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sexta-feira, 28 de novembro de 2014
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Indicação de leitura - Polícia, Política e Sociedade

O livro "Polícia, Política e Sociedade". São Paulo: Ed. Delicatta, 2014, de Lúcio Alves de Barros, Vanderlan Hudson Rolim e Antônio Hot Pereira de Faria é a reunião de pesquisas efetuadas no sentido de compreender “o que a polícia faz”. Trata-se de uma obra que aponta para os problemas, obstáculos, caminhos, avanços e retrocessos na política de segurança pública que se abriu a partir da década de 1990. É uma obra para aqueles que se interessam pelo assunto ou que desejam entender o papel da polícia em sociedades democráticas.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Os deserdados da terra
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Julita Lemgruber*
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A pesquisa recém-divulgada da Fundação Oswaldo Cruz sobre o perfil e o número dos usuários de crack no país é um importante alerta e chega em boa hora: o Senado está prestes a votar um projeto de lei que coloca o Brasil na contramão da história do ponto de vista da política sobre drogas, sacramentando a internação compulsória do dependente químico e aumentando a pena mínima para o tráfico, que passa a ser mais alta do que aquela para homicídio.
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A pesquisa é um alerta, em primeiro lugar, porque revela números com precisão jamais vista. A partir de um sofisticado método (NSUM) que estimou o número de usuários, estejam eles onde estiverem, a partir de visitas domiciliares com 25.000 entrevistados, chegou-se à cifra de 370.000 usuários de crack e outras formas similares de cocaína fumada no país (www.fiocruz.br). Este número equivale a 0,8% da população das capitais brasileiras, ou seja, menos da metade do indicado por outros levantamentos exclusivamente domiciliares, com utilização de amostras muito reduzidas. Ademais, os que defendem os resultados de pesquisas anteriores ao rigoroso estudo da Fiocruz seguem afirmando que o Brasil vive uma epidemia de crack, quando não temos séries históricas confiáveis, utilizando metodologia efetiva para avaliação de populações não domiciliadas, como faz o NSUM. A situação detectada, embora grave, está muito distante do quadro de caos que se tentava difundir e que serve de justificativa para estratégias equivocadas e ultrapassadas na área das políticas sobre drogas.
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Além da pesquisa domiciliar, a equipe da Fiocruz realizou também, em todas as regiões do país, levantamento dos locais utilizados por usuários de drogas como o crack e similares, superando em muito análises anteriores que se limitavam a estudos com algumas dezenas de pessoas, sem representatividade estatística. Justamente a partir desse levantamento é que se tem a dimensão da tragédia brasileira: longe de termos uma epidemia de crack, temos, como já se disse, uma epidemia de abandono. 40% dos usuários de crack estão em situação de rua, vivendo um quadro de extrema privação social. Uma população sem alternativas ou perspectivas, para quem a droga é a única fonte real de prazer, como lembra Carl Hart, professor da Universidade de Columbia. Em resumo, estamos diante de um relevante problema de saúde pública entre os “deserdados da terra” (como definiu Francisco Inácio Bastos, coordenador do projeto e pesquisador sênior da Fiocruz) e não entre pessoas encontráveis em seus domicílios, por meio de métodos tradicionais.
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A pesquisa é, também, um alerta para aqueles que acreditam em internação compulsória e outros métodos medievais para tratamento dos usuários problemáticos de drogas. Na pesquisa da Fiocruz, 80% dos usuários, revelaram desejar tratamento, o que não quer dizer que as pessoas desejem ser privadas de sua liberdade e internadas em comunidades terapêuticas, em sua maior parte mantidas por grupos religiosos que fazem da adesão aos rituais e à prática da “fé” a estratégia de uma suposta “cura”. Precisamos investir recursos públicos, sobretudo, no atendimento e tratamento em meio livre.
Nunca é demais repetir: a grande maioria de usuários de drogas lícitas e ilícitas não desenvolve dependência e jamais vai precisar de tratamento porque faz uso recreacional. Apenas 9% dos que usam maconha, 17% dos que usam cocaína, e 15% dos que usam álcool se tornam dependentes. Aliás, é bom lembrar que nos Estados Unidos, além dos 22 estados que já legalizaram o uso medicinal da maconha, há outros dois que legalizaram o uso recreacional dessa substância: Colorado e Washington. Quando o país que levou o mundo a uma fatídica e genocida guerra às drogas começa a mudar de rumo, vale ficar atento.
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*socióloga e coordenadora do Cesec/Ucam
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Fonte: Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/os-deserdados-da-terra-10164143#ixzz2g2Z4GsCz - © 1996 - 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Cultura Segregacionista
Por: Frei Betto*
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A segregação é uma cultura e impregna o instinto. A reação ao diferente é impulsiva, irracional. Como a do ianque que despreza muçulmano por identificar nele um terrorista em potencial; do judeu sionista em relação a árabes; do branco racista frente ao negro; do cristão homofóbico diante de um homossexual.
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Essa cultura nefasta impregna também governos e instituições. Chega a ser atávica, inconsciente. A família diz não ser racista, até o dia em que a filha, branca, loura, de olhos claros, apresenta o namorado negro...
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Caso recente foi a obstrução do voo de Evo Morales, de Moscou a La Paz, em julho deste ano. Supondo que viajava a bordo o jovem Edward Snowden, que revelou como os serviços secretos estadunidenses espionam o mundo, os EUA convenceram França, Itália, Portugal e Espanha a impedirem escala técnica em seus territórios, obrigando a aeronave a pousar em Viena, onde foi revistada.
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A 18 de agosto, David Miranda, companheiro do jornalista Glenn Greenwald, que mora no Rio e divulgou as denúncias de Snowden, ficou 9 horas retido no aeroporto de Londres, onde faria uma escala de duas horas ao viajar de Berlim ao Rio. Confiscaram seus equipamentos eletrônicos, incluindo celular, computador, câmera, cartões de memória, DVDs e jogos.
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O objetivo da polícia britânica, monitorada pelos EUA, era obrigar Miranda a revelar senhas e códigos do material que trazia de Berlim, onde havia se encontrado com a documentarista Laura Poitras, para dar prosseguimento ao documentário que Glenn Greenwald está fazendo sobre as informações da NSA, reveladas por Snowden sobre como os EUA espionam o planeta.
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Eis a lógica do poder: pune-se quem denuncia o crime e não quem o comete.
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O pior é como a grande mídia dá pouca importância a tais atos segregacionistas. Aconselhados por Paulo Freire, façamos o exercício contrário e coloquemos o opressor no lugar do oprimido. Como reagiria a mídia se o avião de Obama fosse interceptado por caças de um país africano? Qual seria o impacto se a filha de George W. Bush fosse detida, ao desembarcar no Brasil, por ter um pai que defende a tortura de supostos terroristas, crime considerado inafiançável por nossas leis?
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Nossa cultura segregacionista reduz a pessoa à sua função, origem, cor, condição social. Quem de nós indaga o nome do garçom que lhe serve?
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Em julho, a atriz estadunidense Oprah Winfrey entrou em uma loja de Zurique, na Suíça, e pediu para ver uma bolsa que custava o equivalente a R$ 90 mil. A lojista se recusou, supondo que, por ser negra, a consumidora não tinha como pagar aquele preço.
