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terça-feira, 27 de outubro de 2015

‘Há resistência de admitir a violência específica contra a mulher’,

Paulo Saldanã
 
26 outubro de 2015 
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As redes sociais fervilharam assim que o tema da redação do Enem foi revelado na tarde de domingo, 25. Os estudantes tiveram que escrever um texto sobre “a persistência da violência contra a mulher no Brasil”, o que causou uma enxurrada de elogios à pertinência do texto, mas também inspirou críticas ao que seria um “doutrinação”.
 
Para a antropóloga Michele Escoura, assessora da área de Educação para Jovens e Adultos (EJA) da Ação Educativa, a escolha do tema não deixa de ser um ato de militância. “Boa parte das reações contrárias, inclusive dos adolescente, é de desmerecimento da questão”, diz ela “Ainda existe muita resistência de admitir uma violência específica contra a mulher, uma violência específica de gênero”.
 
Pesquisadora das questões de gênero na USP e Unicamp, Michele pontua que essa não é uma pauta “de esquerda ou de direita”. “A reivindicação dos direitos das mulheres ultrapassa qualquer posicionamento politico e econômico.” Leia abaixo a entrevista exclusiva ao blog:
 
Michele Escoura / REPRODUÇÃO
Michele Escoura / REPRODUÇÃO
 
O que achou do tema da redação?
 
Eu fiquei muito feliz. No início do ano, a presença dos termos de gênero nos planos municipais e estaduais de Educação transformou o tema em uma grande polêmica e as menções foram retiradas. Menções a essa preocupação já existiam há muito tempo em orientações curriculares, sem que houvesse polêmica. Mesmo assim, nenhuma política havia sido colocada de maneira forte nesse sentido. As políticas nunca deram muita importância para isso. Mas como, hoje em dia quem de fato pauta a currículo é o Enem, é uma transformação. Por mais que haja as diretrizes curriculares, as escolas se pautam muito mais pelo Enem, os professores direcionam as aulas partindo dos pressupostos do que vai cair na prova.
 
Após o tema ser conhecido, algumas pessoas acusaram o MEC de usar a prova para fazer militância ou doutrinação ideológica. Por que um tema como esse, de violência contra a mulher, causa toda essa polêmica?
 
De alguma forma, falar sobre isso ainda é considerado uma militância mesmo. Porque boa parte das reações contrárias, inclusive dos adolescente, é de desmerecimento da questão. O que mais se ouve é que o “homem também morre”. Quando houve a aprovação da Lei Maria da Penha, falavam em tom de brincadeira que faltava uma “Lei João da Penha”. O problema é que existe uma hierarquia de gêneros muita naturalizada na sociedade. Ainda existe muita resistência de admitir uma violência específica contra a mulher, uma violência específica de gênero. Muitas pessoas ainda não entenderam a situação, não conseguiram desnaturalizar que existe uma desigualdade. Temos de reconhecer que há desigualdade.
 
Como entender isso?
 
Um exercício simples para isso é olhar para um caso clássico de violência contra a mulher e inverter os papeis. O caso Eloá (Cristina, jovem que foi morta pelo ex-namorado, Lindemberg Alves, em 2008), por exemplo, em que uma menina de 18 anos termina o namoro, o rapaz a mantém em cárcere privado e depois assassina a menina. Agora pense em um jovem homem que termina o namoro e uma menina faz isso. A gente ouve noticias desse tipo? Não ouve, uma informação como essa causa estranhamento. Quando a gente inverte os papéis e isso provoca esse estranhamento é por que se trata de um caso típico de violência de gênero. Todos os dados que o Enem colocou como subsídio para que o candidato escrevesse a redação estão para comprovar que existe uma questão por trás. Falar sobre isso ainda requer algumas posturas políticas, que não necessariamente passa pela esquerda. Muitos debates femininas vêm de liberais dos Estados Unidos.
 
Por que se mistura a discussão de gênero com posicionamentos ideológicos, partidários, como se esse fosse um tema esquerda? Há uma confusão?
 
Nos Estado Unidos, o movimento feminista sempre esteva acima de qualquer posição política e econômica. Você encontra discussões de liberais e socialistas sobre o mesmo tema. Já na França, o feminismo esteve sim mais associado ao socialismo. A própria Simone de Beauvoir era uma militante socialista. Mas, no contexto desta semana, com o Enem, a discussão acabou se confundindo com a instabilidade do governo federal por causa da institucionalidade que tem o Enem, exame realizado pelo Ministério da Educação. De alguma forma, acabou-se entrando na dança das polaridades da política brasileira. O que, no final das contas, é uma grande falsidade. A reivindicação dos direitos das mulheres ultrapassa qualquer posicionamento politico e econômico.
 
Como isso tudo chega na escola?
 
As escolas não estão separadas do que a sociedade pensa. O muro da escola é alto, mas não bloqueia tudo. A escola não é um espaço imparcial, acima da sociedade. Muito pelo contrário, são as mesmas pessoas da sociedade que circulam na escola. Se você não faz um tipo de ação de política pública para combater a desigualdade, é certo de que todos os estereótipos da sociedade vão estar na escola. Principalmente porque você tem uma questão séria na formação de professores. Eles saem da universidade sem discutir as questões de gênero e os reflexos desse tema. E quando não tem politica pública intencional, é lógico que vai acabar se perpetuando dentro da escola as visões e estereótipos da sociedade.
 
Nesse sentido, a retirada das menções de igualdade nos planos dificulta o trabalho na escola?
 
Pensando na conjuntura dos planos municipais e estaduais, em que se retirou as questões de gênero, o Estado brasileiro está se desresponsabilizando de fazer qualquer ação de igualdade de gênero dentro das escolas. Outra coisa é que os jovens alunos têm cada vez mais acesso a informações que não necessariamente estão na escola. E a partir do momento em que ele acessa algo na internet, ele leva para a escola. Apesar de os planos terem retirado a palavra gênero, cada vez mais os estudantes reivindicam esse debate na escola. Eles estão levando de maneira autônoma, estão levantando os debates, já há uma discussão da própria noção do que é violência. A gente  recebe cada vez mais casos de assédio contra meninas, que é um tipo específico de violência contra a mulher. Antigamente, havia os  casos de assédio e elas ficavam quietas, achavam que era culpa delas. Agora elas se posicionam. Em uma situação como essa, quem fica em posição de maior vulnerabilidade são, com certeza, são os professores. Os alunos trazem as denúncias contra as meninas, de assédio, mas como o Estado não oferece formação para enfrentar esse tema, os professores ficam reféns dessa situação. As ações ficam à mercê da disposição individual de professores e escolas. Algumas escolas vão procurar que o precisa, outras vão colocar debaixo do tapete. O mínimo que o Estado deveria dar é formação, como um material específico. Quando se vetou o kit anti-homofobia (material educativo cuja distribuição foi vetada pelo MEC em 2011 após pressão da bancada evangélica), a maior perda foi para os professores, que ficaram sem acesso de informação. Dessa forma, é mais provável que as escolas particulares vão conseguir mais autonomia para incluir de maneira mais institucionalizada esse tema do que as públicas. Uma pena, porque mais uma vez você coloca as escolas particulares com condições melhores do que as públicas.
 
