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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A ORGANIZAÇÃO POPULAR E O CONTEXTO ESCOLAR: Campanha contra a opressão e o autoritarismo nas escolas

Carol Catini, 09 de nov. 2010

Só nos é possível reatar os vínculos entre presente e passado, e assumir as responsabilidades sobre o nosso futuro, quando conseguimos traduzir essas alegorias em gestos concretos do nosso dia-a-dia.

Muitas vezes ficamos pensando sobre o que seria de fato a concretização de um Poder Popular, ou seja, a inauguração de uma forma política fundamentada em outros preceitos organizativos, preceitos que colocassem o povo oprimido e explorado como protagonista de sua própria história, que devolvessem àquelas pessoas habituadas a andarem de cabeça baixa o orgulho e a possibilidade de deliberarem sobre a sua vida e a da sua coletividade. Ficamos, assim, imaginando como seria o processo de dissolução do atual regime político e econômico que, cada vez mais, afasta as pessoas das principais e mais importantes decisões, que aprofunda as desigualdades entre elas, ao invés de saná-las, e agrava o quadro de miséria e injustiça, enquanto promete superá-las.

Ao sonharmos com isso, provavelmente, passam pelas nossas cabeças aqueles momentos mais gloriosos das lutas sociais: Quilombo dos Palmares, Comuna de Paris, Revolução Russa, Revolução Espanhola, Maio de 68, Greves do ABC, Luta contra o Apartheid, etc. São milhares de pessoas no campo ou nas ruas que, sem hesitar, levantam-se contra a opressão, proferem palavras de ordem estrondosas, fazem declarações comoventes enquanto miram com firmeza o novo mundo que se aproxima!

No entanto, toda essa memória entusiasmada das lutas não deixará de ser mero conjunto de imagens sem vida, enclausuradas nos livros de história, se não for capaz de se ligar ao nosso presente, ao nosso cotidiano. E é sabido por qualquer pessoa sensata que não vivemos mais estes tempos áureos em que a transformação radical e completa da realidade se colocava como horizonte imediato e palpável. Isso significa que só nos é possível reatar os vínculos entre presente e passado, e assumir as responsabilidades sobre o nosso futuro, quando conseguimos traduzir essas alegorias em gestos concretos do nosso dia-a-dia. É essa a grande celebração que temos sempre de fazer, é disso que trata a construção do Poder Popular. Na situação em que estamos, de nada adianta idealizar grandiosos movimentos revolucionários, projetarmos grandes viradas de mesa, se não tomamos as atitudes que estão efetivamente ao nosso alcance.

Nesse sentido, é de grande validade toda e qualquer iniciativa coletiva que reavive nas pessoas comuns o salutar hábito de não tolerar abusos de poder, toda experiência que exercite a cultura de ação política sem intermediários, que dê às comunidades o poder de decidirem sobre si mesmas. Por isso, é digna de registro a luta dos pais, mães, alunos, professores e outros funcionários da Escola Estadual Joaquim Álvares Cruz, localizada no bairro de Parelheiros, Zona Sul de São Paulo. Ante as arbitrariedades cometidas pela então direção escolar, que chegou a permitir que um aluno fosse interrogado por um policial em uma sala de aula a portas fechadas, a comunidade se organizou, juntou forças e conseguiu depor a gestora autoritária. Eis aí uma singela, porém real, demonstração do que pode ser o Poder Popular no contexto de uma comunidade escolar.

Muitos casos de autoritarismo e violência nas escolas têm sido vivenciados e relatados nas comunidades da periferia da Zona Sul, e os efeitos dessa opressão podem permanecer e se tornarem mais fortes se continuarem isolados e silenciados. Ao contrário, se as indignações contra o conservadorismo crescente na sociedade se unirem e esses casos forem trazidos para o plano da experiência política e coletiva de resistência, certamente poderão ser inibidos e combatidos.

O vídeo disponível no endereço abaixo pretende ser um convite à participação de todos na recém-lançada Campanha contra a opressão e o autoritarismo nas escolas, uma pequena e localizada iniciativa que pretende reunir pessoas e grupos que fazem do espaço escolar, tão importante no território, mais uma trincheira da luta anti-sistêmica e da construção organizativa popular.