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Um amigo que pesquisa o tema fez, há pouco, um teste em um restaurante de luxo de São Paulo. Vestiu duas mulheres e um homem, todos brancos, com jeans esfarrapados, como dita a moda, e enviou-os ao restaurante. Foram acolhidos com derramadas cortesias.
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Uma semana depois, um trio de negros chegou ao mesmo restaurante vestindo a mesmas roupas do trio de brancos. O porteiro encarou-os como se fossem mendigos, chamou o maitre, que chamou o gerente, que chamou o dono. O ingresso foi permitido, mas o clima segregacionista perdurou no ambiente.
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* É escritor e teólogo
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quarta-feira, 5 de junho de 2013
A indústria do medo
José Tadeu Arantes (Kabir)*
O medo paralisa a vida de milhões de pessoas e movimenta os interesses de minorias poderosas. Após a ação terrorista de 11 de setembro de 2001, o grupo de George W. Bush beneficiou-se com a reeleição e os polpudos negócios proporcionados pela Guerra do Iraque graças a uma habilidosa orquestração do medo. Com o decisivo apoio das grandes corporações da mídia e do entretenimento, não foi difícil amestrar vontades previamente amaciadas pelo fast-food e a televisão. Bastou injetar-lhes doses regulares de medo, facilitadas pelos arroubos retóricos dos chefes terroristas. Em 2013, a orquestração midiática da até agora mal explicada ação terrorista na Maratona de Boston ameaçou gerar um novo surto de histeria coletiva, que, felizmente, não prosperou.
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Porém novos pretextos com certeza serão fabricados. Pois, assim como é possível transformar cachorros dóceis em cães ferozes, a indústria do medo esmera-se em fabricar uma “opinião publica” raivosa, distribuindo rações diárias e reforços semanais de notícias alarmantes, açulando preconceitos atávicos e transmutando frustração em revanchismo.
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A fórmula é surpreendentemente simples: invente um inimigo e bata reiteradas vezes na mesma tecla. Com os adequados meios de amplificação e propagação, em pouco tempo, muitos estarão convencidos de que todos os gatos são pardos. A receita foi testada pela Inquisição, por Hitler e pelo obscuro senador de Wisconsin Joseph McCarthy. Funciona.
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No âmbito doméstico, o medo faz de todo pobre um inimigo potencial e confina os ricos (ou os que gostariam de sê-lo) em um mundo exclusivo de condomínios fortificados, carros blindados, câmeras de televisão, rastreamentos por GPS e escoltas particulares. O “outro” (que se diferencia de “nós” por motivos étnicos, comportamentais ou ideológicos) é o nosso “terrorista” e qualquer pivete parado no semáforo pode ser uma ponta do “crime organizado”. Seria interesse identificar quem se beneficia, direta ou indiretamente, com a paranoia e contabilizar os lucros da proveitosa indústria do medo.
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Uma das melhores formas de demonizar alguém é privá-lo de um rosto. Os bons filmes de terror fazem isso com perfeição. Sentimos medo daquilo que não vemos – ou daquilo que apenas entrevemos, na fugacidade do instante e à meia-luz. Iluminar essa figura na penumbra e fixar essa imagem fugidia é o primeiro passo para desmontar seu hipnótico poder de sugestão.
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Seja qual for sua motivação imediata, o medo é uma enfermidade sistêmica enraizada em estratos profundos da psique. A indústria do medo explora essa doença com a mesma impiedade e avidez com que o narcotráfico explora a dependência do usuário à droga. É esse tolhimento da liberdade que precisamos superar se quisermos reconquistar nosso direito de viver a plenitude do potencial humano.
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Há anos, depois de me irritar diariamente com a “objetividade” do noticiário e as “opiniões” dos colunistas de um jornal de grande circulação, resolvi cancelar a assinatura, dizendo para mim mesmo: “não com o meu dinheiro!”. Pelo mesmo motivo, e como medida profilática, evito fazer contato visual com as manchetes de certas revistas semanais de “informação” e mantenho meu aparelho de televisão quase o tempo todo desligado. Seu silêncio é uma bênção.
Há anos, depois de me irritar diariamente com a “objetividade” do noticiário e as “opiniões” dos colunistas de um jornal de grande circulação, resolvi cancelar a assinatura, dizendo para mim mesmo: “não com o meu dinheiro!”. Pelo mesmo motivo, e como medida profilática, evito fazer contato visual com as manchetes de certas revistas semanais de “informação” e mantenho meu aparelho de televisão quase o tempo todo desligado. Seu silêncio é uma bênção.
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Estamos no mundo, mas não precisamos participar de sua loucura. Podemos desarmar nossos espíritos e instalar à nossa volta um cordão sanitário de confiança, cordialidade e gentileza.
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Shanti. Shalom. Salam. Eirini. Pax.
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Nota
Algumas frases deste texto foram veiculadas por mim, tempos atrás, em um editorial que escrevi para Le Monde Diplomatique Brasil. Infelizmente, essas frases são ainda mais atuais agora do que eram naquela época. Mas vamos em frente!
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Não basta ter razão
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Por Ferreira Gullar*
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Entendo que alguém, que durante toda a vida tenha tido o marxismo como doutrina e o comunismo como solução dos problemas sociais, se negue, a esta altura da vida, a abrir mão de suas convicções. Entendo, mas não aprovo. Tampouco lhe reconheço o direito de acusar quem o faça de "vendido ao capitalismo." Aí já é dupla hipocrisia.
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Tornei-me marxista por acaso, ao ler o livro de um padre católico sobre a teoria de Marx. É verdade que o Brasil daquela época estava envolvido na luta pela reforma agrária e pelo repúdio ao imperialismo norte-americano, que se assustara com a Revolução Cubana.
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Confesso que meu entusiasmo por um Brasil concretamente mais democrático não me permitiu examinar, ponto por ponto, a doutrina marxista, para nela descobrir equívocos e propósitos inviáveis.
Não ignorava, claro, as acusações feitas ao regime soviético, mas atribuía aqueles erros à fase stalinista que, após a denúncia feita por Khruschov, havia sido superada. A verdade é que essas questões - sobretudo depois que os militares se instalaram no poder - não estavam em discussão: o fundamental era derrotar a ditadura e avançar na direção do regime socialista.
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Com o AI-5, em dezembro de 1968, a repressão aos comunistas e opositores do regime militar intensificou-se, multiplicando-se os casos de tortura e assassinatos. Tive que deixar o país e ir para a URSS. Convivendo ali apenas com militantes brasileiros e de outros países, pouco pude conhecer da vida dos cidadãos soviéticos, a não ser daqueles que pertenciam à máquina oficial. De Moscou fui para Santiago do Chile, aonde cheguei poucos meses antes da queda de Allende.
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Mergulhado no conflito ideológico que opunha as duas potências antagônicas - URSS e EUA -, não me foi possível ver com maior clareza o que de fato acontecia nem muito menos os erros cometidos também por nós, adversários do imperialismo norte-americano. Isso se tornou evidente para mim, anos mais tarde, quando o sistema socialista ruiu como um castelo de cartas.
