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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Entre professores e pesquisadores

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Lúcio Alves de Barros*
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Uma professora foi chamada atenção por ter publicado em uma revista de Qualis C da CAPES. Transtornada, achou que “o mundo caiu”. Lágrimas foram soltas, buscas no inconsciente de algo que teria feito duraram dias e a leitura dos clássicos foi necessária para perceber ou legitimar o que ainda anda fazendo. A professora em crise leciona há 20 anos e não me parece prudente sua preocupação, a não ser o de dar maior relevância para aquilo que não tem. Acredito que professores e também pesquisadores fazem mais.
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É óbvio que nem todo professor é necessariamente um pesquisador. Pode até ser que pensemos que o ato de lecionar é uma pesquisa em potencial, mas isso não conta para as contas do governo e dos programas de pós-graduação. O que vale é o nível “A”, talvez um “B1”, índices de revistas (http://qualis.capes.gov.br/webqualis/principal.seam) que somente os pares vão ler. O professor, lotado de aulas e que segura as pontas em sala é somente uma pequena peça nas universidades e nas faculdades, especialmente as particulares que vivem do dinheiro público e das mensalidades. Apesar de garantir o pão nosso de cada dia no ensino superior esses professores carregam o desconhecimento dos pares, possuem dificuldades em entrar nos grupos já formados “de pesquisa” e ainda são obrigados a ouvir asneiras em salas de reunião.
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Problemático tudo isso, haja vista que o docente em sala de aula me parece crucial em tempos líquidos onde a juventude é hedonista, a velhice esquecida e a criança rejeitada. Mais que isso, em tempos que valores em torno da vida e dos mais fracos se fazem importantes, as universidades e faculdades estão preocupadas em atender a CAPES e ver professores se transformarem em “celebridades de minutos”. É uma piada, pois essa representação de um mundo que funciona somente na cabeça dos que estão no curso superior pouco tem de serventia para a maioria das pessoas que pegam ônibus, ganham salário, limpam suas casas e ficam mais de 16 horas fora do domicílio.
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Nada contra a pesquisa, mas antes de tudo é preciso perguntar qual é a sua serventia. Há anos vejo dissertações, teses e mais teses sendo defendidas. Todas tem o mesmo caminho: a biblioteca e citações em um “currículo lattes” (http://lattes.cnpq.br/). Dali, o antes aluno, publica a tese em artigos e depois se esquece de todos os achados que fez. O mesmo faz os órgãos governamentais da educação que, como tudo indica, preferem as experiências estrangeiras. Na realidade, a maioria do que se faz nas universidades não chega ao público. Mantemos uma universidade para a elite, as faculdades, notadamente as particulares, para a ralé e no meio é possível encontrar alguns professores e pesquisadores que conseguem algumas bolsas, uma razoável condição de trabalho e artigos publicados, mas nada que se transforme em política pública ou que modifique tanto as instituições como as pessoas.
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É o cúmulo do absurdo e falando ninguém acredita, porque tanto professores como pesquisadores são frágeis e suas ideias efêmeras. Em uma tacada só, órgãos governamentais arrancam bolsas, acabam com trajetórias, inviabilizam carreiras e esquecem as pessoas. O mundo acadêmico é um teatro onde se encontram um monte de gente que cita outro monte de gente, e é melhor citar os conhecidos, pois ai do professor/pesquisador que não leu o “fulano de tal”. A chamada é, “Oh! Você não leu?”. Daí vem um silêncio, um acordo tácito de “incompetência”, a sensação de que algo está faltando e de um desconhecimento do que realmente é importante para a vida. Quem leu o famigerado autor sai como pavão, pois conhece os poleiros e abre bem sua calda quando se faz necessário.
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Finalizo homenageando a professora que leciona e que também pesquisa. Admiro sua franqueza e capacidade de lecionar. Admiro sua fortaleza e garra para segurar e arrancar de alunos a atenção que hoje é dada ao celular. Na realidade é desta professora que precisamos, pois é ela que atinge um mundo incrível de desconhecimento e de pessoas que não sabem nem ler o que o colega pesquisador escreveu. O professor é muito mais reconhecido pelos alunos em sala do que pelas letras que escreve em artigos científicos, teses e dissertações que ficam a acumular poeiras em estantes de bibliotecas. A verdade é essa, salvemos os professores, vamos garantir melhores condições de trabalho para que todos virem bons pesquisadores, mas não tenhamos dúvida, que ambos virem escritores e poetas, talvez amantes da literatura e da vida, tudo para garantir dias melhores para as universidades que andam penando diante de todo descaso com aqueles que vivem labutando nas salas de aula ou escrevendo para um público que ainda anda cego e surdo.
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* Professor da FAE/UEMG/BH, Doutor em Ciências Humanas pela UFMG.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

‘O melhor modelo de universidade é o que aposta na diversidade’