O MEC e lideranças dentro pasta, como próprio ministro Aloizio Mercadante, reforçam a necessidade de trabalhar com gêneros, o papel laico da escola. Assim como a maioria esmagadora dos especialistas de educação. Mas neste ano, vários planos municipais e estaduais de Educação tiveram a retirada de menções ao combate à desigualdade de gênero. Um comitê do MEC também teve de voltar atrás de usar o termo gênero. Há uma derrota nesse sentido?
 
Tenho a impressão de que existe grupos que têm misturado questões morais com política, religião com política. E são grupos muito diversos. Muitos grupos religiosos tentam normatizar a moral, por meio do poder legislativo, partindo do pressuposto da própria moral. É uma tentativa de universalizar suas próprias concepções, como a de família, por exemplo. Esses grupos têm ganhando força, mas, no limite, existe uma briga entre Legislativo e Executivo. O executivo tem ficado cada vez mais refém do Legislativo nessas questões, que acabaram se tornando moeda de troca pela governabilidade.  É uma coisa que destoa dos fundamentos da democracia.  
 
E qual prejuízo para os alunos?
 
Quando se pensa no fundamento da democracia, na educação como Direito fundamental do cidadão, é dever do Estado que os estudantes acessem a escola e se mantenham.  E essa desigualdade de gênero também afasta os alunos da escola. Quando falamos de gênero, não falamos só de mulher, mas também falamos sobre os grupos LGBT e também dos meninos. A maior parte dos adolescentes que hoje saem da escola são de meninos negros, principalmente nas periferias das grandes cidades. Porque nesses lugares se estabelece a ideia de que a masculinidade tem a ver com insubordinação, e o menino assume para si uma identidade. Esse grupo de alunos são os que mais são expulsos. Precisamos entender que estamos falando deles também quando falamos de gênero. Estamos falando de muitos grupos. É importante que a gente continue de alguma forma a reivindicar as discussões, ainda que de maneira paralela ao Estado, uma vez que o Estado tem colocado de lado essa discussão.
 

Os jovens têm a maior vulnerabilidade, a partir do momento em que você nega uma situação. Você negar que o estudante tenha acesso a esse tipo de conhecimento produzido internacionalmente, que é discussão teórica há mais de 30 anos, que está presente em todas as universidade renomadas no mundo, é negar que a escola seja o canal de divulgação do conhecimento científico. É o Estado brasileiro negando um dos papéis fundamentais, que está na Constituição, de divulgação dos conhecimentos independentemente das posições. As questões de gênero são reconhecidas pelas Nações Unidas, pelas academia. A esses estudantes isso tem sido negado. E a partir deste ano, a negação foi maior ainda.
 
E como dialogar com os adultos?
 
A grande dificuldade de conscientizar e educar a população adulta é que eles não estão mais institucionalizados, como é o caso dos jovens que estão na escola. Com os adultos a comunicação é mais dispersa. Às vezes, quem acaba fazendo esse papel de é a TV, as novelas. Quando houve uma discussão do beijo gay na novela, teve uma boa parte da população que repensou seus próprios valores. Vira tema das conversas em casa.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

"Somos um país intolerante, racista e violento"

Átila Roque (Foto: Istoé)

"Somos um país intolerante, racista e violento"
 
Diretor da Anistia Internacional, que teve pai assassinado num assalto, diz que reivindicar vingança é demagogia e que a polícia usa a lógica da guerra para instaurar o vale-tudo por Fabíola Perez (fabiola.perez@istoe.com.br)                            

Uma pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública na semana passada revelou que o número de mortes violentas cresceu em 18 estados em 2014. O estudo traz dados assombrosos: 58.559 pessoas foram assassinadas no País. É como se um brasileiro fosse morto a cada dez minutos vítima de assassinatos, latrocínios ou pelas mãos da polícia. “A violência sempre ocupou um lugar central no País”, afirma Átila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional.
 
A taxa de homicídio de 26,3 (a cada 100 mil habitantes) mantém o Brasil na lista dos 20 países mais violentos do mundo, à frente de Ruanda e da República Dominicana, segundo o Escritório para Drogas e Crimes da Organização das Nações Unidas (ONU). A Anistia Internacional, que monitora sistematicamente a violência, chama a atenção das autoridades para um cenário que classifica de “tragédia civilizatória”.
 
Em relatório recente, foram registrados no Rio de Janeiro, por exemplo, 8.466 homicídios decorrentes de intervenção policial entre 2005 e 2014. Sem a implantação de uma política pública, diz Roque, policiais e jovens da periferia continuarão sendo vistos como objetos descartáveis na ponta do sistema. “É a constatação do desamparo integral da polícia e da população pelo Estado.” 
 
A entrevista está na Istoé:
 
Istoé - O Rio de Janeiro vive atual­mente um estado de guerra?

Átila Roque - Não. O Rio vive um estado de esgarçamento de suas contradições, de conflitos e desigualdades. A ideia da guerra vem sendo utilizada para justificar a implantação de certas medidas. Em alguns territórios de exceção, onde o Estado de Direito estaria suspenso, cria-se um espaço onde vale tudo. Não existe um poder paralelo, mas a bandidagem se organiza em função da corrupção e do apoio que encontra em parte da sociedade. Existem grupos e setores que se beneficiam do crime. O crime organizado é um pacto perverso entre organizações criminosas e poder político. Entre quem ganha prestígio, poder e dinheiro.
 
Istoé - A Anistia Internacional se dedica a denunciar casos de autos de resistência. É possível diminuir letalidade policial em estados como o Rio de Janeiro?

Átila Roque - Há indícios fortes de que boa parte dos autos de resistência são execuções sumárias, ou seja, o policial simplesmente executa o suspeito. O policial entra na periferia para matar e não para prender. A política de segurança não pode ser ancorada na ideia de que existe um inimigo a ser combatido. O Ministério Público não está exercendo seu papel de controle externo da polícia. A versão do policial prevalece na maior parte dos casos. Somente quando alguém filma ou quando uma imagem vaza a versão do agente é contestada. O combate à impunidade é um fator determinante para impedir que policiais atuem como matadores. Eles imprimem em sua estratégia a lógica da guerra. 
 