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Tornou-se então impossível não ver o que de fato ocorria. O regime soviético não ruíra porque um exército inimigo invadira o país. Pelo contrário, foi o povo russo mesmo que pôs fim ao sistema e o fez porque ele fracassara economicamente. Não obstante, muitos companheiros se negavam a aceitar essa evidência. Passaram a atribuir a Gorbatchov a culpa pelo fim do comunismo, como se isso fosse possível. A verdade é que as pessoas, de modo geral, têm dificuldade em admitir que erraram, que passaram anos de sua vida (e alguns pagaram caro por isso) acreditando numa ilusão.
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E, além do mais, é compreensível, uma vez que o socialismo propunha derrotar um sistema econômico injusto e pôr em seu lugar outro, fundado na igualdade e na justiça social.
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É verdade também que em alguns países onde o socialismo se implantara muito foi feito em busca dessa igualdade. Não obstante, algo estava errado ali, já que o regime era obrigado a coibir a livre opinião e impedir que as pessoas saíssem livremente do país. A pergunta é inevitável: alguém, que vive no paraíso, quer a todo custo fugir dele?
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Tampouco o regime capitalista é o paraíso. Longe disso. A diferença é que, dele, podemos sair se o decidirmos, criticá-lo e, pelo voto, mudar o governante. Mas não é só isso. O capitalismo é dinâmico e criativo porque é a expressão da necessidade humana de tudo fazer para melhorar de vida. Neste momento mesmo, milhões de pessoas estão inventando meios e modos de criar empresas, realizar empreendimentos que lhes possibilitem lucrar e enriquecer.
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Como poderia competir com isso um regime cujo processo econômico era dirigido por meia dúzia de burocratas, os quais, em nome do Partido Comunista, tudo determinavam e decidiam? Isso conduziu o comunismo ao fracasso e levou a China a tornar-se capitalista para escapar do desastre que pôs fim ao sistema socialista mundial.
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O capitalismo, por sua vez, é o regime da exploração e da desigualdade, precisamente porque se funda no egoísmo e na busca do lucro máximo. Se deixarmos, ele suga a carótida da mãe. O grande problema, portanto, é este: como estimular a iniciativa criadora de riqueza e, ao mesmo tempo, valer-se da riqueza criada para reduzir a desigualdade.
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Ferreira Gullar é cronista, crítico de arte e poeta. Escreve aos domingos na versão impressa de "Ilustrada" da Folha de São Paulo.
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Folha on line
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
O porquê do retorno do sagrado
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Tela de Arte by Giotto di Bondone. In: http:// fadasuave.blogspot.com/
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Tela de Arte by Giotto di Bondone. In: http://
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O filósofo Charles Taylor, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 15-01-2009, aborda a "tese da secularização" e sugere que hoje vive-se uma redescoberta do espírito. Segundo ele, "é necessário também saber trazer à superfície aqueles valores vividos profundamente pelas pessoas, isto é, articulá-los, dar voz a eles". A tradução é de Moisés Sbardelotto. Eis o artigo.
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É surpreendente, mas as ciências sociais, de resto nascidas secularizadas, foram até agora cegas e surdas frente aos valores espirituais. Salta aos olhos a total indiferença que não poucos filósofos, sociólogos e historiadores reservam à dimensão do espírito. As consequências desse desinteresse são pesadas no nível da imprensa e da opinião pública, especialmente a culta. Mas não é suficiente que, ao redor da religião, tenha sido criada intencionalmente uma cortina de indiferença e de ignorância; assim, a fé se torna objeto de contínuos ataques. É significativa a frase do Nobel Steven Weinberg, que além do mais é um cosmólogo e não um sociólogo: “Há pessoas boas que fazem coisas boas, e pessoas ruins que fazem coisas ruins, mas, se quiserem encontrar pessoas boas que façam coisas ruins, voltem-se para a religião”. Em alguns países, essa frase se tornou quase um provérbio e é repetida pela imprensa e nos bares. É impressionante que um homem como Weinberg se saia com tal frase, um homem que viveu grande parte da sua vida em um século, o XX, que conheceu os regimes mais opressivos da história. É essa objeção que eu utilizo logo que alguém se sai com a frase de Weinberg. E obtenho, invariavelmente, a seguinte resposta: “Mas o comunismo era uma religião!”. Em síntese, para alguns, a palavra “religião” se tornou sinônimo de irracionalidade e até mesmo de assassínio.
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Na prática, há quem entenda por “religião” um complexo de crenças que pode induzir pessoas boas e pacíficas (que não matariam nem uma mosca, sei lá, para conseguir um ganho pessoal) a se transformar em assassinas por uma “causa”. Um modo de pensar bastante rústico, esse. Ao qual se coloca uma outra objeção ainda: Hitler, Stalin, Pol Pot, Mao etc. eram todos inimigos da religião. O outro efeito negativo da mentalidade antirreligiosa é o atraso com o qual o verdadeiro problema da violência que cresce nas nossas sociedades é enfrentado. Ninguém está imune ao risco de ser arrancado da própria vida tranquila e recrutado na violência de grupo. Está na espreita a tentação de assumir como um alvo um outro grupo social e de considerá-lo responsável por todos os nossos males. Ora, a tarefa urgente é entender o que leva grupos inteiros de pessoas a se sentirem prontos para ser cooptados em um projeto do gênero.
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Mas temos uma abordagem imperfeita sobre esse problema. Grandes escritores como Fëdor Dostoevskij iluminaram a origem da violência e do delito, que, porém, ainda permanece envolvida no mistério. E é incompleto o conhecimento que temos acerca do caminho seguido por personagens dotados de carisma espiritual, como Gandhi, para convencer as massas a repudiar a violência, parando-as justamente quando estavam por ultrapassar a linha de não retorno. Sem intervenção de autoridades espirituais, frequentemente os esforços melhor intencionados também não conseguem impedir que a história se faça “sobre a mesa do açougueiro”, como disse Hegel. E dá calafrios pensar que Robespierre votou contra a pena de morte nas primeiras discussões sobre a Constituição republicana.
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Recentemente, trabalhei para compreender quais são hoje os significados e as implicações do termo “secularização”. Durante muito tempo, a sociologia considerou esse processo como inevitável. Algumas características da modernidade – o desenvolvimento econômico, a urbanização, a mobilidade em contínuo aumento, o nível cultural mais alto – eram vistas como fatores que teriam provocado um inevitável declínio da crença e da prática religiosa. Era a famosa “tese da secularização” e, durante muito tempo, dominou o pensamento nas ciências sociais e nos estudos históricos. Essa convicção foi abalada por acontecimentos recentes. A religião reagiu à modernização, respondeu ao desafio demonstrando a própria vitalidade. Em todo o caso, porém, a religião se tornou a base para uma mobilização política e o fenômeno é inclusive ameaçador, dadas as proporções que assumiu. É hora de conhecer a fundo essa dinâmica, os benefícios e os malefícios que comporta, ver claramente em um mundo que a velha teoria da secularização ainda esconde à vista. A incapacidade de distinguir a dimensão espiritual da vida humana nos torna incapazes de explorar temas vitais. Então, trata-se de reportar a espiritualidade ao centro e em domínios abertos em que descobertas decisivas são possíveis.