Nos últimos tempos, o professor Ivan Domingues, do Departamento de Filosofia da Fafich, tem se debruçado sobre o presente e o passado das universidades para tentar compreender os novos caminhos a serem trilhados por essa instituição nascida no final da Idade Média. Sua reflexão sobre a universidade, em especial a UFMG, vem sendo materializada tanto em conferências – como a feita no Fórum de Estudos Contemporâneos, promovido pela Pró-reitoria de Planejamento no ano passado – quanto na participação em instâncias destinadas a propor mudanças para a Instituição.
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Como coordenador do Seminário Universidade do Futuro, protagonizado pelo Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (Ieat), ele trabalha na análise da proposta de criação de bacharelados interdisciplinares. Já no Instituto Brasil Europa, consórcio de universidades brasileiras e europeias financiado pela União Europeia, Domingues contribui com a dupla missão de instalar um doutorado transdisciplinar e interinstitucional em políticas públicas e de formular novo conceito de extensão, mais atrelado a atividades de difusão do conhecimento e de educação superior. Toda essa imersão tem deixado preocupado esse filósofo com formação pela UFMG e pela Universidade de Sorbonne, na França. Para ele, a universidade contemporânea, principalmente a brasileira, está massificada, burocrática e confusa, com uma carga de atividades que deixa os docentes extenuados e distantes do ensino inovador e da pesquisa avançada. “Os fundamentos estão abalados”, resume ele.
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Nesta entrevista a DIVERSA, Ivan Domingues faz minuciosa análise do papel histórico da universidade – “ela nunca teve o monopólio da geração e disseminação do conhecimento” – e defende a adoção de modelos mais flexíveis e ajustados às realidades regionais. Sobre a UFMG, que completou 85 anos em setembro passado, o filósofo valoriza o que chama de “ethos unificado”, que se caracteriza pela lealdade institucional, e permitiu à Instituição crescer em qualidade e quantidade. Mas vê sinais de fadiga. “Nosso ethos persiste, mas com fissuras, e elas precisam ser soldadas”, adverte.
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Como a Universidade enfrenta o fato de não ter mais o monopólio de geração e disseminação do conhecimento? Isso a torna menos relevante que no passado?
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No meu modo de ver, a universidade nunca teve o monopólio. Isso é uma presunção equivocada. É uma ideia que não fica em pé se for examinada com mais cuidado. A universidade só foi criada nos séculos 12 e 13. E antes disso já havia produção e difusão do conhecimento na Academia de Platão, no Liceu de Aristóteles, no Jardim de Epicuro, na Biblioteca de Alexandria, nas escolas médicas de Hipócrates e nos tribunais da Magna Grécia e do Império Romano, que eram o centro não só da produção como também da práxis jurídica. No final da Idade Média, o panorama muda, com a criação das universidades, em sua maioria, ligadas à Igreja. Antes das universidades, também existiram as escolas monásticas, importantíssimas, e que se encarregavam da formação do clero. Havia ainda as corporações de ofício que também geravam conhecimento técnico de acordo com as necessidades da sociedade da época.
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O que eram essas corporações?
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Elas se ocupavam do ensino técnico, e a diversidade era enorme: tabeliães, ourives, escultores, marceneiros, mestres de obras e toda sorte de artesãos, cujas técnicas eram transmitidas pela tradição oral e com a ajuda da experiência. A esse grupo se associam as chamadas artes mecânicas, que abarcavam um conjunto de disciplinas técnicas e práticas: a produção de lã, o ofício de agricultor, a fabricação de armamento, a arte da navegação, os ofícios ligados ao teatro e a própria medicina. Havia também os ateliês de arquitetura, que abarcava a engenharia, a engenharia civil, e estava associada a um sem-número de profissões ligadas à arte da construção e da decoração dos edifícios, religiosos e civis. A universidade veio se integrar a essa paisagem bem mais tarde, quando passou se ocupar de três formações: Teologia, que também abrangia a Filosofia, Medicina e Direito. Era uma formação em que o humanismo cristão predominava.
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E depois?
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Na renascença e na era moderna, surgem novas experiências e reagrupamentos, com índole mais laica. Especialmente na modernidade, quando muitas universidades foram criadas, como Harvard, que data de 1636, e cujo fundador era egresso de Cambridge. O modelo segue sendo as universidades medievais, de formação mais humanista, porém logo elas passam a sofrer a concorrência das academias de ciência, como a de Florença, a da França e a Royal Society de Londres. Newton tinha um pé na universidade e outro na academia. Ele ensinava em Cambridge e atuava na Royal Society, da qual foi presidente por cerca de 20 anos. Descartes desenvolveu pesquisas em anatomia e fisiologia fora da universidade e nunca ensinou na universidade, assim como Pascal. Enfim, esses exemplos mostram que o monopólio das universidades não resiste a um exame mais apurado. Esse sistema bipolar foi transformado no século 19 graças à experiência da Universidade de Berlim, fundada por Humboldt [Wilhelm von Humboldt]. Essa dicotomia entre ensino e pesquisa desaparece, e a ciência é levada para dentro da universidade. Tanto que muitas universidades passaram a seguir o modelo humboldtiano. Já nos séculos 20 e 21 o sistema ganha muita escala. E junto surgem laboratórios e institutos de pesquisa independentes que passam a desempenhar papel muito importante na pesquisa e produção do conhecimento. Merece destaque a Royal Institution, fundada em 1799, em Londres, o primeiro laboratório público de pesquisa, contando em seus quadros com os primeiros cientistas assalariados, e que existe até hoje. Já as grandes corporações privadas, as mais conhecidas, surgiram a partir da metade do século 20. Resumindo, monopólio nunca houve; hegemonia, sim, por certos períodos. De qualquer forma, diferentemente dos institutos de pesquisa, a universidade tem uma particularidade que é a de permitir a aliança entre o conhecimento e o ensino; a pesquisa e o ensino.
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Houve uma era de ouro das universidades?
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Se houve, penso que foi o século 20. A Idade Média foi importante porque marca o início, mas a explosão começa em meados do século 19. A maioria das universidades dos Estados Unidos é dessa época, e o apogeu americano veio depois da Segunda Guerra – pelos motivos que todos sabemos. A partir daí, as universidades americanas superam as europeias.
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O sistema universitário norte-americano se consolidou muito rapidamente...
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Os Estados Unidos têm escala, densidade e diversidade, sendo uma referência interessante para o Brasil, que tem diversidade e escala parecidas. Lá, o modelo humboldtiano fincou raízes muito cedo. Porém, a partir da segunda metade do século 19, podemos falar em universidade propriamente neo-humboldtiana; o prefixo neo é por conta das mudanças. A fundação do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts] é um marco, por causa da introdução da tecnologia. Se, com Humboldt, há a associação entre humanidades e ciência, no MIT as engenharias e a tecnologia passam a ocupar lugar central na universidade. A agenda da inovação tecnológica ganha relevância em muitas universidades, e um novo modelo passa a imperar.
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O que significa essa ideia de refundação da universidade defendida pelo senhor?
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Quando digo isso é porque, no meu modo de ver, a universidade brasileira está fundada, mas precisa ser refundada, e refundar é algo como consertar um navio avariado em alto-mar; o reparo tem que ser feito com o navio em movimento. Eu não quero exagerar na metáfora. É só uma ideia. A universidade está fundada, mas os fundamentos estão abalados.
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Que fundamentos são esses?
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O tripé ensino-pesquisa-inovação nunca se consolidou. Não se trata de resgatar alguma coisa, uma ideia original de universidade. O tempo da universidade medieval já passou. Significa, no meu modo de ver, relançar o projeto da universidade neo-humboldtiana, baseada no tripé ensino-pesquisa-inovação. Essa ideia de que a universidade brasileira precisava ser fundada é do Darcy Ribeiro. Por ocasião da criação da Universidade de Brasília, há 50 anos, ele dizia que a universidade brasileira era um aglomerado, um conjunto de faculdades reunidas em torno de uma reitoria. E ele tinha razão. Quase todas seguiam esse modelo, uma federação de faculdades de Engenharia, Direito, Medicina. Ele mostrava os números. Nos anos 1950, a UFMG tinha 3,6 mil estudantes e a USP, cerca de 9 mil. Se compararmos com os números de hoje, veremos que alguma coisa de extraordinário aconteceu. A UFMG passou de pouco mais de três mil para mais de 52 mil alunos, quase 20 vezes mais em cinco décadas. E desdizendo o Darcy, acredito que hoje a universidade está fundada. O que ela precisa é ser refundada, e isso não tem nada de dramático, é da natureza das instituições. Não se trata de criar uma universidade nova como a projetada pelo Darcy Ribeiro, que imaginava que a maior de todas, localizada na capital federal, teria não mais do que 10 mil estudantes. A Unicamp foi fundada com projeção de um teto de 10 mil alunos, com a perspectiva de que o sinal deveria ser aceso quando chegasse a esse limite. O que se vê hoje é outra realidade, é a construção de uma universidade de massa. E isso criou um monte de problemas. Os fundamentos precisam ser juntados, reforçados, trabalhados, por vários processos de reparos e modificações. As universidades de elite são pequenas. Stanford tem 15 mil alunos; Harvard, 21 mil; Oxford,16 mil; Cambridge, 14 mil. Universidades com 30 mil, 40 mil alunos, já são instituições de massa, e as nossas principais universidades, as federais e as estaduais paulistas, já ultrapassaram – e muito – esse teto.
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Em que bases esse trabalho deve ser feito?
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É preciso pensar modelos, propostas, projetos diversificados. A essência da universidade é o ensino e ele tem que ser associado à pesquisa. Já a inovação tecnológica abre um caminho novo. Nós já percorremos um caminho, chegamos relativamente tarde, mas isso não é desculpa. Parte das americanas também começou relativamente tarde, e as asiáticas também. É preciso propor um modelo diversificado capaz de atender a certas vocações, inclusive regionais. O MIT foi fundado para atender um projeto de desenvolvimento da região de Massachusetts. Em boa medida, o nosso problema deve-se a um modelo jurídico único à europeia que estabelece o mesmo arcabouço para todas as instituições. Temos que dispor de modelos diversificados, com vocações diferenciadas. A universidade que está na Amazônia precisa pensar um projeto, inclusive geopolítico, diferente daquele que existe no Sul do país.
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O senhor entende que a universidade está assumindo atribuições que não são suas?
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Sua pergunta não é fácil de responder (risos). Mas nesse contexto de expansão, de universidade de massa, há um sentimento generalizado de que ela ficou irracional, com uma estrutura resistente, pesada e burocrática, em que os meios engolem os fins. O professor está soterrado pelas demandas, tarefas que não têm nada a ver exatamente com ensino e pesquisa. Por outro lado, há aulas demais e pesquisas de menos, o que condena o aluno a uma total passividade. É um modelo em que o professor é o centro, a fonte do saber, e o aluno, o receptor. Isso está completamente ultrapassado. Nas universidades europeias e americanas, a carga de aulas é muito mais baixa, e a de pesquisa, muito mais elevada. É preciso dar um choque de racionalidade administrativa. Racionalizar melhor os processos nas diferentes frentes de ensino, pesquisa, extensão, inovação e assim por diante. Um colega do Canadá, que conhece bem o Brasil, comentou, a propósito do nosso modo de trabalhar nas instituições acadêmicas, que o governo e as instâncias superiores vivem desconfiados de que o professor não trabalha. O resultado disso é uma universidade “tarefeira”.
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Sobre a questão das atribuições, não chamaria exatamente de excesso, mas de superdimensionamento. Veja o caso da extensão. Algumas fazem mais, outras menos. Na França, a Sorbonne tem pouca extensão. A Universidade de Paris 4, por exemplo, oferece cursos de francês para estrangeiros. Oxford tem um grande centro de extensão, mas que funciona mais como prestação de serviços. A nossa extensão tem outro sentido, inclusive para suprir certas carências sociais.
