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quarta-feira, 10 de junho de 2015

"Isso é Educação: respeitar o outro", diz Renato Janine Ribeiro



Renato Janine Ribeiro, ministro da Educação, abre a sabatina do Roda Viva desta segunda-feira (8) explicando o slogan “Pátria Educadora”. Ribeiro diz que o governo sabe que há dados preocupantes na área, que há muito a fazer. O ministro diz que é um slogan de trabalho, que sugere uma sociedade mais conectada, que respeite o outro. “Não podemos esquecer que nossa educação tem muitas falhas, mas existem muitas ações efetivas. quando você diz que tudo é muito ruim, você inibe as ações”, afirma.
 
Em relação ao Financiamento Estudantil (Fies), diz que o governo vai reabri-lo para famílias que têm renda de R$ 1.000. “Vamos dar prioridade a três áreas: formação de professores, fortalecer as engenharias e a saúde, porque têm que melhorar. Vamos dar prioridade ao Norte e ao Nordeste e a cursos de nota mais elevada”, adianta.
 
Sobre a formação dos professores, o ministro afirma que, dado o volume de profissionais, “temos que fazer esforço na educação continuada”. Para ele, o principal ponto da continuada, e talvez da inicial, é garantir a presença de gente com experiência. “Pretendemos lançar, ainda neste ano, a ideia de que os diretores com experiência lecionem. Temos que valorizar o professor de várias formas, inclusive no salarial”, diz. Em relação à carreira dos docentes, conta que é um tema a ser debatido: “É melhor um salário inicial baixo, que atrai pouca gente e garante uma aposentadoria melhor? Ou é melhor um salário inicial mais alto, mesmo que o final seja mais baixo?”, pergunta.
 
Gestão é administrar conflito
 
O ministro explica que a profissão de professor deixou de ser atraente. “A questão de ensino exige que seja repensada. Os modelos de ensino tradicionais estão sendo postos em xeque", diz, acrescentando que a valorização do professor é o ponto crucial para o sucesso da educação na Coreia do Sul. Mas ele lembra que o país segue a tradição confuciana, em que o mestre sabe tudo. “Não podemos pensar na forma de lá”, completa. Ribeiro lembra que os salários foram caindo ao longo de décadas. Aos poucos, houve uma queda no status do professor. “Esse salário é baixo, tem que melhorar. Tem que ser compromisso da sociedade brasileira. Não há boa educação sem bons professores, valorizados", afirma. O ministro lembra que um dos problemas da educação brasileira é justamente o gerenciamento. “Gestão é saber administrar conflito, formar equipes”, completa.
 
Questionado sobre o bônus de desempenho, diz que não se pode adotar uma política que seja competição intransigente. "Na Capes era destrutiva. É importante formar times de professores. Se dá bônus, tem que articular. O que fizemos na Capes, então, foi competição mais cooperação. Isso tem que ser pactuado", diz. Em relação à qualidade de ensino nas universidades, diz que os cursos com nota mais alta terão prioridade no Fies. "O repasse ajuda o aluno que não pode pagar. Procura ser uma medida de inclusão social. O objetivo do Fies é o aluno", defende. O ministro se diz a favor das cotas porque acredita que, como negros e índios têm acesso menor ao ensino superior, tem que haver uma política temporária que conduza a isso.
 
Perguntado por que a educação pública deixou de ser de qualidade, conta que houve uma grande expansão numérica na época da ditadura. Com isso, criou-se o exame de aplicação, que era uma espécie de vestibular. “A maior parte sucumbia. Era pra menos gente. E quando começou a ampliar, não houve investimento. A ditadura não deu grande destaque, fortaleceu o CNPq, o Capes", conta.
Precisamos nos desapaixonar
 
Questionado sobre a ética, bandeira que o Partido dos Trabalhadores (PT) sempre defendeu, diz que, no Brasil, um grande problema foi o aumento da pobreza. “Tínhamos algo que passava dos 10%. É escandaloso, um país que não é pobre ser tão injusto como o Brasil foi”, afirma. Diz que, com o Bolsa Família, foi possível reduzir 6% de miséria. Ribeiro lembra que países como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha fizeram uma inclusão social grande no passado. “Foi no governo Lula, que a inclusão adquiriu escala, tanto que hoje nenhum candidato cogita não fazer programas sociais”, argumenta.
 