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No mundo secularizado, ocorreu que as pessoas se esqueceram das respostas às principais perguntas sobre a vida. Mas o pior é que se esqueceram também das perguntas. Os seres humanos – que o admitem ou não – vivem em um espaço definido por perguntas profundas. Qual é o sentido da vida? Existem modos de vida melhor e piores, mas como são reconhecidos? Quais são os modos úteis para o indivíduo e para a comunidade à qual pertence? Qual é o fundamento da minha dignidade pessoal, que eu procuro defender por mim mesmo, a cada dia? As pessoas têm fome de respostas para todas as questões e, se se dão conta ou não, sentem a necessidade de vê-las resolvidas por qualquer um. Haverá quem considere errada ou absurda a minha ideia. Eu estou certo de que é fundamentada.
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Fala-se de “descoberta do espírito”, em analogia com as descobertas que ocorrem na biologia, física e química. Mas é mais exato falar de “redescoberta do espírito”: o homem tem uma excepcional capacidade de se esquecer de coisas que conhecera e depositara no profundo do coração. Os filósofos, a partir de Platão, analisaram essa característica humana. Heidegger fala, a propósito, de “esquecimento do ser”. Eu penso que o homem desliza em uma “desmemória do ser”. Creio que caímos em um tipo especial de esquecimento. Em todo o caso, o mundo moderno se funda sobre uma cadeia bem precisa de desmemórias.
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Uma das regras principais do saber humano é tirar para fora as respostas inarticuladas que as pessoas se dão na vida. Por isso, temos necessidade de um novo conhecimento da razão. Não se trata simplesmente de se mover com procedimento dedutivo por meio de um argumento. É necessário também saber trazer à superfície aqueles valores vividos profundamente pelas pessoas, isto é, articulá-los, dar voz a eles. Penso que é muito perigoso esquecer os valores, porque novidades positivas diversas emergiram no nosso tempo, enquanto o povo respondera, de um certo modo, às perguntas que as novidades pressupunham. Boa parte da violência ocorrida no nosso mundo provém do fato de que os jovens são recrutados por causas que os transformam em horríveis robôs assassinos. Quem os recruta é uma oferta que promete dar um conteúdo às suas vidas. Estão sem trabalho, sentem-se sem futuro, não têm (não podem ter) o sentido da dignidade. Sim, deram uma resposta a uma pergunta. Uma resposta extremamente destrutiva, porque autodestrutiva. E nós estaremos desesperados, se não conseguirmos recomendar-lhes, em tempo útil, uma resposta diferente.
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terça-feira, 24 de julho de 2012
Sociedade da fuga. O mal dos tempos.
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Por Célia Corrêa *
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Não há um dia sequer que não ouço uma triste notícia sobre violência. Casos e casos se multiplicam, reinventam e inovam a arte do descalabro. Famílias se tornam surpresas e sofridas quando se veem diante de fenômenos impensados ao longo de uma vida. Elas tentam compreender onde ocorreram os desvios do cotidiano e se esbarram nas inúmeras buscas de causas, até o esgotamento das forças e o consolo do perdão. Tudo tão perto de todos e, ao mesmo tempo, invisível.
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Acontece que, o copo não transborda no primeiro toque. Ele vai se enchendo aos poucos e silenciosamente. É como o caminhar das formigas, quase invisível e de pouco a pouco, mas sempre na mesma direção, até que um dia o formigueiro se transborda.
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Todos querem viver o socialmente correto, mas para muitos o social não é uma realidade palpável. Existe um medo interior, uma insegurança não aparente, uma fraqueza disfarçada, um desconforto inexplicável, mesmo diante de todas as riquezas que possam estar em volta.
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Somente o coração sente o repuxo, mas não consegue controlar a onda, que repetidas vezes se fantasia de alegria e outras de choro. O apelo para não transparência leva à fuga. Fuga de tudo e de todos. Fuga da realidade. Fuga da verdade! Fuga da coragem! Fuga da fraqueza!Fuga do amor! Fuga de si mesmo!
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E, para onde leva a fuga? Muitas fezes para o considerado, inicialmente, caminho mais fácil que parte de copos, cheiros, picadas e cachimbos até o autoextermínio ou extermínio daqueles que representam o social não alcançado.
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Aos poucos, a fuga não é somente daquela vítima do seu próprio interior. A fuga é de todos ao redor. A não aceitação das pequenas evidências leva ao silêncio e distância, pois tudo se torna inexplicável. Mais fugas, agora de dentro e de fora, passam a promover um turbilhão de perguntas sem respostas.
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Todos fogem. A família foge cansada de tanto tentar entender os fatos. Os amigos fogem das diferenças aparentes. Emprego e trabalho desaparecem. Tudo é fuga. E o Estado? Onde ele se posiciona? Como guardião da sociedade, o Estado representa a forma máxima de organização humana; responsável pelo controle social. E aí? Como ele se coloca diante de tantos fatos que representam fuga e morte da sociedade?
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O Estado tem sido ineficiente e omisso. Daí, a ineficácia de suas medidas no campo da saúde e da educação. É, na verdade, o grande cúmplice dos suicídios e assassinatos e da desgraça de muitas famílias. Com as "burras" cheias dos impostos coletados e do descontrole da corrupção, ainda não cumpre a sua missão precípua diante da família e da nação. Gasta seu tempo no jogo do poder e no controle das urnas, enquanto jovens se perdem nas ruas e morrem nas sarjetas como animais ferozes. As famílias sangram de dor, de medo, de pés e mãos atados. 2
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Famílias, o núcleo principal de uma nação, perdem a suas identidades e suas forças. Desabrocha-se uma nação sem esperanças, mas consolada com a possibilidade da troca por bens de consumo. Consomem-se carros, roupas, móveis e utensílios domésticos enquanto a terra nua e crua consome corpos de jovens que fugiram desesperançados. Fuga da responsabilidade do Estado que se perdeu na construção de boas políticas públicas.
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Políticas cegas e surdas impedem àqueles que conseguem perceber os dramas e tentam ajudar e salvar vidas. O Estado cria restrições. À título de exemplo, ao sugar impostos, dificulta a doação de valores para o tratamento da saúde de dependentes químicos. Não há tratamento suficiente para atender aos acometidos pelas doenças da "fuga", como também não há incentivos para aqueles que queiram participar e ajudar. Para tornar o exemplo mais claro, tente patrocinar o tratamento de saúde de um dependente químico e peça o recibo em seu nome. Impossível! O recibo somente poderá ser emitido em nome do paciente (que não trabalha e não tem renda). Assim, a dificuldade estabelecida pelo Estado impede um benefício e mascara uma realidade.
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* Célia Maria Corrêa Pereira – celia.correa@terra.com.br / Professora. Administradora. Mestre em Engenharia de Produção
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
O fascismo dos "meninos do Rio"
.Por Gilson Caroni Filho *
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O que há em comum entre uma moradora de rua agredida a socos e pontapés no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, por três homens de classe média que a acusam de quebrar o retrovisor do carro, e Vítor Suarez da Cunha, jovem estudante brutalmente espancado ao tentar proteger um mendigo que apanhava de cinco delinquentes no bairro Jardim Guanabara, na Ilha do Governador? Ambos foram vítimas de um estrato social que tem como traço ideológico funesto a recusa da cidadania.
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Em menos de uma semana, a violência de um segmento incapaz de distinguir o público e o privado, que tem na venalidade uma de suas marcas, que trata a rua como prolongamento da casa e do quintal, desconhece direitos sociais e políticos, menospreza a condição humana dos que não pertencem à sua geografia social, reiterou, em pontos do estado do Rio de Janeiro, o caráter fascista que lhe é inerente.