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Parece que ela tenta preencher uma lacuna deixada pelo Estado...
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Pois é, faz parte da cultura da nossa universidade assumir esses encargos. Isso ocorre com as federais e as estaduais paulistas. O Hospital das Clínicas da Universidade de Campinas atrai pessoas de países vizinhos, da Bolívia, por exemplo. E como o de Campinas, os hospitais das Federais ultrapassam a dimensão de hospital-escola e passam a prestar um serviço à comunidade que adquire dinâmica própria e ocupa o primeiro plano. Defendo que alguma extensão as universidades devem fazer, não podem ficar exiladas intramuros. Só que isso precisa ser redimensionado. Há muito business e prestação de serviços em nossas atividades de extensão. É preciso voltar a focalizar a formação e o ensino.
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A extensão hoje ocupa um lugar mais importante do que a graduação na universidade brasileira?
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A extensão ficou inflada, inchada. Na extensão, repito, faz-se business, prestação de serviços e assistência. Quando falo de refundação, tenho em mente que é preciso pensar em profundidade os fundamentos da extensão, remodelando-a. Recentemente, trabalhamos no contexto do Instituto Brasil Europa, um projeto de pós-graduação lato sensu, que vai tentar propor um conceito mais robusto de extensão que não envolva apenas prestação de serviço, business e assistência, mas assuma também um compromisso maior com a difusão do conhecimento e com a educação continuada. Parece-me uma boa direção para pensar a extensão.
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Ainda sobre a graduação. Ela não enfrenta uma crise até mesmo em função dos encargos administrativos, das tarefas e da obrigação de publicar cada vez mais?
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Há uma tendência de ver a graduação como estorvo e patinho feio. A graduação também deve ser repensada profundamente. É preciso implantar um projeto mais inteligente, menos “aulista”, com mais pesquisa, menos engessada e cartorial, mais aberta a novas experiências, flexível. Nesse sentido, estamos realizando um seminário, A Universidade do Futuro, e em um de seus módulos, nos dedicamos a examinar a proposta de implantação de bacharelados interdisciplinares na UFMG. Já existem experiências parecidas nas universidades federais da Bahia e do ABC. São inspiradas em práticas das universidades americanas, que desenvolvem bacharelados interdisciplinares em grande escala na Califórnia e em outros estados que duram, em geral, dois anos e que oferecem uma formação mais ampla para o estudante que ingressa na instituição; depois essa formação é afunilada nos cursos profissionais. É uma proposta boa, pois evita uma opção precoce, da qual o aluno vai se arrepender depois e que vai obrigá-lo a fazer outro vestibular ou buscar uma reopção. Outra experiência é a de Harvard, que implantou há anos o currículo de General Education, graças ao qual é fornecida uma formação geral humanística, científica e tecnológica ao conjunto dos alunos da universidade logo nos primeiros anos.
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O produtivismo e a cultura dos rankings são marcas da universidade contemporânea. Como o senhor vê esses fenômenos?
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Só há culto aos rankings em ambientes com uma cultura produtivista e governada pelo marketing. Medir uma produção é uma forma de mostrar quem é quem, tirar a instituição ou o indivíduo do anonimato e patrocinar a concorrência. Os rankings permitem fazer a comparação e dão uma ideia de qualidade. Parece que vieram para ficar, só que provocam toda sorte de distorções, e isso me causa grande preocupação. Os rankings trocam o médio pelo curto prazo e sacrificam a qualidade, medindo-a pela quantidade. O ranking é comandado pela lógica do publish or perish, do publicar ou morrer, e isso tem a consequência de dividir o mundo entre vencedores e derrotados. Agora, você imagina uma academia dividida entre vencedores e derrotados, funcionando em bases de concorrência e não de cooperação?
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Como vê a questão das cotas? Elas comprometem a ideia de mérito?
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É uma matéria muito controversa e polêmica. Mas não acho que seja uma escolha entre cotas e mérito. É entre justiça e mérito, e creio ser possível balancear e equilibrar os dois princípios. Entendo que o mérito é sagrado, e se o governo e as universidades abrem mão dele e insistem em canetadas populistas fatalmente vão causar estragos terríveis e levar décadas de esforços à ruína.
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Mas a adoção das cotas é um processo sem volta...
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Exato, é uma questão que está posta. Em princípio, sou favorável a ações afirmativas por cotas, seja por critérios étnicos ou socioeconômicos, favorecendo as escolas públicas, desde que temporalizadas, limitando-as a determinado número de anos. É uma maneira de fazer justiça por meios políticos. Agora, a comparação com os Estados Unidos é inevitável. Lá se fazem ações afirmativas há mais de 50 anos, e o assunto ainda desperta muita polêmica. Há muitos estados que faziam ações afirmativas e não fazem mais, como a Califórnia, onde a população hispânica e de afro-americanos é muito grande. A universidade do Texas, por outro lado, faz uma ação afirmativa na linha da adotada pela UFMG [o bônus, aplicado nos vestibulares 2009, 2010, 2011 e 2012], só que muito mais ousada. Ela admite cerca de 80% dos seus estudantes sem vestibular, selecionando os melhores alunos nas escolas públicas. Já o Brasil chegou muito mais tarde, e a nossa população de não brancos é de 50%, bem superior à dos americanos. Chegou tarde e é urgente fazer isso. Temo, todavia, que a ênfase em critérios étnicos termine por racializar tudo e complique mais ainda as coisas, ao passo que o nosso problema maior, de longe, é a desigualdade social e econômica, que vem causando estragos históricos em todas as camadas pobres, independentemente das etnias ou das raças. Tenho a sensação de que as coisas estão sendo feitas a toque de caixa, com muito voluntarismo e pouca reflexão. A impressão que dá é que as medidas governamentais são populistas e imediatistas. Pegam o ensino pelo alto e deixam de lado o início e o meio, ou seja, os ensinos fundamental e médio. Não vejo nos governantes uma preocupação sincera em melhorar esses níveis de ensino. O médio vive um verdadeiro apagão e Brasília finge que não está acontecendo nada. Recentemente, o MEC propôs mais uma reforma de currículo. Meu medo é que as universidades paguem sozinhas a conta das cotas e, sem o sentido do mérito, acabem sucateadas. Daí as minhas reservas. Se a escola pública um dia for resgatada no primeiro e segundo graus, promovendo a democratização do acesso e a qualidade do ensino em nosso país, a política de cotas perderá a razão de ser e será esquecida.
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Que análise o senhor faz das principais tendências das universidades contemporâneas? As instituições asiáticas, por exemplo, cresceram muito.
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Os asiáticos alcançaram coisas incríveis. O Japão, a Coreia e, agora, a China.
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Suas instituições já conseguem penetrar nesse grupo de excelência formado pelas universidades americanas e europeias?
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Já sim. Muitas delas já aparecem entre as top 100 dos rankings internacionais, como o de Shangai. Vivemos num mundo cada vez mais globalizado, e, em termos geopolíticos, vê-se que a balança pende para a Ásia. Isso está criando uma nova dinâmica, que repercutirá cada vez mais nas instituições de ensino superior. Algumas das universidades asiáticas estão buscando aproximação com as americanas e inglesas. No caso da China, há escala e muita ambição. Mas a Coreia, que é menor, salvo engano tem um terço da população do Brasil, acumula realizações extraordinárias no ensino superior, inclusive com um modelo jurídico que favorece a aproximação com grandes empresas, como a Samsung.
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O Brasil está perdendo o bonde da história?
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Há uma janela de oportunidades observada pelos demógrafos e economistas. A população brasileira ficou mais estável, o país está mais rico, o crescimento populacional se estabilizou, os recursos podem ser melhor distribuídos. É uma janela única. Agora, ela só será aproveitada se houver investimento forte em educação, em ciência e tecnologia. E isso não está sendo feito. É urgente. É para ontem. Caso contrário, a janela vai fechar. Alguns economistas dizem que o melhor momento já passou e que estaríamos condenados nos próximos tempos a ser um país com uma população envelhecida e de renda média.
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Como o senhor analisa a trajetória da UFMG. Que futuro o senhor vislumbra para a Instituição?
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Tenho uma ligação muito forte com esta universidade. Aqui, fiz graduação e mestrado. Meu doutorado foi na França, na Sorbonne, mas com apoio da UFMG, que manteve meu salário de professor, e da Capes, que me concedeu a bolsa. É com orgulho que eu vejo a UFMG bem ranqueada. Sua história é muito positiva, e ela cresceu muito em quantidade e qualidade. Houve um esforço coletivo muito grande. Nós, professores, temos um ethos unificado, caracterizado pela aderência e coesão institucionais, que ajudaram muito a UFMG em sua história recente. Só que ela está cansada, as pessoas estão meio exauridas. Nosso ethos no fundo é o do mineiro, aclimatado a um meio específico, que é a academia, e ele ainda persiste, mas com fissuras, e elas precisam ser soldadas. Não quero estabelecer uma dicotomia intergeracional, mas pessoas que ingressam agora chegam com muita pressa.
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Como fazer essa “soldagem”?
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O ethos está dentro da gente, temos ou não o temos, e ele só se fortalece sendo exercitado. Soldar as fissuras e consertar os defeitos das instituições não é muito diferente da operação de reparar as avarias do navio em alto-mar, que deverá ser feita com o navio em movimento, e não com ele parado. Este é o caso da UFMG e da universidade pública brasileira. Como eu já disse, elas já estão fundadas, precisam ser refundadas, e a refundação é interna e passa pelo ethos. O mal que nos aflige pode ser facilmente diagnosticado e tem duas etiologias: uma é o produtivismo, que atinge uma parcela dos docentes; a outra é o tarefismo, cuja escala é maior ainda, atingindo virtualmente a todos e só poupando os egoístas e indolentes existentes em quaisquer instituições. Como erradicar esses males que, mesmo se vieram de fora, hoje estão absolutamente interiorizados? Convenhamos, não será fácil. No limite, teríamos de nascer de novo, e nisso consiste a refundação. As forças de resistência e da mudança deverão ser encontradas dentro de nós para resultar em um novo pacto.
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Em que termos esse pacto deve ser firmado?
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O pacto deve envolver uma agenda política, associada à escolha dos dirigentes e dos reitores. Mas não é só. Será preciso também dar um choque de gestão e de racionalidade, desonerando os docentes de parte das tarefas administrativas, transferidas a quadros técnicos mais qualificados e mais bem pagos. O pacto também deverá dar lugar a uma nova agenda do conhecimento que não sofra tanto a pressão dos mercados e do aumento da produtividade, que vai junto com o aumento do descarte e da entropia. As próximas gerações terão esse grande desafio. Universidades centenárias passaram por crise parecida e, bem ou mal, sobreviveram, mas mudando.
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O senhor entende ser sustentável o recente processo de expansão da universidade brasileira?
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Nesse sentido, sempre apresentei minhas reservas em relação ao Reuni do jeito que foi feito. Ele perdeu o “Re” e ficou com o “Uni”. A questão do tamanho não foi pensada. Os chineses não querem passar de 40 mil alunos, e nós já estamos com 52 mil. A USP tem quase 90 mil. Universidades desse tamanho são ingovernáveis. Penso que o caminho talvez seja expandir as federais em diferentes pontos do Brasil, escolhidos estrategicamente. Essa expansão é essencial para o nosso projeto de desenvolvimento. O país tem poucas universidades. A Região Metropolitana de Belo Horizonte tem espaço para outra federal, nas imediações de Betim e Contagem. É preciso projetar outras instituições com qualidade, focadas nas questões regionais. Não podem ser moldadas por camisas de força que as impeçam de desenvolver novas experiências. O melhor modelo é o que aposta na diversidade. Se na natureza diversidade é riqueza, na cultura não é diferente.
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Fonte: REVISTA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS - Ano 12 - Número 20 - abril de 2013. https://www.ufmg.br/diversa/20/entrevista.html

