Mostrando postagens com marcador TV. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador TV. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Cale-se, XUXA!

.
QUANDO O SILÊNCIO É A MELHOR ALTERNATIVA
.
Não vi a comentada entrevista da tal xuxa no Fantástico deste domingo, dia 20/05. Mas não pude ignorá-la por muito tempo, pois a primeira notícia que recebi nesta manhã, logo cedo, foi: "- Cê viu que a xuxa foi abusada na infância?"
.
Fora o surrealismo da revelação, ocorreu-me que aquela, certamente, não era a notícia que desejava ouvir logo no início da semana. Afinal, como uma mulher de 50 anos, aparentemente esclarecida, só agora, passado todo esse tempo, resolve falar sobre algo tão grave? E por que me irritou tanto esta informação? Parei para refletir sobre o motivo deste sentimento e, confesso, não foi difícil descobrir.
.
Esta senhora, lá pelos seus primórdios, vivia no mesmo condomínio do meu irmão, no Grajaú, Rio de Janeiro. Lembro-me das minhas sobrinhas, ensandecidas, indo buscar as grotescas sandalinhas cheias de brilhos no apartamento dela, na esperança de encontrar o Pelé que, vira e mexe, dava as caras por lá.
.
Desde os seus 20 e poucos anos de idade, ela comanda programas infantis cuja tônica é erotizar precocemente as crianças, transformando meninas em arremedos de mulheres sem se preocupar com sua vulgarização.
.
Os programas que comandou sempre tiveram como mote atropelar o desenvolvimento infantil em sua exuberância repleta de etapas simbólicas. Pasteurizou os encantos desta fase empenhando-se em exaltar a diferença entre possuir e não possuir os produtos que anunciava ou que levavam sua grife tais como sandálias, roupas, maiôs, lingeries, xampus, bonecas, chicletes, cosméticos, álbum de figurinhas, cadernos, agendas, computadores, sopas, iogurtes, etc., num universo insano onde ela, eternamente fantasiada de insinuante ninfeta, faz biquinho e comanda a miúda plebe ignara.
.
Cientes estamos todos de que esta senhora, durante muitos e muitos anos, defendeu zelosamente seu polpudo patrimônio utilizando-se da fachada de menina meio abobada que sequer sabia quantos milhões possuía. Costumava dizer que era a sua empresária que administrava suas posses cujo montante alegava, candidamente, desconhecer. Pobre menina rica. E burra, com certeza. Como se fosse possível alguém tão tapada tornar-se tão rica.
.
Talvez para esconder a consciência que tinha acerca do quanto ajudou a devastar a inocência de tantas gerações de meninas que lhe devotavam a mais pura idolatria, posou de inocente útil usando a mesma máscara que agora reedita para falar, emocionada, do seu mais novo pretenso drama/marketing.
.
Esqueceu-se que sua audiência, formada, na sua massacrante maioria, por meninas, passou a ser considerada como alvo da desumana propaganda colocando-as como mero veículo de consumo.
.
Esqueceu-se, convenientemente, de comentar que milhares de garotas pelo Brasil afora foram abusadas sexualmente ao mesmo tempo em que eram, por ela, adestradas a vestirem-se e comportarem-se como verdadeiras lolitas.
.
Esqueceu-se de que ensinou atitudes claramente ambivalentes para crianças que não faziam a mais pálida ideia do que podiam mobilizar em mentes doentias.
.
Esqueceu-se de que a erotização tem sido ligada a três dos maiores problemas de saúde mental de adolescentes e mulheres adultas: desordens alimentares, baixa autoestima e depressão.
.
Esqueceu-se também que as crianças, diariamente bombardeadas com imagens de paquitas como modelos de uma beleza simplesmente inalcançável enquanto corpos reais, torturavam-se perseguindo um modo de serem belas, perfeitas, saudáveis e eternas.
.
Estimulando a sexualidade de forma tão precoce, essas meninas perderam grande e preciosa fase do seu desenvolvimento natural. E reduzir o período da inocência, certamente, acarretou-lhes desdobramentos nefastos.
.
Daí para ideia, cada vez mais presente, da infância como objeto a ser apreciado, desejado, exaltado, numa espécie de pedofilização generalizada na sociedade foi, apenas, um pequeno passo.
.
Num país onde as mães deixam suas crias, por absoluta falta de opção, frente à tevê sem qualquer tipo de controle e sem condições para discutir o conteúdo apresentado, encontrou esta senhora terreno mais que propício para disseminar sua perversa e desmedida ganância por audiência e dinheiro.
.
Fosse ela uma pessoa minimamente preocupada com a direção que a sexualidade exacerbada e fora de contexto toma, neste país onde mulheres são cotidianamente massacradas, teria falado sobre este suposto drama muito tempo atrás. Teria tido muito mais cuidado com os exemplos de exposição que passava. Teria norteado seu trabalho dentro de parâmetros muito mais educativos e, desta forma, contribuído para que milhares de meninas fossem verdadeiramente cuidadas e respeitadas. Ou teria simplesmente virado as costas e ido embora.
.
Logo, frente ao seu histórico, não tem mesmo nenhuma autoridade para sustentar qualquer atitude fundamentada em belos e necessários méritos.
.
Porque são de grandes valores, bons princípios e atitude exemplares que nossa sociedade necessita de maneira URGENTE.
.
Portanto, CALE-SE, XUXA!
.
Heloisa Lima - Psicóloga Clínica - Maio de 2012.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MUNDO INFANTIL: reflexões sobre a mídia e sexualidade