Para acessar ao restante da entrevista: http://www.istoe.com.br/capa -   N° Edição:  2393 |  09.Out.15 - 20:00 |  Atualizado em 26.Out.15 - 12:32

quarta-feira, 10 de junho de 2015

"Isso é Educação: respeitar o outro", diz Renato Janine Ribeiro



Renato Janine Ribeiro, ministro da Educação, abre a sabatina do Roda Viva desta segunda-feira (8) explicando o slogan “Pátria Educadora”. Ribeiro diz que o governo sabe que há dados preocupantes na área, que há muito a fazer. O ministro diz que é um slogan de trabalho, que sugere uma sociedade mais conectada, que respeite o outro. “Não podemos esquecer que nossa educação tem muitas falhas, mas existem muitas ações efetivas. quando você diz que tudo é muito ruim, você inibe as ações”, afirma.
 
Em relação ao Financiamento Estudantil (Fies), diz que o governo vai reabri-lo para famílias que têm renda de R$ 1.000. “Vamos dar prioridade a três áreas: formação de professores, fortalecer as engenharias e a saúde, porque têm que melhorar. Vamos dar prioridade ao Norte e ao Nordeste e a cursos de nota mais elevada”, adianta.
 
Sobre a formação dos professores, o ministro afirma que, dado o volume de profissionais, “temos que fazer esforço na educação continuada”. Para ele, o principal ponto da continuada, e talvez da inicial, é garantir a presença de gente com experiência. “Pretendemos lançar, ainda neste ano, a ideia de que os diretores com experiência lecionem. Temos que valorizar o professor de várias formas, inclusive no salarial”, diz. Em relação à carreira dos docentes, conta que é um tema a ser debatido: “É melhor um salário inicial baixo, que atrai pouca gente e garante uma aposentadoria melhor? Ou é melhor um salário inicial mais alto, mesmo que o final seja mais baixo?”, pergunta.
 
Gestão é administrar conflito
 
O ministro explica que a profissão de professor deixou de ser atraente. “A questão de ensino exige que seja repensada. Os modelos de ensino tradicionais estão sendo postos em xeque", diz, acrescentando que a valorização do professor é o ponto crucial para o sucesso da educação na Coreia do Sul. Mas ele lembra que o país segue a tradição confuciana, em que o mestre sabe tudo. “Não podemos pensar na forma de lá”, completa. Ribeiro lembra que os salários foram caindo ao longo de décadas. Aos poucos, houve uma queda no status do professor. “Esse salário é baixo, tem que melhorar. Tem que ser compromisso da sociedade brasileira. Não há boa educação sem bons professores, valorizados", afirma. O ministro lembra que um dos problemas da educação brasileira é justamente o gerenciamento. “Gestão é saber administrar conflito, formar equipes”, completa.
 
Questionado sobre o bônus de desempenho, diz que não se pode adotar uma política que seja competição intransigente. "Na Capes era destrutiva. É importante formar times de professores. Se dá bônus, tem que articular. O que fizemos na Capes, então, foi competição mais cooperação. Isso tem que ser pactuado", diz. Em relação à qualidade de ensino nas universidades, diz que os cursos com nota mais alta terão prioridade no Fies. "O repasse ajuda o aluno que não pode pagar. Procura ser uma medida de inclusão social. O objetivo do Fies é o aluno", defende. O ministro se diz a favor das cotas porque acredita que, como negros e índios têm acesso menor ao ensino superior, tem que haver uma política temporária que conduza a isso.
 
Perguntado por que a educação pública deixou de ser de qualidade, conta que houve uma grande expansão numérica na época da ditadura. Com isso, criou-se o exame de aplicação, que era uma espécie de vestibular. “A maior parte sucumbia. Era pra menos gente. E quando começou a ampliar, não houve investimento. A ditadura não deu grande destaque, fortaleceu o CNPq, o Capes", conta.
Precisamos nos desapaixonar
 
Questionado sobre a ética, bandeira que o Partido dos Trabalhadores (PT) sempre defendeu, diz que, no Brasil, um grande problema foi o aumento da pobreza. “Tínhamos algo que passava dos 10%. É escandaloso, um país que não é pobre ser tão injusto como o Brasil foi”, afirma. Diz que, com o Bolsa Família, foi possível reduzir 6% de miséria. Ribeiro lembra que países como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha fizeram uma inclusão social grande no passado. “Foi no governo Lula, que a inclusão adquiriu escala, tanto que hoje nenhum candidato cogita não fazer programas sociais”, argumenta.
 
Em relação ao atual nível de diálogo entre PT e PSDB, o ministro diz que falta melhorar a qualidade do debate. “Democracia é igual a educação. É um regime em que você pode ter pelo menos duas opções diferentes de governo. Se possível, ambas com gente honesta, competente", diz. Infelizmente, ressalta, os ânimos ficaram muito exaltados", no Brasil, nos últimos anos. "Precisamos diminuir o fogo dessa brasa. Isso é educação: respeitar o outro. O que estimula essa radicalização é a falta de formação. O fato de você ter pessoas de nível universitário, que são mal educadas em todos os sentidos da palavra porque não sabem respeitar a diferença”, completa, acrescentando que "precisamos nos desapaixonar um pouco, e penso que a área da educação pode ser uma área pra isso", finaliza.
 
A bancada de entrevistadores desta edição do Roda Viva é formada por Guiomar Namo de Mello, educadora e membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo; Maria Helena Castro, socióloga e diretora-executiva da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade); João Gabriel de Lima, diretor de redação da Revista Época; Fábio Takahashi, repórter do jornal Folha de S. Paulo; Paulo Saldaña, repórter do jornal O Estado de S. Paulo. O programa conta com a participação fixa do cartunista Paulo Caruso.
 
Fonte: TV Cultura e Educação Para Todos

quinta-feira, 2 de maio de 2013

‘Para a classe média, o que prevalece é o capital cultural’