Para eles, a liberdade se reduz ao ato de escolher entre várias marcas do mesmo produto, e a felicidade é o fim de semana em família esvaziando shopping centers, o consumo do Natal e o Réveillon em uma boate "superluxo". A protegê-los, vigias, olhos eletrônicos, cães de guarda, grupos de extermínio e a polícia violenta que conhecemos, protetora de “gente de bem”. Quando se lançam em busca das ilusões perdidas, dão início a uma busca feroz, mostrando uma força ideológica assustadora.
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Num tempo em que pessoas têm sua condição humana aviltada, morrendo como moscas, fatos como estes não podem, após algum tempo de exposição midiática, provocar, no máximo, apenas bocejos. É preciso deixar de contentarmo-nos em sobreviver, de acreditar que "com a gente não acontece" ou, o que é pior, fazer da vítima o culpado. Recusar a indiferença, persistindo em chamar de acidente uma rotina de mortes e de mutilações, conhecida, anunciada e burocraticamente executada cotidianamente. Nas ruas do Leblon e do Jardim Guanabara, o que aconteceu foi um fato político. E como tal precisa ser combatido.
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Como classificar o comportamento dos fascistas de "boa aparência”? Perversão? É pouco. Isto é sordidez, abjeção, cegueira de valores. Mais ainda: é sintoma de uma cultura que faz da sarjeta sua medida moral e que, pouco a pouco, destrói um legado histórico, construído com sacrifício de homens, de povos e de nações. O que está em jogo é a consciência de que a vida é um bem, cuja posse não temos o direito de negar a quem quer que seja. O que estamos esperando? Que a lei da oferta e da procura regule o mercado de massacres e extermínios?
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A punição exemplar dos agressores, "gente de boa cepa", é fundamental para que não continuemos a ser uma sociedade moralmente idiotizada. A barbárie não pode continuar satisfazendo o apetite de quem faz do riso cínico a única saída para a impotência e a covardia. Os fascistas têm que saber que já não contam com o "jeitinho brasileiro" de lidar com o direito à vida e a dignidade física e moral de cada um. Do contrário, a certeza da impunidade continuará ampliando a lista de vítimas. Em um país democrático, não se confunde desejo de justiça com direito de vingança.
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Vítor Suarez da Cunha, o jovem de 21 anos, que teve 63 pinos implantados no rosto, deu uma magnífica lição de vida, de solidariedade humana. Muitos escreverão sobre sua atitude, mas nenhum texto será capaz de traduzir sua coragem, seu amor ao próximo, sua consciência de cidadania. Ao afirmar que "faria tudo de novo se preciso fosse", torna-se um símbolo de que a luta política não só é possível como conta com bons combatentes.
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* Gilson Caroni Filho, professor, é sociólogo. - Gilson.filhobr@terra.com.br
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Fonte: Jornal do Brasil
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Cuidar do luto e das perdas
Por Leonrdo Boff*
Pertencem, inexoravelmente, à condição humana as perdas e o luto. Todos somos submetidos à férrea lei da entropia: tudo vai lentamentese desgastando; o corpo enfraquece, os anos deixam marcas, as doenças vão nos tirando irrefreavelmente nosso capital vital. Essa é a lei davida que inclui a morte.
Mas há também rupturas que quebram esse fluir natural. São as perdas que significam eventos traumáticos, como a traição do amigo, a perdado emprego, a perda da pessoa amada pelo divórcio ou pela morte repentina. Surge a tragédia, também parte da vida. Representa grande desafio pessoal trabalhar as perdas e alimentar a resiliência, vale dizer, o aprendizado com os choques existenciais e com as crises. Especialmente dolorosa é a vivência do luto, pois mostra todo o peso do Negativo. O luto possui uma exigência intrínseca: ele cobra ser sofrido, atravessado e, por fim, superado positivamente.
Há muitos estudos especializados sobre o luto. Segundo o famoso casal alemão Kübler-Ross, há vários passos de sua vivência e superação. O primeiro é a recusa: face ao fato paralisante, a pessoa, naturalmente, exclama: "Não pode ser"; " é mentira". Irrompe o choro desconsolado que palavra nenhuma pode sustar. O segundo passo é a raiva que se expressa: "Por que exatamente comigo? Não é justo o que ocorreu". É o momento em que a pessoa percebe os limites incontroláveis da vida e reluta em reconhecê-los. Não raro, ela se culpa pela perda, por não ter feito o que devia ou deixado de fazer.
O terceiro passo se caracteriza pela depressão e pelo vazio existencial. Fechamo-nos em nosso próprio casulo e nos apiedamos de nós mesmos. Resistimos a nos refazer. Aqui todo abraço caloroso e toda palavra de consolação, mesmo soando convencional, ganha um sentido insuspeitado. É o anseio da alma de ouvir que há sentido e que as estrelas-guias apenas se obscureceram e não desapareceram. O quarto é o autofortalecimento mediante uma espécie de negociação coma dor da perda: "Não posso sucumbir nem afundar totalmente; preciso aguentar esta dilaceração, garantir meu trabalho e cuidar de minha família".
Um ponto de luz se anuncia no meio da noite escura. O quinto se apresenta como uma aceitação resignada e serena do fato incontornável. Acabamos por incorporar na trajetória de nossa existência essa ferida que deixa cicatrizes. Ninguém sai do luto como entrou. A pessoa amadurece forçosamente e se dá conta de que toda perda não precisa ser total; ela traz sempre algum ganho existencial.
O luto significa uma travessia dolorosa. Por isso precisa sercuidado. Permito-me um exemplo autobiográfico que aclara melhor anecessidade de cuidar do luto. Em 1981 perdi uma irmã com a qual tinha especial afinidade. Era a última das irmãs de 11 irmãos. Como professora, por volta das 10 horas, diante dos alunos, deu um imenso brado e caiu morta. Misteriosamente, aos 33 anos, rompera-se a aorta.
Todos da família vindos de várias partes do país, ficamos desorientados pelo choque fatal. Choramos copiosas lágrimas. Passamos dois dias vendo fotos e recordando, pesarosos, fatos engraçados davida da irmãzinha querida. Eles puderam cuidar do luto e da perda. Eu tive que partir logo após para o Chile, onde tinha palestras para frades de todo o Cone Sul. Fui com o coração partido. Cada palestra era um exercício de autossuperação. Do Chile emendei para a Itália, onde tinha palestras de renovação da vida religiosa para toda uma congregação.
A perda da irmã querida me atormentava como um absurdo insuportável. Comecei a desmaiar duas a três vezes ao dia sem uma razão física manifesta. Tive que ser levado ao médico. Contei-lhe o drama por que estava passando. Ele logo intuiu e disse: "Você não enterrou ainda sua irmã nem guardou o luto necessário; enquanto não a sepultar e cuidar de seu luto, você não melhorará; algo de você morreu com ela eprecisa ser ressuscitado". Cancelei todos os demais programas. No silêncio e na oração cuidei do luto. Na volta, num restaurante, enquanto lembrávamos a irmã querida, meu irmão também teólogo, Clodovis, e eu escrevemos num guardanapo de papel o que colocamos no santinho de sua memória:
"Foram trinta e três anos, como os anos da idade de Jesus/ Anos demuito trabalho e sofrimento/ Mas também de muito fruto/ Ela carregava a dor dos outros/Em seu próprio coração, como resgate/ Era límpida como a fonte da montanha/ Amável e terna como a flor do campo/ Teceu, ponto por ponto, e no silêncio/ Um brocado precioso / Deixou dois pequenos, robustos e belos/ E um marido, cheio de orgulho dela / Feliz você, Cláudia, pois o Senhor voltando/Te encontrou de pé, no trabalho/Lâmpada acesa/Foi então que caíste em seu regaço/Para o abraço infinito da Paz".