por Carla Brittes, Cássia Rocha, Luís Augusto, Paloma Toche, Raquel Barbosa, Simone Moura, Tamires Godoy*

Cada vez mais tem-se observado o excessivo número de comerciais de TV, programas infantis, desenhos animados e jogos eletrônicos carregados de apelos eróticos, de violência e atitudes antiéticas. De acordo com Marcos Nisti (2010), coordenador da campanha “Semana do desligue a TV”, 98% dos lares brasileiros tem televisão.

Conforme artigo publicado pelo site Socialtec, “Erotismo infantil nos programas de TV” de Márcio Ruiz Schiavo professor especialista em marketing social, das 150 crianças entrevistadas por ele, 47,3% manifestaram assistir TV mais de 4 horas diárias e 18,6% assistem mais de 3 horas diárias. Este dado é bastante preocupante. Além dos programas ditos infantis as crianças assistem novelas, programas de humor, séries, entre outras atrações que não são apropriados para determinadas idades.

Nessa atmosfera de desinformação, há algum tempo, surgiu a tendência de se confundir sexualidade com ato sexual e, até mesmo, com o coito. Dessa forma, a discussão sobre sexualidade é alijada do seu verdadeiro percurso, tomando rumos que vão desde o tom da brincadeira à libertinagem. Além disso, para maximizar a confusão no entendimento do assunto, o termo amor, que define um sublime sentimento, é utilizado como sinônimo de ato sexual.

Há que se esclarecer que sexualidade não pode, e nem deve, ser confundida e definida como ato sexual e/ou coito. Sexualidade é o termo que se refere ao conjunto de fenômenos da vida sexual de um ser humano. Ela é um dos aspectos centrais de nossa personalidade e, por meio da qual nos relacionamos com o outro. O ato sexual pode ser definido como qualquer ato que envolva a sexualidade, tais como um toque, um afeto, carícia, olhar, variantes sexuais e até mesmo a penetração. Já o coito é o termo correto para se definir a penetração propriamente dita, a qual muitos confundem como sexo ou ato sexual único (CHAUÍ, 1984).

Muito mais do que o simples debate sobre educação sexual, utilizado muitas vezes apenas para afirmar a diferença dos gêneros, a discussão sobre sexualidade deve ser tratada de forma séria, necessária e sem preconceitos dentro e fora da escola.

A erotização precoce, estimulada de diversas formas, exige do educador atenção redobrada. É urgente a percepção em relação aos desenhos, jogos eletrônicos, filmes e revistas que trazem ora disfarçados, ora explícitos, personagens sensuais que atuam subliminarmente no inconsciente infantil.

Expostos constantemente durante a programação da TV, propagandas, cartazes, etc., a estes estímulos que relacionam amor/sexo, adultos e crianças naturalizam esta relação e legitimam comportamentos sexuais precoces, acreditando-os como manifestação da sensibilidade. Atentando para este fato, observamos como os “marqueteiros” e os profissionais da mídia se utilizam desta associação para despertar o interesse de consumo em seus espectadores e promover produtos. Sendo agentes passivos na relação mercado versus consumidor, as crianças passam a ser alvo fácil para se atingir os interesses comerciais escusos de certas empresas que, se aproveitando de personagens “inocentes”, estimulam o consumo associado à satisfação de necessidades sentimentais.

