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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Proteger as crianças

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Por Adriana Facina
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Nos ano 1980, com roupas mínimas, Xuxa comandava o programa infantil de maior audiência da TV brasileira e Sandy e Junior, bem pequenos, cantavam em rede nacional a música de duplo sentido Maria Chiquinha, que foi o início de uma bem sucedida carreira de estrelato mirim.
 
Nos anos 1990, foi a vez do É o Tchan e Cia do Pagode botarem as meninas para rebolar em roupas curtas e descer na boquinha da garrafa, simulando ato sexual. Tudo isso nas tardes de domingo, em atrações como o “Domingão do Faustão”.
 
De lá pra cá, foram incontáveis os comerciais de cerveja exibindo fartamente corpos femininos de modo sensual. Publicidade disponível a qualquer horário, para quem quiser ver. A ampla indústria pornográfica também exibe há décadas suas publicações em bancas de jornais de modo livre e desinibido. Busdoors de propagandas de motéis e lingerie ocupam as janelas dos ônibus que carregam entre seus passageiros crianças em idade escolar. Sem falar em filmes, novelas e todo um amplo cardápio de produtos em que o sexo é prato principal, oferecido cotidianamente aos cidadãos e cidadãs brasileiras de todas as idades.
 
Podemos dizer, sem medo de errar, que estamos imersos numa cultura do corpo que não somente objetifica o corpo feminino como fonte de prazer sexual como também naturaliza esse papel da mulher. Quanto mais sexualmente desejada, mais bem sucedida.
 
Não é de se espantar que as meninas em nosso país aprendam essa lição a cada dia mais cedo. Sobretudo as meninas das camadas populares que, desde pequenas, assumem muitas tarefas como cuidar de casa, dos irmãos e de si mesmas, já que a rotina de trabalho dos pais e a ausência de um sistema de educação pública de qualidade que funcione em tempo integral lhes impõe isso. São elas também que, pelos mesmos motivos, mais tempo ficam expostas às mensagens dos meios de comunicação que mencionei acima. É aí que começa a chamada adultização.
 
O que quero dizer é que a performance da MC Melody expressa processos mais profundos. Criminalizar seu pai (MC Belinho) é abafar, com farta dose de sensacionalismo, as questões que afetam a infância e juventude popular no nosso país. Um dos grandes méritos do funk como arte e manifestação cultural é trazer essas contradições que ninguém quer ver e que nossa sociedade prefere enfrentar apoiando a redução da maioridade penal.
 
Criança dançando sensualmente é algo visto com horror, mas menores de idade enviados para as abjetas e desumanas prisões brasileiras é aceito. De que e de quem queremos proteger nossas crianças? É preciso que a sociedade se mobilize para fazer esse debate de modo democrático e qualificado, pois da resposta a essa pergunta depende nosso futuro como país. Que o caso da pequena MC possa servir para isso, o que só será possível se superarmos o elitismo, o preconceito e o moralismo com que usualmente são tratadas as produções culturais das periferias.
 
Enquanto isso, o C.A.I.C. Theóphilo de Souza Pinto, escola estadual situada no Complexo do Alemão, abriga uma base da UPP desde 2011. Como resultado, o prédio está cravejado de tiros, pois a escola tornou-se abrigo para policiais militares durante trocas de tiros com traficantes. De 1.330 alunos, restaram 700 que muitas vezes ficam sem aulas. Recentemente, foram divulgadas inscrições feitas por esses alunos em volta dos buracos de balas nas paredes de sua escola. Uma delas me marcou e trazia a pergunta: “Como estudar assim?”
 
O medo dessas crianças e jovens é real. Afinal, segundo a Anistia Internacional, só em 2012 foram 30 mil jovens assassinados no Brasil, 77% deles eram negros, em sua maioria moradores de favelas e periferias do país. Os alunos da escola do Alemão sabem que podem se tornar parte dessa estatística. Até agora o Ministério Público ainda não se pronunciou sobre o caso.
 
* Professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/Museu Nacional/UFRJ. Desenvolveu pesquisa de pós-doutoramento sobre música e lazer popular no Rio de Janeiro, com ênfase no funk. Atualmente pesquisa arte, produção cultural e práticas de letramento em favelas cariocas
 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A educação e os meios de comunicação

 

Lúcio Alves de Barros*
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Não creio que exista dúvida sobre o importante papel da mídia nos dias atuais. Sabemos de sua importância no campo da socialização de informações, da ressonância em publicidade no que toca ao cenário das políticas públicas, à democratização das informações e à necessidade de liberdade de sua ação no que se refere ao fortalecimento dos pilares da democracia. Não obstante sua importância, a mídia como veículo de informação na educação vem se revestindo, nas últimas décadas, de roupagens constrangedoras, complexas e perigosas.
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Uma das roupagens da mídia se refere ao seu papel de mediadora de relações sociais em ambientes domésticos e privados. Os meios de comunicação, especialmente a TV, ao entrar logo cedo na casa cheia de filhos, funcionam como verdadeiras babás eletrônicas, fornecendo ao infante ou ao adolescente um turbilhão de informações sobre os quais dificilmente os responsáveis teriam controle. Imagens duras, “reportagens quentes”, notícias sensacionalistas, acontecimentos sexualizados e sensualizados se misturam em horários diversos com propagandas, programas e publicidades. Com muita dificuldade uma criança entenderia o como e o porquê de determinadas ações serem direcionadas de determinada forma na tela da TV. Os cortes, as imagens, a cadência de informações não são neutras, e o descontrole por parte do receptor é inviabilizado, apesar da fala de que “não quer ver, desligue a TV”, “não leia o jornal” ou “não escute o rádio”.
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Outra roupagem dos meios de comunicação é o de ser uma instituição acima dos seres humanos e até de “deus”. Não por acaso, católicos e protestantes invadiram tanto canais abertos como fechados, vendo nesse veículo uma boa forma não somente de angariar fundos como também de levar ao crente o que determinadas religiões entendem por deus. Como mecanismo de poder, os meios de comunicação também assumem papel político. Tal como o anterior, trata-se de agente sem neutralidade e que produz de acordo com o “coronelismo midiático”, que no Brasil aparece nas mãos de poucas famílias. É o cúmulo do absurdo, haja vista que os meios de comunicação, notadamente as redes de televisão, operam alicerçados em concessões públicas que, a despeito da temporalidade, tem se mantido nas mãos dos mesmos donos de sempre.
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Outra e polêmica roupagem que a mídia assume é o de educadora em tempo integral. Aparentemente, primeiro ela atuou na base do vídeo; os mais velhos devem lembrar dos antigos telecursos passados logo ao amanhecer. Tais cursos atendiam tanto ao Ensino Fundamental como ao Médio. Com os avanços da informática, os meios de comunicação alcançaram a hiper-realidade e acabaram com as barreiras de tempo e espaço. Atualmente, pela internet os alunos interessados que não estudam nem em sala de aula se esforçam por assistir em vários meios uma ou duas aulas que, ao longo do tempo são armazenadas no ciberespaço. Mas a mídia vai mais longe: ela tem a pretensão de ser uma educadora privilegiada e uma potencial formadora de opinião e de identidades. Para isso, não é preciso tanta força. Os meios de comunicação têm ao seu dispor, diferentemente da sala de aula, imagens, sons, movimento e relações em tempo real. Também oferecem “facilidades”: ajudam no armazenamento, na comparação de informações, na organização de dados e nas pesquisas. Todavia, ela também forja a preguiça, a miopia mental, a mentira, a falsidade e a ideia de que guardar e reter conhecimento é o mesmo que saber usá-lo. Daí a presença marcante das colas nas instituições de ensino e da produção de “intelectuais” que operam na simples repetição de ementas e conteúdos.
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Para finalizar, é preciso apontar que podemos ser vítimas desse “porre” de informações que tende a embebedar computadores com livros que não vão ser lidos, pesquisas, relatórios e dados que jamais serão aproveitados. O perfil da educação oferecido pela mídia não comporta a educação crítica e transformadora. Não é por acaso a presença do corte, dos programas gravados e da inexistência do contraditório. Não é possível, ao contrário das ações das instituições de ensino, colocar em xeque a mídia educacional que navega na burrice de massa, no pensamento pequeno e na falta de ética em relação aos que não possuem poder. Nesse caminho, é imperioso lembrar aqueles que estão por trás dos mass media. Eles, apesar do chamado ciberespaço, não falam por si. Atrás dos computadores, da TV, dos rádios, revistas e jornais, temos uma “educação” manipulada por poucos e que não possuem o mínimo de didática, currículo e que não chegam nem perto do que se entende por cuidado com o outro.
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* Professor da Faculdade de Educação da UEMG - Publicado em 26 de agosto de 2014 - Edição 32.
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Fonte: Revista Educação Pública: Reflexão e interação de educadores, RJ: In: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/comunicacao/0035.html