Entre seus papéis encontramos a frase: "Há sempre um sentido de Deus em todos os eventos humanos: importa descobri-lo". Até hoje estamos procurando esse sentido que somente na fé o suspeitamos.
* teólogo e escritor
domingo, 13 de março de 2011
SOCIEDADE DOENTE: o extermínio do outro

por Salomão Ferreira*
Há sinal de tempestade no ar. Os ventos e nuvens carregadas anunciam maus tempos, mas as pessoas, convenientemente alienadas, buscam no conforto dos shoppings o isolamento da realidade externa que incomoda e dá medo. Com essa figura de linguagem alertamos para a falta de afeto que contamina as sociedades de consumo e subtrai o sujeito da coletividade, isolando-o no mundinho de sua particular leitura de si por si e para si, como verdadeiro “eu” cartesiano, forjado em si mesmo e pela própria ação do sujeito, como se fosse possível ler e nomear o mundo pela eficiência dos olhos que captam as imagens das coisas. Esquecemos que ver não é só enxergar, é interpretar e para isso contamos com a intermediação do outro, pois as coisas adquirem sentido pela convenção coletiva e cultural que as nomeiam e é nela que construímos nossa identidade pessoal, nosso “eu” ético, pessoal e dinâmico, impregnado de alteridade..
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O professor Aluísio Pimenta (1), citando o geógrafo e professor Milton Santos, afirma que “está perto de acontecer, espero que aconteça, uma reação muito grande e violenta por parte dos negros em relação à situação em que eles se encontram.” Pensamos ser conveniente acrescentar que não só os negros, mas toda população excluída que povoa a periferia das grandes economias mundiais.
Enquanto apagamos da memória as coisas que, por conveniência ou por medo, preferimos esquecer, tendemos a conservar aquelas que nos agradam e nos dão prazer ignorando a realidade que salta aos olhos e que nos faz, como em Lispector (2) , “trancar a porta, esquecendo que ao primeiro temporal voará uma porta trancada pelos ares”. Ainda retomando Lispector (1999), é como sonsos essenciais que esquecemos essa casa construída sobre um terreno onde outra casa pode ser erguida. Mas é como sonsos que desacreditamos na possibilidade do terreno e negamos a viabilidade de demolir a velha casa e construir sobre o terreno novos alicerces, cimentado com a lógica do humano, do “eu” impregnado de alteridade, desse outro que nos nomeia e nos ensina a ler o mundo, esse que nos instiga a curiosidade e à vontade de enfrentar os risco de projetarmos no mundo, assumindo os perigos advindos dessa tentadora empreitada. Esse “eu” edificado na alteridade é bem diferente da concepção cartesiana do sujeito individualizado, submergido da lama por suas próprias mãos, como se fosse possível um “eu” parido de si mesmo por seu próprio projeto de gestação e escolhas.
Enquanto apagamos da memória as coisas que, por conveniência ou por medo, preferimos esquecer, tendemos a conservar aquelas que nos agradam e nos dão prazer ignorando a realidade que salta aos olhos e que nos faz, como em Lispector (2) , “trancar a porta, esquecendo que ao primeiro temporal voará uma porta trancada pelos ares”. Ainda retomando Lispector (1999), é como sonsos essenciais que esquecemos essa casa construída sobre um terreno onde outra casa pode ser erguida. Mas é como sonsos que desacreditamos na possibilidade do terreno e negamos a viabilidade de demolir a velha casa e construir sobre o terreno novos alicerces, cimentado com a lógica do humano, do “eu” impregnado de alteridade, desse outro que nos nomeia e nos ensina a ler o mundo, esse que nos instiga a curiosidade e à vontade de enfrentar os risco de projetarmos no mundo, assumindo os perigos advindos dessa tentadora empreitada. Esse “eu” edificado na alteridade é bem diferente da concepção cartesiana do sujeito individualizado, submergido da lama por suas próprias mãos, como se fosse possível um “eu” parido de si mesmo por seu próprio projeto de gestação e escolhas.
Paul Ricouer (3) nos fala do esquecimento e do perdão: o esquecimento daquilo que nos incomoda, que nos tira do conforto de nossa casa e do velho terreno e o perdão à ilimitada simetria, àquela do dano feito a outrem, o assassinato, a morte não sofrida, mas infligida ao outro, em suma, esse mal que o homem faz a outro homem. Mas é esse mesmo mal que, em nossa consideração, não nos afetará e essa impossibilidade de afetação nos aliena até o instante em que batemos de frente com ele e, já acostumados, não damos por fé ou simplesmente vamos às compras onde deixamos, além do limite do cartão de crédito, as dores de nossas desavenças e o perdão por nossa falta de humanidade. Convenientemente depositada no balcão das lojas deixamos os valores éticos e a moeda que condiciona esse esquecimento e perdão.
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Assim, o assassinato brutal e covarde de um professor, a violação do direito às escolhas sexuais dos sujeitos que resultam em ataques homofóbicos e assassinatos na Afonso Pena, o descaso do Estado que provoca exclusões e culmina em execuções na Serra (4) e, porque não, os acidentes trágicos que mutilam e tiram vidas nas principais rodovias. Tudo isso só pode confirmar o extermínio do outro como uma banalidade, algo que só serve para alimentar as manchetes de jornais e não nos afeta, pois, é como “sonsos essenciais” que acreditamos que o terreno é um só e a casa não se abalará com as tempestades.
Para além da realidade apresentada nas manchetes de jornais, o mercado segue diluindo a perversidade da exclusão. A mídia, grande fabricante de certo pó mágico, que torna invisível as mais contraditórias situações, cuida dos lançamentos diários de produtos que, como garante, são a única possibilidade de existência e felicidade. Nessa esteira da mídia, a tradição combina com a modernidade; o consumo de medicamentos de controle da pressão arterial e/ou reposição de cálcio nos portadores de osteoporose sinalizam beleza, poder e boa saúde.
Fica evidente, portanto, que se alastra em nossa sociedade de consumo, uma grave epidemia - como aquela anunciada por Saramago. Ficamos cegos, não por falta de eficiência dos olhos - órgão dos sentidos que possibilitam a captura de imagens visíveis e que nos instiga na busca do invisível –, mas pela falta de capacidade de reter as imagens e processá-las em nossas leituras e análises do mundo. Somos os “cegos essenciais” porque recusamos a ver as evidências ou porque nos isolamos em nosso mundo de conforto, fugindo da afetação dos acontecimentos mundanos. Acreditamos - em nosso individualismo crônico - que estamos sozinhos e só nos importa o limite do cartão de crédito e os últimos lançamentos do mercado nos quais refugiarmos do outro, como se fugir do outro não fosse fugir de si mesmo. Esquecemos que somos o outro e que o “eu” é um sujeito constituído no outro e com o outro. Vale lembrar que o outro não é um objeto exposto em vitrines, um lançamento novo Apple. O outro é aquele que está dentro e fora dos shoppings e que amplia as possibilidades do “eu” para além dos limites financeiros e do poder pessoal de compra implícito nas bandeiras de nossos cartões de crédito.