Em relação ao atual nível de diálogo entre PT e PSDB, o ministro diz que falta melhorar a qualidade do debate. “Democracia é igual a educação. É um regime em que você pode ter pelo menos duas opções diferentes de governo. Se possível, ambas com gente honesta, competente", diz. Infelizmente, ressalta, os ânimos ficaram muito exaltados", no Brasil, nos últimos anos. "Precisamos diminuir o fogo dessa brasa. Isso é educação: respeitar o outro. O que estimula essa radicalização é a falta de formação. O fato de você ter pessoas de nível universitário, que são mal educadas em todos os sentidos da palavra porque não sabem respeitar a diferença”, completa, acrescentando que "precisamos nos desapaixonar um pouco, e penso que a área da educação pode ser uma área pra isso", finaliza.
 
A bancada de entrevistadores desta edição do Roda Viva é formada por Guiomar Namo de Mello, educadora e membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo; Maria Helena Castro, socióloga e diretora-executiva da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade); João Gabriel de Lima, diretor de redação da Revista Época; Fábio Takahashi, repórter do jornal Folha de S. Paulo; Paulo Saldaña, repórter do jornal O Estado de S. Paulo. O programa conta com a participação fixa do cartunista Paulo Caruso.
 
Fonte: TV Cultura e Educação Para Todos

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ensino médio terá sexta aula, voltada para o mercado