terça-feira, 1 de julho de 2014

Educação: um caso a se pensar, em uma cidade do interior de Minas

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Lúcio Alves de Barros*
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Em recente pesquisa feita com apoio da Fapemig e da Faculdade ASA na cidade de Brumadinho (MG) em uma escola estadual, foram de capital importância alguns achados acerca das experiências no trabalho e nas violências vivenciadas pelos docentes. Mas antes de descrever alguns aspectos é necessário dizer que não é por ser uma cidade de interior de pequeno porte, ou talvez esquecida pelos desavisados e críticos de plantão, que ela não seja um bom objeto passível de pesquisa e contribuição ao campo acadêmico. Pelo contrário.
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Em primeiro lugar, cumpre mencionar a inexistência de uma “violência dura”, de grande clamor público, e de uma “criminalidade violenta” ou casos nos quais a polícia tem que atuar a todo momento. Os professores entrevistados afirmaram a inexistência dessas práticas dentro e fora da escola – que, por sinal, é muito organizada, limpa e cuidada. As violências encontradas são de pequeno porte, como incivilidades, maus-tratos e indisciplina.
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Em segundo lugar, é curioso e digno de admiração o respeito dos professores em relação aos estudantes. Os docentes, com larga experiência e formação, alguns tendo até mestrado, demonstraram uma “força sem igual”. Acreditam categoricamente na educação como prática libertadora e que estão auxiliando e “formando pessoas” para melhores dias. Muitos deles asseveraram inclusive que já conseguiram recuperar as esperanças de muitos adolescentes e jovens que andavam descrentes com a vida. A ação dos professores nesse sentido é de “gestor de emoções”, o que vem auxiliando na formação dos alunos e nas relações cotidianas.
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Em terceiro lugar, é bom deixar claro que lecionar em uma escola pública do interior parece agradável e bom para os docentes pesquisados. As estratégias de defesa dos professores nessas escolas não passam de ações cotidianas construídas na base da solidariedade e na sociabilidade com os responsáveis. Em uma cidade de interior, as pessoas se conhecem, ainda trocam informações e têm acesso umas às outras em vários espaços de relações sociais. Não por acaso professores entram em contato com os pais – alguns antigos amigos de infância – e descrevem a situação e o que anda ocorrendo com o filho/estudante naquele espaço. Mais que isso, professores chegam a fazer valer sua autoridade, “chamando a atenção” e recebendo respeito e admiração de pais e alunos.
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Finalmente, a escola estadual (pública e gratuita) em Brumadinho, a despeito dos problemas encontrados no campo da falta de recursos e de professores devido ao jogo de designações do estado, anda firme e com as próprias pernas. Possui professores engajados e estudantes que possuem excelentes trajetórias no interior da instituição escolar. Muitos – o que não deixa de ser um orgulho para os docentes – passaram para universidades e estão inseridos no mercado de trabalho. É digno de nota o papel da direção da escola, que oferece a discricionariedade, a autoridade, o apoio, a liberdade e a defesa incondicional dos professores em casos de conflitos e negociação. É nesse ambiente que encontramos a escola estadual em pesquisa. É neste ambiente que acreditamos que as escolas do interior, públicas e de qualidade, são possíveis e talvez ofereçam um ambiente (de paz, tranquilidade e segurança) muito mais aconchegante para os alunos estudarem.
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Agradeço à Gabriela Rasuck, que auxiliou na pesquisa. Sem ela, o trabalho por certo não existiria.
Publicado em 01 de julho de 2014.
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Professor na Faculdade de Educação - UEMG / FAE / BH
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Fonte: Revista Educação Pública - http://www.educacaopublica.rj.gov.br/suavoz/0161.html

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O fim da educação: indisciplina, política e judicialização

Por Lúcio Alves de Barros*

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Professoras e professores estavam discutindo em reunião o problema da (in)disciplina em sala de aula. A coisa me pareceu tão séria que por alguns minutos passaram-me pela cabeça diversas imagens de acontecimentos – muitos deles inaceitáveis – que, aparentemente, vêm se naturalizando entre nós. Algumas delas merecem atenção.
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A primeira diz respeito a como manter a disciplina em sala de aula. Esse problema, antigo e ostensivo tanto nas escolas como nas universidades, não tem passado despercebido em pesquisas na área da educação. No entanto, o problema tem tomado novos perfis a ponto de o estudante recalcitrante ser tratado como vítima. Há tempos tornou-se normal o uso do celular, do smartphone, do tablet em sala de aula. Enquanto o docente ensina, o aluno sem nenhuma vergonha manda mensagens, curte o Facebook, tira fotos e grava suas aulas. Para isso, ele não se contenta em ficar calado; chega ao cúmulo de avisar ao colega que acabou de “curtir” sua mensagem ou que respondeu à altura. Quando ele se abre em atenção à aula, o bravo estudante ainda deseja atenção. Obviamente é praticamente impossível atendê-lo. E, como não foi atendido como quer, lá vai ele para mais uma curtida ou fala inadequada e descontextualizada do que aconteceu em tempo real na sala de aula.
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De forma alguma sou contra a entrada e o desenvolvimento das novas tecnologias de informação, que inegavelmente ajudam na didática, na rapidez nas informações, na construção do conhecimento e nas pesquisas. Mas professores e estudantes – e aqui está o segundo ponto que merece atenção – devem saber os limites ou no mínimo tratar de criar alguns. Comportamentos inaceitáveis em sala de aula são fontes de desrespeito ao corpo docente. Em geral, os discentes estão “pouco ligando” para isso. Eles desconhecem, como os diretores e a supervisão, os regulamentos internos, chegando ao cúmulo de tentar plantar a dúvida e levar o professor às vias de fato quando de um acontecimento sério ou de menos valia na sala de aula. Para isso, basta que o pavio seja aceso e a plateia, inclusive de docentes, goze diante do voyeurismo social sempre sádico e presente nestas ocasiões.
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A questão toma novos contornos quando o discente, do alto de sua sabedoria, ainda cai na onda da judicialização da educação. Esse terceiro ponto se assenta em palavras ou frases como “você tem é que estudar”, “não adianta ficar no celular e fazer a prova”, “depois o coitado sou eu, né!”, “quero ver o que vão falar os seus pais” e “cansei de vocês”, dentre outras, que se constituem verdadeiras bombas para que o discente ou o aluno, antes desatento, resolva levar o docente para a mesa do juiz. Até lá, o poder discricionário do professor em sala de aula já foi esquecido, os nervos já estão sendo colocados em prova, sua capacidade e sua carreira colocadas em xeque, a ameaça ou a denúncia parece crescer de tamanho e ostensividade, sem falar nas versões dos fatos, que, plantadas e encharcadas vão render frutos não comestíveis.
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A judicialização da educação é absurda; ela retira do professor, da coordenação e da instituição escolar toda a sua legitimidade. Por consequência, ela humilha os professores, que, encarcerados em seus poucos recursos, geralmente são esquecidos pelo sindicato e por seus pares. Mais uma vez é possível apontar para o fim da educação. O fim da política nas instituições escolares. Assistimos inertes ao começo do desmonte das entidades garantidoras do controle social e de formação de identidades. Finalmente, vemos de perto a “pá de cal” nas relações daqueles que, por natureza, deveriam estar unidos em causas nobres como a construção do conhecimento, uma sociedade mais humana e, nem que seja por sonho, com liberdade e igualdade.
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* Doutor em Ciências Humanas e professor da Faculdade de Educação da UEMG
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Fonte: Publicado em 21 de maio de 2013 na Revista "Educação Pública". http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/direito/0008.html

sábado, 8 de dezembro de 2012

Cerimônia do Adeus

Pablo Capistrano*
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“Deve ser muito embaraçoso ser ateu e materialista e ainda assim falar português”.
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Essa talvez seja a mais evidente conclusão a que a gente chega quando lê Adeus a Emmanuel Lévinas. O livro é constituído pelo discurso pronunciado por Jaques Derrida no cemitério de Pantin, no dia 27 de dezembro de 1995, por ocasião da morte de Lévinas; junto com o texto A palavra acolhimento, lido pelo próprio Derrida um ano depois da morte do amigo em um encontro acadêmico.
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Não se trata apenas de um elogio fúnebre de um dos maiores pensadores judeus do século XX para outro igualmente grande pensador judeu. Filósofos também aproveitam a hora da morte para praticar o seu esporte preferido, que é levar o pensamento a seus limites, sempre que algo ou alguém oferece uma abertura para que a imaginação e a linguagem possam se libertar de suas cadeias cotidianas.
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Por isso Derrida pensa a palavra a-Deus, com todo o constrangimento que ela contém. Como é possível, diante da morte de um amigo, dizer “até logo”, quando se assume a crença metafísica de que só há este mundo, de que só temos esta vida, de que só há esta experiência radical de existir? E como dizer “a-Deus” se essa despedida definitiva, em nossas línguas neolatinas, implica o traço de uma entrega, de um abandonar, de um direcionar o morto a um Deus em que não se acredita? Derrida escreve: “Antes e para além da ‘existência’ de Deus, fora de sua provável improbabilidade, até no ateísmo mais vigilante, senão no mais desesperado, o ‘mais sóbrio’, o dizer a-Deus significaria essa hospitalidade”.
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Hospitalidade, recolhimento, entrega. Despedir-se é, de um modo ou de outro, apostar nessa entrega, nessa hospitalidade, nesse acolhimento. Saber-se estranho nesse mundo, estrangeiro nessa terra, exilado nesse tempo. A gente entrega a Deus os nossos mortos porque não há como fugir do paradoxo de que o definitivo é sempre um campo de morada, um lugar para se estar, um espaço de pertencimento.
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Pela epifania dos rostos humanos, o sujeito que pensa e fala, que anda pelo mundo como se tivesse uma seiva, como se carregasse uma luz, como se fosse um mistério do mundo em sua irredutível complexidade, é sempre um hóspede. Sempre um passageiro que atravessa a vida com o ritmo das estações, com a marcação dos momentos.
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O tempo das nossas palavras é muito estranho, amigo velho, para que a gente possa sonhar em com um sistema que nos liberte de Deus. Ele anda conosco, mesmo por entre as brechas das palavras que nós usamos quando tentamos escapar da Sua presença.
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Publicado em 04/12/2012
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Escritor, professor de Filosofia do IFRN
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sábado, 14 de janeiro de 2012