Notas
PIMENTA, Aloízio. Texto publicado no Jornal Diário da Tarde em 2 de junho de 2001, página 2.
LISPECTOR,Clarice. Para não esquecer. Ed. Rocco, 1999.
RICOUER, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas. SP: Editora Unicamp, 2007
(4) Não estamos considerando as condições legais em que se deu os assassinatos. Queremos apenas chamar atenção para a ausência do Estado e a eminência social de se criar códigos e leis que possam reger as sociedades e que levam, na ausência daquele, ao aparecimento desses, o que resulta na instituição de “estados” paralelos onde a voz do Estado de direito há muito se fez ausente, omissa ou ineficiente.
* Salomão Ferreira - Estudante do 4º período da FAE (Faculdade de Educação / BH / UEMG).
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
ENTRE A LEI E A ORDEM: por uma polícia pedagógica
Lúcio Alves de Barros*
O debate sobre a emenda à Constituição que torna obrigatório o título de bacharel em direito para oficiais de carreira da Polícia Militar de Minas Gerais tem esquentado os meios policial e político. Há tempos já se sabe que as polícias de alguns estados da federação exigem tal diploma, o que na verdade, não se sabe é se adiantou alguma coisa. O curso de bacharel em direito para oficiais, entretanto, não passa de falácia, de uma guinada em favor de melhores salários ou ganho de campo no jogo contra a Polícia Civil que tem seus delegados formados neste curso.
Não vou discutir a eficácia da medida, tampouco porque ela em si, provavelmente, não vai mudar nada. Neste sentido, minha análise é somente para tatear esse campo repleto de interesses difusos e que, por vezes, é melhor olhar de longe, pois tal como se diz na polícia, “a corda arrebenta sempre para o lado mais fraco”, “muxiba não deve se meter a ser bola de futebol” e “rio com piranha, jacaré nada de costa”.
Em tempos de “jabulani”, vale tecer pelo menos alguns comentários. Em primeiro, não é possível que depois de tantos avanços na política de segurança pública apareça uma proposta tão sem lugar como esta. A polícia por definição é a força legítima do Estado que atua na discricionariedade. Talvez seja esta uma das mais interessantes artes da polícia. Atuar no “improviso”, na “moral”, no “espírito do momento”, na liberdade de agenda, na “hora” e no “depois”. Trata-se de um poder não mensurável, de um saber técnico que tem por sustentáculo a experiência e a legitimidade estatal. Aprende-se a ser polícia na prática e não na teoria. Logo, é um retrocesso achar que os policiais formados em direito, mesmo os oficiais, vão utilizar o Código Penal, a Constituição, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) ou mesmo o Estatuto do Idoso para resolver algum problema. Até porque, já e de conhecimento público que dificilmente vamos ver um coronel dentro de uma viatura em momentos de ação.
Em segundo, a PEC 59/2010 (em pauta para votação em primeiro turno na Assembleia Legislativa) peca em outro sentido. Nada contra o curso de direito, até porque há anos frequento as salas de aula de graduação e pós-graduação e tenho a ciência de como os estudantes são formados, mas seria bom a instituição e as autoridades, por exemplo, sugerirem o curso superior em pedagogia, em psicologia ou mesmo em antropologia. Mais de uma vez já disse que a maioria das ações que a polícia faz é de cunho social, um trabalho terapêutico que tenta cuidar de um consciente e inconsciente coletivo, por ver vezes, em anomia. Certa feita, um policial experiente afirmou que “a polícia trabalha como um curativo, haja vista que o Estado não sabe lidar com a vacina”. Estou longe de erro em salientar que já temos uma organização com muitas dificuldades em atuar como tal e, formados ou não em curso de direito, ainda vamos lidar com curativos esperando a vacina do Estado o qual não se preocupa com a causa das doenças e sim com os sintomas e consequências. Acrescenta-se neste tópico a questão do controle dos sintomas, pois se eles ainda não mataram o corpo social é porque ele se mantém vivo independentemente dos remédios oferecidos pelo campo jurídico. Os indivíduos optam pela ordem e não pela constante sensação de perigo, desconfiança e custo. Logo, apostar em um curso que, por definição, se apega ao campo normativo, ainda mais em tempos de “técnica jurídica” em detrimento da jurisprudência, é perigoso. Teríamos, no limite, oficiais em busca de delitos que, guardadas às devidas proporções, não são produtores de desordem, tampouco contrários à justiça que, no Brasil, é privilégio dos estamentos mais abastados e atrelados ao Estado.
Em terceiro, é preciso apontar para a necessidade de quem irá vigiar os futuros “doutores” fardados. A Polícia Civil, de uma forma ou de outra, ainda serve como um poder regulador da Polícia Militar. Até hoje sabemos que elas não falam a mesma língua e não é problema caminhar institucionalmente na diferença. Falar diferentes línguas é saudável para relações de tolerância, respeito e diversidade. No meio jurídico é conhecido os conchavos, os corporativismos e o tecido relacional (para lembrar Roberto DaMatta e Roberto Kant de Lima) que atuam em defesa de recursos, privilégios e distinções. A cultura brasileira, em micro-relações nas subculturas organizacionais se reveste de novo perfil e o resultado pode ser dramático e complicado. Por outro lado, seria interessante delegados e oficiais discutindo os imperativos da lei em um mundo sedento por justiça e paz.
Em quarto, é forçoso argumentar que não é preciso ser bacharel em direito para ser polícia, principalmente uma polícia ostensiva que tem por função a manutenção da ordem e da paz. O poder de justiça está no judiciário e a Polícia Militar, como força armada do executivo não tem porque misturar atribuições. Na verdade, isso nem é preciso, pois a Polícia Militar está mais aparelhada que a Polícia Civil. Ela tem um maior contingente, faz dobradinha com os bombeiros e está avançada no uso de tecnologias e mobilização social. O que falta à Polícia Militar é justamente um curso superior de pedagogia ou de serviço social. Imaginem policiais pedagogos, responsáveis por levar “segurança social” e não somente a famosa segurança objetiva e subjetiva à sociedade. Imaginem policiais críticos e capazes de educar as crianças, os adolescentes e jovens. Pensemos policiais treinados em lidar com adultos recalcitrantes e mulheres apavoradas pelo marido violento e espancador. Certamente teríamos policiais educadores, generosos, com compaixão, sede de justiça, capacitados em defender os oprimidos e capazes de defender o cidadão não somente das forças hostis dos que estão longe da lei, mas da ação penal e dura do Estado de Direito, forjado na hierarquia, colonização, machismo e autoritarismo. Em democracias a função da polícia, inclusive da “polícia comunitária”, é pedagógica e não jurídica ou militar. Os estados que levaram este projeto a contento (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, Piauí e Distrito Federal), não aparecem como exemplo. Se existe o interesse em agregar valor à profissão seria adequado à polícia mineira exigir cursos superiores capazes de lidar com a negociação, com a proximidade, com a educação, crítica e “segurança social” dos cidadãos. Obviamente, tais atributos não de uso exclusivo do curso de direito (o qual, historicamente, carrega certas distinções neste país) e estão presentes na psicologia, geografia, história, sociologia, pedagogia, economia, comunicação...