Por Nice de Paula - Publicado:
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Para Jessé Souza, a ideia de classe média ‘condensa os sonhos de ascensão social’
Foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo
.Para Jessé Souza, a ideia de classe média ‘condensa os
sonhos de ascensão social’ Marcelo Carnaval / Agência O Globo
RIO – Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza estuda classes sociais há 20 anos e defende o uso de critérios além da renda. Na sua opinião, fenômeno recente foi a ascensão de uma ‘nova classe trabalhadora precarizada’
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A sociedade brasileira é perversa?
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Sim, porque o nível de desigualdade é enorme. O banqueiro na Avenida Paulista ganhar 500 vezes mais do que a pessoa que limpa a sua sala não é normal. E nós convivemos com essa perversão de forma muito natural e ainda temos esse mito brasileiro de que somos muito gentis.
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O senhor discorda que exista uma nova classe média brasileira?
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Este conceito está inserido na cegueira de pensar que as classes sociais se reproduzem apenas no capital econômico, quando a parte mais importante não tem a ver com isso, mas com o capital cultural, com tudo aquilo que a gente incorpora desde a mais tenra idade.
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Quais são as classes sociais do Brasil?
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Basicamente, quatro. A alta, que tem capital econômico. Tem a classe média, que não é tão privilegiada quanto a alta, mas se apropria de um capital cultural valorizado, saber científico, pós-graduação, línguas estrangeiras, um conhecimento que tem valor econômico. Essas duas são as classes do privilégio. Para a classe alta, o mais importante é o capital econômico, embora o capital cultural tenha uma função. E, para a classe média, o que prevalece é o capital cultural, embora algum capital econômico também seja necessário.
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Quais são as classes “sem privilégios”?
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As classes populares não têm acesso privilegiado a capital econômico, nem cultural nem social, não vão ter acesso a pessoas importantes. Têm que trabalhar desde cedo, são batalhadores. É essa a nova classe trabalhadora precarizada (chamada pelos economistas de “nova classe média”). Ela foi incluída porque tem um lugar no mercado, tem renda, planos e consumo de longo prazo, mas isso não a torna classe média. A outra classe “sem privilégios” são os muito pobres, que não têm nem precondição para aprender, a quem chamamos de maneira provocativa de ralé. Para as classes média e alta, é bom que exista a ralé, porque assim podem desfrutar de serviços que a classe média europeia e americana já não têm, como alguém para fazer a comida, cuidar dos filhos. É a luta de classes invisível, tipicamente brasileira.
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Luta de classes?
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As classes do privilégio economizam um tempo importante para estudo ou para um trabalho mais rentável, enquanto a ralé limpa sua casa, faz sua comida. Luta de classe é uma classe roubar tempo de outra. Quando a empregada deixa o almoço do filho da patroa pronto para ele estudar inglês em vez de preparar sua própria comida, esse jovem ou criança está usando seu tempo para reproduzir seu capital cultural. E a empregada, usando seu tempo para repetir sua condição social.
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E por que haveria essa necessidade de inflar a classe média?
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Porque é bom ser classe média. Ela inclui a noção indivíduos que são livres, são consumidores, cidadãos. Condensa os sonhos de ascensão social. Pertencer à classe média tem um efeito de distinção, como comprar um carro bacana, uma casa bonita.
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O critério de renda não é importante?
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É preciso estar atento às outras condições que formam um ser humano. Por exemplo, toda pessoa precisa ter confiança em si mesma. O filho da classe média pode se dedicar só ao estudo, é preparado desde cedo para ser vencedor. O filho da ralé já chega na escola como perdedor e a escola não é solução para tudo. Na nossa pesquisa, o que vimos não é que não tinha escola, mas as pessoas diziam: “nós ficamos fitando o quadro negro horas e horas sem poder aprender”. Se as pessoas não receberem os estímulos anteriores, a escola sozinha não vai resolver.
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Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/para-classe-media-que-prevalece-o-capital-cultural-7914177#ixzz2S8wI4s9e
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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

'Censurar Monteiro Lobato é analfabetismo histórico'

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A obra literária de Monteiro Lobato (1882-1948) tem alimentado gerações de crianças e jovens, e não consta que seus leitores tenham formado uma horda racista. Assim mesmo, mais um livro do escritor virou alvo nesta semana da caçada ideológica que tenta enquadrar o criador do Sítio do Pica Pau Amarelo no crime da racismo. A exemplo do que já fizera com Caçadas de Pedrinho, o Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara) quer banir das escolas públicas o livro Negrinha, lançado em 1920. O que incomoda o instituto são passagens como "Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados." A patrulha acusa a obra de trazer "estereótipos e preconceito". "Trata-se de analfabetismo histórico", diz João Luís Ceccantini, pesquisador de literatura infanto-juvenil e coautor do livro Monteiro Lobato – Livro a Livro. "Querer censurar ou modificar em algum grau uma obra cultural é um absurdo." Estudioso da assimilação da literatura por crianças, Ceccantini acrescenta uma informação ao debate sobre Lobato que demole de vez os argumentos dos censores, que alegam que as obras de Lobato prejudicam a formação das crianças. "Eu tenho estudado a forma pela qual as crianças absorvem o que leem e minha conclusão é que elas sabem identificar os excessos dos livros. Elas se apegam ao que é bom, à essência das histórias – e, no caso de Lobato, essa essência não é racista." Confira a seguir a entrevista com o pesquisador.
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O que o senhor acha da tentativa de banir a obra de Monteiro Lobato das escolas públicas? Trata-se de analfabetismo histórico, que despreza o tempo em que determinadas obras foram escritas. Querer censurar ou modificar em algum grau uma obra cultural é um absurdo. Deve-se ainda observar outra questão: temos de fato uma educação tão deficitária a ponto de os professores serem incapazes de ajudar os alunos a interpretar passagens que eventualmente façam uso de uma linguagem que já não é mais aceita? Por que não usar esse pretexto para discutir em sala de aula o racismo? É uma grande oportunidade.
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O senhor tem um trabalho extenso na área de literatura infantil e acompanha de perto o envolvimento das crianças com a leitura. De que maneira elas são influenciadas pelo que leem? Em primeiro lugar, a ficção não tem esse poder todo que a gente imagina. A transferência dos exemplos não é tão automática assim. Em resumo: o fato de eu ler uma história de ficção não significa que vou sair por aí reproduzindo um comportamento da ficção. Se fosse assim, bastava escrever livros com histórias boas e puras para que construíssemos uma sociedade perfeita. Mesmo com a criança, essa transferência não é automática. Eu tenho estudado a forma pela qual as crianças absorvem o que leem e minha conclusão é que elas sabem identificar os excessos dos livros, elas se apegam ao que é bom, à essência da história – e, no caso de Lobato, essa essência não é racista. As crianças entendem que a passagem "macaca de carvão" não faz discriminação com Tia Nastácia, porque essa não é a essência do livro. Ao contrário do que possa parecer, a criança é seletiva. Mais seletiva do que muitos críticos.
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Tia Nastácia é retratada ao longo da obra de Lobato de forma bastante positiva. Não é exagero acusar o autor de racismo nesse caso? Sem dúvida. Tia Nastácia é tratada de forma muito amorosa em toda a obra de Lobato. Existem milhares de citações afetivas em relação à personagem, que tem uma função crucial na vida dos demais personagens: eles recorrem a ela em busca de conselho, de carinho. Devemos observar ainda que Lobato usa Tia Nastácia como pretexto para criticar a superstição, a religiosidade e o excesso de crença no sobrenatural. Mas não há nenhum traço de ódio racial nessas passagens.
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Cartas de Lobato reveladas recentemente mostram a simpatia do autor por teses da eugenia (corrente que defendeu o aperfeiçoamento da espécie por meio da seleção genética e controle da reprodução). Isso deve de alguma foram permear a análise que se faz da obra do autor? Lobato foi, acima de tudo, um humanista. Ele lutou pela igualdade, pela democracia e não há um só episódio que o ligue a corrupção em alguma esfera. E ele sofreu muito por isso. Decepcionado com os rumos que o país tomava já naquela época, ele foi um crítico ferrenho do Brasil. Em relação às cartas, não podemos esquecer que todos nós somos frutos da época em que vivemos. Os pensamentos que ele exprimiu nos seus textos eram muito comuns naquela época, como a eugenia. Outros escritores que eram celebridades naquele tempo tinham ideias semelhantes, mas eles não sobreviveram ao tempo. Portanto, pintar Monteiro Lobato como racista é um erro.
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O senhor já tinha assistido a discussões semelhantes sobre as obras de Lobato? Nenhuma controvérsia envolvendo Lobato é novidade para mim. Ele era uma figura extremamente complexa, e isso faz dele um alvo fácil. Aconteceu em diversos momentos da história. Não se pode perder de vista que estamos falando de um dos maiores escritores brasileiros: se tivesse escrito em inglês, seria um dos maiores de sua época. Sua literatura infantil é de uma riqueza incomparável. Mas, como eu disse, ele é um fruto de seu tempo, como todo nós, aliás. Se sua obra ajudar a discutir o racismo, então vamos discutir – não censurar.
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Há casos semelhantes de tentativas de censura na literatura infantil? O caso mais notável é o do autor americano Mark Twain (de cuja obra tentou-se suprimir o termo "nigger", considerado racista em inglês). Mas acredito que tudo isso tem um lado positivo. A literatura costuma circular entre grupos muito pequenos: quando a democracia se fortalece e o nível de letramento da população cresce, temas como esse vêm à tona. O que não pode haver é uma caça às bruxas. Se formos censurar tudo, comecemos por Homero, na Antiguidade: ninguém saíra ileso.
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Qual o prejuízo de suprimir palavras ou reescrever trechos de uma obra literária? Reescrever a história é uma das coisas mais nefastas que pode haver.
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Uma das propostas do instituto que tenta proibir a distribuição de Caçadas de Pedrinho é enviar o livro para as escolas com um anexo que aponte as passagens consideradas racistas. O senhor concorda com esse "guia de leitura"? Se for o preço a pagar para garantir que a obra de Lobato continuará circulando, que coloquem a tal nota explicativa. O problema, contudo, é que assim criaríamos um modelo editorial que supõe que o leitor é bobo e incapaz de chegar a suas próprias conclusões. Não sei em que medida isso é bom. Um dos grandes fascínios da literatura é permitir múltiplas leituras.
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Fonte: Veja.com