Mais informações, acesse:

Rede de Comunidades do Extremo Sul de São Paulo-SP
Campanha Contra a Opressão e o Autoritarismo nas Escolas
Contato: campanhacontraoautoritarismo@gmail.com

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

NOTÍCIAS...

Orkut tem comunidades como 'Quero bater no professor" e 'Bruno, Mata minha professora?'

Letícia Casado e Rafael Sampaio - 15 out. 2010

Professores de escolas públicas e particulares sofrem com agressões feitas via internet. A popularização do Orkut, Twitter e outros sites de relacionamento fez com que também aumentassem os ataques virtuais aos docentes. Protegidos por uma tela e um teclado, estudantes do ensino médio e fundamental sentem-se “livres” para escrever o que querem – incluindo xingamentos e histórias caluniosas, muitas vezes provocadas pela raiva de uma nota baixa na prova ou por uma bronca em meio aos colegas na sala de aula.

Não há dados que comprovem o aumento do cyberbullying em relação aos professores, mas os docentes ouvidos pelo R7disseram sentir na pele as marcas dessa história. Em um dos casos, Ricardo Meca, que dá aulas de física do cursinho Oficina do Estudante, em Campinas, se viu obrigado a apagar o seu perfil na internet devido a mensagens anônimas escritas por alguns de seus pupilos.

- Algumas vezes os alunos fazem esse tipo de violência virtual dos próprios computadores da escola. Pode haver bloqueio ao MSN e eles burlam o bloqueio. Eu já tive Orkut e apaguei por conta de mensagens incômodas que recebi. Eles mandam textos anônimos, se protegem no anonimato. Mas isso não aconteceu com meu atual colégio ou cursinhos que dou aula, que fique claro.

Uma simples ronda no Orkut dá uma ideia de como se comportam essas crianças. É incontável o número de comunidades com ataques, com nomes que vão desde “Minha professora é uma vaca” a até “Bruno, mata a minha professora?”. Esta última, com quase 72 mil participantes, é uma referência ao ex-goleiro do Flamengo Bruno Fernandes, acusado de esquartejar a amante Eliza Samudio.

Para a psicoterapeuta e orientadora vocacional Celi Piernikarz, brincadeiras como essa do goleiro Bruno passam do limite sobre o que é saudável, mesmo em se tratando de adolescentes. Ela diz que a estrutura familiar é o mais importante na criação do jovem, e que isso interfere em como ele vai lidar com as autoridades.

- Hoje vejo que falta a questão dos valores. Os valores não estão muito presentes na vida dos adolescentes, respeito, valor do professor, profissão dele. O adolescente que faz esse tipo de coisa muitas vezes não tem referência do pai ou da mãe. Quando existe [apoio familiar], dificilmente ele vai tomar esse tipo de atitude [cyberbulling]. Ele vai pensar, refletir e separar o certo do errado.

O professor de Campinas conta o caso de uma professora que abriu um processo na Justiça contra um estudante que divulgou imagens e mensagens ofensivas via Orkut. Ela trabalha em uma escola particular de classe média no Estado de São Paulo.

- O estudante tem certeza da impunidade [quando escreve na internet]. Uma vez vi um grupo de alunos criarem uma comunidade da classe e um colega entrou anonimamente, xingou todo mundo. Ninguém conseguiu descobrir quem era, ficou tudo por isso mesmo.

Excesso de intimidade

Tanto o professor Meca quanto Ricardo Parolo Junior, que dá aulas de literatura no colégio COC, afirmam que o problema está em dar excesso de liberdade para os adolescentes. Eles ressaltam que o professor deve se resguardar quando os alunos extrapolam certos limites de liberdade. Parolo Junior conta nunca ter vivido um caso de violência virtual, mas que soube de colegas que foram humilhados via internet – também nenhum de sua atual escola. Já o professor de física diz acreditar que a superproteção dos pais propicia esse tipo de comportamento em estudantes de escolas particulares.

- Na escola, se o aluno ofender o professor cara a cara, vai ser repreendido na hora, receber uma suspensão. Com a internet é possível ter uma relação mais "covarde", de se esconder em um perfil anônimo. Na minha opinião, quando vejo isso na escola particular, sinto que é efeito de uma classe média emergente, que superprotege e mima os filhos. Eles sentem que não devem responder por seus atos.

Fonte: R7