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domingo, 26 de agosto de 2012
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
O respeito e a preservação da vida nos tempos modernos
Por Leonardo Boff*
A cultura moderna, desde o século XVI, está assentada sobre uma brutal falta de respeito. Primeiro, para com a natureza, tratada como um torturador trata a sua vítima, com o propósito de arrancar-lhe todos os segredos (Bacon). Depois, para com as populações originárias da América Latina. Em sua "Brevíssima Relação da Destruição das Índias", (1562), conta Bartolomé de las Casas que os espanhóis "em apenas 48 anos ocuparam uma extensão maior que o comprimento e a largura de toda a Europa, e uma parte da Ásia, roubando e usurpando tudo com crueldade, injustiça e tirania, tendo sido mortas e destruídas vinte milhões de almas de um país que tínhamos visto cheio de gente e de gente tão humana"("Décima Réplica"). Em seguida, escravizou milhões de africanos trazidos para as Américas, negociados no mercado e consumidos como carvão na produção.
Seria longa a ladainha dos desrespeitos de nossa cultura, culminando nos campos de extermínio nazista de milhões de judeus, ciganos e outros considerados inferiores.
Sabemos que uma sociedade só se constrói e dá um salto para relações minimamente humanas quando instaura o respeito de uns para com os outros. O respeito, como bem mostrou Winnicott, nasce no seio da família, especialmente da figura do pai, responsável pela passagem do mundo do eu para o mundo dos outros, que emerge como o primeiro limite a ser respeitado.
Um dos critérios de uma cultura é o grau de respeito e autolimitação que seus membros se impõem e observam. Surge, então, a justa medida, sinônimo de justiça. Rompidos os limites, vigora o desrespeito e a imposição sobre os demais. Respeito supõe reconhecer o outro com seu valor intrínseco, sejam pessoas ou quaisquer outros seres.
Dentre as muitas crises atuais, a falta generalizada de respeito é seguramente uma das mais graves. O desrespeito campeia em todas as instâncias da vida individual, familiar, social e internacional. Por essa razão, o pensador búlgaro-francês Tzvetan Todorov, em seu recente livro "O medo dos bárbaros", (Vozes, 2010), adverte que, se não superarmos o medo e o ressentimento e não assumirmos a responsabilidade coletiva e o respeito universal, não teremos como proteger nosso frágil planeta e a vida na Terra já ameaçada.
O respeito nos remete a Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz de 1952 e um dos mais eminentes teólogos de seu tempo. Seu livro "A história da pesquisa sobre a vida de Jesus" é um clássico por mostrar que não se pode escrever cientificamente uma biografia de Jesus. Os evangelhos contêm história, mas não são livros históricos. São teologias, que usam fatos históricos e narrativas com o objetivo de mostrar a significação de Jesus para a salvação do mundo. Por isso, sabemos pouco do real Jesus de Nazaré. Schweitzer compreendeu: histórico mesmo é o Sermão da Montanha e importa vivê-lo.
No meio de seus afazeres de médico, encontrou tempo para escrever. Seu principal livro é "Respeito diante da vida" que ele colocou como o eixo articulador de toda ética. "O bem", diz ele, "consiste em respeitar, conservar e elevar a vida até o seu máximo valor; o mal, em desrespeitar, destruir e impedir a vida de se desenvolver". E conclui: "quando o ser humano aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante; a grande tragédia da vida é o que morre dentro do homem, enquanto ele vive".
Como é urgente ouvir e viver essa mensagem nos dias sombrios que a humanidade está atravessando.
Seria longa a ladainha dos desrespeitos de nossa cultura, culminando nos campos de extermínio nazista de milhões de judeus, ciganos e outros considerados inferiores.
Sabemos que uma sociedade só se constrói e dá um salto para relações minimamente humanas quando instaura o respeito de uns para com os outros. O respeito, como bem mostrou Winnicott, nasce no seio da família, especialmente da figura do pai, responsável pela passagem do mundo do eu para o mundo dos outros, que emerge como o primeiro limite a ser respeitado.