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Preconceito prejudica desempenho de alunos na sala de aula

Por Antôniop Góis


Maria Helena Souza Patto, docente do Instituto de Psicologia da USP e pesquisadora na área de Psicologia Social da Educação Escolar, afirma que o preconceito de classe pode ser uma das razões que explicam a diferença de expectativas de sucesso entre os alunos mais pobres e os mais ricos na rede pública do ensino básico.

Leia abaixo a íntegra da entrevista.

Folha - Olhando para as estatísticas de hoje, os professores que projetam que muitos de seus alunos não chegarão ao final do ensino médio estão sendo até realistas. No entanto, não se trata de um caso de profecia que tem tudo para se realizar? Há evidências de que essa baixa expectativa do professor afeta o desempenho do aluno?

Maria Helena Souza Patto - Penso que pode haver uma dose de "realismo" nesta previsão, mas é preciso considerar também que ela pode conter outros determinantes mais implícitos e sutis. NesSa atitude "fatalista" pode estar presente uma "naturalização" do existente, quando vários intelectuais e pesquisadores brasileiros e estrangeiros já mostraram que não se pode entender a política educacional de um país sem entender o que se passa nos planos econômico, social, político e cultural. Pesquisas já realizadas com professores sobre as causas do fracasso escolar generalizado (salvo exceções que confirmam a regra), entre crianças e adolescentes que frequentam a rede pública de ensino fundamental e médio no país ( e que estão saindo desses níveis sem terem adquirido habilidades e conhecimentos que cabe à escola ensinar), mostram que um dos grandes determinantes desse resultado é a presença do preconceito de classe e étnico, que estrutura a vida cotidiana nesses estabelecimentos escolares, presente de modo claro nas falas de duas educadoras numa escola de um bairro periférico da cidade de São Paulo:

Professora: O principal é ter carinho em casa. Pode ter até um pouco de fome, mas precisa sentir que tem alguém interessado nela, que gosta dela. A mãe não tem aquela sensibilidade de um elogio. (...) Essas mães são umas coitadas, não têm sensibilidiade, não têm nada. (...) A diferença [entre mães sensíveis e insensívweis] já é de nascença, já nasce com a pessoa, é agressiva de nascença."

Orientadora pedagógica: É muito difícil para a criança da periferia. Escreve aí - pe-ri-fe-ria (enfatiza cada sílaba), porque a gente já sabe a bagagem que esta criança traz de casa.

Com essa visão negativa dos alunos e de suas famílias, educadores estão prontos a se relacionarem com essas crianças de modo a confirmar essas expectativas de que serão incapazes de aprender, por meio de vários comportamentos explícitos (agressões verbais e até físicas, como humilhações em sala de aula, arrancar e rasgar folhas de caderno que contèm erros etc.) ou mais sutis, como a frequência com que as atendem em suas dúvidas etc.

Assim sendo, eu diria que essa profecia se realiza permanentemente nas escolas brasileiras, pois estamos em um país em que a relação das classes que dominam com os que lhes são subalternos sempre foi marcada pela violência e no qual o preconceito de raça e de classe é uma realidade, desde a constituição do sistema nacional de ensino brasileiro, na primeira metade do século 20, quando o racismo científico fazia parte do discurso de nossos cientistas e de profissionais que atuavam na rede escolar procurando, por meio da educação, reverter a tendência à loucura e ao crime que seria característica de negros e mestiços.

Folha - O que fazer para reverter esse pré-conceito que os professores tem em relação a seus alunos?