O papel da imprensa na construção de uma sociedade sustentável

Por José Paulo Grasso em 10/01/2012 na edição 676
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O ano de 2011 terminou. Num breve balanço, a atuação da mídia derrubou em um ano seis ministros pelos mais variados escândalos, sendo que ninguém foi punido, outros ficaram em situação altamente constrangedora e, incrivelmente, não aconteceu rigorosamente nada. Num quadro desses, chegou a hora de discutirmos o importante papel dos meios de comunicação na construção de uma sociedade sustentável e socialmente justa.
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Será que algum país no mundo tem vinte e sete partidos, recebendo generosos recursos públicos do Fundo Partidário? Se as ideologias desapareceram com a crise de 2007, quando passou a ser priorizada a tal de “qualidade de vida”, como se justifica a existência de tantos partidos, já que essas legendas são “supostamente” de aluguel e negociam descaradamente desde minutos no horário político até a governabilidade para quem der a melhor oferta cash, sem falar dos caixa dois?
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A partir dessa constatação podemos entender por que a corrupção anual é estimada em cerca de R$ 80 bilhões. Com um botim desse tamanho e a impunidade reinante, num ambiente em que os valores e a ética são desprezados e a mídia surpreendentemente não cobra punições, não causa surpresa já termos mais 30 legendas em processo de organização. Nove delas já conseguiram se oficializar para entrar nessa “boquinha”, faltando apenas o registro nacional. No Facebook, por exemplo, quase todos têm postura de futuros candidatos. A realidade é essa e inexplicavelmente há uma apatia coletiva bovina com relação aos nossos direitos civis, quando, com a indignação atual, todos deveriam estar se unindo e lutando para reverter esta situação que acabará nos levando à uma falência vexatória.
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O abismo social do neoliberalismo
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Por que não discutir este problema, já que somos motivo de chacotas mundiais por permitirmos que nossos representantes eleitos “democraticamente” se associem para “supostamente” assaltar os cofres públicos conforme somos obrigados a constatar diariamente? Todos observaram que os ministros caíram e que não aconteceu nenhuma mudança para inibir os fatos que levaram a estas quedas. Que democracia é esta na qual a sociedade não participa ativamente e não há uma mídia consciente da importância de sua participação?
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Algo precisa ser feito e a imprensa da área econômica não está interessada nisto. Renomada comentarista de economia começou recentemente sua coluna diária dizendo que nem mesmo a caudalosa cachoeira de sete quedas, se ainda existisse, seria capaz de lavar a corrupção no Brasil, quando na verdade a luz do sol é o maior detergente que existe para acabar com o malfeito e temos todo um arcabouço legal para colocar em prática uma transparência total das contas públicas que inibiria imediatamente tais práticas. Basta que a sociedade exija e dê suporte à presidente para executar uma faxina de verdade. Além de escrever uma bobagem como esta, ainda deu provas do autoritarismo que permeia na área econômica ao, no dia seguinte, questionar como uma pessoa da importância que ela acha que tem, ao nível de um Gerdau ou de um Eike, ter que comparecer pessoalmente a uma repartição pública para receber as senhas pessoais e intransferíveis de sua certificação digital, exigida pela receita federal como os outros mortais comuns fazem.
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Isto num ambiente mundial onde, inacreditavelmente, estudantes abandonaram as aulas do economista Greg Mankiw na conceituada Harvard University, protestando contra o fato de que “o curso propaga ideologia conservadora disfarçada de ciência econômica e ajuda a perpetuar a desigualdade social”. Os alunos pegaram até leve com tal teoria econômica ortodoxa: poderiam ter acrescentado que fomenta a instabilidade financeira, a corrupção e ainda causa baixo crescimento. Estes estudos usam a teoria econômica neoclássica para justificar “cientificamente” o neoliberalismo, uma ideologia reacionária que entre 1979 e 2008 promoveu o atraso e a desigualdade em todos os países que a aceitaram. E que, ao mesmo tempo, “pressiona” os cidadãos dessas nações a ficarem calados, já que não dominam o “conhecimento” matemático e técnico, favorecendo com isso um abismo social aliado a uma concentração de renda absurda na mão de 2% da população. Não é espetacular? Adivinhe qual é o modelo praticado no Brasil e, consequentemente, no Rio de Janeiro?
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Privilégios, corrupção e impunidade
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A economia mundial tem necessariamente que se reinventar, porque este conceito de privatizar os lucros e democratizar os prejuízos atirou a parte do mundo dita mais “avançada” socialmente num abismo socioeconômico, detonando a famigerada Primavera Árabe, a atual onda de Occupy Wall Street e revelou que o que importa mesmo é manter a tal de “qualidade de vida” ameaçada pela crise mundial; e os economistas ainda não entendem direito o que é que hoje em dia se quer exprimir até no PIB.
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E pensar que tudo isso começou no Butão, quando este reinado resolveu medir o índice de felicidade dos seus habitantes, sendo, inicialmente, motivo de chacotas. Com o detalhe que hoje naquela parte do mundo que está em crise qualquer investimento, até mesmo no social, tem sido questionado quanto ao seu retorno, pois já passou a época em que se desperdiçava dinheiro para se eleger políticos como predomina na economia brasileira. Quando vamos acordar para o fato de que a hora de mudanças socioeconômicas está passando? E que se a perdermos, a crise que nos atingirá terá consequências ainda piores do que a americana ou a europeia? Alguém lembra como terminou o nosso milagre econômico? Das exigências absurdas do FMI?
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O ministro da Fazenda se ufana de que a economia brasileira, medida de forma irracional pelo PIB, ultrapassou a do Reino Unido e assumiu a sexta posição no ranking mundial. Na verdade a Inglaterra produz aquele valor de bens e serviços com pouco mais de 60 milhões de habitantes, enquanto o Brasil produz o seu com quase 200 milhões. É obvio que a produção per capita dos brasileiros ainda é bem menor do que a dos ingleses e logicamente isso é muito mais importante que o valor absoluto do PIB. Basta olhar ao redor e ver a miséria, as favelas, a criminalidade, a infraestrutura caótica, os serviços prestados à população, a concentração ilegítima de renda graças a privilégios escusos, a corrupção, a impunidade, para notar que a situação nos dois países é completamente diferente.
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Sangrias sucessivas e impunes
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Para piorar ele arremata que em 20 anos estaremos no mesmo patamar dos ingleses, o que só se concretizará se reformas profundas fossem pensadas em curto, médio e longo prazos, coisa normalíssima, mas que aqui ninguém quer fazer, porque do jeito que está é que deve ficar para assegurar os “direitos” que uma parte das “elites” acha que tem, inclusive a dos meios de comunicação. Se temos uma inflação controlada há mais de 15 anos, por que não se planejar em curto, médio e longo prazos, como todos fazem? Por que estranhamente os economistas não tocam neste assunto? E muito menos os colunistas da área econômica? Todas as economias que emergiram foram pensadas assim, como a alemã, a japonesa, a coreana, a chinesa, entre muitas outras. A Austrália, por exemplo, está fazendo um planejamento para os próximos 40 anos!
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Aliás, economistas e assessores financeiros, a partir de 1971, passaram a se achar os donos da verdade quando o presidente Nixon suspendeu a obrigatoriedade da conversão do dólar em ouro e, com isso, o dinheiro perdeu sua referência com a economia real. Assim a criação de “jogadas”, a especulação desenfreada e a destruição criminosa de moedas passaram a ocorrer com grande facilidade, pois o endividamento do setor privado saiu de controle e, na falta de uma âncora sólida para a economia, as crises financeiras se tornaram muito mais frequentes e profundas. Eles pensaram ter um papel estratégico: seriam os mandantes desse novo ajuste monetário e financeiro da economia mundial. Mas, passados 40 anos, está constatado que eles falharam, que em sua ganância por lucros cada vez maiores atiraram o planeta numa crise sem precedentes, devendo ser fiscalizados com lupa, porque mesmo depois dessa lambança, continuaram agindo como se o mundo fosse um cassino de onde eles tirariam lucros fantásticos para dar aos seus investidores e continuar impondo seu estilo de vida nababesco, o que não combina com a realidade atual onde trabalhadores honrados foram atirados literalmente na rua com suas famílias, pelos seus erros. Por que a imprensa brasileira não mostra que isto ainda está se repetindo aqui, onde muitas das operações de sucesso do governo são sustentadas por milagres contábeis? As tão faladas e necessárias reformas não saíram do papel e os escândalos se sucedem, como no caso da compra do banco PanAmericano pela CEF e nos títulos da dívida pública, de pouco ou nenhum valor, vendidos por preços acima do mercado graças a um “erro” no sistema de informações da Caixa Econômica Federal. São valores acima de R$ 5,5 bilhões, desviados por “supostos” participantes de partidos políticos, ligados à base de sustentação do governo, sendo que não há economia no mundo que resista a essas sangrias sucessivas e impunes.
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Eutanásia seletiva
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Não está na hora de a mídia acordar para estes fatos, exigindo, ao lado da sociedade a quem ela presta serviço, punição exemplar e planejamento integrado em todas as esferas para que os “políticos” passem apenas a gerir metas com transparência e assumam responsabilidades legais por seus atos? Como, aliás, acontece no setor privado e em todos os países que tem economias sérias.
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A Assembleia Legislativa do Rio é notoriamente um enfeite caríssimo, porque os “nobres” vereadores só se preocupam em homenagear eleitores, não produzem leis de relevância, não defendem os interesses dos cidadãos porque aprovam tudo que a prefeitura empurra, porque seu objetivo é o de se perpetuar no poder através de políticas sociais estimuladas pelo poder público. Como se não bastasse, se concederam um aumento de indecentes 62%, apesar de a lei estabelecer que tal reajuste só pode entrar em vigor na legislatura seguinte. Mas como estamos vendo eles estão acima das leis. Na Câmara dos Deputados o esquema é muito parecido e o governador tem maioria confortável, aprovando tudo o que quer. Você, leitor, acredita mesmo que em um cenário desses poderemos produzir as tão necessárias mudanças e correções de rumo?
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Passaremos a falar agora dos serviços prestados à população para entendermos melhor a situação. Analisaremos rapidamente o Rio, entrementes, como sabemos, o quadro é praticamente o mesmo por todo o país. Na área da saúde, temos as UPASs, que são só midiáticas, não atendendo às reais necessidades da população, como de vez em quando é noticiado, mesmo assim quando alguém da imprensa sente na pele. Na da Ilha do Governador, por exemplo, segundo denúncia, não há um mísero aparelho de raio X. Poucos dias atrás me pediram para publicar no meu perfil do Facebook um pedido de ajuda para a senhora de um coronel do Corpo de Bombeiros que tinha tido um aneurisma cerebral e precisava com urgência de vaga num CTI. Foi o suficiente para começar a ocorrer um apavorante desfile de problemas semelhantes, pessoas revoltadas e casos e mais casos de mortes provocadas por falta de vagas em CTIs. O estado pratica uma eutanásia seletiva em seus pacientes, provocando uma situação que uma hora dessas terminará muito mal com um médico sendo justiçado como se tivesse culpa, pois hoje o melhor remédio é uma liminar, mas a crise na área está tão absurda que nem mandando prender o diretor do hospital se consegue uma internação. E o número de vagas? Diminui ano após ano, ao invés de aumentar; por que será?
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Dificuldades em matricular uma criança
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Os depoimentos que nos chegam são de cortar o coração e vão de desvios, falta de materiais necessários a procedimentos rotineiros, manipulação de vagas por políticos, degradação proposital de hospitais para poder alegar emergencialidade e desta forma conseguir liberação de licitação visando entregar a obra a um patrocinador de campanha, fraudes em compras, enfim, o corolário conhecido que inexplicavelmente a imprensa, especialmente a carioca, não denuncia, mesmo apresentando elevado número de falecimentos diários causados por falta de atendimento adequado. Mesmo no setor privado a situação não é boa, como atesta o elevado índice de reclamações na defesa do consumidor, sendo hoje a melhor opção para quem pode a ponte aérea para São Paulo.
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A dengue está voltando, indecentemente, ao Rio, onde a Secretaria de Saúde registrou um aumento de 475% em relação a 2010, com 149 mortes. Aquela mídia do Rio publica um número menor (450%) e não divulga o número de mortes. Na contramão de todo o país, em que diminuiu em 25%, segundo os dados oficiais. Parece que combatê-la não dá um percentual, então ela cresce ao invés de diminuir; porque ao se tornar emergencial verbas vultosas são liberadas sem controle. Que Rio de Janeiro é este?