Um dos critérios de uma cultura é o grau de respeito e autolimitação que seus membros se impõem e observam. Surge, então, a justa medida, sinônimo de justiça. Rompidos os limites, vigora o desrespeito e a imposição sobre os demais. Respeito supõe reconhecer o outro com seu valor intrínseco, sejam pessoas ou quaisquer outros seres.
Dentre as muitas crises atuais, a falta generalizada de respeito é seguramente uma das mais graves. O desrespeito campeia em todas as instâncias da vida individual, familiar, social e internacional. Por essa razão, o pensador búlgaro-francês Tzvetan Todorov, em seu recente livro "O medo dos bárbaros", (Vozes, 2010), adverte que, se não superarmos o medo e o ressentimento e não assumirmos a responsabilidade coletiva e o respeito universal, não teremos como proteger nosso frágil planeta e a vida na Terra já ameaçada.
O respeito nos remete a Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz de 1952 e um dos mais eminentes teólogos de seu tempo. Seu livro "A história da pesquisa sobre a vida de Jesus" é um clássico por mostrar que não se pode escrever cientificamente uma biografia de Jesus. Os evangelhos contêm história, mas não são livros históricos. São teologias, que usam fatos históricos e narrativas com o objetivo de mostrar a significação de Jesus para a salvação do mundo. Por isso, sabemos pouco do real Jesus de Nazaré. Schweitzer compreendeu: histórico mesmo é o Sermão da Montanha e importa vivê-lo.
No meio de seus afazeres de médico, encontrou tempo para escrever. Seu principal livro é "Respeito diante da vida" que ele colocou como o eixo articulador de toda ética. "O bem", diz ele, "consiste em respeitar, conservar e elevar a vida até o seu máximo valor; o mal, em desrespeitar, destruir e impedir a vida de se desenvolver". E conclui: "quando o ser humano aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante; a grande tragédia da vida é o que morre dentro do homem, enquanto ele vive".
Como é urgente ouvir e viver essa mensagem nos dias sombrios que a humanidade está atravessando.
* Escritor e teólogo
Fonte: O tempo (MG)
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Opinião: Descaso gera descaso
Nylza Osório Jorgens Bertoldi*
Se bem entendo pela experiência vivida, a Educação começa pela formação de atitudes, tantas vezes ausente na esfera familiar. A observância das relações interpessoais neutralizando as discriminações, o desrespeito, o individualismo, remete-nos à certeza de que uma outra Educação é possível.
O lado emocional do professor desempenha papel significativo no ofício de educar, por isso nem sempre a qualidade do ensino está atrelada às metodologias pedagógicas, mas certamente transcende os limites da razão e do emocional.
Ninguém pode oferecer o que tem de melhor quando a angústia bate às suas portas pela desvalorização do seu “eu”, enquanto o descrédito aos seus méritos são questionados e leiloados em pregões.
Méritos, todos os mestres têm. Tanto aqueles com formação acadêmica mais qualificada exigida pela profissão quanto aqueles que ainda não tiveram a oportunidade para alcançá-la plenamente. A obra de Paulo Freire nos fala de “uma compreensão integral do ser humano, sua história, suas possibilidades, suas condições econômicas, sua emancipação social e cultural”.
Quando existe conhecimento, mas faltam autoestima e valorização, os conflitos, a incompreensão, os desenganos, geram a derrocada dos sentimentos por mais puros que sejam.
E o que vemos agora? Os rumos da qualidade do ensino, em discussão por quem desconhece o regulamento das Escolas; por quem nunca pisou numa sala de aula de Escola pública; por quem se capacita a debater as questões de Educação, aleatoriamente, porque nunca foramprofessores. Educação e ensino são tarefas do professor.
Se é que existe um consenso sobre a relação “baixa qualidade de desempenho Escolar versus recursos para as exigências da Educação”, por que as históricas mudanças não acontecem? Afinal, a Educação é prioridade dos governos ou discursos, temas e promessas de campanhas eleitorais? Acredito na segunda hipótese.
O argumento financeiro é um mero jogo de cena de quem descumpre a constitucionalidade do piso nacional para docentes, votado pelos juízes do Supremo Tribunal Federal, mais alta instância jurídica do país.
Arcar com essa consequência terá um preço bem mais alto do que o piso nacional. Melhorar a Educação significa abrir novos caminhos ou reconhecer os espaços pelos quais o Rio Grande do Sul, com muito orgulho, já conquistou em passadas épocas.