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A doença da "normalidade" na universidade

Renato Santos de Souza*
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Doença sempre foi algo associado à anormalidade, à disfunção, a tudo aquilo que foge ao funcionamento regular. Na área médica, a doença é identificada por sintomas específicos que afetam o ser vivo, alterando o seu estado normal de saúde. A saúde, por sua vez, identifica-se como sendo o estado de normalidade de funcionamento do organismo.
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Numa analogia com os organismos biológicos, o sociólogo Émile Durkheim também sugeriu como identificar saúde e doença em termos dos fatos sociais: saúde se reconhece pela perfeita adaptação do organismo ao seu meio, ao passo que doença é tudo o que perturba essa adaptação. Então, ser saudável é ser normal, é ser adaptado, certo? Não necessariamente: apesar de Durkheim, há quem considere que do ponto de vista social, ser normal demais pode também ser patológico, ou pode levar a patologias letais.
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Os pensadores alternativos Pierre Weil, Jean-Ives Leloup e Roberto Crema chamaram isto de Normose, a doença da normalidade, algo bem comum no meio acadêmico de hoje. Para Weil, a Normose pode ser definida como um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou por maioria em uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte. Crema afirma que uma pessoa normótica é aquela que se adapta a um contexto e a um sistema doente, e age como a maioria. E para Leloup, a Normose é um sofrimento, a busca da conformidade que impede o encaminhamento do desejo no interior de cada um, interrompendo o fluxo evolutivo e gerando estagnação.
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Estes conceitos, embora fundados sobre um propósito de análise pessoal e existencial, são muito pertinentes ao que se vive hoje na academia. Aqui, pela Normose não é apenas o indivíduo que adoece, que estagna, que deixa de realizar o seu potencial criador, mas o próprio conhecimento. E não apenas no Brasil, também em outras partes do mundo.
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Peter Higgs, Prêmio Nobel de Física de 2013 disse recentemente que não teria lugar no meio acadêmico de hoje, que não seria considerado suficientemente produtivo, e que, por isso, provavelmente não teria descoberto o Bosão de Higgs (a “partícula de Deus), descrito por ele em 1964 mas somente comprovado em 2012, quase 50 anos depois, com a entrada em funcionamento de uma das maiores máquinas já construídas pelo homem, o acelerador de partículas Large Hadron Collider. Higgs contou ao The Guardian que era considerado uma “vergonha” para o seu Departamento pela baixa produtividade de artigos que apresentava, e que só não foi demitido pela possibilidade sempre iminente de um dia ganhar um Nobel, caso sua teoria fosse comprovada. Ele reconheceu que, nos dias de hoje, de obsessão por publicações no ritmo do “publique ou pereça”, não teria tempo nem espaço para desenvolver a sua teoria. À sua época, porém, não só o ambiente acadêmico era outro como ele próprio era um desajustado, um anormal, uma espécie de dissidente que trabalhava sozinho em uma área fora de moda, a física teórica expeculativa. Então, sua teoria é também fruto desta saudável “anormalidade”.
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A mim, embora não surpreendam, as declarações de Higgs soam estarrecedoras: ou seja, com os sistemas meritocráticos de avaliação de hoje, que privilegiam a produção de artigos e não de conhecimentos ou de pensamentos inovadores, uma das maiores descobertas da humanidade nas últimas décadas, que rendeu a Higgs o Nobel em 2013, provavelmente não teria ocorrido, como certamente muitos outros avanços científicos e intelectuais estão deixando de ocorrer em função dos sistemas atuais de avaliação da “produtividade em pesquisa”. É a Normose acadêmica fazendo a sua maior vítima: o próprio conhecimento.
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Aliás, nunca se usou tanto a autoridade do Nobel para apontar os desvios doentios do nosso sistema acadêmico e científico como em 2013. Randy Schekman, um dos ganhadores do Nobel de Medicina deste ano, em recente artigo no El País, acusou as revistas Nature, Science e Cell, três das maiores em sua área, de prestarem um verdadeiro desserviço à ciência, ao usarem práticas especulativas para garantirem seus mercados editoriais. Schekman menciona, por exemplo, a artificial redução na quantidade de artigos aceitos, a adoção de critérios sensacionalistas na seleção dos mesmos e um absoluto descompromisso com a qualificação do debate científico. E afirmou que a pressão para os cientistas publicarem em revistas “de luxo” como estas (de alto impacto) encoraja-os a perseguirem campos científicos da moda em vez de optarem por trabalhos mais relevantes. Isto explica a afirmação de Higgs sobre ser improvável a descoberta que lhe deu o Nobel no mundo acadêmico de hoje.
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O próprio Schekman publicou muito nestas revistas, inclusive as pesquisas que o levaram ao Nobel: diferentemente de Higgs, que era um dissidente, Schekman também já sofreu de Normose. Porém, agora laureado, decidiu pela própria cura e prometeu evitar estas revistas daqui para adiante, sugerindo não só que todos façam o mesmo, como também que evitem avaliar o mérito acadêmico dos outros pela produção de artigos. Foi preciso um Nobel para que se libertasse da doença.
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A atual Normose acadêmica se deve à meritocracia produtivista implantada nas universidades, cujos instrumentos, no Brasil, para garantir a disciplina e esta doentia normalidade são os sistemas de avaliação de pesquisadores e programas de pós-graduação, capitaneados principalmente pela CAPES e CNPq. Estes sistemas têm transformado, nas últimas décadas, docentes e alunos em burocráticos produtores de artigos, afastando-os dos reais problemas da ciência e da sociedade, bem como da busca por conhecimentos e pensamentos realmente novos. A exigência de produtividade é um estímulo ao status quo, obstruindo a criatividade, a iniciativa, o senso crítico e a inovação, pois inovar, criar, empreender, fugir ao normal pode ser perigoso, pode ser incerto, pode ser arriscado quando se tem metas produtivas a cumprir; portanto, não é desejável: o mais seguro é fazer “mais do mesmo”, que é ao que a Normose acadêmica condenou as universidades e seus integrantes ao redor do mundo.
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Eu escrevi em um artigo de 2013 que a meritocracia leva a uma ilusão de eficiência e progresso que não podem se realizar, porque as meritocracias modernas são burocracias. Como bem ensinou Max Weber, a burocracia é uma força modeladora inescapável quando se racionaliza e se regulamenta algum campo de atividade, como acontece no sistema científico atual. Para supostamente discriminar por mérito pessoas e organizações acadêmicas, montou-se um tal sistema de regras, critérios avaliativos, hierarquias de valor, indicadores, etc., que a burocratização das ações acadêmicas tornou-se inevitável. Agora é este sistema que orienta as ações dos acadêmicos, afastando-os de seus próprios valores, desejos e convicções, para agirem em função da conveniência em relação aos processos avaliativos, visando controlar os benefícios ou penalidades que eles impõem. Pessoas sob regimes de avaliação meritocráticos se tornam burocratas comportamentais; e burocratas, como se sabe, pela primazia da conformidade organizacional a que se submetem, tornam-se inexoravelmente impessoalistas, formalistas, ritualistas e avessos a riscos e a mudanças. Tornam-se normóticos, preferindo, no caso da academia, uma produção sem significado, sem relevância, sem substância inovadora porém segura, a aventurarem-se incertamente em busca do novo.
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Agora, depois de já ter escrito isto naquele artigo, descubro que o Nobel de Medicina de 2002, o sul-africano Sydney Brenner, em entrevista de fevereiro deste ano à King’s Reviw, afirmou exatamente o mesmo. Dentre outras coisas, disse ele que as novas ideias na ciência são obstruídas por burocratas do financiamento de pesquisas e por professores que impedem seus alunos de pós-graduação de seguirem suas próprias propostas de investigação. É ao menos alentador perceber que esta realidade insólita não é apenas uma versão tupiniquim da busca tardia e equivocada por um lugar o sol no campo acadêmico atual, mas uma deformação que assola também os “grandes” da arena científica mundial. E também constatar que os laureados com a distinção do Nobel tem se percebido disto e denunciado ao mundo.
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De certa forma, todos na academia sabem que estes sistemas de avaliação acadêmicos têm levado a um produtivismo estéril, mas isto não tem sido suficiente para mudar nem as condutas pessoais, nem as diretrizes do sistema, porque a Normose é uma doença coletiva, não individual. Ela advém da necessidade de legitimação do indivíduo frente ao sistema de regras, normas, valores e significados que se impõe a ele. Por isto é que o pesquisador australiano Stewart Clegg afirmou, certa vez, que “pesquisadores que buscam legitimação profissional podem com muita facilidade ser pressionados a aprender mais e mais sobre problemas cada vez mais desinteressantes e irrelevantes, ou a investigar mais e mais soluções que não funcionam”.
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Mas agora me advém uma questão curiosa: por que tantos Nobéis tem denunciado este sistema? Creio que porque do alto da distinção recebida, eles já não tem mais nenhum compromisso com a meritocracia acadêmica, e podem falar do dano que ela causa às ideias realmente inovadoras que, inclusive, podem levar à láurea. Mas também porque o Nobel foge à lógica da meritocracia, ele não é um mecanismo meritocrático, portanto, não é burocrático. Ele é até mesmo político, antes de ser meritocrático e burocrático! É um reconhecimento de “mérito” sem ser uma “cracia”. Ou seja, não há, através dele, um sistema de governo das atividades científicas, e por isso ele não leva a uma racionalidade formal, pois ninguém em consciência normal pautaria sua atividade acadêmica quotidiana pela improvável meta de, talvez já na velhice, ganhar o Nobel; e mesmo que tivesse este excêntrico propósito como pauta, teria que fugir da meritocracia que governa os sistemas científicos atuais para chegar a um lugar reconhecidamente distinto, pois ser normal não leva ao Nobel.
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Mas este não é o mundo da vida dos seres acadêmicos de hoje, aqui vivemos em uma meritocracia burocrática, e num contexto assim, pouco adiantam as advertências da editora-chefe da revista Science, Marcia McNutt, publicados no Estadão, de que a ciência brasileira precisa ser mais corajosa e mais ousada se quiser crescer em relevância no cenário internacional. Segundo ela, para criar essa coragem é preciso aprender a correr riscos, e aceitar a possibilidade de fracasso como um elemento intrínseco do processo científico. Mas quando as pessoas são penalizadas pelo fracasso, ou são ensinadas que fracassar não é um resultado aceitável, elas deixam de arriscar; e quem não arrisca não produz grandes descobertas, produz apenas ciência incremental, de baixo impacto, que é o perfil geral da ciência brasileira atualmente, segundo ela. É a Normose acadêmica “a brasileira” vista de fora.
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Somos todos normóticos em um sistema acadêmico de formação de pesquisadores e de produção de conhecimentos que está doente, e nossa Normose acadêmica tem feito naufragar o pensamento criativo e a iniciativa para o novo em nossas universidades. Sem eles, porém, não há futuro significativo para a vida intelectual dentro delas, nem na ciência nem nas artes.
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Texto de Renato Santos de Souza, publicado no E-Book: NASCIMENTO, L.F.M. (Org.) Lia, mas não escrevia (livro eletrônico): contos, crônicas e poesias. Porto Alegre: LFM do Nascimento, 2014. Fonte: Pragmatismo Político