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Na área da educação, em que o Rio ficou em 26º lugar no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), entre 27 unidades da federação, é preciso falar mais alguma coisa? Os professores vivem em greve, há denúncias de desvios de verba da merenda, os salários e as condições são péssimas, vários funcionários se demitem diariamente, as políticas públicas não tem continuidade, sendo que os professores, a população e a mídia ainda não acordaram para o fato de que sem planejamento e participação ativa de toda a sociedade não há nada que dê jeito. Claro que obras que supostamente dão comissão continuam sendo executadas e aquelas compras “tradicionais” também. A mais recente é, para breve, a aquisição de iPads. Enquanto isso, pais e mães têm dificuldades absurdas em matricular uma criança numa escola de, ao menos, um mediano padrão.
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Cachoeiras de esgoto
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No setor de transportes públicos, que são utilizados por apenas 16% da população, a situação é criminosa. Latas de sardinha são mais confortáveis e funcionais, pessoas perdem até 5 horas diárias em deslocamentos, sujeitas aos mais diversos acidentes de percurso. Engarrafamentos pioram a cada dia, as soluções bilionárias apontadas são paliativas e, segundo os especialistas, estarão obsoletas ao serem inauguradas, pois escandalosamente aprovaram um corredor de ônibus claramente arcaico, porque somos reféns dos empresários do setor. Agora querem demagogicamente, sem anunciar a fonte de recursos, implementar um sistema de trens de superfície, que seria o ideal, mas apenas para beneficiar um projeto que privilegia alguns empresários, em detrimento de toda a cidade, no famigerado Porto Maravilha, onde Certificados de Potencial Adicional de Construção, os Cepacs, uma ideia que não deu certo em São Paulo, foi acintosamente piorada. Ao invés de usar os bilhões arrecadados para melhorar a malha viária de uma zona central que hoje está ao descaso e que mesmo assim já vive permanentemente engarrafada, autorizaram construções de milhares de espigões com até 50 andares no local, o que trará um aumento de centenas de milhares de pessoas circulando, sem apresentar as devidas soluções viárias.
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Imagine o que acontecerá, ainda mais sabendo que mais de 40 mil veículos por ano são acrescentados a este caótico trânsito e que não há previsão de alternativas viárias, menos ainda de estudos. O dinheiro das Cepacs está sendo aplicado sem fiscalização numa reforma estética onde se destruirá um viaduto funcional para refazê-lo subterraneamente, sem criar condições para um aumento de fluxo. Curiosamente, aquela mesma mídia carioca publicou reportagens endossando tal descalabro. Na contramão disso, já existem até propostas de uma ação popular ou uma ação civil pública para inibir este crime contra a população.
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No setor de saneamento básico, com a atual especulação imobiliária desenfreada, a situação caminha para uma catástrofe ambiental anunciada que a mídia ignora. Nada de despoluição da Baía da Guanabara e das bacias da Barra, promessas olímpicas; os interceptores oceânicos são tecnicamente inviáveis e irão acabar com as praias da Zona Sul em breve, como já morreram as praias do interior da Baía de Guanabara. Desafiamos alguém a nos relatar a saída de um mísero caminhão de lama produzido pelas usinas de tratamento de esgoto. Enquanto isso, em Nova York, para cada dólar investido no sistema de abastecimento de águas da cidade, são economizados sete em produtos químicos. No Rio, descobriram “casualmente” que em algumas comunidades existem há décadas verdadeiras cachoeiras de esgoto que espalham detritos e doenças nessas comunidades. Como obra enterrada no chão não dá voto, se compromete cada vez mais o depauperado sistema de saúde ao se eternizarem estes problemas. Compromisso com o IDH? Só no horário eleitoral.
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A criminalidade está se reorganizando
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Na área de habitação o negócio é digno de investigação criminal, com a aplicação de bilhões nas favelas com resultados ridículos, nenhum controle das verbas aplicadas em conluio com o Banco Mundial, sendo que as comunidades já beneficiadas se recusaram a deixar de usar o nome pejorativo de favelas porque, mesmo com todas as melhorias anunciadas, ainda se sentem favelizadas. Os índices de tuberculose e outras doenças só aumentam nesses lugares, a conta destes bilhões torrados irá chegar e terá que ser paga, sendo que o único retorno conhecido é o da eleição de administradores dessas verbas para cargos públicos. É interessante que há cerca de um ano admitiu-se que mais da metade dos moradores do Rio vivessem em favelas, na contramão dos números anunciados agora de pouca mais de um milhão, ou seja, houve um milagre e mais de dois milhões de pessoas foram beneficiadas, mas só no papel. Por outro lado, a especulação imobiliária, como foi fartamente anunciado nas páginas de economia, pretende fazer “30 anos em 5”, pois, como qualquer um pode entender, até 2016 o Rio ficará na vitrine e quem fizer e vender lucrará. Depois, com o término dos investimentos bilionários, que são muito discutíveis e apresentarão benefícios nulos, chegará a conta que, por esses mistérios insondáveis midiáticos, é um tabu! Ninguém toca no assunto e nem nas implicações sobre o futuro das contas públicas. O que acontecerá no pós-2016, com um mercado inundado de imóveis, com o término das obras de mobilidade urbana, dos elefantes brancos olímpicos e das obras do PAC é o prenúncio de uma crise sem precedentes na indústria da construção civil e nas milhares de micros, pequenas, médias e grandes empresas periféricas.
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No tocante à segurança pública, as UPPs, Unidades de Propaganda Política, ops!, Unidade de Polícia Pacificadora, a principal ação midiática dos poderes constituídos tem ocupado papel de destaque, até porque a violência era digna de uma guerra civil disfarçada. Não há mais tiroteios nos morros dos corredores dos eventos internacionais, mas nem a violência nem o tráfico desapareceram, havendo inclusive suspeitas confirmadas de manipulação dos dados pela Secretaria de Segurança Pública. Ela migrou para outras ações intimidadoras e está se interiorizando de uma forma geral. Ainda são comuns ataques com mortes, sem a menor explicação, a viaturas policiais ou tiroteios nos subúrbios e periferias, ou seja, a criminalidade está se reorganizando no além túnel Rebouças e interior do estado. O próprio Beltrame já declarou inúmeras vezes que só um policial armado não impede que as quadrilhas continuem agindo e que é necessária a implantação de projetos sociais.
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Que promiscuidade é esta?
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Ora, isso não irá jamais trazer de volta a antiga força econômica do Rio, com seus tão necessários milhares de empregos qualificados, melhores condições salariais e seus efeitos multiplicadores culturais e ambientais. Sem falar que a cidade é muito hostil para seus moradores que reagem como vândalos, com pichações, destruição do patrimônio público e com um desrespeitoso despejo de lixo e dejetos nas ruas.
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É preciso tirar milhares de pessoas de frente da TV e das telenovelas idiotizantes para caminhar na rua e à noite, estimulando novos negócios e humanizando a cidade. Basta de ficar preso dentro de casa, amedrontado com a violência cotidiana. O carioca está sedento de espaço público, de bater perna e de ter liberdade de fazer programas dentro de seu orçamento. Nas Ramblas, na Times Square, na South Way, na Trafalgar Square ou na Rua das Pedras em Búzios isso é normal e viável. Em Barcelona 40% da população economicamente ativa trabalha na noite. Aqui, seria uma mudança bem-vinda. A Lagoa e seu entorno não comportam a multidão que se desloca para lá para ver sua árvore de Natal e não tem o que oferecer aos visitantes. A conquista do espaço público desperta o amor pela cidade no cidadão, faz um tremendo bem à economia e ao turismo e deveria ser estimulada também no centro da cidade, que tem tudo para ser o maior shopping a céu aberto do mundo.
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Afinal, por que o tal famigerado Porto Maravilha, que ainda não decolou e nem vai decolar nesse formato, não é replanejado para revitalizar a economia do Rio, levar empregos às favelas, subúrbios e periferia, como aconteceu com sucesso em todos os lugares onde as Zonas Portuárias foram renovadas? Será que é porque a Fundação que é dona do maior jornal carioca também está no jogo através de um projeto milionário de um museu, de estética duvidosa, que pretende ser o motor da revitalização da área portuária, mas que não tem cacife para isso? Como a imprensa carioca pode prestar serviço à sociedade (o que seria o seu dever capital) se ela presta apenas e exclusivamente aos interesses de seus donos, parceiros do poder público? Que promiscuidade é esta que permitimos? Continuaremos a permitir isto?
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Não há desenvolvimento sem planejamento
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Com relação às finanças públicas, que estão sendo endossadas pelas mesmas agências que não previram a crise de 2007 e suas funestas consequências, que também apoiaram a Grécia, que na época vivia o mesmo cenário atual e que estão concedendo upgrade para que a capacidade de endividamento do Rio seja aumentada, de olho nos bilhões em investimentos dos eventos mundiais. Isto não seria nada de mais se houvesse um plano diretor, com planejamento em curto, médio e longo prazos, com metas factíveis, apoiado em uma âncora crível que permitisse o retorno do capital investido nos prazos determinados. Se o Canadá levou mais de 30 anos para pagar sua Olimpíada, imagine o Rio!
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Claro que não existe nada disso e o dinheiro é gasto em projetos sociais que não têm a menor preocupação em apresentar retorno e que no pós-2016 nos atirarão numa dívida impagável, trazendo inúmeros problemas socioeconômicos. Outro aspecto interessante é o crédito ao consumidor, já que graças à ele houve um crescimento ímpar da atividade econômica, porque se passou a vender de tudo em parcelamento que já estiveram em mais de oitenta meses no cartão de crédito. Só que embutido nisto está uma escorchante taxa de juros de 237,9% ao ano. Só para comparação, na Venezuela o rotativo custa 29% ao ano e na Argentina, 50%. Pense o que acontecerá no mercado se houver uma crise, o tamanho do buraco que irá surgir e a quebradeira que irá se espalhar.
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São Paulo tentou resolver seus problemas via a implantação de um plano de metas, cultura e acesso à cidadania plena. A sociedade se uniu e exigiu que os candidatos à prefeitura assinassem este compromisso. Só que o prefeito das 223 metas acordadas cumpriu apenas 60, enquanto 160 se encontram “em andamento” e a qualidade de vida piorou muito. Com o detalhe que a administração lá é do mesmo partido há mais de 20 anos. Ou seja, mesmo com uma continuidade de duas décadas, não há cidadania e nem desenvolvimento socioeconômico, cultural e ambiental sem um planejamento sério de curto, médio e longos prazos que envolva toda a sociedade de forma ativa, apoiado por metas críveis e sustentado com transparência por uma âncora claramente definida.
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Instrumento de transformação
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Como ficou demonstrado na análise acima do cenário atual do Rio, resultante de mais de meio século de administrações calamitosas, aquela mídia hoje está vendendo “gato por lebre”, como se costuma dizer, uma imagem de otimismo exacerbada sem ter suporte de realidade e, se alguma coisa não for feita imediatamente, o pós-2016 será uma tragédia anunciada, como está acontecendo nas regiões serranas e do norte do estado, com as chuvas que todos sabíamos que iriam voltar a cair e que mesmo assim as providências não foram tomadas e as verbas investidas escorreram por água abaixo, no já tradicional mar de lama que envolve a administração pública. O Crea, inclusive, ao constatar em inspeção que nenhuma prevenção foi feita em Friburgo, recomendou à população rezar!
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A sociedade e a mídia estão precisando acordar para o fato de que no pé em que as coisas estão como foi detalhado acima, só nos unindo teremos força para exigir (como foi feito em SP) que seja implementado não um sistema de metas que, como visto, não foi suficiente e sim um master plan que traga desenvolvimento socioeconômico, cultural e ambiental a todo o Rio, incluindo as favelas, periferia e o estado, aproveitando o momento único de revitalização da área portuária para levar desenvolvimento e qualidade de vida em todos os sentidos à população, apoiado por um planejamento transparente que demonstre a todos um futuro promissor, com uma economia revitalizada, suportado por uma âncora que utilize a nossa decantada vocação natural, que é a maior indústria do mundo, exatamente por movimentar toda a sociedade simultaneamente, proporcionando aumento da renda per capita e a união da coletividade ao mesmo propósito. Sabendo que, comprovadamente, em todos os lugares do mundo onde o turismo foi utilizado como instrumento de transformação, obteve-se sucesso total e que o retorno do capital investido se deu no curto prazo, existe outra opção melhor para o Rio?
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José Paulo Grasso é engenheiro e coordenador do Acorda Rio] - In:
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terça-feira, 25 de outubro de 2011

