Mostrando postagens com marcador manifestações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador manifestações. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Maioria da população não vê melhora no país após manifestações

.
PUBLICADO EM 10/09/13 - 15h37
.
A maioria dos brasileiros acredita que não houve melhoras no País após as manifestações, de acordo com pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) em parceria com a MDA Pesquisa, divulgada nesta terça-feira, 10. O porcentual de entrevistados que apontou que não houve melhora depois dos protestos é de 54%. Outros 42,6% acreditam que o Brasil melhorou após os protestos, ao passo que 3,4% não responderam ao questionamento.
.
Entre os entrevistados, 32,7% acreditam que o governo não atendeu às reivindicações das manifestações e apenas 0,6% apontaram que o governo atendeu todos os pedidos. A maioria, 63 3%, acredita que o governo atendeu algumas das reivindicações. A pesquisa foi feita em 135 municípios, de 31 de agosto a 4 de setembro. A falta de projetos em áreas prioritárias, como saúde, educação e transporte, é apontada por 42,6% dos entrevistados como o maior problema administrativo da presidente Dilma Rousseff. Em segundo lugar, aparece a falta de diálogo com a população, com 14,5%. O excesso de burocracia nos órgão do governo ficou em terceiro, com 10,2%, seguido da dificuldade em fazer investimentos, com 6,6%. A criação de 39 ministérios aparece com 6,3% e a falta de obras, com 5,7%. 4,8% apontaram outro problema e 9,2% não sabem ou não responderam.
.
Como maior virtude do governo Dilma Rousseff, a resposta mais frequente foi a ampliação de benefícios aos mais carentes, com 48,4%. Em segundo, o combate à corrupção, com 17,3%. Também aparecem o crescimento econômico, com 6,6%, o aumento de investimentos, com 5,3%. Responderam outra coisa 2,5% dos entrevistados e 19,8% não sabem ou não responderam.
.
Inflação
.
Questionados sobre a inflação, 75,9% dos brasileiros acreditam que a alta de preços não está controlada, contra 15% que acha que a inflação está sob controle. Outros 9,1% não souberam ou não responderam. Da mesma forma, a maioria da população tem preocupações com a economia do País. Segundo a pesquisa, 40,2% dos entrevistados estão preocupados com o quadro econômico, enquanto 12,6% estão muito preocupados. Já 16,5% estão pouco preocupados, 12,7% estão indiferentes e ainda outros 12,7% estão empolgados ou esperançosos. Para 40,5% dos entrevistados, a economia estava crescendo, mas agora está estagnada. Para 23,7% a economia está crescendo, para 14,6% não está crescendo e ainda para 9,9% o Brasil está em recessão.
.
Apagão
.
A maioria dos brasileiros, 63,7%, acredita que o Brasil pode ter 'eventualmente' problemas com apagão de energia elétrica e 16,9% disseram que pode ter 'frequentemente'. Outros 15% disseram que o País não terá problemas com apagão de energia elétrica. O porcentual de pessoas que não responderam ou não sabem foi de 4 4%. Também é maioria quem acredita que o Brasil não está bem preparado para evitar apagões: 68,7%. Outros 24,5% disseram que o País está preparado.
.
Agência Estado (O Tempo - MG)

sábado, 15 de junho de 2013

Povo, polícia e repressão em uma jovem democracia

.
Lúcio Alves de Barros*
.
São inaceitáveis as ações dos policiais militares contra os manifestantes de São Paulo, Rio de Janeiro e outras que certamente estão por vir. Tudo ficou claro diante da fumaça porca e fedorenta das bombas jogadas aqui e ali que vitimaram, inclusive, idosos e crianças.
.
A coisa ficou mais feia porque agora atingiu em cheios os olhos da imprensa. Imagens revelaram que a polícia literalmente atirou nos jornalistas que estavam trabalhando. Penso que tudo reforça o retrocesso de uma democracia ainda jovem. São perigosas as ações que revelam o total despreparo das polícias em ordem democrática. Não podemos esquecer que esta polícia é fruto e imagem do seu governador, gerente e chefe maior deste exército de policiais militares que há muito já deveria ter deixado de ser militar.
.
É óbvio que todos são contra a quebra de coletivos, órgãos públicos, equipamentos urbanos, etc. Mas não foi por isso que a polícia militar estava por lá. Não foi pela manutenção da ordem. Ela já existia antes que ela chegasse. A mobilização tornou-se perigosa com a presença do Estado armado e cheio de adrenalina. Ações violentas geram mais violência e desrespeito. E há tempos já sabemos que a polícia é violenta e mata mesmo.
.
Os episódios, contudo, podem servir pedagogicamente para que tais acontecimentos não ocorram. Sei do romantismo das palavras e tenho certeza que elas de nada valem para as autoridades. A polícia militar, na esteira da Constituição de 1988, é força de manobra política, de repressão e violência do que se entende no Brasil por “Estado de Direito”. Neste caso, podemos esperar mais episódios. Aos poucos, os acontecimentos em favor do “passe livre” vão ficar na memória, histórias vão ser contadas e as versões vão tomar conta dos fatos.
.
É triste saber que nossa democracia é manca e nos tempos modernos anda beijando os fundamentalistas, os autoritários e os que não suportam a diferença. Contra a oposição nada como o policial armado, com dentes para fora e apavorado para “mostrar serviço”.
.
A questão é muito mais séria do que o aumento das tarifas dos coletivos que vivem do atraso, da precariedade, da bagunça das cidades, da intolerância dos seus donos e de boa parte do dinheiro público. A cultura brasileira é casada com a violência, armada com a repressão e amante do autoritarismo. Não por acaso, muitos aparecem nestes instantes para condenar os “vândalos”, mas se esquecem de que somos resultado de muita desorganização política, social e econômica. Não podemos esquecer um passado no qual o ataque aos direitos humanos era moeda corrente e fonte de desespero de pais e mães que perderam filhos e filhas que estão aparecendo na Comissão da Verdade.
.
Também não podemos esquecer o casamento quase perfeito entre os órgãos policiais, as universidades e outras instituições que vem “mudando” a polícia com dinheiro público e fazendo experiências com a “polícia comunitária”, as UPPs, programas de fortalecimento da “população de risco” e assim por diante.
.
Finalmente, penso que os episódios merecem o seu lugar porque mostram que muitos ainda estão de olhos abertos e, apesar da ingenuidade, tem a coragem de ir para as ruas. A polícia ganharia mais com ações pedagógicas voltadas para a configuração da cultura da paz e da tolerância. Ganharíamos todos inclusive as autoridades governamentais da ocasião que não cansam de investir em uma segurança pública bélica cuja tônica é a faxina social dos excluídos sob a batuta do gás de pimenta, de balas de borracha, pancada em manifestantes e cassetetes em mulheres, homens, crianças e idosos.
.
*Professor na FAE (Faculdade de Educação) na UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais).