Trata-se de investir na formação dos professores. Formação esta cada vez mais calamitosa desde os anos 70, quando a educação escolar foi invadida por uma mentalidade tecnicista e o cotidiano escolar foi invadido por uma segmentação do trabalho pedagógico que criou uma hierarquia entre especialistas e professores, e estes foram desqualificados e colocados em posição subalterna em relação a pedagogos, psicólogos, orientadores etc. Recentemente, o Ministro da Educação disse que "é preciso valorizar o professor". No entanto, essa valorização ainda não aconteceu como política educacional sustentada no país. Ao contrário, a proliferação nos últimos anos de cursos de pedagogia em instituições privadas de ensino superior de baixíssima qualidade só tem feito mascarar o problema da formação de professores. Numa política educacional oficial que se contenta com estatísticas, é cada vez maior o número de professores com nível superior, e isso parece bastar aos políticos. Para mim, educadores são trabalhadores intelectuais, ou seja, precisam de formação intelectual, precisam adquirir a capacidade de refletir sobre a realidade brasileira e o lugar que lhes é destinado na manutenção da desigualdade social e na sua justificação.

Florestan Fernandes insistia: a valorização dos professores deve incluir simultaneamente a boa formação, a boa remuneração e a participação ativa desses trabalhadores nas decisões que dizem respeito ao seu trabalho.

Folha - Pensando no outro extremo, também não seria irrealista cobrar do professor que seja capaz de fazer todos os alunos terem sucesso escolar, já que sabemos que condições alheias ao seu trabalho influenciam no rendimento escolar?

São poucas as crianças portadoras de problemas psíquicos e físicos que dificultam a aprendizagem escolar. Como afirma Maria Cristina Kupfer, uma psicanalista voltada para a reflexão e a pesquisa sobre a contribuição dos conhecimentos psicanalíticos para a educação, 98% das crianças estão aptas a aprender. Mas mesmo esses 2% têm direito a esse espaço da infância chamado escola. E são muitas as experiências de ensino, aqui e no exterior, que mostram que as condições de vida dos alunos são menos decisivas em sua capacidade de aprender quando eles frequentam uma escola que os respeita e os acolhe, que os vê como cidadãos e que conta com professores empenhados em exercer sua profissão com compromisso ético-político; e que sabem que cabe à escola realizar seus objetivos, em vez da desculpa muito frequente entre professores: "sem ajuda em casa, não vai".

Isso vem de uma boa formação educacional dos próprios professores. Um dos grandes problemas que temos hoje é que os professores são, eles próprios, produtos da falência do ensino escolar brasileiro.

Assim sendo, tenho recusado convites para participar, por exemplo, de Comissões do MEC de reforma do currículo do ensino fundamental. A meu ver, e como eu disse a eles, esse tipo de medida equivale a começar a construção de uma casa pelo telhado. O que está faltando é compromisso das autoridades com um ensino de qualidade a todas as crianças e jovens _um ensino voltado para a formação intelectual de um povo, e não um ensino limitado à pseudo-formação de um ensino meramente técnico. E para isso é preciso uma real vontade política de investir para valer na formação dos educadores.


domingo, 8 de maio de 2011

ALUNO ENTREVISTA*

Iniciando uma nova coluna ‒ Aluno entrevista ‒ o Pedagogia Informa abrirá espaço para que um estudante do curso de Pedagogia entreviste um professor.
Para inaugurar a coluna, a aluna Iara Ferreira, do NF IVA, escolheu o profo Lúcio Alves de Barros para ser o primeiro. Confira a entrevista a seguir.

Iara: De início, apresente-se à comunidade acadêmica da FaE, falando de sua formação profissional e de sua atuação acadêmica.
Prof Lúcio: Não tenho muito o que dizer: segui o que foi possível. Minha graduação foi em Ciências Sociais na UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), na qual também andei fazendo muitas disciplinas de Filosofia. Lá pesquisei o movimento sindical, educação e trabalho com um grande Professor, Luiz Flávio Rainho. Por sorte, passei no mestrado em sociologia na UFMG e tive a orientação de outro grande professor, Vinicius Caldeira Brant. O doutorado foi em Ciências Humanas: sociologia e política na UFMG. Na graduação e no mestrado pesquisei as relações de trabalho enfocando as questões da educação com a qualificação e o que hoje os acadêmicos chamam de competência. Publiquei um livrinho e depois fui estudar a Polícia Militar e resolvi, com trabalhos etnográficos, ver o problema da violência e da educação. Recentemente eu e a Débora, aluna da FAE, terminamos um relatório e entregamos ao Centro de Pesquisa. Também andei publicando alguns livros de foram organizados por mim como "Mulher Política e sociedade", "Polícia em Movimento" e um de poesias. Dessas experiências, seguramente, o melhor foi conhecer e conviver com certas pessoas. O resto foram acontecimentos da vida.

Iara: O blog Educação Encarcerada (http://nepfhe-educacaoeviolencia.blogspot.com/), desenvolvido por integrantes do NEPFHE (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Filosofia e História da Educação) e vinculado à pesquisa "O MEDO NOSSO DE CADA DIA: da violência entre professores e alunos às escolas fortificadas e desiguais", realizou uma enquete intitulada: O sucesso na segurança pública depende da educação? O resultado foi o seguinte: 93 votos - sim, 16 - não e 6 - não sabe. Em sua opinião, o sucesso na segurança pública depende da educação, por quê?
Prof Lúcio: Eu ainda acredito que a educação, tanto a formal quanto a informal é a saída para todos os infortúnios. Também acho que é a única relação verdadeira que nos divide dos animais e dos "meios humanos" que estão por aí. Os estudiosos do campo da violência gostam de falar que existe uma supervalorização da educação, porque, mesmo com mais escolaridade, assistimos ao aumento da criminalidade. Uma besteira: o problema é que não entendo a educação como algo normativo entre alunos e professores. Educação é postura, é um processo, é condição de caráter. Não sei se me fiz entender, mas educação é mais do que pensam as autoridades e os técnicos do MEC. Quanto à enquete, ela não supreendeu. E devemos olhar com cuidado, porque a meu ver são poucas as respostas. De qualquer forma, entendo que estaríamos melhores se construíssemos mais escolas do que penitenciárias.

Iara: Embora com 93 votos positivos, houve um significativo número de respostas negativas (16). Qual é o seu comentário sobre este resultado?
Prof Lúcio: A questão é simples. Ainda temos pessoas que não acreditam na educação e também aqueles que não acreditam que as duas esferas podem estar relacionadas. O que acho importante nesta questão é ressaltar o papel do agente educador. No campo da segurança pública, ainda mais nos dias de hoje, não vejo como importante o delegado, o promotor, o juiz ou o policial. Ainda vamos sofrer e muito para ver que o ator mais importante dessa história toda é o professor. E aproveito a oportunidade para mencionar que não é possível um professor ter o salário menor do que o de um juiz, um promotor, um delegado ou oficial da polícia. Ou nos colocamos como atores importantes na sociedade ou vamos continuar minimizando o nosso papel e perdendo alunos e alunas para outras esferas de sociabilidade.