A construção do conhecimento é coletiva, pertence à história, é produto da cultura, mas a construção dos valores morais é individual e pertence à formação do caráter na dimensão de suas experiências.
Volte para as Escolas públicas o uso do uniforme, ora jogado no baú, para que nossos jovens frequentem as aulas dignamente vestidos e as meninas cubram os seios e os umbigos de fora, em sala de aula. Voltem as exigências de conduta que orientem esses jovens a construir uma formação para a cidadania.
São inúmeras as Escolas particulares que se alinham nestes conceitos, independentemente de suas orientações e crenças, mas protagonistas de um processo educativo de formação moral.
Essa é uma visão possível de transformação cultural de compreender a Educação como perspectiva de um “salto de qualidade” que certamente acontecerá para privilégio de uma sociedade que espera pela mudança de mentalidades.
*Escritora e educadora emérita do Estado do Rio Grande do Sul
Se bem entendo pela experiência vivida, a Educação começa pela formação de atitudes, tantas vezes ausente na esfera familiar. A observância das relações interpessoais neutralizando as discriminações, o desrespeito, o individualismo, remete-nos à certeza de que uma outra Educação é possível.
O lado emocional do professor desempenha papel significativo no ofício de educar, por isso nem sempre a qualidade do ensino está atrelada às metodologias pedagógicas, mas certamente transcende os limites da razão e do emocional.
Ninguém pode oferecer o que tem de melhor quando a angústia bate às suas portas pela desvalorização do seu “eu”, enquanto o descrédito aos seus méritos são questionados e leiloados em pregões.
Méritos, todos os mestres têm. Tanto aqueles com formação acadêmica mais qualificada exigida pela profissão quanto aqueles que ainda não tiveram a oportunidade para alcançá-la plenamente. A obra de Paulo Freire nos fala de “uma compreensão integral do ser humano, sua história, suas possibilidades, suas condições econômicas, sua emancipação social e cultural”.
Quando existe conhecimento, mas faltam autoestima e valorização, os conflitos, a incompreensão, os desenganos, geram a derrocada dos sentimentos por mais puros que sejam.
E o que vemos agora? Os rumos da qualidade do ensino, em discussão por quem desconhece o regulamento das Escolas; por quem nunca pisou numa sala de aula de Escola pública; por quem se capacita a debater as questões de Educação, aleatoriamente, porque nunca foramprofessores. Educação e ensino são tarefas do professor.
Se é que existe um consenso sobre a relação “baixa qualidade de desempenho Escolar versus recursos para as exigências da Educação”, por que as históricas mudanças não acontecem? Afinal, a Educação é prioridade dos governos ou discursos, temas e promessas de campanhas eleitorais? Acredito na segunda hipótese.
O argumento financeiro é um mero jogo de cena de quem descumpre a constitucionalidade do piso nacional para docentes, votado pelos juízes do Supremo Tribunal Federal, mais alta instância jurídica do país.
Arcar com essa consequência terá um preço bem mais alto do que o piso nacional. Melhorar a Educação significa abrir novos caminhos ou reconhecer os espaços pelos quais o Rio Grande do Sul, com muito orgulho, já conquistou em passadas épocas.
A construção do conhecimento é coletiva, pertence à história, é produto da cultura, mas a construção dos valores morais é individual e pertence à formação do caráter na dimensão de suas experiências.
Volte para as Escolas públicas o uso do uniforme, ora jogado no baú, para que nossos jovens frequentem as aulas dignamente vestidos e as meninas cubram os seios e os umbigos de fora, em sala de aula. Voltem as exigências de conduta que orientem esses jovens a construir uma formação para a cidadania.
São inúmeras as Escolas particulares que se alinham nestes conceitos, independentemente de suas orientações e crenças, mas protagonistas de um processo educativo de formação moral.
Essa é uma visão possível de transformação cultural de compreender a Educação como perspectiva de um “salto de qualidade” que certamente acontecerá para privilégio de uma sociedade que espera pela mudança de mentalidades.
*Escritora e educadora emérita do Estado do Rio Grande do Sul
Fonte: Todos pela Educação.
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