A impaciência com as coisas da vida


Arthur Schopenhauer (1788-1860) - filósofo alemão


Em homenagem a Arthur Schopenhauer (1788- 1860)

“Sempre que me misturo aos homens, fico menos humano” (Thomas de Kempis)

Por: Lúcio Alves de Barros*


Já estou ficando velho, pois rabugento já sou. Nasci com mais de 60 e não tenho mais o mínimo de paciência para certas coisas que com o tempo tornaram-se normais e naturais, Sobre algumas é bom falar, pois assim ainda vou ficando mais enjoado e surdo e paro de ouvir essas sandices. Neste espaço vou destacar somente três.

A primeira diz respeito a essa coisa de cota para negros nas instituições de ensino. Já perdi a paciência nestes debates porque é óbvio da necessidade dessas cotas para os negros. Pelo amor de Deus, acho que nem desenhando o povo entende que esse país é resultado da pura, nua (literalmente) cruel escravidão. Por consequência, da violência e da crueldade. Não vou nem me referir aos índios, mas cá entre nós... só de pensar nessa história é difícil não lembrar da literatura que não cansou de revelar como os portugueses, espanhóis e ingleses superlotavam os porões dos seus navios com negros africanos. E estes, longe de suas terras eram vendidos como animais. O Brasil, esse país para poucos e de difícil entendimento, só se deu ao trabalho de libertá-los em 13 de maio de 1888 e isso porque a coisa ficou feia e o negro ficou caro. Logo, são anos e mais anos de escravidão que nem vou contar porque cansei e estou sem paciência. Se isso não for uma boa justificativa para as cotas dos filhos, dos filhos e dos filhos que resistiram por aqui, pelo amor de Deus. E nem vou comentar a "teoria do branqueamento" que passou por aqui. Ela não merece maiores detalhes.

Outra coisa que merece destaque é esse culto exacerbado ao corpo. A ideologia da corpolatria conseguiu pelos meios de comunicação disseminar que temos que ser magros porque ser obeso é doença. Sabemos da obesidade mórbida e patologias associadas a ela. Mas convenhamos, qual o problema em ter uns quilinhos a mais aqui e ali. Ademais, tem gente caindo na anorexia e na busca frenética de mais e mais endorfina. Portanto, cansei de ver a Revista Veja com aqueles corpos belos e maravilhosos cheios de retoques de programas de computador chamando atenção para a fulana que não tem nenhuma gordurinha. E já estou de saco cheio (não mais o esvazio) de ver a capa da revista Playboy que nunca envelhece. Estou ficando velho mesmo, as coisas vão caindo e o mesmo não acontece com as capas que mostram as mesmas posições, caras, pernas, ancas e bocas ginecológicas. Nada é passível de finitude nesse mundo ilusório da mídia. Esse conto de vigário já cansou. É chato e causa mal-estar ver as pessoas caindo de boca na indústria cultural e gastando o pouco que economizaram em revistas recheadas de mentiras e enganações. A alienação é boa quando a crença nas manifestações não tem limites. Acredito que os bípedes humanos acreditam em tudo por duas razões: (1) possuem um medo exagerado da morte e (2) porque são idiotas. Do contrário, aceitariam a finitude do próprio corpo e não deixariam de reclamar no Procon os seus direitos porque, definitivamente, aqueles corpos não existem.

Por último, não é possível aceitar certas elucubrações. Agora vejo na TV que solidão é doença. Não é possível, ficar triste já era doença enganosa, engordar já comentei, ficar só - até por opção - ou é sintoma ou é caso de internação. Se o sujeito não suporta ficar na própria companhia é outra história, mas dar um tiro na solidão não faz o mínimo de sentido. E me poupem desses discursos de psicólogos e psiquiatras que compram essas ideias de indústrias farmacêuticas e se entopem de dinheiro ao ponto de legitimarem essas coisas como verdades absolutas em troca de entrevistas, livros e revistinhas de autoajuda. Seres humanos são socializáveis até na solidão. E se acabarem com essa possibilidade o que fazer dos poetas, dos músicos, dos filósofos, artistas e escritores? E tem mais, agora é um tal de psicopatia para lá, sociopatia para cá que me pergunto qual o problema em encarar o sujeito como um criminoso que merece a privação da liberdade e pronto. Se ele não for doente, nas mãos de um advogado ele ficará, mas conheci gente entre as grades que achou foi bom ter feito isso e aquilo, visto que os benefícios foram muito maiores que os custos. Então creio que basta dessa conversinha ridícula de senso comum que procura benefícios privados em tudo.

O ser humano, chamado carinhosamente de bípede humano por Schopenhauer, já é um problema em potencial. O outro já é o estranho e ele habita em mim. O mínimo que podemos fazer é não produzir mais sofrimento ao outro, nos esforçar para levar algumas coisas mais a sério e um bom começo é buscando informação, deixando de vomitar assuntos, problemas, recalques e sintomas. Se o outro é o problema, nada como falar para ele, estudar, pesquisar, conhecer e perceber que longe da tolerância e do conhecimento não existe salvação.

** professor e Doutor em Ciências Humanas pela UFMG.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Desenvolvimento infantil

* Naercio Menezes Filho*

Como sabemos, o Brasil ainda apresenta índices de pobreza e desigualdade muito elevados, incompatíveis com a sua renda per capita. Isso é ruim para a nossa sociedade e, além disso, tem consequências importantes para a violência e criminalidade. Mas, por que será que grande parte dos adultos nas famílias mais pobres tem tantas dificuldades para encontrar um trabalho fixo com remuneração adequada?

Nos últimos anos, a sociedade brasileira entendeu que a raiz de muitos desses problemas está no fato de que os alunos aprendem muito pouco nas escolas públicas brasileiras. Nesse sentido, novas políticas educacionais têm sido implementadas nas redes municipais e estaduais para tentar melhorar a qualidade do ensino nas nossas escolas.

A novidade é que novas pesquisas científicas têm mostrado que essas deficiências de aprendizado podem estar relacionadas com problemas sérios no desenvolvimento infantil dessas crianças que foram se acumulando ao longo do tempo. Segundo o Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard, experiências de risco e situações de estresse prolongado no início da vida das crianças podem afetar o seu desenvolvimento futuro ao alterar a sua estrutura genética, provocando mudanças físicas e químicas no cérebro que irão perdurar para o resto da vida.