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Por Joana Suarez
A partir de 2013, 133 escolas estaduais mineiras vão ter uma nova grade curricular no ensino médio. Alunos do 1º, 2º e 3º anos terão uma aula a mais por dia, em um sexto horário, voltada para o mercado de trabalho. Estudantes, professores e especialistas se dividem quanto às implicações da mudança, que foi testada em 11 escolas estaduais da região Norte de Belo Horizonte.
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O projeto Reinventando o Ensino Médio, criado pela Secretaria de Estado de Educação (SEE), inclui disciplinas de turismo, comunicação aplicada e tecnologia da informação - o aluno pode escolher uma das áreas. Neste ano, o projeto piloto foi implementado apenas para os alunos do 1º ano. Em 2013, ele será ampliado para outros 122 colégios, se estendendo ao 2º ano. Até 2014, a expectativa é que os estudantes do 3º ano também tenham as novas disciplinas e que as mudanças atinjam todas as 3.700 escolas da rede estadual mineira.
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A socióloga da Universidade Federal de Minas (UFMG) Maria das Mercês Mesquita acredita que a proposta tira a liberdade da escola e não resolve problemas mais urgentes do ensino. "Cada escola deve definir seus projetos, adequando-se à realidade de suas comunidades. Será que sugerir mais conteúdos resolve o problema do ensino médio? Será que o que as escolas do Vale do Mucuri precisam é de aula de turismo?". Já a vice-diretora do Centro Pedagógico da UFMG, Selma Moura, acredita que toda mudança no ensino tem que ser experimentada. "Pensar no mercado de trabalho é uma saída para atrair os jovens, que acabam ficando mais tempo em lan houses que na escola".
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A estudante Miriam Ferreira Vital Ramos, 16, reclama de que é justamente neste período - entre o 1º e 3º ano - que os alunos se preparam para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). "Eu preferia me dedicar às matérias que vão cair no Enem. O sexto horário poderia ser uma aula de reforço, em vez de curso de comunicação", defende a aluna, da Escola Estadual Paschoal Comanducci, que faz parte do projeto piloto. Já Maurício Thadeu Figueiredo, 16, que está tendo aulas de turismo, vê a mudança como uma oportunidade. "É bom aprender sobre como receber as pessoas. Estamos aprendendo uma profissão, quem sabe, para o futuro".
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O objetivo do projeto, segundo o Estado, é tornar o ensino mais atrativo para reduzir a evasão escolar. Na Escola Estadual Paschoal Dominicci, no bairro Jaqueline, na região Norte, segundo o diretor Hermelindo Santana, nenhum aluno do 1º desistiu do colégio neste ano. Em 2011, 28 estudantes abandonaram o ano letivo. "Com o projeto, notamos também um aumento da demanda por vagas. O projeto se tornou um atrativo porque pensa no mercado sem tirar o foco do Enem". (Com Fernanda Viegas)
Professores das escolas vão ministrar disciplinas
A Secretaria de Estado de Educação (SEE) informou que os responsáveis por ministrar as novas aulas serão os próprios professores das escolas. O docente de história, por exemplo, dará aula de turismo; o de física vai ministrar o curso de tecnologia da informação. Para isso, eles vão receber treinamento da SEE em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O problema é que os profissionais que já foram capacitados reclamam da superficialidade do curso, e os especialistas afirmam que o objetivo do projeto só será alcançado se as aulas forem de qualidade.
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Segundo a professora de biologia Márcia Lima, 33, que está dando aula de turismo, a preparação para o projeto foi de apenas uma semana. "Não recebemos uma formação específica. O conteúdo para trabalhar, a gente é que construiu e vai adaptando junto com os alunos". Para a pedagoga e mestre em educação Rosângela Teles, o projeto só é válido se for ministrado por profissionais capacitados. "Toda área de conhecimento tem seu especialista, nem todo professor de história sabe de turismo. Para fazer algo malfeito, é melhor não fazer".
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Coordenadora do projeto na escola Paschoal Comaducci, Cristina Peixoto admite que a capacitação foi uma dificuldade. "Seria melhor serem profissionais com experiência nas áreas específicas. Talvez formandos", disse. A coordenadora do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE), Beatriz Cerqueira, afirma que os projetos implantados não são discutidos com a categoria. "Eles só servem para fazer propaganda para o governo, nunca vão para frente", afirmou. (JS/FV) - Fonte: Jornal O Tempo (BH).

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Professora cria remédio contra bullying em escola da periferia