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Sintomas de uma ciência doente

SOURCE: THOMSON REUTERS JOURNAL CITATION REPORTS
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Quatro periódicos brasileiros foram punidos por burlar o sistema de citações para aumentar seu fator de impacto (FI).
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Foi publicada hoje (29.08), na revista Nature, uma matéria que revela um esquema de citações usado por revistas acadêmicas brasileiras para aumentar seu fator de impacto (FI): medida que reflete o número médio de citações de artigos científicos publicados em determinado periódico.
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A auto citação, que compreende a citação de trabalhos da mesma revista em que o artigo será publicada, já é uma prática dita antiga e vem sido rastreada e punida pela Thomson Reuters. No entanto, revistas brasileiras tentaram burlar o sistema com o famoso jeitinho brasileiro. Quatro revistas, dentre elas a Clinics, fizeram uma combinação para que uma revista citasse artigos da outras revistas do esquema. Os editores acreditaram que o sistema não detectaria este movimento, no entanto, foram pegos em flagrante. Como punição, estas quatro revistas brasileiras terão seu FI suspenso por um ano.
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Maurício Rocha-e-Silva, ex-editor de uma das revistas punidas (despedido após descoberta da fraude), disse à revista Nature que o plano nasceu de uma frustração criada pela fixação brasileira por FI. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) avalia cursos de pós-graduação com base nos fatores de impacto em que os estudantes publicam. Como a maioria das revistas brasileiras emergentes apresentam fator de impacto muito baixo, os estudantes buscam publicar nas que tem maior impacto e isso alimenta um ciclo vicioso. A CAPES afirmou que não levará em conta os artigos publicados pelas revistas punidas no período de 2010-12 na avaliação dos cursos de pós-graduação CAPES 2013. Além das revistas, cursos de pós-graduação serão punidos com esta medida e possivelmente terão sua avaliação prejudicada e receberão menos recursos da CAPES.
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A tentativa de burlar o sistema demonstra uma ciência doente, regida por uma rígida avaliação que leva em conta o número de publicações e o FI das revistas em que os pesquisadores publicam. Toda esta cobrança faz com que pesquisadores de todo o país entrem numa corrida por publicar um artigo atrás do outro e são forçados a “esquecer” que existe vida fora dos laboratórios, universidades e centros de pesquisa. Palestras, textos em linguagens simplificadas e utilização de outros meios para divulgar a pesquisa para um público não especialista é um hábito praticamente em extinção na comunidade científica brasileira.
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Montemos um modelo básico de como funciona a pesquisa: A CAPES injeta dinheiro público nos cursos de pós-graduação. Os cursos de pós-graduação publicam cada vez mais artigos e em revistas de FI cada vez mais elevados. Com isso os cursos são melhores avaliados pela CAPES e recebem mais recursos para mais pesquisas e mais publicações. Parece lógico que esta engrenagem funcione, no entanto, funciona graças a recursos públicos utilizados. Então, de certo modo, a sociedade financia parte da pesquisa feita em nosso país. Segue a pergunta que os pesquisadores não gostam de ouvir: A sociedade sabe o que o pesquisador faz dentro do laboratório? Em outras palavras: A sociedade sabe como está sendo investido (ou gasto) o recurso público usado para financiar pesquisas? Todo este sistema de cobrança e avaliação desencoraja os pesquisadores a comunicarem sua pesquisa para a comunidade não acadêmica de forma compreensível. Em analogia, a ciência e sociedade brasileira encontram-se em placas tectônicas distintas e em constante afastamento.
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“As Universidades Públicas são instituições de ensino com um importante papel social: gerar e difundir conhecimento. Isto significa dizer que as universidades públicas podem e devem contribuir para o desenvolvimento da sociedade através das pesquisas que desenvolve e dos alunos que forma, esta é sua função, é com esse objetivo que ela é mantida.” guiadedireitos.org/
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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

HOMO LATTES



 