Iara: A mídia, em especial os impressos populares e os jornais televisivos, exibe a cada dia um número maior de reportagens tidas como "sangrentas". Em sua opinião, até que ponto essas reportangens podem influenciar a sociedade, sobretudo as crianças, causando o medo e até incitando à própria violência?
Prof Lúcio: Eu não tenho dúvida quanto à interferência da mídia nos mecanismos da criminalidade e da violência. De todo modo, é importante não esquecer que não existe a violência, mas violências, com "s" no final. A mídia trabalha com qualquer coisa. O que é hoje o jornalismo: um bando de gente escondendo a verdade, vendendo o sensacionalismo, o espetáculo e fazendo conchavos com os "donos do poder". Nada mais. A ideia de uma comunicação social, voltada para a democracia, o bem estar da população, como mecanismo de controle e informação, já virou sonho e um monte de dissertação de mestrado e doutorado.

Iara: Ainda sobre a violência, os casos são alarmantes e aumentam cada vez mais dentro do espaço escolar. Como ilustração, temos o filme A onda, uma das indicações do blog, que retrata um professor delegado a dar aulas de autocracia. Para prender a atenção dos alunos, ele propõe um experimento disciplinar prático que os levaria a se sentir dentro de um regime fascista. O experimento toma proporções exageradas a ponto de fugir ao controle do professor. Até onde deve ir a ousadia de um professor para não exagerar na relação com o aluno e acabar promovendo a violência?
Prof Lúcio: Eu entendo aquele filme como uma aula de didática. Infelizmente, é impossível para um professor saber o que passa na cabeça de muitos alunos. Não encontro culpados naquela narrativa. Encontro pessoas com personalidades autoritárias. O filme supervaloriza o papel do professor e não revela, ou pelo menos não deixa clara a relação, que os alunos ainda estão em outras esferas de relações sociais como a família, amigos ‒ por sinal envolvidos em drogas e gangues ‒, esportes e neste mundo virtual no qual as pessoas passam por seres potentes e oniscientes. Mas o importante é frisar que o professor não pode abrir mão do seu poder discricionário. Abrir mão de sua autoridade e dos méritos que conseguiu. Hoje assistimos tudo pelo avesso. Professores apanhando, com medo de sala de aula, sendo processados, frequentando as delegacias, doentes e cansados. Um bom experimento seria aumentar o salário e melhorar as condições de trabalho.

Iara: Mudando um pouco de assunto e, para finalizar a entrevista, na perspectiva dos alunos, a universidade é um espaço de alta rotatividade, ou seja, estudantes entram, estudantes saem. O que fica, ou o que eles deixam?
Prof Lúcio: Eu creio que nossas universidades, principalmente as federais, são da elite. O que fica é a percepção que no aluno privilegiado está materializado a eterna concentração de renda. Os mesmos dos mesmos. A continuidade e o uso de relações pessoais para a manutenção de uma espécie de "feudo do saber". Neste caso, os que ficam e os que partem fazem parte de um jogo sádico e silencioso, no qual todos já sabemos quem será o vencedor. Posso estar sendo pessimista, mas é o que sinto neste momento e, mesmo assim, acho que isso é próprio da cultura brasileira. Logo, estudantes e nós professores ‒ que também somos estudantes ‒ deixamos sempre um pouco de saudade. No entanto, uma saudade que vai perdendo o romantismo quando você se depara com amigos cansados, arrebentados pela vida, maltratados no trabalho e digo amigos porque já tenho muitos ex-alunos que hoje são companheiros de trabalho e os vejo passar pelos mesmos problemas. E quais são esses problemas? Os mesmos de sempre: péssimas condições de trabalho, salários não condizentes para a efetuação de um bom trabalho, salas abarrotadas, notadamente nas faculdades particulares e escolas do estado, pouco tempo para estudar (porque a maioria hoje se desdobra em mais de um local de trabalho), doenças a chegar, reconhecimento a desejar e o eterno sonho de que um dia vamos realmente ‒ com segurança e otimismo ‒ ensinar.



(*) Publicado em: "Pedagogia Informa" ‒ informativo interno da Faculdade de Educação do Campus de Belo Horizonte da UEMG, Belo Horizonte, ano XXVI, n. 215/216, p. 8, abr./maio 2011.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

INDICAÇÃO DE LEITURA...

"VIOLÊNCIAS NAS ESCOLAS: Desafio para a prática docente?"


Neste livro, Stelamaris Rosa Cabral (professora e pós-graduada em Supervisão e Orientação Educacional) e Sônia Lucas (mestranda em Educação, professora de Filosofia e arte-educadora) apresentam questões e reflexões que, no percurso de suas trajetórias, solicitaram seu olhar mais apurado para as “violências nas escolas”. Contando com grande experiência na vida cotidiana escolar, elas percebem as deficiências que degradam a escola e as transformações sofridas na interação dos atores escolares que circulam em seus espaços.

O ambiente retratado na obra é a escola, cujas relações são analisadas e precisam ser repensadas. O foco está nos jovens brasileiros que precisam da companhia e da orientação docente no caminhar de suas vidas em sociedade. O objetivo é refletir de que maneira as violências nas escolas podem alterar a prática docente. Nesse sentido, as autoras não se limitam à escola “de concreto”, mas pensam na instituição vista como mediadora dos processos de ensino e aprendizagem, que faz parte de nossas vidas ao longo dos anos, que está em nossa memória e na de todos que foram tocados por ela. E que, na atualidade, vê-se inundada por uma avalanche de violências. Foi sobre isso que conversamos com Stelamaris e Sônia.

Revista Educação Pública - Vocês são como a imensa maioria dos professores, que só fala de educação, escola, aluno?

Stelamaris - Somos duas educadoras que pensam educação todo o tempo. Sempre que estamos juntas não conseguimos deixar esse tema de lado. Estamos sempre antenadas com o que acontece no Brasil e no mundo. Lemos os grandes autores, procuramos conhecer os novos e nos aventuramos em escrever sobre esse assunto que nos diz respeito e nos apaixona.

Revista Educação Pública – O que levou vocês a escrever esse livro?

Sônia - A ideia de escrever sobre o que sentimos, sobre o que pensamos, sobre o que nos inquieta veio quase de maneira espontânea, como uma consequência das nossas discussões, das nossas conversas, que são sempre inflamadas pela nossa perplexidade diante do fenômeno da violência em nosso mundo. Além das violências que já fazem parte do cotidiano das escolas na atualidade.

Stelamaris - Começamos a perceber que esse assunto nos incomodava profundamente, que nos fazia questionar o que poderia estar acontecendo e querer descobrir o porquê de tantos casos de violências nas escolas. As notícias se espalham na mídia, nos relatos nas escolas, nas salas dos professores, em todo canto... Ouvíamos histórias de violências que aconteceram em escolas do país...