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Foto de: Marcelo Camargo/ABr
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SÃO PAULO – Quando adolescente, a professora Deyse da Silva Sobrino media 1,72 metro e pesava 45 quilos. A garota alta e magra sofria quando era chamada pelos colegas de “pau de catar balão” e “vareta de bilhar”. Na época, o termo bullying ainda não existia, mas a prática de criar apelidos maldosos e agredir de forma física ou verbal já fazia parte do cotidiano das escolas.
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Atualmente, Deyse tem 60 anos e três formações: biologia, pedagogia e direito. Ela dá aulas há 42 anos e tenta passar aos seus alunos ensinamentos que vão além da informática que ministra na Escola Municipal de Ensino Fundamental José Bonifácio, localizada na zona leste, periferia da capital paulista. “Isso [o bullying] nunca me afetou. Eu estava bem comigo mesma. É isso que tento passar ao aluno, que se sinta bem com ele mesmo”.
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Andresson Silva, 13 anos, estudante do 8º ano, seguiu o conselho da professora Deyse. O menino tem um grau de deficiência visual e, por usar óculos, recebia apelidos maldosos dos outros meninos. “Era muito ruim. Todo dia chegavam com uma brincadeira de maldade. Eles me pegavam, jogavam no chão, empurravam, me batiam, xingavam. Pegavam meus óculos e jogavam no chão. Eu não suportava a pressão”. Ele conta que tem poucos amigos e sofreu bullying desde os 5 anos de idade. Por medo, Andresson evitava o assunto com os pais, mas encontrou apoio na professora que já viveu o mesmo problema.
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“O aluno vêm me contar seus segredos e não conto a ninguém. Se ele confiou em mim, por que vou contar para os outros? Esse relacionamento de professor e aluno é a base. Se não tiver isso, não há diálogo, não existe amizade”, disse a professora.
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Mas a grande mudança para Andresson e os outros alunos, que têm entre 5 e 17 anos, veio em 2010, quando Deyse decidiu tomar uma atitude contra o bullying em toda a escola. Ela distribuiu um questionário anônimo para uma parte dos estudantes (309 alunos) contendo perguntas como: você já sofreu bullying? Já praticou? Já viu alguém praticando?
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O resultado surpreendeu a professora, que leciona na José Bonifácio há 15 anos: 70% dos alunos já presenciaram a prática, 44,5% já foram vítimas, 38,5% admitiram ter praticado bullying alguma vez na vida e 9,7% praticam constantemente. Os ambientes escolares onde o bullying esteve mais presente foram o pátio e a sala de aula.  Para reverter essa situação, a professora criou um medicamento fictício com a ajuda dos alunos, chamado Sitocol. Sob o slogan “Tomou o Sitocol hoje?”, o remédio tem uma bula, escrita de forma coletiva entre os alunos. “Ele age no organismo produzindo consciência, modificando a maneira de agir das pessoas, o sentimento. Se usado em excesso, o Sitocol vai fazer rir muito e ter muita felicidade”, destacou a professora.
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Com a campanha, a redução da prática do bullying na escola foi considerável. Em média, 700 alunos têm recebido, por ano, as orientações da professora Deyse, distribuídas por 21 turmas. Ela planeja reaplicar o questionário entre os alunos no próximo ano, mas relata que a melhora na atitude deles pode ser vista pelos corredores da instituição. “Antes, quando a gente subia a escadaria eu via os alunos grandes pegando os pequenos pelos braços e arrastando pelo corredor, com ar de poderosos. O outro esperneava de vergonha. E eu mandava soltar. Mas isso era frequente”. A professora presenciava também outras situações humilhantes vividas por vítimas de bullying. Certa vez, um aluno jogou o conteúdo da mochila de um colega no pátio da escola. Os alunos que passavam naquele momento ajudavam a chutar os pertences, que se espalharam pelo chão. Deyse ajudou a vítima a recolher todo o material. “Eu não me conformava com essas coisas. Resolvi fazer esse trabalho tendo em vista essas ocorrências, que me deixavam desesperada”.
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A aluna Pamela da Silva Bonfim, 11 anos, do 6º ano, que antes ouvia xingamentos e até apanhava, conta que agora vive de outra forma. “Antes, eu ia para a minha cama, começava a chorar. Agora esses apelidos não influenciam em nada. Eles me chamavam de baixinha e tenho esse apelido até hoje, mas não me importo”. Ao ser apelidada de sem dente, a estudante Ana Paula Prazeres de Ornelas, 11 anos, do 6º ano, mostrou confiança ao enfrentar situação parecida. “Desde o ano passado, começaram a me chamar de sem dente. Eu falo para as pessoas que me xingam que isso não me incomoda, que não vou ficar sofrendo por causa delas. Eles dizem que fazem isso por diversão, mas não acho que seja divertido fazer as outras pessoas sofrerem”.
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Fonte: Fernanda Cruz - Agência Brasil / Hoje em Dia (MG)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Eleições 2012: a Educação no centro da disputa