Essas experiências de risco estão relacionadas com problemas nutricionais, mas também com problemas no convívio familiar e falta de estímulos adequados nos primeiros anos de vida.

Interação entre genes e meio ambiente
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 Pesquisas mostram que as deficiências de aprendizado podem estar relacionadas com problemas na infância.  Agora podemos entender melhor por que algumas medidas na área educacional tem tido tão pouco efeito no aprendizado das crianças.

Introdução de computadores na sala de aula, aumento dos salários e da escolaridade dos professores, redução do tamanho da classe, todas essas políticas tem tido resultados muito decepcionantes até agora. Via de regra, elas não conseguem aumentar a qualidade do ensino ou, em alguns casos, beneficiam somente os alunos com pais mais educados ou os que estudam em escolas privadas.

Na verdade, o que a ciência está sugerindo é que a dificuldade de melhorar o aprendizado das crianças mais pobres pode estar relacionada com problemas no seu desenvolvimento anterior, que podem ter alterado o seu nível de concentração e sua capacidade de reagir em face de situações adversas. Logo, uma parte significativa dos nossos problemas educacionais e, portanto, da pobreza, desigualdade e criminalidade poderiam ser evitados caso as políticas para o desenvolvimento infantil fossem mais eficazes. Se desenvolvermos uma série de políticas públicas eficientes para as nossas crianças, poderemos melhorar substancialmente a sua situação no prazo de uma geração. Quais os caminhos a serem seguidos?

O primeiro problema, que precisa ser enfrentado com urgência, é o de saneamento básico. Uma parcela substancial dos brasileiros ainda vive em casas sem saneamento adequado. Isso faz com que a incidência de doenças seja alta nessas famílias, o que prejudica o desenvolvimento e o aprendizado das crianças, chegando até a mortalidade infantil, que ainda é muito elevada no Brasil.

Além de programas como o "Luz para todos" e "Minha casa minha vida", o governo federal deveria lançar urgentemente um programa de água e esgoto para todos. Isso diminuiria muitos os problemas de saúde nos primeiros anos de vida. Além disso, é importante fornecer informações para que as famílias possam detectar precocemente problemas de desenvolvimento infantil e procurar ajuda em caso de necessidade. Um dos programas mais bem sucedidos para aumentar os cuidados com a saúde é o Programa Saúde da Família.

Pesquisas mostram que a taxa de mortalidade infantil diminuiu bastante nos municípios em que o programa foi implementado, assim como a incidência de doenças entre as crianças. Entretanto, dados das pesquisas domiciliares do IBGE mostram que a cobertura desse programa entre as famílias mais pobres ainda é de apenas 60%. Assim, há necessidade de ampliar a cobertura desse programa, assim como ocorre com o programa Bolsa Família, que atinge uma proporção maior de famílias pobres.

Além disso, a parte operacional e de capacitação do programa tem que ser bastante melhorada para aumentar o impacto das visitas dos médicos e dos agentes comunitários em termos de diagnóstico e tratamento de problemas de desenvolvimento infantil.

Finalmente, a questão da creche e da pré-escola é fundamental. Saúde e Educação estão intimamente relacionadas. Sabemos que os alunos que frequentam a pré-escola aprendem mais no ensino fundamental do que os que entram na escola somente no primeiro ano.

Entretanto, esse impacto é maior para os alunos que tem mães mais escolarizadas e para os que estudam em escolas privadas. Com relação ao impacto da creche, as evidências disponíveis ainda são bastante preliminares. Precisamos de pesquisas que nos mostrem que tipo de creche e pré-escola aumentam mais o aprendizado futuro, especialmente entre as crianças mais pobres.

A questão é fundamental, os problemas são muitos e o tempo é curto se quisermos melhorar significativamente a vida da próxima geração de brasileiros. Mãos à obra.

* Naercio Menezes Filho, professor titular - Cátedra IFB e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, é professor associado da FEA-USP e escreve mensalmente às sextas-feiras. email: naercioamf@insper.edu.br

Fonte: Valor Econômico - SP

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Sobre o controle social e ético da liberdade de expressão

Por Fátima Oliveira (colunista de O Tempo (MG))

Das duas, uma, ou nenhuma: sou insana e quem pensa diferente é saudável; ou sou uma "sana" ilhada - cercada de insanos por todos os lados. Como as duas premissas são impossibilidades, decidi filosofar sobre o furdunço polissêmico em que tentam colocar a liberdade de expressão... Ora, liberdade de expressão não comporta polissemias (do grego poli = muitos e sema = significados)!
A presidente Dilma Rousseff, em discurso nos 90 anos da "Folha", disse: "A multiplicidade de pontos de vista, a abordagem investigativa e sem preconceitos dos grandes temas de interesse nacional constituem requisitos indispensáveis para o pleno usufruto da democracia, mesmo quando são irritantes, mesmo quando nos afetam, mesmo quando nos atingem. E o amadurecimento da consciência cívica da nossa sociedade faz com que nós tenhamos a obrigação de conviver de forma civilizada com as diferenças de opinião, de crença e de propostas" (FSP, 21.2.2011).
A liberdade de expressão é um direito de cidadania. Há limites democráticos, pois democracia não é anarquia, até para falar, sem que seja, a priori, censura, tal como o senso comum crê: um gesto ditatorial. Em tudo que prejudique direitos humanos de um setor social - caso de publicidade e novelas machistas - cabem limites, isto é, civilidade; e também marketing social.
Quem diz o que pensa, o que quer e quando quer, precisa saber que, numa sociedade democrática e plural, é essencial ter em conta as diferentes moralidades, adotando a prática de deferência à alteridade (colocar-se no lugar do "outro") ao falar, pois cada pessoa - falo o conceito de pessoa, e não o de seres humanos, pois há seres humanos e pessoas... - é totalmente responsável por seus atos e palavras, inclusive a escrita. Eis os limites.
À ampla liberdade de expressão corresponde absoluta responsabilização pelas opiniões emitidas. Todavia, muita gente, equivocadamente, só entende a liberdade de expressão em sua face direito de dizer - falar e agir como bem lhe aprouver, fazendo de conta que a responsabilidade por palavras e atos significa sempre censura descabida.
A censura não se apresenta abstratamente, pois na real é ela e suas circunstâncias. Pelo nosso passado de uma ditadura militar, a tendência de quem ama a liberdade, aparentemente, é a mesma dos que a odeiam: achar que o conceito de censura é sempre aquele que a ditadura militar nos impôs. É uma distorção conceitual.
Os amantes da liberdade, porque foi a censura da ditadura quem usurpou suas vozes e até vidas, e os que a odeiam, muitos coparticipantes dos tempos de arbítrio, porque querem esculhambar, acusar e julgar sem provas pessoas e governos; fazer linchamento moral público, só na base de acusações; e não querem ser chamados à responsabilidade, jamais!
Não é um imbróglio. Tem nome: safadeza conservadora autoritária. E tem sido praticada pelas viúvas e os viúvos da ditadura militar de 1964 e seus sequazes, sempre a postos para confundir pessoas incautas. Quem defende as liberdades democráticas nunca fala a mesma língua de quem um dia sufocou-as, até quando usa as mesmas palavras.
É preciso um razoável repertório de malícia, perder a crença nas pedras de sal, para não ser embromado e apreender que o respeito à alteridade é condição indispensável ao fortalecimento da democracia, que não pode prescindir do controle social e ético da liberdade de expressão ao elaborar um novo contrato social que assegure as liberdades democráticas.
Fonte: O Tempo (MG)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O respeito e a preservação da vida nos tempos modernos



Por Leonardo Boff*
A cultura moderna, desde o século XVI, está assentada sobre uma brutal falta de respeito. Primeiro, para com a natureza, tratada como um torturador trata a sua vítima, com o propósito de arrancar-lhe todos os segredos (Bacon). Depois, para com as populações originárias da América Latina. Em sua "Brevíssima Relação da Destruição das Índias", (1562), conta Bartolomé de las Casas que os espanhóis "em apenas 48 anos ocuparam uma extensão maior que o comprimento e a largura de toda a Europa, e uma parte da Ásia, roubando e usurpando tudo com crueldade, injustiça e tirania, tendo sido mortas e destruídas vinte milhões de almas de um país que tínhamos visto cheio de gente e de gente tão humana"("Décima Réplica"). Em seguida, escravizou milhões de africanos trazidos para as Américas, negociados no mercado e consumidos como carvão na produção.

Seria longa a ladainha dos desrespeitos de nossa cultura, culminando nos campos de extermínio nazista de milhões de judeus, ciganos e outros considerados inferiores.

Sabemos que uma sociedade só se constrói e dá um salto para relações minimamente humanas quando instaura o respeito de uns para com os outros. O respeito, como bem mostrou Winnicott, nasce no seio da família, especialmente da figura do pai, responsável pela passagem do mundo do eu para o mundo dos outros, que emerge como o primeiro limite a ser respeitado.

Um dos critérios de uma cultura é o grau de respeito e autolimitação que seus membros se impõem e observam. Surge, então, a justa medida, sinônimo de justiça. Rompidos os limites, vigora o desrespeito e a imposição sobre os demais. Respeito supõe reconhecer o outro com seu valor intrínseco, sejam pessoas ou quaisquer outros seres.

Dentre as muitas crises atuais, a falta generalizada de respeito é seguramente uma das mais graves. O desrespeito campeia em todas as instâncias da vida individual, familiar, social e internacional. Por essa razão, o pensador búlgaro-francês Tzvetan Todorov, em seu recente livro "O medo dos bárbaros", (Vozes, 2010), adverte que, se não superarmos o medo e o ressentimento e não assumirmos a responsabilidade coletiva e o respeito universal, não teremos como proteger nosso frágil planeta e a vida na Terra já ameaçada.