 Por Sérgio Bruno Martins
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Em
artigo publicado neste caderno na semana passada, o professor Angelo Segrillo toca num ponto delicado: os processos de seleção para professores em universidades públicas. Trazendo a público um “segredo de polichinelo”, ele relata que não é raro acontecerem concursos claramente “arranjados” para favorecer candidatos ligados a grupos específicos e outras artimanhas do gênero. Contra esse quadro patrimonialista, sugere Segrillo, o ideal seria aproveitar o atual clima de insatisfação “com todo tipo de corrupção no país” para se propor mecanismos mais transparentes, impessoais e padronizados; uma possibilidade aventada é a criação, pelo Ministério da Educação, de uma comissão independente para este fim.
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Concordo integralmente com Segrillo a respeito da necessidade de enfrentar abertamente essa questão. No entanto, creio que o enfoque na corrupção perde de vista sua dimensão mais fundamental: a estrutura acadêmica da qual o atual modelo de concursos públicos faz parte. A ênfase na moralização dos concursos não só deixa intocada tal estrutura, como tende a reforçá-la; é como se nada em seu cerne merecesse crítica, faltando apenas azeitar melhor a máquina através de um controle mais rigoroso das pessoas que nela operam. A palavra de ordem é impessoalidade. Mas será que tudo realmente se resume ao erro humano? E será que tamanha padronização não ameaçaria a diversidade de universidades e departamentos? Não seria o caso de dar um passo atrás e recolocar o problema dos concursos num contexto mais amplo?
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Em linhas gerais, o modelo de conhecimento que rege a universidade pública no Brasil hoje pode ser descrito como produtivista e objetivista. Produtivista porque enfatiza a produção constante e abundante, sobretudo na forma de artigos em revistas indexadas. Objetivista porque toda essa produção é qualificada de acordo com uma escala pré-estabelecida de categorias e assim traduzida em pontos. Eis o dogma deste modelo: todo dado qualitativo será redutível a termos quantitativos. E eis seu corolário: o valor de um pesquisador será determinado, de forma análoga, pela soma dos pontos marcados pela sua produção. Nasce assim o Homo lattes, um produtor de conhecimento determinado por toda uma estrutura que não cessa de lhe dizer: “quanto mais, melhor”.
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Objetividade enganosa
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Numa banca de seleção, isso leva com frequência à seguinte cena: ao invés de ler, analisar e discutir o mérito e a pertinência de um conjunto selecionado de trabalhos de um determinado candidato para a vaga que se quer preencher, o que os examinadores fazem é somar os pontos “contidos” em seu currículo completo (numa aberração adicional, o candidato é obrigado a enviar de antemão um volumoso dossiê de documentos comprovando a autenticidade de todo e qualquer item listado em seu currículo; no trato com a burocracia, o que vige é a presunção de desonestidade). Estranhamente, o que a banca lê durante o concurso não são textos produzidos no dia a dia da pesquisa, mas uma prova com ponto sorteado na véspera. Nesse insólito vestibular para professor, o que é efetivamente avaliado é o desempenho do candidato em condições extremamente tensas e adversas (o que, nos dias de hoje, inclui escrever de próprio punho), e que não se assemelham a nada com que ele vá lidar profissionalmente caso seja selecionado. Somados os pontos (sempre eles...) de todas as etapas do processo, está escolhido, de forma supostamente objetiva, o futuro professor.
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O Homo lattes tirando uma pilha de fotocópias comprobatórias e o professor convidado a contar pontos em currículos inchados nada mais são do que duas imagens extremas — mas tristemente normalizadas, porque corriqueiras — do que a academia está se tornando sob os auspícios do produtivismo e do objetivismo. Que formação intelectual pode advir desse contexto? Que ética do conhecimento está implícita aí? Que espécie de saber se pode esperar desse acadêmico burocratizado? Queremos acadêmicos conformados ao que já se conhece, ou capazes de abrir perspectivas críticas e científicas?
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É sobre perguntas como essas, e não apenas sobre remédios para a corrupção, que o problema dos concursos deve nos fazer pensar. E, dito isso, vale perguntar também se o patrimonialismo de que fala Segrillo é de fato um defeito pontual no sistema, ou se ele não é em certa medida um produto deste. Afinal de contas, não há álibi mais perfeito para os que conhecem bem os meandros burocráticos e os meios de manipulá-los: a escolha do professor, por mais enviesada que seja, estará sempre legitimada de antemão pela suposta objetividade do processo. Não seria mais interessante abandonar esse mito da objetividade de uma vez por todas e buscar transformar os processos de seleção numa oportunidade de cultivar discussões consequentes a respeito dos rumos de um determinado departamento ou universidade? Será que todo argumento subjetivo deve ser banido da discussão sob suspeita de ser necessariamente escuso? Não é possível imaginar que uma discussão menos mediada por rankings e pontuações possa ter o benefício justamente de trazer à luz as disputas intelectuais e políticas que acontecem e vão continuar acontecendo? Melhor que tentar debelar tais disputas é torná-las parte de uma dinâmica acadêmica mais organicamente engajada com os rumos das universidades.
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Assim como o que está em jogo nas manifestações atuais não é simplesmente a corrupção, mas sobretudo uma crise na própria estrutura da democracia representativa (da qual a corrupção é provavelmente um dos sintomas), o problema das universidades também não pode ser reduzido aos desvios de conduta de grupos e indivíduos (que, quando ocorrerem, devem evidentemente ser punidos). É verdade que uma mudança estrutural desse patamar em nossa cultura acadêmica pode parecer com uma montanha a ser movida. É verdade também que isso envolve certas questões que extrapolam o âmbito da universidade (por exemplo: até que ponto é possível resguardar a singularidade profissional do professor universitário em meio às leis que regem o funcionalismo público?). Porém, e creio que aqui estou novamente de acordo com Segrillo, o silêncio certamente não serve ao interesse comum.
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Sérgio Bruno Martins é doutor em história da arte pela University College London

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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Universidades e as cotas

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Editorial
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É confortante imaginar que a pretensão governamental expressa no Plano Nacional de Educação é universalizar o Ensino médio até 2016. Atualmente apenas 50% dos jovens de 15 a 17 anos frequentam esse nível do Ensino básico. Consequentemente, a demanda pelo Ensino superior, que já vinha aumentando, será gigantesca nos próximos quatro anos. Uma passagem lateral de entrada para uma parte pequena desse novo público está sendo criada nas universidades federais. A Lei nº 12.711/2012, sancionada pela presidente Dilma, aparentemente parece representar uma opção preferencial pelos pobres. No texto da lei consta que 50% das vagas, por curso e turno, devem ser reservadas aos que cursaram todo Ensino médio em Escolas públicas. Desse universo de reserva, metade deve ser destinada a estudantes de famílias com renda per capita de até um salário mínimo e meio. Além disso, brasileiros autodeclarados negros, pardos e indígenas, em proporção no mínimo igual ao percentual desses grupos dentro da população do estado da instituição de Ensino, também devem constar nos 50% de vagas reservadas.
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Antes da sanção no Palácio do Planalto, manifestações pró e contra o teor da lei foram ouvidas em várias partes do território brasileiro. Lamentável é que o direito à Educação de qualidade, que deveria ser universal, tornou-se alvo de disputas. Entretanto, a questão exige uma reflexão maior. O estrangulamento na passagem do Ensino médio ao Ensino superior público e de qualidade não pode ser resolvido por uma simples equação, mesmo que temporária.
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É indispensável que haja uma intervenção governamental direta que vise a redução das desigualdades. Não se pode negar aqui a dívida histórica e social que existe para com os afrodescendentes, indígenas e os mais pobres e que nunca antes na história deste país foi levada à sério. No inciso IV do artigo 3º da Constituição brasileira determina-se que o Estado deve promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Uma das saídas deveria ser a ampliação do número de ofertas de vagas em universidades públicas compatível com a demanda dos brasileiros, já que o direito à Educação para todos é também assegurado no artigo 205 da Constituição.
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Devido à ineficiência do Estado, neste momento assistimos ao estreitamento das possibilidades de entrada nas universidades federais para os que procuraram o Ensino privado. Cabe ressaltar que essa opção é feita frequentemente pela ausência de Escolas públicas de qualidade, muitas vezes com a dura renúncia de uma vida mais confortável e tranquila por parte das famílias durante anos a fio. Ao mesmo tempo, uma política compensatória permitirá a um pequeno grupo ter acesso ao Ensino superior. No entanto, a maior parte desses brasileiros, diga-se de passagem, continuará fora do Ensino superior de qualidade.
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Entretanto, os verdadeiros desafios para equacionar o problema não estão sendo enfrentados. Por um lado, a ampliação das vagas em universidades públicas e de boa qualidade compatíveis com as demandas da sociedade brasileira. A criação de câmpus e universidades ainda está muito aquém do necessário. Por outro, a melhoria nas condições de trabalho, salário e qualificação dos Professores do Ensino básico tornando a profissão atraente para angariar para categoria estudantes mais preparados. Em ambos os casos, é necessário que, além de bem aplicados, haja investimentos financeiros significativos.
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Entretanto, vejamos dois exemplos que demonstram haver caminhos em outra direção. Pelas regras atuais, o piso salarial dos Professores deve ser reajustado de R$ 1.187 para R$ 1.451 por 40 horas de trabalho. Esse valor é inferior a dois salários mínimos e meio. Entretanto, os governadores de Mato Grosso do Sul, Goiás, Piauí, Rio Grande do Sul, Roraima e Santa Catarina recorreram ao Supremo Tribunal Federal para pedir a revisão do critério de reajuste alegando que esse valor é insustentável para as contas públicas. Por outro lado, ainda é alvo de discussão no Congresso Nacional, com forte rejeição de inúmeros grupos, o aumento da aplicação de 5% para 10% do PIB na Educação. Os mais conservadores chegam a dizer que deveríamos copiar os Estados Unidos onde esse gasto é de 5,71%. Cabe aí uma ressalva: o PIB americano é 14 vezes superior ao brasileiro.
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Enfim, enquanto nossos governantes continuarem pensando pequeno em termos de Educação não teremos um Ensino compatível com as necessidades da nação brasileira. Nesse contexto de falta de recursos básicos, só restarão medidas paliativas que supostamente garantirão direitos de alguns a partir de exclusão de outros.
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Fonte: Estado de Minas (MG)

domingo, 1 de abril de 2012

Sinal amarelo para as universidades particulares

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Fechamento de faculdade, denúncias de fraude em exame do MEC em 30 instituições privadas e ondas de demissão de professores colocam o governo diante do desafio de regular um setor no qual estudam 78% dos alunos do ensino superior