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Desde que o Brasil voltou a eleger seus governantes pelo voto direto, a educação sempre figurou entre as prioridades de todos os candidatos a qualquer cargo executivo. Passados a campanha e o dia da votação, porém, a extensa lista de soluções genéricas acaba, invariavelmente, engavetada. E as dificuldades em sala de aula, continuam as mesmas. As eleições deste ano na cidade de São Paulo têm uma chance rara de mudar essa história. Pela primeira vez, o tema está realmente no centro do debate político. Entre os candidatos à prefeitura paulistana estão três homens da educação: o ex-ministro Fernando Haddad (PT), o ex-secretário estadual Gabriel Chalita (PMDB) e o ex-secretário municipal Alexandre Schneider (PSD), que concorre como candidato a vice de José Serra (PSDB). O site de VEJA analisou o que cada um deles fez – e deixou de fazer – quando esteve à frente da gestão educacional em cada uma das três esferas de poder. Confira em detalhes na arte ao fim do texto.
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Acesse aqui para ver os infográficos
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Com tamanha concentração de especialistas em educação no mesmo pleito, não é de admirar que o primeiro embate direto entre os candidatos desta eleição tenha se dado justamente em torno de um dos mais graves problemas da capital: a falta de creches. Haddad e Schneider travam uma guerra de versões a respeito de um pedido feito pelo então secretário municipal ao ministro para inclusão da cidade em um programa federal de construção de creches. O petista diz não ter recebido a solicitação, mas Schneider assegura tê-la enviado. De certeza, há em São Paulo uma fila de 123.000 crianças esperando por uma vaga. A gestão de Schneider, sem apoio do governo federal, avançou, mas não cumpriu a promessa de zerar o déficit de vagas. Além de afetar a rotina das mães que precisam trabalhar, a dificuldade de acesso ao Ensino Infantil tira das crianças um direito fundamental, garantido por lei. Até os 6 anos de idade, a criança desenvolve habilidades como a coordenação motora, que a ajudará mais adiante a desenhar as letras na etapa de alfabetização. “A educação é cumulativa”, explica Priscila Cruz, diretora-executiva do movimento Todos pela Educação. “Os governos não percebem a importância estratégica do Ensino Infantil para a educação. O resultado é que vamos perdendo as crianças ao longo da trajetória escolar. Sem base, elas ficam cada vez mais excluídas do aprendizado.”
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Matheus Muniz da Cruz, de 5 anos, é o retrato desta realidade. Ele está na fila da rede municipal de ensino desde 1 ano de idade. Desesperada, a mãe dele, a empregada doméstica Maria da Conceição Muniz, de 26 anos, recorreu até ao Conselho Tutelar, mas só conseguiu vaga em uma unidade muito distante de Cidade Ademar, periferia da zona sul da cidade, onde mora. “Não tenho quem fique com ele em casa. Sou obrigada a pagar escola particular. São 140 reais por mês e isso pesa no orçamento”, diz Maria da Conceição.
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Com acurado senso de oportunidade, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e o governador Geraldo Alckmin (PSDB), assinaram na última quarta-feira um convênio para ampliação do programa Creche Escola na capital paulista. O ato foi anunciado no último dia permitido pela lei eleitoral para transferência de recursos dos estados aos municípios para execução de obras. O governo do estado destinou 40 milhões de reais para a construção de vinte centros de educação infantil, criando 4.000 novas vagas. Em novembro de 2011 um convênio havia destinado o mesmo valor para a implantação de 22 centros, que beneficiaram outras 4.000 crianças. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, dezesseis dessas unidades estão com obras em andamento.
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Uma das promessas da campanha de Gilberto Kassab em 2008, transformada depois em meta de governo, era zerar o déficit de vagas em creches. A cinco meses do fim de seu mandato, a proposta está longe de ser cumprida. Em entrevista ao site de VEJA, a secretária municipal de Educação, Célia Regina Falótico diz que não tem como garantir a solução do problema até o fim do ano. Kassab também já não parece contar em ver a meta cumprida em seu mandato. “Temos a humildade de entender que falta muito para ser feito. Espero que as nossas ações nesses oito anos sirvam de incentivo para que as administrações futuras possam manter o ritmo”, afirmou o prefeito.