O respeito nos remete a Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz de 1952 e um dos mais eminentes teólogos de seu tempo. Seu livro "A história da pesquisa sobre a vida de Jesus" é um clássico por mostrar que não se pode escrever cientificamente uma biografia de Jesus. Os evangelhos contêm história, mas não são livros históricos. São teologias, que usam fatos históricos e narrativas com o objetivo de mostrar a significação de Jesus para a salvação do mundo. Por isso, sabemos pouco do real Jesus de Nazaré. Schweitzer compreendeu: histórico mesmo é o Sermão da Montanha e importa vivê-lo.

No meio de seus afazeres de médico, encontrou tempo para escrever. Seu principal livro é "Respeito diante da vida" que ele colocou como o eixo articulador de toda ética. "O bem", diz ele, "consiste em respeitar, conservar e elevar a vida até o seu máximo valor; o mal, em desrespeitar, destruir e impedir a vida de se desenvolver". E conclui: "quando o ser humano aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante; a grande tragédia da vida é o que morre dentro do homem, enquanto ele vive".

Como é urgente ouvir e viver essa mensagem nos dias sombrios que a humanidade está atravessando.
* Escritor e teólogo
Fonte: O tempo (MG)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Protesto da Professora Vanessa Storrer


RESPOSTA À REVISTA VEJA

Leiam a referida reportagem que saiu na revista Veja e gerou o protesto da professora relatado abaixo: link revista veja http://veja.abril.com.br/230610/aula-cronometrada-p-122.shtml

Por Vanessa Storrer*

Sou professora do Estado do Paraná e fiquei indignada com a reportagem da jornalista Roberta de Abreu Lima "Aula Cronometrada". É com grande pesar que vejo quão distante estão seus argumentos sobre as causas do mau desempenho escolar com as VERDADEIRAS razões que geram este panorama desalentador. Não há necessidade de cronômetros, nem de especialistas para diagnosticar as falhas da educação. Há necessidade de todos os que pensam que: "os professores é que são incapazes de atrair a atenção de alunos repletos de estímulos e inseridos na era digital" entrem numa sala de aula e observem a realidade brasileira.

Que alunos são esses "repletos de estímulos" que muitas vezes não têm o que comer em suas casas quanto mais inseridos na era digital? Em que pais de famílias oriundas da pobreza trabalham tanto que não têm como acompanhar os filhos em suas atividades escolares, e pior em orientá-los para a vida? Isso sem falar nas famílias impregnadas pelas drogas e destruídas pela ignorância e violência, causas essas que infelizmente são trazidas para dentro da maioria das escolas brasileiras.

Está na hora dos professores se rebelarem contra as acusações que lhes são impostas. Problemas da sociedade deverão ser resolvidos pela sociedade e não somente pela escola. Não gosto de comparar épocas, mas quando penso na minha infância, onde pai e mãe, tios e avós estavam presentes e onde era inadmissível faltar com o respeito aos mais velhos, quanto mais aos professores e não cumprir as obrigações fossem escolares ou simplesmente caseiras, faço comparações com os alunos de hoje "repletos de estímulos".

Estímulos de quê? De passar o dia na rua, não fazer as tarefas, ficar em frente ao computador, alguns até altas horas da noite, (quando o têm), brincando no Orkut, ou o que é ainda pior envolvidos nas drogas. Sem disciplina seguem perdidos na vida. Realmente, nada está bom. Porque o que essas crianças e jovens procuram é amor, atenção, orientação e disciplina. Rememorando, o que tínhamos nós, os mais velhos, há uns anos atrás de estímulos? Simplesmente: responsabilidade, esperança, alegria. Esperança que se estudássemos teríamos uma profissão, seríamos realizados na vida. Hoje os jovens constatam que se venderem drogas vão ganhar mais. Para quê o estudo? Por que numa época com tantos estímulos não vemos olhos brilhantes nos jovens? Quem, dos mais velhos, não lembra a emoção de somente brincar com os amigos, de ir aos piqueniques, subir em árvores? E, nas aulas, havia respeito, amor pela pátria.. Cantávamos o hino nacional diariamente, tínhamos aulas "chatas" só na lousa e sabíamos ler, escrever e fazer contas com fluência. Se não soubéssemos não iríamos para a 5ª. Série. Precisávamos passar pelo terrível, mas eficiente, exame de admissão. E tínhamos motivação para isso.

Hoje, professores "incapazes" dão aulas na lousa, levam filmes, trabalham com tecnologia, trazem livros de literatura juvenil para leitura em sala-de-aula (o que às vezes resulta em uma revolução), levam alunos à biblioteca e a outros locais educativos (benza, Deus, só os mais corajosos!) e, algumas escolas públicas onde a renda dos pais comporta, até a passeios interessantes, planejados minuciosamente, como ir ao Beto Carrero.

E, mesmo, assim, a indisciplina está presente, nada está bom. Além disso, esses mesmos professores "incapazes", elaboram atividades escolares como provas, planejamentos, correções nos fins-de-semana, tudo sem remuneração; Todos os profissionais têm direito a um intervalo que não é cronometrado quando estão cansados. Professores têm 10 minutos de intervalo, quando têm de escolher entre ir ao banheiro ou tomar às pressas o cafezinho.

Todos os profissionais têm direito ao vale alimentação, professor tem que se sujeitar a um lanchinho, pago do próprio bolso, mesmo que trabalhe 40 h.semanais. E a saúde? É a única profissão que conheço que embora apresente atestado médico tem que repor as aulas. Plano de saúde? Muito precário. Há de se pensar, então, que são bem remunerados... Mera ilusão! Por isso, cada vez vemos menos profissionais nessa área, só permanecem os que realmente gostam de ensinar, os que estão aposentando-se e estão perplexos com as mudanças havidas no ensino nos últimos tempos e os que aguardam uma chance de "cair fora".Todos devem ter vocação para Madre Teresa de Calcutá, porque por mais que esforcem-se em ministrar boas aulas, ainda ouvem alunos chamá-los de "vaca","puta", "gordos ", "velhos" entre outras coisas. Como isso é motivante e temos ainda que ter forças para motivar. Mas, ainda não é tão grave.

Temos notícias, dia-a-dia, até de agressões a professores por alunos. Futuramente, esses mesmos alunos, talvez agridam seus pais e familiares. Lembro de um artigo lido, na revista Veja, de Cláudio de Moura Castro, que dizia que um país sucumbe quando o grau de incivilidade de seus cidadãos ultrapassa um certo limite. E acho que esse grau já ultrapassou. Chega de passar alunos que não merecem. Assim, nunca vão saber porque devem estudar e comportar-se na sala de aula; se passam sem estudar mesmo, diante de tantas chances, e com indisciplina... E isso é um crime! Vão passando série após série, e não sabem escrever nem fazer contas simples. Depois a sociedade os exclui, porque não passa a mão na cabeça. Ela é cruel e eles já são adultos. Por que os alunos do Japão estudam? Por que há cronômetros? Os professores são mais capacitados? Talvez, mas o mais importante é porque há disciplina. E é isso que precisamos e não de cronômetros.

Lembrando: o professor estadual só percorre sua íngreme carreira mediante cursos, capacitações que são realizadas, preferencialmente aos sábados. Portanto, a grande maioria dos professores está constantemente estudando e aprimorando-se. Em vez de cronômetros, precisamos de carteiras escolares, livros, materiais, quadras-esportivas cobertas (um luxo para a grande maioria de nossas escolas), e de lousas, sim, em melhores condições e em maior quantidade.

Existem muitos colégios nesse Brasil afora que nem cadeiras possuem para os alunos sentarem. E é essa a nossa realidade! E, precisamos, também, urgentemente de educação para que tudo que for fornecido ao aluno não seja destruído por ele mesmo Em plena era digital, os professores ainda são obrigados a preencher os tais livros de chamada, à mão: sem erros, nem borrões (ô, coisa arcaica!), e ainda assim se ouve falar em cronômetros.

Francamente!!! Passou da hora de todos abrirem os olhos e fazerem algo para evitar uma calamidade no país, futuramente. Os professores não são culpados de uma sociedade incivilizada e de banditismo, e finalmente, se os professores até agora não responderam a todas as acusações de serem despreparados e "incapazes" de prender a atenção do aluno com aulas motivadoras é porque não tiveram TEMPO. Responder a essa reportagem custou-me metade do meu domingo, e duas turmas sem as provas corrigidas.

Vamos fazer uma corrente via internet, repasse a todos os seus! Grata. Vamos começar uma corrente nacional que pelo menos dê aos professores respaldo legal quando um aluno o xinga, o agride... chega de ECA que não resolve nada, chega de Conselho Tutelar que só vai a favor da criança e adolescente (capazes às vezes de matar, roubar e coisas piores), chega de salário baixo, todas as profissões e pessoas passam por professores, deve ser a carreira mais bem paga do país, afinal os deputados que ganham 67% de aumento tiveram professores, até mesmo os "alfabetizados funcionais". Pelo amor de Deus somos uma classe com força!!! Somos politizados, somos cultos, não precisamos fechar escolas, fazer greves, vamos apresentar um projeto de Lei que nos ampare e valorize a profissão.