Violência policial muda tudo

.
Renato Janine Ribeiro*
.
Minha apreciação das manifestações em São Paulo mudou esta quinta-feira, após as cenas de violência da PM. A polícia mostrou-se totalmente incapaz de lidar com manifestações políticas duras, mas legítimas numa democracia. Para quem condena o movimento porque não tem líderes que controlem a massa, recomendo as análises de Manuel Castells sobre o assunto, em recentes palestras no Brasil. Quem não o conhece, saiba que é um sociólogo espanhol, amigo de FHC, estudioso atento das formas de sociabilidade no tempo da Internet. Pois Castells diz que hoje se protesta assim, no mundo árabe, na Turquia, em toda a parte: um rastilho de pólvora que se alastra sem líderes, sem pauta clara.
.
Na democracia, essenciais são os métodos. Condeno quem queimou ônibus e quebrou janelas, mas jamais diria que “os manifestantes” fizeram isso, querendo dizer: “todos”. Não. Foram uma minoria, como se vê. Essa minoria está errada e deve pagar pelo que fez. Agora, a polícia tem de saber como lida com a divergência política, mesmo quando esta se radicaliza. O que a PM mostrou é que ela atua batendo. Depoimentos de dois jornalistas que testemunharam as agressões, Elio Gaspari e Armando Antenore, mostram o ataque que ela iniciou sem provocação – significativamente, na região da rua Maria Antônia, altamente simbólica tanto porque foi a “alma mater” dos grandes sociólogos paulistas, entre eles FHC, quanto porque ali, em 3 de outubro de 1968, um grupo paramilitar de extrema-direita atacou a Faculdade de Filosofia da USP, num dos graus finais da escalada que levaria ao Ato-5.
.
A polícia trata descontentes tal como trataria bandidos perigosos, que estivessem atirando. Pelo menos sete jornalistas foram feridos, e alguns presos, no que anda perigosamente perto de fazer suspeitar de um, à primeira vista absurdo, plano determinado de intimidar a imprensa.
.
Os governos estadual e municipal certamente precisam de dinheiro caso abram mão do reajuste das tarifas ou mesmo as zerem, mas, se vão usar os recursos públicos para isso ou para outros fins, é assunto a debater. Respeito a tese do transporte público urbano gratuito. É um desestímulo ao transporte individual e uma forma de transferência de renda para pessoas, pobres e uma causa nobre. Todos sabemos que os ônibus e trens suburbanos são péssimos no País, em termos de quantidade, conforto, frequência e rapidez. Muita gente gasta quatro horas por dia indo ou voltando do trabalho. Isso é inaceitável.
.
Ora, ou se deixa claro aos governantes que o desrespeito a quem usa condução pública se tornou ele próprio inaceitável, ou os governos continuarão empurrando essas questões para o futuro. Esta é a grande questão de fundo.
.
Mas há uma grande questão de método, também. É preciso que a polícia militar aprenda a viver na democracia. Testemunhei, estes anos, muitos casos em que admirei a ação da polícia, sobretudo a civil. Sei que tudo melhorou desde a ditadura. Mas o que choca é ver que, agora, se retrocede tanto. E choca, em especial, ver que o responsável pela polícia, o governador do Estado de S. Paulo, aceita esse tipo de conduta. O mínimo que deveria fazer era distinguir as coisas e, mesmo mantendo sua oposição à pauta de exigências dos manifestantes, garantir que a dignidade das pessoas seja respeitada. Porque estamos vivendo uma escalada de agressão. Quando um promotor usa de seu cargo para prometer impunidade a policiais que matem manifestantes, e até agora nada perdeu a não ser o emprego no Mackenzie, fica-se perigosamente – uso pela terceira vez esse advérbio ou adjetivo – perto demais da substituição dos princípios democráticos de convivência pelos ditatoriais. Estes parecem fáceis. Parecem assegurar a ordem, à custa da liberdade. Mas, quando se vai a liberdade, como diz Elio Gaspari nos seus livros sobre a ditadura e como bem sabe o Estadão, censurado por anos a fio após o Ato-5, cai-se na desordem armada. Isso, não podemos admitir.
.
* Professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo, na qual se doutorou após defender mestrado na Sorbonne. Entre suas obras destacam-se "A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil" (2000, Prêmio Jabuti de 2001) e "A universidade e a vida atual - Fellini não via filmes" (2003). 
.