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Mas a falta de creches não será o único desafio na área da educação a ser enfrentado pelo próximo prefeito. O site de VEJA ouviu especialistas que apontaram os maiores gargalos da rede municipal de ensino.
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Papel do prefeito - A Constituição determina que os municípios atuem no Ensino Fundamental e na Educação Infantil. Os estados cuidam do Ensino Fundamental e Médio e o governo federal, do Ensino Superior. O que falta no Brasil é uma ação integrada entre os poderes – como prova o bate-boca entre o ex-ministro Haddad e o ex-secretário Alexandre Schneider. “Há uma dificuldade de articulação entre estado e município para atendimento aos estudantes”, afirma o pedagogo Ocimar Munhoz Alavarse, doutor em Educação e professor da Universidade de São Paulo (USP).
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Em São Paulo, o estado transferiu para os municípios 1,5 milhão de alunos da rede estadual durante a gestão de Gabriel Chalita. Hoje, a prefeitura da capital é responsável por 44% dos alunos do Ensino Fundamental I (até a 5ª série) e 37% dos estudantes do Fundamental II (até 9ª série). “A criança não é estadual ou municipal. Ela é brasileira e paulistana”, lembra Priscila Cruz, do Todos pela Educação. A rede municipal de ensino de São Paulo é o maior sistema do Brasil, com 931.463 alunos, 2.015 escolas de Educação Infantil e 545 escolas de Ensino Fundamental.
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Victoria Carvalho Vitor, de 14 anos, é uma dessas paulistanas. Aluna da 7ª série, ela estuda no Centro de Educação Unificado (CEU) do Parque Anhanguera, no extremo norte da cidade de São Paulo, a mais de 30 quilômetros do centro da cidade. O CEU foi um modelo criado pela ex-prefeita Marta Suplicy (PT) e ampliado por Serra e Kassab. A ideia é oferecer dentro da escola opções de esporte, lazer e cultura para as crianças. O projeto, no entanto, esbarra em aspectos práticos, como o horário das aulas do contra turno e a falta de transporte escolar.
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“Tem aula de violão, piscina, ballet e teatro, mas eu não aproveito nada disso porque a minha casa é longe e o tio da perua escolar não pode me levar e buscar fora do horário normal das aulas. Minha mãe teria de pagar a mais para ele”, conta Victoria. Ela e a irmã, de 9 anos, estão cadastradas na fila de espera do transporte escolar gratuito fornecido pela prefeitura, mas até hoje não foram contempladas. “Minha mãe tem medo de a gente ficar andando por essas ruas sozinhas.”
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Célia Regina Falótico: 'A rede pública tem limitações'
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Em entrevista ao site de VEJA, secretária municipal de Educação de São Paulo admite que número de crianças sem creche é alto, e não garante solução. Em abril passado, seis anos após assumir o comando da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, Alexandre Schneider deixou a pasta para, meses depois, tornar-se candidato a vice-prefeito na chapa do tucano José Serra. Até então secretária-adjunta, a professora Célia Regina Falótico assumiu a pasta com o desafio de acabar com a falta de vagas em creches na cidade de São Paulo – uma das promessas da campanha do prefeito Gilberto Kassab e um dos gargalos da educação na maior cidade do país. Em entrevista ao site de VEJA, ela admite, porém, que a cinco meses do fim da atual gestão, a missão de tirar 123.000 crianças da fila de espera por uma vaga ficará para o próximo governo. “Precisamos zerar a demanda em relação às creches e universalizar o atendimento. Acredito que a próxima gestão terá todas as condições para dar continuidade a esse processo”. Hoje, 1.174 creches atendem 206.400 crianças de 0 a 3 anos em toda a capital paulista. Em 2005, eram 59.000 crianças matriculadas em unidades. Apesar da expansão da rede municipal, ainda faltam aproximadamente 713 unidades educacionais para zerar o déficit. Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida pela secretária ao site de VEJA:
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Quais os principais desafios que o próximo prefeito terá em relação à educação em São Paulo?