Finalmente, é impossível deixar de mencionar a perigosa armadura jurídica que pode estar crescendo na instituição. À deriva e longe de debates com a sociedade ela me parece refém ou cúmplice de um estado penal. Refiro-me à busca incansável do Estado pelos já conhecidos suspeitos, os quais andam de lá para cá no mundo das drogas ou nas zonas quentes de criminalidade. O movimento institucional me lembra a ideologia “Lei & Ordem” que criou fama na política criminal dos Estados Unidos da América. Sob a roupagem da igualdade e da liberdade a política em apreço tratou de limpar a cidade com a justificativa ideológica da punição da mendicância, da prostituição e da juventude transviada. Neste caminho, estamos a um passo para marcar - novamente - a ferro e fogo a população pobre, negra e sem direitos que vegeta historicamente nesse país. Apostar na política da lei e na judicialização da polícia que tampouco deveria ser militar é alimentar uma ideologia que, por lógica, é punitiva e segregadora. Mais que isso, é justificar no imperativo da lei o que já se percebe no dia a dia e talvez criminalizar, punir e prender aqueles que, por ingenuidade, desconhecimento, azar, ignorância e diferença estiveram sempre distantes dos órgãos da justiça.
* é professor da Faculdade de Educação da UEMG. Autor do livro, Fordismo: origens e metamorfoses. Piracicaba, SP: Ed. UNIMEP, 2005 e organizador das obras, Polícia em Movimento. Belo Horizonte: Ed. ASPRA, 2006 e Mulher, política e sociedade. Belo Horizonte / Brumadinho: Ed. ASA, 2009.
domingo, 23 de maio de 2010
NOTÍCIAS...
Crack é a droga mais usada em Belo Horizonte, revela ONG Defesa Social
Levantamento mostra que consumo é maior nas regiões Norte e Venda Nova, onde se aproxima de 100%, e ainda no Noroeste e Nordeste da capital. (Confira a infografia).
Gabi Santos (Repórter). 21/05/2010 - 19:58
CARLOS ROBERTO
O crack está se transformando em uma epidemia em todas as regiões de Belo Horizonte, especialmente Norte, Venda Nova, Noroeste e Nordeste. É o que mostram estatísticas da ONG Defesa Social e do Centro de Referência Estadual de Álcool e Drogas. A ONG entrevistou 1.098 pessoas que usam algum tipo de droga, 122 em cada uma das nove regionais. Na Região Norte, o crack é usado por 98% dos entrevistados, enquanto o índice em Venda Nova ficou em 96%. Na Regional Centro-Sul, 45% usam ao crack. No mesmo levantamento foi constatado que a Zona Oeste está em terceiro lugar, onde 92% dos consumidores de droga usam o crack, seguida pela Região Nordeste, com 85%. A ONG Defesa Social havia divulgado, no começo deste ano, que são consumidas por dia, em Belo Horizonte, nada menos que 720 mil pedras de crack, totalizando 180 quilos da droga, vendida em pequenas pedras, de poucos gramas, por R$ 5 ou R$ 10. Os números apresentados pela ONG são próximos aos dos divulgados pelo Cread, órgão do Governo do Estado. Segundo pesquisas feitas pelos funcionários desse setor, de cada cem pessoas que procuraram o centro para recuperação, 10,7 (681 interessados) são da Região Leste; 9,05 (605) da Noroeste; 7,03 (466) da Região de Venda Nova; 7,02 (458) da Zona Nordeste, e 5,07 (366) da Zona Oeste.
Robert William, presidente da ONG Defesa Social, e Amaury Costa Inácio da Silva, diretor do Cread, concordam que a cada ano crescem assustadoramente os índices de pesquisas referentes ao uso e dependência de drogas, com destaque para a epidemia de crack que assola as grandes cidades, entre elas Belo Horizonte. “A pesquisa da nossa entidade foi realizada de novembro a dezembro do ano passado e ela retrata o alto número de usuários de crack, principalmente nas regiões apontadas”, disse Robert William. “Mas recolhemos também indicações do aumento considerável do uso dessa droga na região central da capital, no entorno da Rua Guaicurus, e nas áreas do Aglomerado do Cafezal e na Região da Savassi. Mas a grande expansão acontece mesmo é nas zonas Norte, Nordeste, Noroeste e Venda Nova”. William informou que não existem estatísticas dos anos anteriores para comparações.
A psicóloga Heliana Fonseca Alves, da Coordenação de Prevenção da Associação Brasileira para a Prevenção do Abuso das Drogas, afirma que o avanço das drogas, notadamente do crack, não é uma exclusividade de Belo Horizonte. Ela lembra que o fenômeno avança rapidamente também em todos os grandes centros urbanos do país, notadamente em São Paulo, Vitória, Porto Alegre e vários outros porque o crack, principalmente, tem um potencial muito grande de criar a dependência e é uma droga muito barata, que facilita o acesso. “Em Belo Horizonte várias áreas ligadas ao Governo do Estado estão preparando um novo plano de prevenção e combate às drogas porque a situação é preocupante. Tenho certeza de que com um plano de ação vigoroso e a ajuda da comunidade, vamos conseguir reverter esse quadro de aumento das estatísticas. Acho que essa situação só vai melhorar a partir do momento em que contarmos com o apoio da população e a união dos esforços do município, Estado e da União, muitos objetivos serão alcançados”. O prazer simultâneo proporcionado pelo crack, aliado ao seu efeito efêmero, justifica o alto potencial de dependência. “A sensação de prazer é imediata, mas passa muito rápido, levando o sujeito a sempre querer repor esse efeito”, explica o psicólogo Guilherme Gomes Brazil, que já atuou em uma clínica para viciados.
Governo pede ação coordenada
Clóvis Benevides, da Subsecretaria de Estado Antidrogas, concorda que sem uma ação coordenada, de todos os setores envolvidos, o governo não vai conseguir nada. Ele acrescentou que o aumento da incidência de uso de crack em Belo Horizonte é uma triste realidade que precisa mesmo contar com uma intervenção eficaz das corporações policiais, da Prefeitura, o próprio Governo e da União, com um novo plano que contemple a prevenção e o tratamento e, do outro lado, a aplicação da lei para criminosos.
O presidente da ONG Defesa Social, analisando os números de Belo Horizonte, destacou um detalhe. Segundo ele, a Região Centro-Sul de Belo Horizonte, que tem números mais baixos nos levantamentos feitos pela entidade, comparativamente possui um percentual preocupante. “Veja bem o que acontece. As regiões Noroeste e Norte têm, cada uma, populações respectivas de 337.351 e 194.198 habitantes e apresentaram, na nossa pesquisa, 104 e 120 pessoas, entre 122 pesquisas, que confessaram o uso da droga. Mas a gente não pode esquecer que a Região Centro-Sul, com população de 258.746 habitantes, possui uma extensão geográfica muito menor, o que pode comprovar uma incidência e expansão muito mais rápidas do comércio e do uso do crack”.
continue lendo em: http://www.hojeemdia.com.br/cmlink/hoje-em-dia/minas/crack-e-a-droga-mais-usada-em-belo-horizonte-revela-ong-defesa-social-1.120749
veja também: "Criança é suspeita de chefiar tráfico em São Paulo"
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