Por Rachel Costa
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Em menos de três meses, a repercussão de problemas em cinco grandes grupos educacionais particulares acendeu o sinal de alerta para o ensino superior privado brasileiro. Só nos últimos dez dias, o Ministério da Educação (MEC) descredenciou a Universidade São Marcos, em São Paulo, e divulgou auditoria para investigar possíveis fraudes no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) da Unip e de outras 30 instituições. Na mesma semana, o Serviço de Proteção ao Consumidor (Procon) de Campinas notificou a União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo (Uniesp) por suspeita de propaganda enganosa relativa ao Programa de Financiamento Estudantil (Fies). A mesma instituição já foi proibida pelo MEC de usar a sigla Uniesp – por sugerir que se trata de uma universidade – e responde a diversos processos. Some-se a isso a demissão de cerca de dois mil professores pelos grupos educacionais Galileo e Anhanguera, seguida por queixas relativas ao aumento do número de alunos por sala de aula, a redução da carga horária presencial e a perda de qualidade nos cursos. Este cenário conturbado leva a uma pergunta obrigatória: estaria o aluno que ingressa nas faculdades particulares muitas vezes levando gato por lebre?
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Por todo o País, as instituições privadas multiplicam-se rapidamente. De acordo com o último Censo da Educação Superior, elas já somam mais de 2.099 instituições – em 2000, esse número era menos da metade. Nelas estão 78% das matrículas no ensino superior e um poder de movimentação financeira de mais de R$ 28 bilhões anuais, de acordo com o último relatório do grupo Hoper, consultoria especializada em educação. O tamanho desses números impõe ao Ministério da Educação o desafio de não deixar que a educação se torne mero negócio. “Não há dúvida de que vamos precisar de mais gente e de pessoal especializado para dar conta dessa demanda”, diz Luís Fernando Massonetto, responsável pela recém-criada Secretaria de Regulação do Ensino Superior do MEC. O órgão, em funcionamento há menos de um ano, é uma resposta do Ministério aos mandos e desmandos perpetrados por instituições privadas. “Esperamos que com a secretaria se tornem mais claras as regras que devem ser seguidas pelas instituições particulares”, diz Adércia Hostin, da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino.
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Diante da dificuldade de controlar o setor, o que se vê são muitos alunos à deriva, sem saber o que fazer diante de arbitrariedades. Caso de Luiz Augusto de Sá, 24 anos, que foi obrigado a mudar sua formação superior de filosofia para psicologia. Aluno da Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, ele descobriu, no início do ano, que seu curso havia sido extinto. “A reitoria achou inviável mantê-lo e o encerrou. Fomos informados da decisão só em janeiro”, conta. O fechamento súbito soma-se a duas ações coletivas na Justiça contra a instituição, recém-adquirida pelo grupo Galileo: uma por causa do aumento abusivo de mensalidades (que, no cálculo dos alunos, variou entre 18% e 40%) e outra para reverter a demissão em massa dos professores. “Com base nas homologações que recebemos, já são mais de 400 demitidos”, diz Wanderley Quêdo, presidente do Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro. “Não tem como manter qualidade do ensino sem corpo docente.” O acúmulo de problemas tem incomodado os alunos. “Desde o início do ano, fizemos duas assembleias, com cerca de 500 estudantes em cada uma”, diz Igor Mayworm, aluno de história na Gama Filho e presidente da União Estudantil do Estado do Rio de Janeiro. “Em uma delas conseguimos levar o reitor, que prometeu sanar a falta de professores, mas isso ainda não aconteceu.” Procurado por ISTOÉ, o grupo Galileo não quis se manifestar. Situação semelhante, porém ainda mais grave, acontece na Universidade São Marcos. Descredenciada pelo MEC por descumprir ordem de não realizar vestibular e sem pagar os professores, a instituição deixou ao léu seus mais de dois mil estudantes. Douglas Claudino, 30 anos, aluno do último período de administração da São Marcos, descobriu que a transferência obrigatória para outra universidade irá lhe valer ao menos mais um ano de curso. “Ia me formar agora, no meio de 2012”, diz. Embora muitos estudantes não tivessem a informação, a situação crítica da São Marcos não é nova. “Desde 2007 estamos alertando o MEC sobre problemas nessa instituição”, diz Celso Napolitano, presidente da Federação dos Professores do Estado de São Paulo (Fepesp). “Ela já deveria ter sido fechada há muito tempo.” Napolitano critica o Ministério pela morosidade na avaliação das denúncias e na tomada de medidas.
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Quem estuda o ensino superior brasileiro, porém, garante que os casos assistidos nos últimos meses são apenas a ponta do iceberg. Por detrás desses escândalos está a incompatibilidade entre a regulação existente e as mudanças que têm ocorrido no setor, cada vez mais dominado por grandes grupos empresariais. “A Lei de Diretrizes e Bases da Educação e outras portarias e decretos nos anos 1990 promoveram uma flexibilização muito grande do marco regulatório”, diz Aparecida Tiradentes, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio. A especialista critica a falta de limites aos grupos empresariais que optam por maximizar seus lucros sem se preocupar com a qualidade do ensino. Para o professor Otaviano Helene, ex-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o risco que se corre é o de deixar a educação sujeita apenas à lógica de mercado. “O que temos hoje são cursos de baixo retorno social, concentrados em poucas áreas de conhecimento, com carga horária pequena e distribuição geográfica equivocada”, resume.
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quarta-feira, 2 de março de 2011

A universidade pública e o seu papel no desenvolvimento local

Por Tatiane Alves Baptista*

A universidade pública precisa criar e incentivar mecanismos para ampliar sua capacidade de interação com a sociedade. No entanto, internamente, a extensão é constantemente considerada menor entre as atribuições dos docentes. Ela, muitas vezes, é reduzida a uma mera prestação de serviços, dependendo sempre das demandas externas, já que os recursos são poucos para as pesquisas independentes. Por isso, vivemos num dilema entre o fundamental na universidade e a universidade fundamental para a sociedade. Para superá-lo, teríamos que entender o valor do social e cultural da comunidade que envolve a instituição: gerar conhecimento no contato cotidiano com a realidade. Algo bem diferente ao modelo de aprendizagem baseado em repetição, rotina e burocracia.

Depois da Constituição Federal de 1988, ficou sob a responsabilidade dos municípios elaborar, gerenciar e prestar contas dos projetos existentes na cidade. Mas o elevado processo de emancipação e crescimento dos municípios vem reduzindo a capacidade da prefeitura de enfrentar problemas como na saúde, lixo, violência e educação sozinha. A universidade pode capacitar profissionais em âmbito municipal, colocando-o como ator estratégico para uma melhor gestão pública. A instituição não pode substituir o poder local, mas pode ajudar o município a reconhecer os problemas sociais, auxiliando com a produção do conhecimento e a criação de soluções viáveis e criativas. A universidade poderia capacitar agentes públicos, prestar consultoria à comissões, conselhos, movimentos sociais e ajudar outros grupos de políticas públicas com conhecimento.

Embora já existam ações exemplares em algumas instituições, a maioria raramente corresponde a uma prática bem estruturada. A extensão geralmente acontece como um movimento para atender demandas emergênciais, como epidemias e catástrofes. Se a extenção fosse bem praticada, ela elevaria a universidade pública ao patamar de uma agência do desenvolvimento regional.
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* Professora Coordenadora de Estudos Estratégicos e Desenvolvimento da UERJ
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Fonte: O Globo

domingo, 31 de outubro de 2010

NOTÍCIAS...

Comunidade do orkut incentivava a agressão

"Rodeio de gordas" dos jogos da Unesp era 'ensinado' e estimulado na internet

por José Maria Tomazela e Cláudio Dias, Especial "O Estado de S. Paulo" - 28 out. 2010

Uma comunidade do site de relacionamentos Orkut chamada Rodeio da Gorda reúne 21 integrantes desde 27 de janeiro de 2006. O grupo se dedica a agarrar e montar em cima de garotas obesas em festas universitárias. Na página, retirada da internet após a divulgação do caso, os estudantes explicam a “brincadeira que virou mania no Interunesp de Araraquara 2010".

O líder da comunidade, identificado como Tiago Kodic, ensina: “Quando você estiver numa balada/festa/baile com seus amigos e já tiver tomado algumas/várias, ache a mina mais gorda da balada, daí um de vocês chega nela por trás e coloca os braços em volta dela. Então sussurre no ouvido dela ‘você é a coisa mais gorda que eu já vi’ e vê quanto tempo você consegue segurara!”.

Nas regras, os agressores estabelecem que “todo peão deve permanecer oito segundos segurando a gorda”. O tempo é reduzido para cinco segundos se ele “segurar com uma mão só”. Um parágrafo fala sobre o corpo da vítima, que deve ser “bem grande”, e destaca a premiação a ser dada à “gorda bandida” – possível referência a um touro difícil de ser montado –, um sanduíche gigante. As “gordas bandidas”, explica a comunidade, são mais valiosas. “Quanto maior o número de coices despejados, mais pontos.” O internauta Daniel comenta: “Da primeira montaria eu me lembro como se fosse ontem, como eu era inexperiente e ela era uma bandida, eu fiquei apenas três segundos.” Outro, identificado como Goyano, anuncia o “World Chicks Championship Rodeo” para 2011. “Contamos com a presença de todos os bravos toureiros.”

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

NOTÍCIAS...

Comissão terá 60 dias para apurar responsabilidades pelo "Rodeio das Gordas"

ELIANE TRINDADE, DE SÃO PAULO - 29 out. 2010

A Comissão instaurada ontem pela Unesp terá 60 dias para apurar responsabilidades pelo "Rodeio das Gordas". Cerca de 50 alunos participaram da agressão. Na portaria que dá início formal ao processo disciplinar são citados nominalmente os estudantes Roberto Paulo de Freitas Negrini e Daniel Prado de Souza. Negrini é apontado como um dos promotores do "rodeio". Ele disse que tudo foi uma "brincadeira".