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Ainda temos muitos desafios pela frente. A questão das vagas na creche é uma das principais. Precisamos zerar a demanda e universalizar o atendimento. Acredito que a próxima gestão terá todas as condições para dar continuidade a esse processo e, quem sabe, chegar a um atendimento universalizado. Esse é um grande desafio, mas não é o único. Temos também de melhorar a formação e requalificação de professores, que é uma questão extremamente importante porque as mudanças que ocorrem em todos os segmentos da sociedade são muito rápidas e nós precisamos correr atrás disso. A formação dos professores sempre estará na nossa pauta de prioridades.
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Como zerar o número de crianças que ainda estão fora das creches?
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Hoje temos cerca de 123.000 crianças com até 3 anos que buscam vagas em creches na cidade, segundo nosso último levantamento, de 31 de março. Estamos construindo novos prédios, alugando outros - onde eles existem -, e formalizando convênios com instituições que possuem prédios próprios ou que se dispõe a alugar locais, desde que adequados às nossas necessidades. Estamos trabalhando de todas as maneiras para zerar ou pelo menos reduzir este número, que é muito alto.
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Como está a questão do turno da fome na rede municipal?
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Isso está diretamente relacionado à conciliação da jornada de trabalho dos professores, especialmente os de educação infantil, com a jornada das escolas. Há um tempo, as EMEIS [Escolas Municipais de Educação Infantil] funcionavam em três turnos diários de quatro horas, com o turno da fome. Isso foi erradicado. Temos hoje todas as escolas de educação infantil funcionando em turnos de seis horas diárias. Precisamos adequar a jornada dos professores para otimizar o trabalho, porque hoje precisamos de três professores para cobrir uma jornada de doze horas para duas turmas. O mais adequado é estender a jornada do docente e fazer com que um professor só cubra um turno inteiro.
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Muitas mães reclamam do turno de seis horas, porque elas têm uma jornada maior de trabalho, o que as impede de buscar ou levar os filhos para a escola. Temos um turno de dez horas para crianças de 0 a 3 anos e 11 meses. Assim, a mãe tem todo o conforto possível. Para a educação infantil, que são as crianças de 4 e 5 anos, a jornada que era de quatro horas passou a ser de seis. Neste momento, para garantir a universalização do atendimento que nós nos propusemos a fazer e efetivamente conseguiremos até o final de 2012, não há como estender a jornada além de seis horas. E além disso, uma criança dessa idade, com seis horas de escola, está bem atendida. A família tem que buscar algumas alternativas, porque quando a criança seguir para o ensino fundamental, a jornada será de cinco horas. Na cidade de São Paulo, a jornada de todas as modalidades de ensino já foi estendida. O nosso objetivo é atender cada vez melhor as famílias, mas temos mais de um milhão de alunos e a rede física tem limitações. Para chegar ao ensino integral, ainda serão necessários alguns passos.
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As escolas têm estrutura para o turno integral?
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No ensino fundamental, em todas as escolas em que existe espaço disponível, oferecemos um programa no contraturno para crianças em situação de vulnerabilidade ou que precisam de recuperação. Eles têm a oportunidade de ficar até 7 horas na escola, duas além da jornada regular. Mas muitas crianças não conseguem participar dessas atividades por morarem longe das escolas. Nas nossas escolas, oferecemos lanches e almoço, portanto se a criança estiver matriculada em uma programação cujos horários sejam compatíveis, ela pode permanecer na escola, não há necessidade de voltar para casa. Ela vai ter gente disponível para oferecer as aulas de ballet, judô, natação, várias atividades que efetivamente existem nos CEUS, além do ensino regular. Às vezes o que acontece, no entanto, é que os horários não são exatamente encaixados. Nesses casos, o que se orienta é que se as atividades extracurriculares começam às 16h e a criança só teve aula até às 13h, ela pode ir para casa para descansar, trocar de roupa. Se ela mora muito longe ou se a família não pode trazer, muitas vezes a criança acaba não participando das atividades. Mas não é habitual. O normal é que a escola consiga encaixar os horários para atender o maior número de crianças nesse contraturno. Isso tem acontecido muito.
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Fonte: Veja.com