A televisão é um dos meios de comunicação de maior acesso e por isso é também o principal veículo de estímulo ao processo de erotização na infância. A grade de programação dos canais vem sempre recheada de sexo, mulheres bem aparentadas e produtos para comprar. A mídia, nos dias atuais, parece se resumir a isso e, não raro, três coisas estão interligadas cabendo ainda dizer que tais temas não estão manifestos apenas em programas adultos, mas também nos infantis.

Como a primeira aprendizagem da criança é através da imitação, ela internaliza todos os conceitos passados e, se não houver um acompanhamento pedagógico, é claro, ocorrerá uma reprodução desses valores. Marta Kohl (1999) deixa claro como a criança, ao brincar (brincadeira de faz-de-conta), imita o adulto e se comporta de forma avançada a sua idade. Sendo assim, a criança tem o adulto como o seu modelo.

Pode-se observar também que os estímulos eróticos e as referências de gênero com cunho machista são recorrentes nos programas infantis, os quais têm suas atrações apresentadas por mulheres bem apresentadas, maquiadas e com pouca roupa reforçando o mito que o papel feminino na sociedade é o de educar e entreter. As apresentadoras impõem um padrão de beleza que influencia no modo de como a criança quer vestir e ser. Beleza, charme e sensualidade: requisitos básicos para se dar bem na vida. Nota-se que conhecimento intelectual não está na lista.

As meninas vêem seu corpo não apenas como fonte de prazer, mas também de consumo e status social. É muito simples perceber por que isso ocorre, uma vez que o corpo feminino há muito faz parte da exposição banalizada, considerada natural e bela pela mídia. Os meninos absorvem isso com a ideia de que a mulher também é um produto a ser consumido e, caso este tenha algum problema, basta trocar a marca.

A sexualidade é vista somente pelo lado sensual, erótico e excitante, enquanto deveria ser canalizada para a construção de emoções, relações pessoais e afetividade. O brincar, que é típico dessa fase, já não existe, o importante é parecer adulto e adotar os valores da idade decadente. As crianças são “anãzinhas” e daqui a pouco, num retrocesso histórico, o termo “infância” caíra por terra. Tais valores são recorrentes nas programações, visto que a maior parte do dia, a criança fica com a “babá eletrônica”, pois, os pais, cada dia mais atarefados, com menos tempo para se dedicar a seus filhos, muitas vezes desconhecem o conteúdo da programação televisiva ou não refletem sobre o assunto. Assim, sem a intervenção deles ou de outro adulto consciente, as crianças nem sempre capazes de escolher algo adequado, acabam por ficarem horas expostas a uma quantidade absurda de estímulos eróticos, como por exemplo, apresentação de dançarinos de axé, cenas de orgia em clipes musicais, corpos turbinados e flexíveis, criminalidade e violência. Além disso, ainda tem os jogos eletrônicos, os quais apresentam cenas de sexo, de assassinato e assaltos à mão armada.

Diante desta realidade é urgente que educadores percebam como esta naturalização da lascívia vem adentrando o contexto escolar a partir das manifestações culturais. Crianças em danças com excesso de sensualidade, músicas com conteúdo ofensivo, roupas que estimulam o desejo sexual, são coisas aceitas em nome de uma “abertura cultural” às vezes mal interpretada.

Talvez a resistência às investidas da TV seja muito dura e o modismo tente nos engolir. Contudo, no dia adia da sala de aula, ao conhecer cada criança com a qual se lida, que o educador possa descobrir o ponto chave para se atingir realmente a sensibilidade daquele ser que busca, nas interações com seus semelhantes, o desenvolvimento por completo.


Referências

CHAUÍ, Marilena. Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1984.

NISTI, Marcos. A TV não é o único meio que liga as pessoas ao mundo. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos - Acesso em: 12 jun. 2010.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento: um processo sócio-histórico. 4. ed. São Paulo: Ed. Scipione, 1999.


* - Este artigo tem por objetivo despertar no leitor uma visão crítica relacionada à forma como a sexualidade é tratada atualmente no contexto escolar. Foi elaborado pelos estudantes a partir de discussões realizadas no III Núcleo Formativo do curso de Pedagogia, da Faculdade de Educação (FAE) da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), quando foram debatidos temas relacionados a “Criança na idade da mídia”. O artigo foi recentemente publicado na Revista "Elas por Elas", do Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.