Sônia - Daí começamos a perceber o pior: que estávamos presenciando, cada vez mais, violências que se apresentavam à nossa frente, em meio à nossa prática, dentro das escolas, nos corredores, nas salas de aula, nos portões dos colégios, nas ruas. Enfim, a violência se alastrando por todos os lugares.

Stelamaris - E aí, quando nós duas nos encontrávamos, conversávamos sobre os últimos acontecimentos e acabávamos estarrecidas com tantas “novidades”, com as últimas notícias dos jornais e com o que aparecia na internet. As notícias sobre atos de vandalismo, depredações, agressões de todo tipo, porte de drogas, armas e mortes iam aparecendo, descortinando uma nova realidade social que estamos vivenciando nesses novos tempos. Uma época em que a violência urbana degrada nossa sociedade, pela cultura da violência.

Revista Educação Pública - Como era a escola no tempo em que vocês eram alunas?

Sônia – Essa situação de violência nos fazia lembrar de quando frequentávamos a escola como alunas. Era uma escola que não existe mais, e isso traz uma tristeza profunda. Aí nossas discussões tomavam um novo rumo, um rumo de volta ao passado, quando éramos felizes e não sabíamos.

Stelamaris - Começávamos a lembrar como era o clima da escola pública, como era a nossa relação com os professores e com os colegas de turma, como nos comportávamos dentro da escola, nas filas, ao cantar o Hino Nacional, como era boa a hora do recreio, a comida gostosa que era servida... Ah! A escola era muito boa!

Revista Educação Pública - E dá pra comparar com a escola de agora?

Stelamaris - Fazendo uma comparação com os dias de hoje, podemos perceber a total desvalorização da escola – ao contrário daquela época –, a desvalorização do trabalho docente, do aprendizado, do convívio harmonioso, é a desvalorização generalizada da educação como um todo.

Sônia - E percebemos também as crianças e os jovens perdidos em meio à desvalorização dos valores mais elementares da vida em sociedade. Respeito, amizade, tolerância, ética, família, educação... não se veem por aí.

Stelamaris - Aí ficamos nos perguntando: o que fazer? O que podemos fazer para mudar esse cenário, que apresenta uma profunda transformação histórica, política e cultural da sociedade? Como lidar com essa nova escola, cheia de conflitos, fragmentada por acontecimentos que a transformaram, aos poucos, em espaço de violências, inseguranças, medos e silêncios impostos?

Revista Educação Pública - Vocês percebem alguma saída?

Sônia - Não temos uma fórmula ideal, mas sabemos que temos que contar com a participação dos professores, das famílias, das comunidades, do Estado, da sociedade organizada, enfim, com a cooperação de todos. Afinal de contas, a escola é de todos, é para todos, mas não pode ser para a violência.

Stelamaris - A escola deve ser lugar de paz, de harmonia, de alegria, de aprender, de ensinar, de viver. A escola precisa reforçar o seu lugar de excelência do humano, dos valores, da estética, da ética.

Sônia - Eu acho que cabe a nós, docentes, trabalhar para a mudança. É a nossa responsabilidade, é o nosso trabalho. Eu acredito, nós acreditamos que a escola está em nossas mãos. É a partir de nossas reflexões, das discussões, do nosso diálogo com a sociedade que vamos tentar dar conta de tamanho desafio.

Stelamaris - Somos nós, educadores, que vamos apontar para as violências nas escolas e dizer: “Aqui não! Aqui na escola não pode ter violência!”. Pode ser que assim a sociedade aprenda com a escola e passe a ter a mesma atitude. Quem sabe o mundo aprende a mudar com a escola? Acho que foi pensando nisso que resolvemos escrever o livro.


Ficha técnica:
Título: Violências nas Escolas: Desafio para a prática docente?
Autoras: Stelamaris Rosa Cabral e Sônia Lucas
Gênero: Educação
Produção: Gramma Editora (http://grammanet.com.br/loja/
)
Ano: 2010

Fonte: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/jornal/materias/0441.html

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

'É impossível eliminar o bullying', DIZ PSICÓLOGA

por Luciana Alvarez, 20 set. 2010

Educar as crianças para o respeito, com ações permanentes e conjuntas de escolas e pais, é a chave para aplacar o fenômeno, diz especialista.

O bullying está ficando mais frequente?

O bullying sempre existiu, mas foi potencializado e adquiriu visibilidade com o advento do cyberbullying. Antes, era considerado brincadeira de criança. Hoje, é visto como um padrão de agressão aprendido, que pode se cristalizar até a vida adulta.

É possível erradicar a prática?

Assim como a violência na sociedade, não é possível eliminá-la. O que se pode fazer é reduzir. Mas a maior parte das escolas não tem programas permanentes. Fazem só ações pontuais, o que é insuficiente.

Por que é tão difícil o combate?

É difícil porque a educação em valores – respeito, cooperação, gentileza – está deficiente. Imperam na família e sociedade modelos de desrespeito; mostra-se que é legítimo se divertir com o sofrimento dos outros. A substância do bullying é o desrespeito e a discriminação.

Que tipo de medida pode reduzir o bullying?

Uma ação que envolva a todos, dos funcionários às famílias, em um projeto de longo prazo. Mas essa parceria, que é absolutamente essencial, é também rara. A escola costuma acusar a família de não educar. A família tende a responsabilizar a escola, onde ocorre o problema.

Um agressor deve ser punido?

Consequências precisam acontecer. Mas não adianta que seja apenas punido, ele tem passar por uma conscientização e tem de haver uma reparação ao agredido. E deve haver ainda um trabalho com os expectadores.

Por que os expectadores?

Existe a plateia passiva, que finge que não vê, e a plateia cúmplice, que apoia. Mas pode existir uma plateia transformadora, que, ao presenciar o bullying, tenta inibir a ação do agressor e dar força à vítima.

O que os pais de um agredido devem fazer?

Primeiro, escutar o filho. Depois, buscar uma parceria com a escola. Não adianta tirar da escola, fora casos excepcionais. Se a vítima não fizer um trabalho para se fortalecer, pode voltar a ser vítima. Porque muitas vezes ela pertence a um grupo alvo de preconceito ou é alguém que se destaca e causa inveja.

E os pais de um agressor?

O primeiro passo é refletir sobre onde o filho está aprendendo aquele comportamento. Muitas vezes é de dentro de casa.

QUEM É: MARIA TEREZA MALDONADO - É autora de A Face Oculta – Uma História de Bullying e Cyberbullying, voltado para a conscientização de crianças e adolescentes. Atualmente trabalha em um livro teórico sobre o tema.

Fonte: O Estado de S.Paulo (SP)