Procurado, Souza afirmou que "meus pais me orientaram a não falar com a imprensa". Segundo ele, "quando for procurado pela comissão, me manifestarei". O "rodeio" ocorreu em tenda no estacionamento do Centro Esportivo Araraquara. "O rodeio consistia em pegar as garotas mais gordas que circulavam nas festas e agarrá-las como fazem os peões nas arenas", relata Mayara Curcio, 20, aluna do quarto ano de psicologia, que participa do grupo de 60 estudantes que se mobilizaram contra o bullying.

O processo disciplinar estará a cargo de uma comissão formada por dois professores e um funcionário, assessorados por um advogado. O presidente da comissão é o professor Cláudio Edward dos Reis, do Departamento de Psicologia Experimental. A primeira reunião da comissão deverá ocorrer logo depois do feriado de Finados.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/822248-comissao-tera-60-dias-para-apurar-responsabilidades-pelo-rodeio-das-gordas.shtml

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

NOTÍCIAS...

Estudantes fazem ato contra "Rodeio das Gordas" promovido por alunos da Unesp

Desenho do rodeio com a frase "Desculpas não resolvem" em prédio da Unesp em Assis; alunos fazem ato Foto: Daniel Bergamasco/Folhapress

ELIANE TRINDADE, DE SÃO PAULO - 28 out. 2010

Um grupo de alunos do campus de Assis da Unesp (Universidade Estadual Paulista) realiza hoje nova manifestação para cobrar da direção da instituição medidas contra os estudantes envolvidos no "Rodeio das Gordas". É o mesmo grupo que denunciou as agressões a colegas obesas nos jogos universitários InterUnesp 2010.

"Além de sindicância para apurar os fatos, vamos exigir punição aos culpados", afirma Késia Rocha, presidente do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Sexualidade, ONG que disponibilizou assessoria jurídica gratuita às vítimas. A simulação de rodeio ocorreu durante as festas do evento em Araraquara, entre 9 e 12 de outubro. A manifestação está marcada para as 14h. Para o mesmo horário também está prevista uma reunião da congregação universitária da instituição. De acordo com a assessoria de imprensa da Unesp, no encontro a direção vai informar as providências que estão sendo tomadas no caso.

PUNIÇÃO

Amanhã deve ser publicada a portaria que instaura o processo disciplinar contra os alunos envolvidos. A "brincadeira", como classificou Roberto Negrini - um dos que organizaram a simulação de rodeio - consistia em se aproximar da garota, de preferência obesa, como em uma paquera, dizer "Você é a menina mais gorda que eu já vi", agarrá-la e tentar ficar sobre elas o máximo de tempo possível.

Segundo Negrini, não havia agressão e as meninas podiam se soltar se quisessem. O vídeo em que os organizadores do "rodeio" pedem desculpas e se dizem surpresos com a repercussão do caso vai ser analisado pela comissão disciplinar. As punições previstas vão desde advertência à suspensão e expulsão.

A promotora de Araraquara, Noemi Corrêa, também instaurou ontem procedimento para apurar os fatos e a responsabilidade dos organizadores do InterUnesp no episódio. "Fiquei chocada ao ver como os estudantes não demonstram respeito para com o próximo", afirma. O delegado seccional de Araraquara, Fernando Luiz Giaretta, também afirmou que vai instaurar inquérito para apurar o caso, revelado ontem pela

A OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil) também emitiu nota de repúdio à agressão.

Promotoria abre procedimento para apurar "rodeio de gordas" no interior de SP

DE SÃO PAULO - 27 out. 2010

Promotora Noemi Correa, de Araraquara, instaurou procedimento para apurar uma "competição" organizada por um grupo de alunos da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e que foi batizada de "Rodeio das Gordas". O objetivo era agarrar as colegas, de preferências as obesas, e tentar simular um rodeio - ficando o maior tempo possível sobre a presa. Reportagem publicada nesta quarta-feira pela Folha mostra que a agressão ocorreu no InterUnesp 2010, jogos universitários realizados em Araraquara, de 09 a 12 de outubro.

"Fiquei assustada com a falta de respeito desses estudantes com o próximo", afirmou a promotora. Em nota, o presidente da seccional São Paulo da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Luiz Flávio Borges D'Urso, também criticou o "rodeio". "Essa agressão não pode ser tratada como um episódio inconsequente. Faz um simulacro do gado na arena de rodeio. Negou-se às alunas seu direito mais precioso: a dignidade da pessoa humana, que é um valor ético do qual não podemos abrir mão, especialmente dentro de uma instituição de ensino, à qual caberia observar esse valor".

AGRESSÃO

Roberto Negrini, estudante do campus de Assis, um dos organizadores do "rodeio das gordas" e criador da comunidade do Orkut sobre o tema, diz que a prática era "só uma brincadeira". Segundo ele, mais de 50 rapazes de diversos campi participavam. Conta que, primeiro, o jovem se aproximava da menina, jogando conversa fora --"onde você estuda?", entre outras perguntas típicas de paquera.

Em seguida, começava a agressão. "O rodeio consistia em pegar as garotas mais gordas que circulavam nas festas e agarrá-las como fazem os peões nas arenas", relata Mayara Curcio, 20, aluna do quarto ano de psicologia, que participa do grupo de 60 estudantes que se mobilizaram contra o bullying.

Fonte: Folha de São Paulo

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

NOTÍCIAS...

Alunos universitários agridem colegas da Unesp em "rodeio de gordas"

ELIANE TRINDADE, SÃO PAULO e DANIEL BERGAMASCO - EDITOR-ADJUNTO DE COTIDIANO

Um grupo de alunos da Universidade Estadual Paulista, uma das mais importantes do país, organizou uma "competição", batizada de "Rodeio das Gordas", cujo objetivo era agarrar suas colegas, de preferências as obesas, e tentar simular um rodeio --ficando o maior tempo possível sobre a presa.

A agressão ocorreu no InterUnesp 2010, jogos universitários realizados em Araraquara, de 10 a 13 de outubro. Anunciado como o maior do país, o evento esportivo e cultural, que reuniu 15 mil universitários de 23 campi da Unesp, virou palco de agressão para alunas obesas. Roberto Negrini, estudante do campus de Assis, um dos organizadores do "rodeio das gordas" e criador da comunidade do Orkut sobre o tema, diz que a prática era "só uma brincadeira".

Segundo ele, mais de 50 rapazes de diversos campi participavam. Conta que, primeiro, o jovem se aproximava da menina, jogando conversa fora --"onde você estuda?", entre outras perguntas típicas de paquera. Em seguida, começava a agressão. "O rodeio consistia em pegar as garotas mais gordas que circulavam nas festas e agarrá-las como fazem os peões nas arenas", relata Mayara Curcio, 20, aluna do quarto ano de psicologia, que participa do grupo de 60 estudantes que se mobilizaram contra o bullying.

No Orkut, os participantes estipulavam regras para futuras competições, entre elas cronometrar as performances dos "peões" e premiar quem ficasse mais tempo em cima das garotas com um abadá e uma caneca. Há relatos de gritos de incentivo: "Pula, gorda bandida".

Com a repercussão, a página do site de relacionamento foi excluída. Cópias dos posts espalharam-se pelo campus em Assis. Em murais aparecem frases como "Unesp = Uniban", referência ao caso a Geisy Arruda, que foi xingada por usar um vestido curto.

As vítimas não querem falar. "Uma das meninas está tão abalada que não teve condições de voltar à faculdade. Teme ficar conhecida como 'a gorda do rodeio'", afirma a advogada Fernanda Nigro, que acompanhou, na última terça-feira, uma manifestação de repúdio.

O grupo foi recebido pelo vice-diretor da Faculdade de Ciências e Letras, do Campus de Assis, Ivan Esperança. "Vamos ouvir os envolvidos e estudar as medidas disciplinares, mas não queremos estabelecer um processo inquisitório", disse ele à Folha.


27 out. 2010

NOTÍCIAS...

Aluno da USP é vítima de homofobia em festa promovida pela ECA

por Mônica Bergamo - 26 out. 2010

A agressão a um aluno da USP que é homossexual numa festa promovida pela ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP) virou assunto de polícia. A informação é da coluna Mônica Bergamo publicada na edição desta terça-feira da Folha. De acordo com o texto, Henrique Peres Andrade, 21, estudante de biologia, foi à balada, na sexta-feira, num casarão, com o namorado e oito amigos do IB (Instituto de Biociências). Ele diz que os dois "descansavam abraçados" quando três rapazes xingaram, atiraram copos de bebida e desferiram chutes e socos no casal. A segurança, de acordo com Henrique, demorou a agir.

"Estou chocado, foi uma situação horrível!", escreveu Henrique a um professor, buscando orientação. Ele hoje registrará ocorrência na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. O centro acadêmico do IB fez circular moção de apoio na universidade.

A Defensoria Pública foi acionada. "Só quero mostrar que estamos em um país onde a homofobia existe e está mais próxima do que imaginamos", diz Henrique. Os agressores ainda não foram identificados.