menos na representação coletiva dos estudantes da escola estadual em pesquisa, o mundo paradoxal da educação e da violência revela alunos e alunas à deriva, sem lugar, sem "sonhos" e sentidos. São crianças, adolescentes e jovens marginalizados, esquecidos pelas políticas públicas e distantes de bons projetos pedagógicos.
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REVISTA EDUCAÇÃO PÚBLICA

Edição nº 49 - 20/12/2011
Próxima edição: 03/01/2012

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

PESQUISA: VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS

Educação, escola e paradoxos no campo da violência

Lúcio Alves de Barros - Professor da FAE-UEMG/BH, licenciado e bacharel em Ciências Sociais pela UFJF, mestre em Sociologia, doutor em Ciências Humanas: sociologia e política pela UFMG. Autor do livro, “Fordismo: origens e metamorfoses”. Piracicaba: Ed. UNIMEP, 2004; organizador da obra “Polícia em Movimento”. Belo Horizonte: Ed. ASPRA, 2006, co-autor do livro de poesias, “Das emoções frágeis e efêmeras”. Belo Horizonte: Ed. ASA, 2006 e organizador de “Mulher, política e sociedade”. Brumadinho, MG: Ed. ASA, 2009.
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Débora Luiza Chagas de Freitas - graduanda em pedagogia da FAE-UEMG

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Introdução

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Este é o relatório final da pesquisa, apresentado ao Centro de Pesquisa da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), ao Programa Institucional de Apoio à Pesquisa (PAPq/UEMG) e ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UEMG/Estado).
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A pesquisa analisa as relações sociais produzidas em uma escola estadual de Belo Horizonte. Tais relações tinham como latente a sociabilidade fundamentada nas relações de violência. Partimos da ideia de que a violência é um conceito polissêmico e recebe roupagens de acordo com os interesses dos agentes envolvidos, bem como da localidade da instituição escolar e da posição ou papel social que o agente, por vezes, incorpora.
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Para publicação em Educação Pública, dividimos o relatório em três partes. Nesta primeira, discutimos o polissêmico conceito de violência. Delineamos as violências discutidas no cenário acadêmico e que se manifestam, sem pouca conscientização, entre os professores e alunos. O debate é frutífero, e tanto a temática da educação como a da violência nos fornecem várias formas de leitura e entendimento do real.
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A pesquisa conta hoje com a bolsista Úrsula Mansur e Iara Ferreira
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A seguir:
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Educação, escola e paradoxos no campo da violência – Parte II – Percepção da violência
Educação, escola e paradoxos no campo da violência – Parte III – Das ameaças e armas
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Publicado em 06/12/2011
ISSN: 1984-6290
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Revista Educação Pública. Reflexão e interação de educadores
Edição n° 47 - 06/12/2011