*Vanessa Storrer - professora da rede Municipal de Curitiba

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Os humanistas: contextualização e enfoques


Por: Ediléia Vieira, Lucília Santos, Luíza Mundim, Renatha Maia, Sandra Abreu e Salomão Ferreira de Souza*
Falar sobre os humanistas é se arriscar pelos dilemas humanos, dos mais contextualizados aos mais universais, em busca da compreensão de nossas próprias angústias. Considerando o contexto histórico, econômico e cultural de cada pensador podemos entender a leitura que faz o psicanalista ao observar esse objeto tão complexo e ler os sinais de seus mais variados dilemas.
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Carl Gustav Jung, na sua leitura, aponta os rígidos padrões suíços de beleza, consumo e administração do tempo que impõe hora certa para tudo. Essa rigidez, muitas vezes, leva os sujeitos a uma espécie de robotização pela automação do plano consciente, o que conduz à redução da acuidade restringindo-a a escolhas de ações dentro do estrito cumprimento dos modelos e valores propostos para o alcance de metas de vida como trabalho, família, lazer e outras poucas. Arriscamos afirmar, na nossa rasa leitura de outros contextos, que a rigidez e robotização a que se refere Jung, embora mais visível em seu contexto, se fazem universais em grupos menores ou maiores, cujo comum interesse e rigor econômico se assemelham ao modelo suíço e no qual o padrão de beleza e as tradições suplantam os valores subjetivos dos indivíduos. Assim pensamos por acreditar que, na sua análise, Jung leva em consideração o self, ou seja, os processos desenvolvidos pelos indivíduos em interação com seus semelhantes e através do qual se torna capaz de tratar a si mesmo como objeto, isto é, observar-se considerando seu próprio comportamento do ponto de vista alheio.
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Tal qual Jung, Rollo May fala da perspectiva americana das costuras capitalistas de muitas sutilezas onde o verniz precisa suplantar a essência. Na sua análise as pessoas são avaliadas por sua aparência superficial construída pela “consciência criativa” onde a ética é a consciência de si mesmo e essa depende do contexto e das negociações de interesses capitalistas em jogo. Relativamente à religião, May fala do erro de Freud, que a considera uma neurose compulsiva; relativiza essa máxima freudiana e estende suas considerações sobre a filosofia e as ciências que, assim como as religiões da consideração de Freud, são instrumento de fuga da realidade. Dentre os tantos dilemas humanos que colocam o objeto de estudo de May frente aos múltiplos espelhos, clamando por uma projeção no outro, da imagem que esse faz de si mesmo, perpassa o abismo da verdade que deve ser escondida para garantir a referida fuga da realidade. Se para Nietzsche “errar é covardia!”, devemos pensar o relativismo de sua filosofia em comparação ao humanismo de May e em relação às omissões desse com respeito às religiões que tanto tem a dizer de seus objetos de estudo. Quando Nietzsche fala dessa verdade ele mesmo tem dúvidas de sua existência real assim como às vezes duvidamos da religião que professamos. Percebe-se em May certa aversão às impressões dos signos culturais nascidos da alteridade, daqueles que nomeiam as coisas antes que delas tenhamos conhecimento. Essa escrita tem múltiplas impressões: filosofia, ciências, religiões... Essas imprimem em nós a relatividade da construção pessoal de identidade. O presente é o estreito fio construído pela lógica da nomeação escrita em nosso passado e que o liga ao futuro pela projeção que fazemos a partir de nossas experiências com tal escrita. Não somos o presente ou aquilo que projetamos para o futuro. Somos uma construção de muitos pilares edificados na cultura onde a filosofia, as ciências e as religiões são componentes essenciais. Assim, considerando a universalidade do pensamento de May, devemos considerar as inumeráveis correntes culturais onde a Ciência, a filosofia e a religião ganham significados e valores igualmente diversos.
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Carl Rogers, também americano, diferentemente do behaviorismo, pensava numa psicanálise centrada na pessoa, pensamento esse tão influente nos filósofos existencialistas e femenólogos que pensavam na autorrealização da pessoa. Pensando o homem como essencialmente bom, pensava a educação do indivíduo para o meio e não o meio para o indivíduo. Para Rogers é necessário que o homem descubra, por si mesmo, as respostas para suas inquietações e, com o uso de suas próprias habilidades, construam segurança para tomar as decisões necessárias nos momentos de conflitos existenciais ou não. Rogers propunha uma escola onde o clima afetuoso, teria o aluno como centro e o professor como um facilitador. Considera, também, que todas as pessoas são naturalmente capazes e suficientemente aptas a realizar tudo que lhe for apresentado. Tendo no outro um facilitador para a realização da aprendizagem, propunha uma educação que considere a totalidade cognitiva e afetiva de seus sujeitos. Assim, alunos e professores, ao construir e desconstruir, dariam sentido e forma a sua existência. Tomando a escola como um lugar por onde todos deviam passar, o humanismo de Rogers se faz universal dentro da realidade daqueles que atendem a essa condição. Nas suas considerações humanistas fica evidente a construção da autonomia dos sujeitos, a interação harmoniosa entre professores e alunos e a formação continuada construída nas relações de respeito, solidariedade e ausência do exercício de poder. Se essa perspectiva é utópica pouco interessa, importa que ela seja uma possibilidade que leva em conta a própria proposta de Rogers, que seria essa de cada um usar suas habilidades para o enfrentamento de si, numa construção de si para o outro e não do outro para si. Nele, o outro seria apenas um intermediador das relações na perspectiva da desconstrução e reconstrução necessária à existência de todos, o que daria sentido à vida.
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Erich Fromm, o mais clássico dos humanistas, construiu suas teorias a partir do materialismo histórico de Marx e Engels. Em suas considerações da psicologia social analítica, o homem está envolto no progresso histórico e social não só da natureza, mas do próprio ser natural do homem, no qual se inscrevem as ideologias do comportamento social onde a influência e determinação econômico-social são os determinantes comportamentais dos sujeitos. Por suas raízes críticas da escola de Frankfurt, Fromm pensa criticamente a psicologia que, conjuntamente ao materialismo histórico, produz os mecanismos produtores de ideologias e a interação dos fatores naturais e sociais como produtores do comportamento humano. Para ele, as forças libidinais, nessa construção social e histórica, são socialmente dirigidas o que a enfraquece até que deixe de constituir uma ameaça à estabilidade social. A essa estrutura libidinal, Fromm dá o nome de caráter social cujo produto resulta das influências das condições sócio-econômicas sobre os impulsos humanos. Em resumo, para Fromm, os impulsos libidinais, além de ser um fator importante no condicionamento da evolução dos vários níveis da sociedade e no conteúdo da superestrutura ideológica, é o meio pelo qual a economia exerce sua influência nas manifestações intelectuais e mentais do homem. Suas considerações se fazem universais na medida em que considerada as relações numa estrutura de acumulação capitalista onde os sujeitos são ajustados aos interesses do mercado ou se faz ator na luta de classes onde o capital, pretensamente, quer ser o determinante histórico em oposição às lutas sociais que se inscrevem como a não aceitação dessa condição de poder. No centro dessas lutas, o homem se ajusta ou resiste, se dobra o luta, recalca ou explode em ações de humanidade que não se conforma com a imposição ideológica desse materialismo. Em ambos os casos ele se faz sujeito da mesma condição.
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A idéia de pirâmide hierárquica das necessidades humanas onde Maslow defende uma espécie de sobreposição sucessiva de necessidades, começando pelas fisiológicas, a segurança, as sociais, a condição de status e estima e, finalmente, a autorrealização, embora equivocada, por acreditar que as etapas são vencidas em um momento e não se constituem problemas a serem enfrentados durante toda a vida, tem sua contribuição na psicologia ao possibilitar as distinções sociais de autorrealização de cada sujeito dentro dos contextos sociais. Mesmo que as necessidades fisiológicas perpassem todas as etapas da vida humana, a idéia de autorrealização, em cada contexto social, tem sua escrita onde podemos ler os níveis de realização individual dos sujeitos. Na perspectiva de Maslow as etapas, ao serem compreendidas, podem favorecer o enfrentamento das angústias e dilemas, lutando para conquistar cada etapa, não sem o devido respeito a suas hierarquias. Assim, a hierarquia é uma forma de organização de nossos objetivos para que não corramos o risco de nos perdermos na tentativa de suprimir etapas, como acontece com as supernovas, ou seja, os astros que explodem na mídia, ganham status e falsa estima, mas não conseguem a segurança necessária para manter essa condição rumo à autorrealização. Por isso se apagam rapidamente nas insaciáveis necessidades fisiológicas de sensações de hierarquias não respeitadas.
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A título de conclusão
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Pensando a educação na perspectiva dos humanistas, acreditamos que nossos dilemas e angústias devem ser pensados dentro da realidade de cada cultura onde, criticamente, o sujeito deve se inscrever com e nas possibilidades de suas múltiplas escolhas. Devemos, na nossa construção subjetiva, considerar as escolhas criticamente, seja dentro da rigidez e tradição de Jung, ou nos múltiplos espelhos de May cujo reflexo e verniz esperamos projetar no outro e cuja finalidade é a aceitação que sanciona nossa realização. Não podemos deixar de considerar, também, as possibilidades de interação, sem a condição hegemônica, tão natural nas relações sociais, que Rogers nos apresenta como possibilidade entre tantas escolhas possíveis, onde a harmonia seja munição para resolução dos problemas pessoais. Da mesma forma há que se considerar Erich Fromm, com sua psicologia social analítica que coloca o homem frente às lutas de classe, onde as relações humanas são ideologicamente construídas. Para esse, a limitação dos impulsos libidinais são conformações cujo objetivo é conter os indivíduos num limite onde não representem ameaças ao sistema. Dessa forma devemos pensar Fromm dentro da realidade de cada grupo examinando, historicamente, as construções subjetivas e objetivas no limite de suas condições materiais e históricas. Por último, a construção da pirâmide hierárquica de Maslow serve, em nossa compreensão, como parâmetros a serem seguidos na busca da realização pessoal. Embora as linhas do pensamento humanista tenham suas particularidades constituem, no seu conjunto, ricas leituras de nossas angústias, o que possibilita melhor compreensão da realidade dentro de cada contexto histórico, econômico e cultural. Acreditamos que seja essa a maior contribuição dos humanistas, principalmente em se tratando de educação de jovens e adultos onde os dilemas apresentam como uma realidade a ser enfrentada.
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BIBLIOGRAFIA
JUNG, Carl Gustav, por MARTINEZ, Sérgio Rodrigo. In: Manual da Educação Jurídica, Editora Juruá, 2003, retirado do portal Jusapiens, www.ensinojuridico.com.br, página Educação e conhecimento jurídico, em 25 de junho de 2011.
MAY, Rollo. O homem à procura de si mesmo. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 1971. 
FROM, Erich, em REIS, Carlos e CARVALHO, Eurico. em análise da obra. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. Rio de Janeiro, 1983.
MASLOW, Abraham H. Maslow no Gerenciamento. Qualitymark, 2001.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Pauloa: Ed. Martins Fontes, 2009.
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* Estudantes do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação (BH) na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG).