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quinta-feira, 9 de junho de 2016

O “Estado Penal”


Fonte Jornal O TEMPO.

Lúcio Alves de Barros*


Se existe um fato vergonhoso e que faz a corrupção desenfreada no país parecer brincadeira de criança é a política criminal. Entendo política criminal como todo aparato repressivo que levam ao final homens e mulheres ao encarceramento. Não faz muito tempo apareceu nos meios acadêmicos a questão da configuração de “Estados penais” ou “Estado policiais”. Tratava-se de uma leitura bastante ousada na qual se assentava análises de políticas públicas voltadas ao encarceramento intenso de boa parte da população. Essa tese tinha como exemplo países como os EUA, a Rússia ou a China. Aos poucos a turma foi colocando o Brasil no meio. E não era para menos. As informações disponíveis apontam que no Brasil temos cerca de 622.202 pessoas presas e que este número – proveniente do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, Ministério da Justiça, 26 de abril de 2016 – dobrou foi nos últimos 14 anos. As razões são diversas e no pouco espaço teço algumas considerações:

Em primeiro lugar, não é preciso ir longe para dizer que toda política de encarceramento tende a mostrar um país que não sabe, não pretende e não deseja fazer valer os direitos humanos. A privação de liberdade como mecanismo de dissuasão de crimes há muito é política falida, não valeu à pena no passado e não vai muito longe nos dias atuais, a não ser se continuarmos com essa de prender todos aqueles que carregam o estigma do “indesejável”, do “inimigo”, do “desviado” ou “diferente”. É claro que temos os criminosos, inclusive os de colarinho branco que estão recheando as manchetes de jornais. Mas como as coisas estão andando não creio que vamos muito longe. O nosso sistema ainda nos dias atuais tem como protagonista o ladrãozinho de galinha.

Em segundo lugar, vale chover no molhado e apontar que nossa cultura é autoritária e que tem por natureza pregar na cruz as pessoas negras, jovens e pobres. O leitor pode mencionar que o fenômeno é histórico. O que, na verdade, não tem valor nenhum quando atrás das grades não estão os filhos da “classe média alta” ou da “classe alta”. Fato é que a maioria da população encarcerada é de pessoas pretas e pardas (61,6%). No conjunto da população brasileira elas aparecem com 53,6%. Logo, a cadeia é negra e, como se não bastasse, de baixa escolaridade. Os dados do Ministério da Justiça apontam que os encarcerados possuem menos escolaridade que a média da população. Uma grande parte dos presos (75%) sequer concluiu o ensino fundamental e somente 9,5% chegou a terminar o ensino médio. Como se vê, presos e presas perdem na condição étnica e na possibilidade de agregar um mínimo de capital cultural necessário para pelo menos tentar uma medíocre defesa.

Em terceiro e último lugar, é lícito afirmar que algo está errado pois, apesar da onda “Lava Jato”, menos de 1% dos presos brasileiros estão atrás das grades por crimes relacionados à corrupção. A maioria está presa por roubo (21%), furto (11%), ações relacionados às drogas, como o tráfico (27%) e crimes contra a pessoa, o homicídio, por exemplo (14%). Cumpre verificar que o tráfico de entorpecentes lidera a quantidade de crimes que a moçada encarcerada andou cometendo. A situação é vergonhosa e passamos da hora de debater a liberação da maconha e outros mecanismos de identificação de criminalidade nos casos do “mundo das drogas”. Como se sabe a questão aqui também é seletiva: uma coisa é um jovem negro pobre com três ou quatro bolinhas de crack ou de maconha, outra é um jovem de classe média, branco e morador da zona sul. A droga se tornou no sistema criminal um forte mecanismo de distinção e posterior aprisionamento daqueles que por ora ou outrora estavam incomodando. Não pode ser por acaso que a maioria das pessoas aprisionadas é negra, jovem, com baixa ou sem escolaridade e muito pobre. Não se fazem masmorras com ricos. Ao contrário de grades, aos estudados temos prisões domiciliares, especiais, ou mesmo penas alternativas. O uso de tornozeleira eletrônica não parece cair bem na favela ou no bairro pobre. Longe das políticas públicas de segurança o sistema penitenciário há anos vem agonizando - em um equilíbrio tênue próximo a um controle consentido – e, como ele trata de uma população que fica do “lado de lá”, é bom nos acostumar com dados que revelam que no Brasil existem 306 presos para cada 100 mil habitantes. É muita gente presa para uma taxa mundial (que acho alta) de 144 pessoas presas por 100 mil habitantes.

* Professor na FAE (Faculdade de Educação) - Belo Horizonte - UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais)

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O mal-estar na segurança pública

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Por Lúcio Alves de Barros*
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Novamente caem no mundo virtual e real do campo midiático casos de linchamentos, policiais matando e sendo mortos, explosões de caixas eletrônicos, roubos a condomínios, furtos, sequestros e homicídios. A leitura de qualquer jornal já é suficiente para verificar ou sentir certo mal-estar no que se convencionou denominar de segurança subjetiva. Sensacionalizadas e retocadas por recursos midiáticos o problema da segurança se torna público e o mal-estar real aumenta; como se já não bastasse o mal-estar social proveniente da crise econômica. No caso em questão retomo alguns mitos para melhorar o bem estar e todos ou de alguns.

Não é verdade que a pobreza e episódios de crise econômica aumentem os casos de violência e de criminalidade. Países equilibrados economicamente mostram dados muito mais assustadores que países em frangalhos políticos e sociais. O que parece produzir a criminalidade é a riqueza. Dificilmente recalcitrantes racionais roubam ou tiram daquele que nada tem. Podem até retirar o bem mais precioso como quer a polícia, no caso a vida. Mas neste caminho estamos no terreno arenoso dos homicídios que por certo não ocorrem por acaso, tal como as oportunidades que se abrem em crimes contra o patrimônio, especialmente, daqueles que ostentam e claramente possuem mais. O mal-estar aqui é claro: os privilegiados economicamente tentam se assegurar como podem enquanto os que nada têm ficam a esperar o que podem.

É preciso deixar claro que mais polícia nas ruas não diminui a criminalidade e tampouco a violência. Primeiro porque é impossível colocar um policial em todo o lugar com possibilidade de acontecimento delituoso e, em segundo, é impossível que um policial fique 24 horas por conta de uma pessoa ou domicílio. Não por acaso crimes ocorrem, em geral, onde não se tem polícia, mas também ocorrem onde ela está. O fato é que a presença dela não atrapalha o recalcitrante ou evita a violência. O que chamamos de crime é o ato que realmente rasga o acordo social. Este sim: não é visto em todo o momento e não acredito em instituições policiais aptas a evitá-lo. O crime como fato social continua sendo algo normal e, apesar do mal-estar reinante, passível de controle dado que em certos momentos a anomia se faça necessária para a continuidade e fortalecimento dos laços sociais.

Por último, é preciso perguntar como foi gasto e como está o estado da arte dos recursos disponíveis na segurança pública. Entre 2001 e 2013, os desembolsos para a área chegaram a R$ 116,9 bilhões. Estados criaram nos anos 1990 a polícia comunitária, inúmeros “projetos” de unificação das polícias, melhoraram os salários, investiram em armamentos, viaturas e unidades operacionais em “áreas de risco”. As universidades entraram no meio e muitas academias de polícia mexeram nos currículos. Falaram que modificaram o “fazer policiamento”, mas o mal-estar continua. A população tem medo da polícia, não confia nas instituições judiciais e vive um clima de inseguridade social que vai muito além do que os administradores de polícia chamam de “segurança objetiva”. A questão é que a polícia continua navegando no pântano sujo e amargo da política pública, a qual é impossível ser desenvolvida sem o auxílio da população. Com a crise econômica as ações devem ficar mais difíceis e complexas, dado que a associação segurança e recursos públicos parece norma. O mal-estar deve ser intensificado e a conjuntura pode ser modificada desde que tenhamos a consciência de que a segurança pública não é de responsabilidade somente da polícia e faz parte das obrigações individuais de cada dia.
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* Professor na Faculdade de Educação / CBH / UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Maioridade e tudo o mais

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Por Fernando Gabeira*
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A redução da maioridade penal entrou na agenda política. Já era discutida nas ruas e insistentemente martelada nos programas populares de TV e rádio. É um fato de nossa experiência cotidiana: os meninos de hoje amadurecem mais cedo, sobretudo os que enfrentam as asperezas da rua. Ao ver uma sucessão de crimes cometidos por adolescentes que voltam às ruas, um grande número de pessoas se inclina claramente pela redução da maioridade penal.
 
Projetado numa decisão do Congresso, este desejo majoritário, certamente, vai se desdobrar numa vitória da tese. Mas os problemas não acabam aí. Abre-se todo um caminho espinhoso para colocar em prática a decisão majoritária, um deles é o evidente gargalo do sistema penitenciário brasileiro. Ao ler sobre a experiência americana, percebi que o Brasil não deveria se limitar ao tema da maioridade penal. Lá, com mais tempo de experiência em prender adolescentes, eles não recuaram na idade penal. No entanto, estão descobrindo, gradativamente, que é mais negócio investir na recuperação dos jovens criminosos e não hesitam em avançar nessa direção.
 
Ao respeitar a opção majoritária, o Brasil precisaria combinar essas políticas. O problema é que quase não há dinheiro para as prisões, quanto mais para projetos. Não posso imaginar o que aconteceria se o país executasse numa só semana os 300 mil mandatos de prisão. O Estatuto do Adolescente continha boas intenções. Mas a própria relatora do projeto, Rita Camata, admitiu que muitos dos seus aspectos positivos foram deixados de lado. Muitos o veem hoje como uma causa da criminalidade juvenil.
 
O debate sobre a redução da maioridade penal desponta como um fato isolado. Os que são favor ou contra podem se sentir vitoriosos ou derrotados. Mas as outras variáveis continuam nos desafiando. Ao reduzir a maioridade, estaremos mais próximos aos Estados Unidos no que diz respeito à lei, mas, na prática, não estaremos no mesmo caminho de investir, apostar na flexibilidade da juventude.
 
Muitos podem ver na redução da maioridade um retrocesso. No entanto, não se examina o fracasso de um projeto mais liberal e o crescente processo de violência urbana. O que as pessoas parecem dizer é isto: vocês tiveram a oportunidade de fazer diferente, mas não está dando certo; por que não tentar o caminho apontado pela maioria?
 
A julgar pelo clima no próprio Congresso, acho que a redução passa. Mas tanto vencedores como vencidos, nesse tópico particular, têm muito a discutir sobre o futuro imediato. Abre-se um abismo entre o político no sentido mais amplo e a estrita preocupação eleitoral. Para esta última, uma simples votação isolada basta para agradar aos eleitores.
 
Em termos políticos, é preciso construir uma agenda de segurança. São muitos anos de desprezo pelo tema. Tanto Fernando Henrique quanto Lula não se anteciparam diante da gravidade do problema. Dilma apenas recitou uma política escrita para ela, e assim foi porque estaria na lista de perguntas no debate. Às vezes essa distância que os políticos tomam da segurança lembra-me a distância de algumas redações no passado de sua seção policial. Não era considerado um tema nobre, como a educação, diplomacia, estava sempre envolto em situações desagradáveis de crime e castigo. Uma política de segurança adequada às circunstâncias nacionais é uma dívida de nossa geração de políticos. Assim como ficamos devendo uma resposta a outro tema inconveniente: o saneamento básico. Nesse particular, a política brasileira é romântica e aristocrática; não mexe com crimes nem com o esgoto. Se olhamos um pouco melhor, revela-se nele também o lado pragmático: obras subterrâneas não aparecem nem rendem votos; a segurança, tratamos, de vez em quando, com uma decisão popular para acalmar os ânimos.
 
Procuro seguir as lições do escritor americano H. D. Trudeau: para conhecer bem um país é preciso visitar suas cadeias. O que vejo são bombas relógio. Mas as ruas já estão bastante complicadas. Se a política demorou a se dar conta da necessidade de uma verdadeira política de segurança, pelo menos vive um momento em que a tecnologia e a interatividade podem indicar soluções mais baratas e eficazes.
 
Não são milagrosas. Mas se temos pouco dinheiro, a inteligência pode ser um fator decisivo. A ausência dos dois é uma combinação insuperável. Lembro-me que no princípio do governo formulei um pequeno projeto para reduzir motins nas cadeias. Consistia numa rede na qual as penitenciárias fariam um relatório cotidiano e um pequeno núcleo os analisaria. Em quantos lugares as reclamações diárias sobre a comida estragada não eram algo controlável antes de resultar em violência?
 
Com o tempo, percebi também a importância do trabalho dos ingleses, que monitoram os presos e evitam inúmeros crimes na cadeia. Aqui no Brasil, às vezes, achávamos que, ao perder a liberdade, as pessoas não têm mais chance de cometer crimes. Hoje essa ilusão desmoronou. De ilusão em ilusão caída, quem sabe não chegamos lá?
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* Colunista de O Globo

Fonte: O Globo

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Mapa do Encarceramento

Quem ainda tem dúvida acerca da seletividade penal no Brasil, veja o Estado assumindo sua co-culpabilidade. O Mapa - muito bem feito - revela que:
 
1 - A população prisional no Brasil cresceu 74% entre 2005 e 2012.

2 - No ano de 2005 o número de presos no país era 296.919.

3 - Sete anos depois passou para 515.482 presos. ...


4 - A população prisional masculina cresceu 70%

5 - A população feminina aumentou 146% no mesmo período.

6 - Em 2012 um terço dos presos estava encarcerado em São Paulo
 
7 - 38% dos presos estão sem julgamento. 

8 - 61% deles foram condenados e 1% cumpre medida de segurança. 

9 - Entre os condenados, 69% estão no regime fechado, 24% no regime semiaberto e 7% no regime aberto.

10 - “Quase metade (48%) dos presos brasileiros recebeu pena de até oito anos. Num sistema superlotado, 18,7% não precisariam estar presos, pois estão no perfil para o qual o Código de Processo Penal prevê cumprimento de penas alternativas”
 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Crise derruba secretário de Segurança do Paraná

RIO - Depois das demissões do secretário de Educação e do Comandante da PM, é a vez do secretário de Segurança do Paraná, Fernando Francischini, deixar o cargo. O anúncio oficial foi feito agora no início da tarde, e antecipado pelo GLOBO na manhã desta sexta-feira. Em seu lugar, interinamente, ficará o também delegado da Polícia Federal Wagner Mesquita de Oliveira. A pressão do grupo político de Beto Richa (PSDB) somada ao desgaste da imagem sofrida pelo governo tucano durante a negociação com os professores em greve há duas semanas, pesaram na decisão do governador. A crise instalada no gabinete de Richa já dura nove dias, desde que mais de 200 pessoas ficaram feridas na violenta repressão da Polícia Militar a uma manifestação dos docentes.
 
Em carta endereçada ao governador, Francischini enumerou ações de sua gestão à frente da secretaria e defendeu que, apesar das críticas ao seu trabalho, espera "uma apuração rigorosa tanto da polícia quanto do Ministério Público para que ao final a verdade prevaleça". Ele ainda agradeceu a confiança de Richa e disse acreditar que com sua saída ele possa "colaborar com a governabilidade" do estado paranaense, "convicto de que as ações até agora tomadas se deram a favor do interesse público, dentro da legalidade, em garantia da ordem pública".
 
TROCA DE ACUSAÇÕES AMPLIOU CRISE
 
Na quarta-feira, Francischini tinha recebido a garantia de que permaneceria no cargo, apesar da pressão do PSDB local para sua saída. No entanto, uma carta enviada pelo então comandante-geral , Cesar Vinícius Kogut, na terça-feira ao governador, se tornou pública e agravou ainda mais a crise. O documento era uma resposta às declarações do secretário de Segurança, que atribuiu a violência desencadeada no protesto dos professores na última quarta-feira à corporação. No texto, Kogut, que foi demitido ontem, afirmou que Francischini "foi alertado inúmeras vezes pelo comando da tropa e pelo Comandante-Geral sobre os possíveis desdobramentos durante a ação". Francischini, por meio de nota, disse ter sido "mal interpretado em alguns pontos".
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Para piorar, um desabafo feito pela mulher de Francischini nas redes sociais irritou o governador. O texto, publicado por Flavia Francischini no Facebook, fazia várias críticas indiretas ao grupo político do tucano. “Um bom político trabalha e age por si só, não depende de homens sujos, covardes, que não honram as calças que vestem e precisam agir sempre em grupo, ou melhor quadrilha", dizia o post.
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Na quarta-feira, o governador nomeou a professora Ana Seres Trento Comim como nova secretária de Educação, em substituição a Fernando Xavier Ferreira. Já para o lugar de Kogut foi nomeado, interinamente, o coronel Carlos Alberto Bührer.Reeleito como deputado federal com 160 mil votos, Fernando Francischini (Solidariedade) tem como bandeira política projetos na área de segurança pública.
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Na carta de exoneração, Francischini ressalta que houve avanços durante o tempo em que ficou à frente da pasta e que as áreas de Segurança Pública e de Administração Penitenciária estão no rumo certo.
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"Finalizo, assumindo novamente e publicamente todas as minhas responsabilidades, na atuação policial nas últimas operações, apoiando o trabalho da tropa. No entanto, ressalto que mesmo com as reações adversas, continuo defendendo uma apuração rigorosa tanto da polícia quanto do Ministério Público para que ao final a verdade prevaleça", diz um trecho do documento.
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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Indicação de leitura - Polícia, Política e Sociedade


O livro "Polícia, Política e Sociedade". São Paulo: Ed. Delicatta, 2014, de Lúcio Alves de Barros, Vanderlan Hudson Rolim e Antônio Hot Pereira de Faria é a reunião de pesquisas efetuadas no sentido de compreender “o que a polícia faz”. Trata-se de uma obra que aponta para os problemas, obstáculos, caminhos, avanços e retrocessos na política de segurança pública que se abriu a partir da década de 1990. É uma obra para aqueles que se interessam pelo assunto ou que desejam entender o papel da polícia em sociedades democráticas.

sábado, 24 de agosto de 2013

Universidade Fumec não contará com câmeras do Olho Vivo

Os alunos da Universidade Fumec, no bairro Cruzeiro, zona Sul de Belo Horizonte, terão que conviver com o medo e com a insegurança até pelo menos o fim deste ano. Apontada pelo reitor da instituição, Eduardo Martins de Lima, como uma das soluções para coibir a ação de bandidos no entorno da universidade, a instalação de câmeras do programa Olho Vivo no bairro está descartada pelo Governo do estado. Nenhum dos 158 equipamentos previstos para a cidade – até dezembro – irá contemplar os bairros Cruzeiro e Anchieta, conforme adiantou o Hoje em Dia na edição de 28 de maio e reforçou, na sexta-feira (23), a coronel Cláudia Romualdo, chefe do Comando de Policiamento da Capital (CPC). “A distribuição dos equipamentos está mantida conforme planejamento já divulgado”, afirmou. As câmeras serão instaladas na região de Venda Nova (54), no Barreiro (54) e nos bairros Floresta (23) e Cidade Nova (27), na região Leste.
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Segundo o reitor da Fumec, a instituição estaria disposta a custear a colocação dos equipamentos no entorno do prédio, que fica na rua Cobre. “Já colocamos isso à prefeitura, ao Governo do estado e à Polícia Militar. Temos como financiar equipamentos públicos de segurança, como as câmeras do Olho Vivo”, afirmou. De acordo com o tenente-coronel Alberto Luiz, porta-voz da PM, no entanto, o custeio de equipamentos públicos por instituições privadas está fora de cogitação. “A faculdade não está proibida de fazer seu monitoramento por câmeras, mas em via pública isso não é papel da Fumec, seria usurpação da função pública”, explicou.
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Reunião
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A reunião realizada na sexta na reitoria da universidade, entre representantes da Fumec, estudantes, moradores, representantes da PM, da Guarda Municipal, da prefeitura e de associações de moradores foi motivada pela onda de assaltos e ataques a estudantes na região.
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Na última semana, a estudante de Direito, Joice Silva, de 21 anos, foi violentamente abordada por um homem, enquanto se dirigia à Fumec. Ela teve pertences pessoais roubados, foi fisicamente agredida e precisou ser levada para o hospital.
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Segurança
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De acordo com o tenente-coronel Alfredo Alves Veloso, comandante do 22º Batalhão, responsável por monitorar a área, desde o início da semana o policiamento da região foi reforçado. Os bairros serão monitorados e dentro de dez dias uma nova reunião será feita para avaliar a necessidade de aumentar o efetivo. "Até agora, acredito que foi planejado seja suficiente para dar uma resposta positiva a fim de minimizar os problemas relacionados à segurança pública na região", avaliou.
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Fonte: Hoje em Dia (MG)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O capitão Nascimento e Amarildo

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Elio Gaspari*
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Wagner Moura foi homenageado durante o Festival de Gramado e dedicou o prêmio que recebeu aos seis filhos do pedreiro Amarildo, sumido desde o dia 14 de julho. Ele foi o inesquecível capitão Nascimento do filme “Tropa de elite”, um retrato da brutalidade policial, recebido em muitas plateias com aplausos em cena aberta, numa glorificação da tortura. Esse comportamento refletia um momento da demofobia nacional. O governador Sérgio Cabral já defendera a legalização do aborto como um preventivo pacificador das comunidades pobres do Rio de Janeiro: “Pega na Rocinha (onde vivia Amarildo). É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal.” O raciocínio estava estatisticamente errado, foi apenas um grito d’alma. Ocorreu-lhe também murar 19 comunidades com uma barreira de 11 quilômetros. Combatido o projeto, surgiu um derivativo: que tal cercas vivas?
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Seria enorme injustiça atribuir a Cabral uma liderança demófoba. Ele apenas refletia um sentimento expresso por muita gente. Afinal, aplaudia-se o capitão Nascimento ao enfiar a cabeça de um cidadão num saco de plástico. Com uma diferença: Wagner Moura representava. Pois foi exatamente o ator quem disse o seguinte em Gramado:
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“Lá na Rocinha tem uma família que tem seis filhos que não vão almoçar com o seu pai. Eu sei por que não vou almoçar com meu pai. Ele ficou doente e morreu. Mas eles não sabem. Eu gostaria que as autoridades do Rio de Janeiro, para que esses seis filhos tenham um Dia dos Pais mais feliz, pudessem dar uma resposta, que eles pelo menos soubessem o que aconteceu com o pai deles.”
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O que aconteceu a Amarildo? As câmeras da UPP da Rocinha tiveram uma pane e não registraram sua saída do prédio onde estivera detido. Tudo bem, Rubens Paiva fugiu da escolta do DOI e, depois de outubro de 1973, cerca de quarenta guerrilheiros foram resgatados no Araguaia por um disco voador albanês.
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O secretário José Mariano Beltrame poderia exibir as planilhas que registraram outras panes em câmeras de UPPs. Os GPS da guarnição não estavam ligados. Novamente: com que frequência a polícia do Rio circula com GPS desligados? Amarildo teria sido morto por traficantes e seu corpo levado para um lixão. Qual empresa coletou o lixo da Rocinha?
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Amarildo e sua mulher seriam ligados ao tráfico. Demonizar a vítima é coisa antiga: hierarcas da ditadura disseram que Vladimir Herzog tinha ligações com o serviço secreto inglês e o DOI revelou que ele poderia ser emocionalmente instável porque fizera psicanálise. Ademais, confessara sua ligação com o Partido Comunista.
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Wagner Moura vocalizou o grito de um novo tempo. No século XX matavam-se pobres e comunistas. No XXI, quando tantos comunistas ou congêneres estão nos palácios, pode-se parar de matar pobres. Ainda não se sabe quem sumiu com Amarildo, mas as explicações capengas dadas pela polícia embutem a suposição de que a sociedade engole qualquer coisa.
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O massacre da Candelária, praticado depois da redemocratização do país, saiu barato para seus autores. Mas Guimarães Rosa ensinou: “As pessoas não morrem, ficam encantadas.” Os oito mortos de 1993 encantaram-se na memória brasileira e o Papa Francisco lembrou: “Candelária nunca mais.”
Nunca mais?
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*é jornalista
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sexta-feira, 1 de março de 2013

Educação é segredo para garantir segurança

Pouso alegre. Com um investimento por aluno que é quase o dobro do mínimo exigido no país, o município de Pouso Alegre, no Sul de Minas, foca em Educação para reduzir índices de violência na juventude. Uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) apontou que a cidade é a mais segura para os jovens entre 12 e 29 anos, no ranking dos municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes. Os baixos índices de homicídios e mortes no trânsito, além da boa frequência escolar dos adolescentes e inserção no mercado de trabalho, foram os responsáveis pelo bom resultado.
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Para ser a campeã do país, Pouso Alegre também investe em economia, esporte, trânsito, assistência social e segurança pública. Porém, cerca de 30% do orçamento do município é destinado à educação. O aporte anual de R$ 4.049 por aluno é quase o dobro do mínimo exigido pelo Ministério da Educação (MEC), de R$ 2.096. O valor gasto na rede estadual mineira é de R$ 2.400.
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Nas escolas municipais, o programa Escola Sem Fronteiras vem revitalizando a estrutura física das unidades, com a troca de móveis e a modernização do sistema de ensino. Computadores são usados para tornar o ensino mais atraente e proveitoso. "Tivemos um aumento grande da procura por vagas nos últimos dois anos, principalmente de alunos vindos da rede privada", destacou o diretor da Escola Municipal Caic, Antônio Galvão Moreira. A unidade teve um índice de 90% de aprovação nos vestibulares de 2012.
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Fora da sala de aula, a escolinha de futebol do projeto Zico 10 atende a cerca de 1.500 jovens entre 6 e 17 anos da rede municipal. Entre eles, Fabiano (nome fictício), 16, que ainda responde na Justiça por roubo de carro. Há um ano, no entanto, ele treina todos os dias no campo de futebol de um dos bairros mais carentes de Pouso Alegre, o São Geraldo. Fabiano largou as drogas e, agora, sonha alto. "Só quero treinar todos os dias e, quem sabe, ajudar meu irmão que usa drogas." Outro índice considerado pela pesquisa da FBSP é a empregabilidade. Cortada pelas BRs 381 e 459, Pouso Alegre tem atraído grandes investimentos. Nos últimos quatro anos, foram criadas 10 mil vagas. Para este ano, a projeção é de um PIB de R$ 8 bilhões, 173% a mais que os R$ 3 bilhões de 2010. O segurança Wanderson Klaiton, 30, veio do Norte de Minas para trabalhar. "Além de ter emprego, é muito bom morar aqui, você não vê tantos problemas de violência."
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Percepção. As pessoas ouvidas pela reportagem disseram que se sentem seguras na cidade. Algumas contaram que a falta de opções de vida noturna agitada ajuda a deixar o município ainda mais tranquilo. "Quem quer balada, sai da cidade. Aqui há mais bares", disse o gerente Lauir Ferreira, 29.
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Fonte: O Tempo (MG)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Crimes violentos têm alta de 16% na região metropolitana

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A força-tarefa lançada há quase um ano pelo governo do Estado para conter a epidemia de violência em Minas ainda não conseguiu reduzir o número de vítimas. Só na região metropolitana de Belo Horizonte, que abrange 41 cidades, o índice de crimes violentos subiu 16,3% em janeiro deste ano, na comparação com o mesmo período de 2012. Os dados são da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds).
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Foram 3.957 ocorrências no mês passado, contra 3.401 no janeiro anterior. Como consequência dos crimes, 160 pessoas morreram assassinadas na capital e seus arredores nos últimos 30 dias, uma média de cinco óbitos por dia. No mesmo período de 2012, foram 159 ocorrências de homicídio - na época, a Seds não divulgava o número de vítimas.
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Mau exemplo. Entre as cidades com os piores índices da região está Contagem, que apresenta um dos mais significantes aumentos de violência. O número de homicídios cresceu 41%, e o de crimes violentos em geral, 39,7%. Já os casos de roubo e extorsão mediante sequestro tiveram um crescimento mais elevado (43%), passando de 504 registros em 2012 para 721 neste ano.
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A média é de 23 assaltos ou extorsões por dia na cidade, alguns deles resultando em morte, como ocorreu com Guilherme Monteiro de Jesus, 19, na noite de domingo. Ele foi assassinado com um tiro na cabeça, no bairro Cidade Industrial, em Contagem. Segundo a Polícia Militar, o jovem acelerou o Palio que conduzia ao ser abordado por três homens. A suspeita é de que ele tenha reagido a uma tentativa de assalto.
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O chefe da Seção de Planejamento e Operações da 2ª Região Integrada de Segurança Pública (Risp) da PM, major Carlos da Costa, afirmou que o combate aos crimes em Contagem é dificultado pelo fato de eles não estarem concentrados em bairros específicos. "Essa é uma característica do tráfico no município, ele é pulverizado. As quadrilhas estão migrando constantemente", disse.
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A PM não informou o efetivo da região metropolitana, nem se há perspectiva de ampliação da equipe. Segundo o major, os policiais têm intensificado a presença nas ruas, como forma de intimidar os bandidos. "Já a prisão é mais difícil, precisa de trabalho de inteligência da polícia e mandado de prisão da Justiça, o que leva tempo", argumentou.  O titular da Seds, Rômulo Ferraz, foi procurado, mas, segundo sua assessoria de imprensa, ele não tinha horário na agenda para entrevistas. (Com José Vitor Camilo/Especial para O TEMPO)
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Estatística - Estado passa a divulgar o número de vítimas
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A Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) corrigiu, a partir de janeiro, o que, segundo especialistas em segurança pública, era uma maneira de "jogar para baixo o índice de violência" em Minas. Ao invés de divulgar apenas o número de ocorrências de assassinato, passou a divulgar o de vítimas, o que já acontece em outros Estados, como São Paulo. Antes, por exemplo, uma chacina, com cinco mortes, era contabilizada apenas como um homicídio.
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No mês passado, 364 pessoas morreram vítimas de violência no Estado, segundo o relatório da Seds. Já os registros de homicídio totalizaram 355. O número de vítimas também é maior que o de ocorrências na região metropolitana, que registrou 160 vítimas contra 155 notificações do crime.
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"O número de vítimas é um dado que facilita a compreensão do público sobre a criminalidade em sua cidade. O Estado tem o dever de divulgá-lo para a população", afirmou o especialista em segurança pública Robson Sávio.
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Segundo o sociólogo, quanto mais detalhamento estatístico houver, com discriminação inclusive da idade das vítimas e do local do crime, melhor será a análise para a elaboração de ações de prevenção. "Não basta divulgar dados, é preciso estudá-los para elaborar estratégias". (LC)
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Fonte: O Tempo (MG)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Um pesadelo paulistano

por Guaracy Mingardi*
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No dia 4 de janeiro, às 23 horas, três veículos pararam em frente a um bar no bairro do Campo Limpo. Vários homens desceram dos carros, gritaram “polícia” e começaram a atirar. Cinco pessoas morreram no local e duas mais tarde. Foi a primeira chacina do ano em São Paulo, e reforçou a tendência do ano anterior, quando a periferia paulista viu o retorno de um pesadelo que todos imaginavam ter acabado.
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Foto: Libertinus
Foto: Libertinus
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Muito comuns nos anos 90, os homicídios com mais de duas vítimas, ou chacinas, declinaram consideravelmente na década passada. A redução seguiu a dos homicídios em geral, que foram de 52 mortes por 100 mil habitantes em 1999 para nove casos por 100 mil em 2011. E uma parte dessa queda foi produto do trabalho feito no DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa), que criou uma delegacia especializada de investigação de chacinas. Essa unidade mostrou alta produtividade, solucionando muitos casos, e contribuiu para tornar esse crime quase extinto na capital paulista. No ano passado, porém, os crimes de grupos de extermínio e as chacinas voltaram. Foram 14 homicídios múltiplos na capital e, segundo a imprensa, apenas um caso foi resolvido até agora. Um número muito baixo para o departamento que foi, durante muitos anos, referência nacional.
Existem duas explicações possíveis para essa baixa produtividade:
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- A qualidade do serviço do DHPP caiu muito
- Os crimes foram cometidos por pessoal muito profissionalizado
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A primeira hipótese é realista. A qualidade da investigação da Polícia Civil de São Paulo está cada dia mais comprometida. Existem menos investigadores de fato na polícia, enquanto que o número de burocratas cresce ano após ano. Uma das causas disso é a burocratização que transformou a PC em uma fábrica de Boletins de Ocorrência e de Inquéritos Policiais formalmente corretos, mas que não elucidam nada. O zelo burocrático começou a tomar conta da polícia ha mais de vinte anos e substituiu a capacidade investigativa por habilidade cartorária. Para alguns delegados sem vocação, o importante é manter a papelada em ordem, não identificar e prender criminosos.
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E o reflexo dessa postura, que começou nos distritos policiais, acabou por chegar ao DHPP, tornando o inquérito uma peça absolutamente formal e a investigação algo secundário. A segunda hipótese também tem certa dose de realidade. Não há dívida de que as chacinas do ano passado são mais profissionais do que as da década de 90. Naquele período cerca da metade era praticada por pequenos e médios traficantes disputando pontos de droga ou devido a acerto de contas entre criminosos comuns. Muitas delas eram decididas em cima da hora, sem qualquer preparação e os assassinos tinham pouco apoio, retaguarda. As mortes mais profissionalizadas ocorriam quando os contratados para as mortes eram policiais ou ex-policiais, muitos dos quais suspeitos de inúmeras execuções.
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Hoje a situação é outra. O tráfico está mais ou menos domesticado, não pela polícia, mas pelo PCC (Primeiro Comando da Capital). O número de disputas por pontos de droga caiu muito, o que ajudou a diminuir os casos de homicídios múltiplos.
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A principal motivação desse tipo de crime, que voltou a partir de meados do ano passado, foi represália. Não só por motivos pessoais, mas quase que uma retaliação institucional. Alguns dos mortos são usuários de drogas, pequenos criminosos, que estariam pagando o pato pelas mortes de policiais praticadas a mando do PCC, nas quais eles não tiveram nenhuma participação.
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Nos crimes recentes a morte chega de moto ou carro, dizendo ser da polícia, e atira em todos os presentes. Normalmente, como acontecia no passado, a vítima visada é apenas uma, mas os assassinos não querem deixar testemunhas. Até ai o modus operandi não difere muito. Depois da morte é que as coisas mudam. São frequentes notícias de pessoas, muitas vezes policiais fardados, recolhendo cápsulas caídas pelo chão antes da chegada da perícia, na prática sumindo com possíveis provas contra os autores.
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Outro indício forte da participação de membros da máquina policial nas mortes é que em alguns casos os antecedentes criminais das vítimas tinham sido consultados antes dos homicídios. Ou seja, alguém com acesso ao banco de dados da polícia, buscava informações sobre a futura vítima. Portanto não é difícil inferir que nas chacinas recentes existe envolvimento de pessoas ligadas ao aparelho policial e que aumentou o profissionalismo dos executores. As duas conclusões mostram que a investigação desses homicídios ficou mais difícil. São crimes cometidos por pessoas que entendem do assunto e sabem disfarçar os rastros. Além disso, podem obter informações sobre o desenrolar das investigações que um outsider não teria acesso.
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Seja pelos motivos apontados ou não, o fato é que o DHPP está devendo resultados. E para isso precisa reformular seus quadros e métodos. Há poucos dias a chefia do departamento foi para uma delegada, Elisabeth Sato, que tem essa missão. E é bom que consiga realizá-la, já que ninguém quer a volta dos tempos em que moradores do Campo Limpo encontravam cadáveres na segunda pela manhã, quando iam para o trabalho.
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* é cientista político, mestre pela Unicamp e doutor pela USP. Pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança pública.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A imprensa como protagonista na crise da segurança pública

Por Carlos Castilho
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A imprensa brasileira, e em especial a paulista, está perdendo uma oportunidade de ouro para criar uma nova relação com seus leitores, ouvintes e espectadores ao não entrar de cabeça na investigação do que está por trás da guerra entre crime organizado e polícia.
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Este talvez possa ser considerado o principal problema político do momento porque está afetando as bases da convivência social em metrópoles brasileiras, muito mais do que o próprio mensalão.
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A omissão dos governantes e encarregados da segurança pública deixou a população órfã e abre para a imprensa a possibilidade de oferecer informações capazes de dar à sociedade elementos para buscar soluções para a crise, com ou sem participação dos poderes estabelecidos.
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Foi justamente a falta de informações que gerou o ambiente favorável ao desenvolvimento das chamadas milícias e esquadrões da morte dentro dos órgãos de segurança. O silêncio e a tolerância das autoridades sobre as ilegalidades cometidas pela policia acabaram contagiando a própria imprensa, que também cedeu ao medo de desafiar um esquema sinistro montado em nome da lei.
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Até agora havia um consenso entre imprensa e governo de que o avanço da violência urbana era apenas uma questão de repressão ao crime organizado. Hoje está mais do que claro que a policia faz parte deste contexto e que ela precisa ser depurada como condição prévia para que o combate à delinquência seja efetivo.
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O tema é muito delicado e os riscos são muitos, até mesmo para a segurança pessoal de governantes e jornalistas. Mas não temos mais escolhas. O problema é que os governos, o judiciário e o legislativo tendem a se enredar em questões processuais, conveniências políticas e egos, fatores que acabam retardando qualquer decisão ou iniciativa muito além dos prazos que a realidade da matança diária está impondo.
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A imprensa tem mais agilidade e capacidade de mobilização da opinião pública. O problema é que ela se especializou em cobrar soluções dos poderes estabelecidos, transferindo responsabilidades para não meter as mãos na pocilga da segurança publica. Agora ela pode, sim, fazer algo propositivo. Basta usar a sua experiência investigativa para identificar responsáveis, levantar dados, localizar conflitos de interesses e, principalmente, mostrar como a população pode participar da busca de soluções.
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Com informação, a sociedade tem meios para agir. A mobilização dos grupos sociais deixa de ser apenas uma questão política para ser um problema vital, em se tratando de um problema em que a sobrevivência física das pessoas está ameaçada por uma guerra declarada entre bandidos uniformizados e não uniformizados.
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A imprensa não precisa de autorização oficial para investigar o submundo da segurança pública, em São Paulo e noutros estados onde o problema existe mas ainda não é tão grave. Há toda uma área de jornalismo investigativo que poderia ganhar uma real relevância social num momento em que os moradores de São Paulo estão assustados e desorientados.
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As grandes metrópoles e capitais brasileiras convivem há pelos menos 40 anos com o aumento da violência criminal. Em todo esse tempo a única estratégia usada era a da repressão, quando qualquer estudioso da segurança pública sabe que a principal arma da polícia contra o crime organizado é a informação. Na força bruta ela tende a perder sempre porque não pode estar em todos os lugares e, consequentemente, atrai críticas da população.
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Na hora em que a polícia perdeu o rumo por falta de orientação clara, com exceção talvez do Rio de Janeiro, os soldados e agentes não tiveram outra alternativa senão partir para o olho por olho — já não mais pensando na sociedade, mas na própria pele. Descobriram também que o poder de intimidação poderia ser usado em benefício próprio, de forma muito superior ao soldo recebido da corporação.
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Infelizmente chegamos ao ponto onde as últimas esperanças da população acabam sendo depositadas na imprensa. Ela não vai resolver diretamente o problema das matanças em cidades como São Paulo, mas pode fornecer dados para que a população saia do estado de choque provocado pela ausência de informações e tome iniciativas para, pelo menos, atenuar a crise da segurança pública no país.
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Fonte: Observatório da imprensa

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A violência contra jovens negros no Brasil

 
por Paulo Ramos
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A cada nova divulgação dos dados sobre homicídios no Brasil a mesma informação é dada: morrem por homicídio, proporcionalmente, mais jovens negros do que jovens brancos no país. Além disso, vem se confirmando que a tendência é um crescimento desta desigualdade nas mortes por homicídios.
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Foto: Luliexperiment/Flickr
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O diagnóstico produzido pelo Governo Federal apresentado ao Conselho Nacional de Juventude – CONJUVE mostra vetores importantes desta realidade, para além dos socioeconômicos: a condição geracional e a condição racial dos vitimizados.Em 2010, morreram no Brasil 49.932 pessoas vítimas de homicídio, ou seja, 26,2 a cada 100 mil habitantes. 70,6% das vítimas eram negras. Em 2010, 26.854 jovens entre 15 e 29 foram vítimas de homicídio, ou seja, 53,5% do total; 74,6% dos jovens assassinados eram negros e 91,3% das vítimas de homicídio eram do sexo masculino. Já as vítimas jovens (ente 15 e 29 anos) correspondem a 53% do total e a diferença entre jovens brancos e negros salta de 4.807 para 12.190 homicídios, entre 2000 e 2009. Os dados foram recolhidos do DataSUS/Ministério da Saúde e do Mapa da Violência 2011.
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Podemos dizer que este tema entrou na cena pública, quando, em 2007, o Fórum Nacional da Juventude Negra – FONAJUNE lançou a campanha nacional “Contra o Genocídio da Juventude Negra”. Em 2008, foi realizada a 1ª. Conferência Nacional de Políticas Públicas de Juventude, e das 22 prioridades eleitas nesta CNPPJ, a proposta mais votada foi a indicada pela juventude negra que tematizava justamente os homicídios de jovens negros.
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Depois de passar CONJUVE, o tema foiabsorvido pelo Executivo, no final de 2010, através da Secretaria de Políticas de Igualdade Racial – SEPPIR, com a realização de uma oficina chamada “Combate à mortalidade da juventude negra”.Com a sucessão presidencial, a pauta – deixada de lado pela SEPPIR, em 2011 – foi reincorporada pela Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), ligada à Secretaria Geral da Presidência da República-SG/PR, em meados de 2011. A SNJ sugeriu que o Fórum Direitos e Cidadania (coordenado pela SG/PR), que reúne os principais ministérios ligados ao tema, tomasse para si a questão. Foi o que aconteceu, a partir da criação de uma Sala de Situação da Juventude Negra dentro do Fórum. A partir daí desencadeou-se uma agenda nos moldes participativos para o desenvolvimento de propostas que agissem pela redução da violência contra a juventude negra.
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Problema velho, soluções inovadoras
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Esta pauta, de início, podemos sugerir que possui um caráter especialmente participativo. Pois inicia-se com uma Conferência de participação social e passa a ser discutido pelo Conjuve. Depois, quando chega ao executivo, mantém este formato de discussão. O problema a ser enfrentado é bem complexo. Até hoje algumas iniciativas que dialogam com este público de juventude negra. Entretanto, existe uma dissonância entre elementos fundamentais para o êxito de uma ação que vise combater os homicídios de jovens negros. Para estas políticas, quando há orçamento, não há reconhecimento de diferenças; quando o projeto aborda a juventude negra, não há recursos. E quando há reconhecimento com recursos, não existe foco nos jovens mais vulneráveis.
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Assim, esta agenda deve ser trabalhada pelo poder público a partir de duas concepções distintas de políticas públicas e a partir de uma noção convergente de direitos, pois o direito à vida de certa juventude (a juventude negra) e elaborada a partir do reconhecimento de diferenças. Mas que o Estado Brasileiro através de seus quadros burocráticos, muitas vezes reluta em fazê-lo.
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Uma delas a chamada transversalidade, que defende que as políticas públicas devem ser caracterizadas pelas dimensões que se pretendem reconhecer (racialmente, por gênero etc.). A outra maneira pela qual as políticas setoriais vêm sendo tratadas é pela ação afirmativa. Esta defende que é preciso criar políticas emergenciais, combinas às estruturantes para públicos específicos (negros, jovens, mulheres).
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As políticas chamadas transversais carregam consigo um dilema sobre a sua autoria. Se elas devem estar em todos os campos da ação pública, quem tem o dever de realizá-las? De quem é a responsabilidade de resolver o problema dos homicídios dos jovens negros no interior de um governo? A Secretaria Nacional de Juventude, A Secretaria de Políticas de Igualdade Racial? A Secretaria de Segurança Pública?
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Mas o outro lado deste assunto é que ele mostra que ações relacionadas a este tema podem partir de outros atores que não apenas o Ministério da Justiça e que o tema dos homicídios é apropriado por outros setores da sociedade e do Estado que não são os tradicionalmente ligados ao tema.
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Entretanto, antes que um ou outro ministério assuma esta tarefa, é necessário ultrapassar uma barreira que muito se vê Brasil a fora: deve-se fincar as ações de promoção de direitos e tratar o seu público “alvo” desta vez como sujeito de direitos e não como “jovens problemas”. Isso é uma tendência que os setores organizados da sociedade civil vêm defendendo, há anos, e que agora devem chegar às políticas que ligam juventude à violência. Do que decorrerá outro ponto inovador: os jovens são tratados com vítimas e não mais como os vitimizadores.
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Acredito ser este um bom exemplo de como a participação social e a abertura do processo de elaboração política para diversos setores da sociedade apontam para a criação de políticas que atendam ao reconhecimento e promoção de novos direitos, com o surgimento de novos arranjos institucionais. Ainda que os problemas sejam tão antigos.
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Paulo Ramos, 31, é especialista em análise política pela UnB e mestrando em sociologia pela Universidade Federal de São Carlos. Foi consultor da UNESCO e da Fundação Perseu Abramo para o tema das relações raciais e de juventude.
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sábado, 19 de maio de 2012

Política Pública

A raiz dos nossos problemas de segurança

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Por LUIZ EDUARDO SOARES e RICARDO BALESTRERI
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“Algo está errado: temos a 3ª população carcerária, e só 8% dos homicídios esclarecidos. Um dos erros foi reproduzir o modelo do Exército na polícia.”
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A situação da segurança pública no país permanece grave, a despeito de respeitáveis esforços pontuais. Aconteceram avanços regionais, mas o resultado nacional segue inalterado, pois os problemas se disseminaram para o interior e a insegurança cresceu em algumas regiões.
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Os cerca de 50 mil homicídios dolosos por ano tornam o Brasil o segundo país mais violento do mundo em números absolutos. Apenas 8% desses casos são esclarecidos -ou seja, 92% ficam impunes. A brutalidade de segmentos da polícia bate recordes. Por outro lado, temos a terceira população carcerária do mundo e a que cresce mais rápido, pois prendemos muito e mal.
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Na outra ponta, policiais não são valorizados. Em geral, os salários são insuficientes. As condições de trabalho, inadequadas. A consequência é a adesão ilegal ao segundo emprego na segurança privada informal.
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Para evitar o colapso do orçamento público, as autoridades se calam. Preferem conviver com a ilegalidade na base do sistema. Resultado: os turnos de trabalho irracionais não podem ser ajustados; a dupla lealdade obsta a execução das rotinas; a disciplina interna é contaminada pela vinculação com o ilícito; e a impunidade estimula a formação de grupos de interesse cuja expressão extrema são as milícias.
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Na raiz dos problemas, está a arquitetura institucional da segurança pública legada pela ditadura, que encontrou abrigo na Constituição.
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O artigo 144 atribui grande responsabilidade aos Estados e às suas polícias, cujo ciclo de trabalho é, irracionalmente, dividido entre militares e civis. Ele confere papel apenas coadjuvante à União e esquece os municípios, na contramão do que ocorre com as demais políticas públicas -enquanto isso, as guardas municipais estão em um limbo legal.
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As PMs são definidas como força reserva do Exército e forçadas a adotar um modelo organizacional concebido à sua imagem e semelhança.
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Ora, sabemos que a boa forma de uma organização é aquela que melhor serve ao cumprimento de suas funções. Pois a missão das polícias no Estado de Direito é muito diferente daquela conferida ao Exército.
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O dever das polícias é prover segurança aos cidadãos, garantindo o cumprimento da lei -ou seja, protegendo seus direitos e liberdades contra eventuais transgressões.
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O funcionamento usual das instituições policiais, com presença fardada e ostensiva nas ruas, cujos propósitos são sobretudo preventivos, requer, dados a variedade e o dinamismo dos problemas, alguns atributos que hoje estão excluídos pela rigidez da organização.
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Exemplos: descentralização, flexibilidade no processo decisório (nos limites da legalidade), respeito aos direitos humanos e aos princípios internacionais que regem o uso comedido da força, adaptação às especificidades locais, capacidade de interlocução, mediação e diagnóstico, liberdade para adoção de iniciativas que mobilizem outros segmentos da corporação e até mesmo outros setores governamentais.
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Idealmente, o policial na esquina é um microgestor da segurança em escala territorial limitada, com ampla comunicação com outras unidades e outras instituições públicas.
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Assim, consideramos inadiável a inclusão da reforma institucional da segurança pública na agenda política, em nome, sobretudo, da vida, mais do que partidos e eleições.
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LUIZ EDUARDO SOARES, 58, é antropólogo.
RICARDO BALESTRERI, 53, é educador especializado em direitos humanos. Ambos foram secretários nacionais de Segurança Pública no governo Lula (2005 e 2008-2010, respectivamente).

sábado, 28 de abril de 2012



A (in)segurança pública

Lúcio Alves de Barros*

No mês de abril tivemos mais mudanças na secretaria de defesa social. Uns sumiram, outros caíram para cima e outros foram para baixo. Independentemente do quadro de funcionários os desafios continuam os mesmos, os atores mais ou menos os mesmos e os obstáculos mais firmes do que nunca.

Em primeiro pode-se esperar a famosa briga das Polícias Militar e Civil. A integração da gestão das polícias se não é uma falácia é pelo menos um momento de encontro que não deixa de ter importância. O problema é como levar a efeito as ações após, durante e no retorno das famigeradas metas. As metas acordadas para dias e meses não deixam de causar mal-estar aos comandantes e delegados, afinal nem eles sabem muito bem o que cada polícia tem a fazer. A questão é tão séria que a PMMG tem feito o trabalho antes somente da Polícia Civil e esta tem tentado correr atrás atuando até ostensivamente. Um caos.

Em segundo, é importante que a organizações sejam amparadas por informações fidedignas, trabalhadas e bem analisadas. A onda de homicídios e o aumento da criminalidade violenta no início do ano mostraram o quanto as agências policiais estavam engatinhando no que os administradores de polícia gostam de chamar de combate à criminalidade. O problema chegou à mídia e atingiu o legislativo, especialmente alguns deputados preocupados com a segurança pública. Estes denunciaram a maquiagem das informações e colocaram em xeque os dados dos últimos 10 anos. A mudança de nomes e cargos aparentemente revelou que alguns componentes do governo estavam andando para trás e que, de uma forma ou de outra, perderam o rumo, o controle, a autoridade e a legitimidade. Policiais não suportam pessoas que não carregam alguma autoridade ou que não comungam certas peculiaridades da subcultura policial. De todo modo, não deve ser fácil sentar em frente a órgãos diferentes e fazer com que um casal já em divórcio litigioso volte a se beijar.

Por último, a nova cúpula da segurança pública em Minas Gerais terá que enfrentar o significativo corte de verbas para projetos de prevenção. O governo federal acabou por não enviar importantes montantes para o programa “Fica Vivo” (em 2011 o projeto recebeu R$ 11,5 milhões, contra R$ 13,6 milhões em 2010) e para o GEPAR (Grupo Especializado de Policiamento em Áreas de Risco), o qual amargou um corte de R$ 200 mil entre 2010 e 2011. Na verdade, nem sei se os operadores da segurança precisam realmente delas: os salários dos policias em comparação a outras categorias do estado estão razoáveis, a PMMG, em comparação a outras corporações do País está bem equipada e o governo já despejou um bom montante de verbas em planos de segurança que caminharam o quanto puderam. Alguns estão fracassando, mas nada que não mereça um maior fôlego e outras oportunidades. Mas um fato ainda continua verdadeiro: a Polícia Civil continua na mesma. A PMMG foi favorecida no cenário da segurança em Minas e a Polícia Civil vem caminhando lenta e sem maiores mudanças no fazer policiamento. Não deve ser por acaso que vira e mexe eles entram em crise com a PM como se esta fosse a culpada das mazelas da segurança no Estado. Claro que não. A questão é política e tanto a Polícia Militar como a Polícia Civil tem o seu valor e lugar obrigatório no cenário da segurança pública. O necessário é que tanto as autoridades como os administradores de polícia tenham a certeza disso.

*Doutor em Ciências Humanas e professor na FAE (BH) UEMG.

domingo, 5 de junho de 2011

Bombeiros sem fogo e com fogo “amigo”

Foto de Fernando Guimarães - Agência Globo


Lúcio Alves de Barros*

Vejo em tempo real o momento no qual terminou o movimento dos Bombeiros Militares no Estado do Rio de Janeiro. A história sempre se repete com corpos ou sem corpos, mas sempre com muita humilhação e sofrimento. O banal do episódio é a simplicidade da causa: o direito inquestionável de melhores condições de trabalho e com elas um tímido aumento de salário. Os bombeiros militares do Rio de Janeiro no começo da noite de sexta-feira saíram às ruas em mobilização e já no batalhão central resolveram tomar o órgão público iniciando o começo da repressão e das reuniões das autoridades para barrar o grande contingente mobilizado no interior e fora do quartel.

Os bombeiros teriam “invadido” - por volta das 19h30 da noite - o local no qual eles mesmos têm como templo e símbolo de pertencimento. Até o momento no qual escrevo estas linhas eles se encontravam presos e sob vigilância. Um bom número deles ainda se encontrava nas imediações do quartel aos gritos de desespero e resignação. Os “perigosos” manifestantes, que são de quartéis de todo o estado, usaram apitos e afixaram faixas no pátio e nas imediações próximas do batalhão. O cuidado aqui é com as palavras e as metáforas utilizadas pela mídia, como a “invasão militar”, a “guerra nas ruas”, os “confrontos” e “posicionamentos estratégicos”. Quem assiste as tristes imagens, se não acompanha a história de nosso estado repressor, pensará na existência de uma “nova guerra”, pois todos estão contra todos. Todos funcionários do Estado que recebem as mesmas ordens, seguem mais ou menos os mesmos códigos e regras e possuem - em grande medida - a mesma subcultura e, aos olhos da população, fazem parte da força ostensiva do Estado.

De todo modo a manifestação, como tudo na vida, não saiu do nada. Desde o mês de abril os bombeiros já haviam se mobilizado em ruas da cidade exigindo alguns direitos. Direitos elementares a meu ver que, de acordo com a mídia histriônica e claramente associada ao governo, tem por nome um conjunto de reivindicações cristalizadas no clichê “Dignidade já”. Estas, como de costume, são de aumento salarial tendo como piso R$ 2 mil líquido, haja vista que os bombeiros recebem R$ 950. Obviamente, os bombeiros pedem melhores condições de trabalho e por mais simples que possa parecer, o recebimento de vale-transporte.

Como é da política do governador Sérgio Cabral, logo foi acionado o famigerado BOPE, o qual tratou de resolver a questão da “melhor” maneira possível. Entraram na casa que possivelmente não lhes eram estranha, tocaram em bom som “a casa caiu”, lançaram bombas de gás lacrimogênio e efeito moral e alguns tiros de festim e de verdade foram jogados para cima, para baixo, para os lados e tudo mais. “O governador manda, o Bope faz”, é o lema que vimos no “Tropa de elite” ao vivo e a cores. As imagens e as informações são tristes, desoladoras, vergonhosas. Um conflito entre iguais, um conflito entre oprimidos e vítimas de um estado de arte que tem apostado na repressão e na violência como tática de segurança pública. Passou longe qualquer possibilidade de direitos humanos ou mesmo uma negociação séria e possível de acordo a priori. A tentativa, infelizmente muito tarde, resultou na invasão do batalhão, com portões quebrados e agressão a superiores. O fato tornou-se sério e o desequilíbrio de ambas as partes tornou-se norma.

É preciso perguntar a que ponto chegamos com forças coercitivas do estado se debatendo e se humilhando em rede nacional. Mais de 600 bombeiros militares foram presos, outros, inclusive mulheres e crianças ficaram como alvos no interior do quartel com as bombas e a possibilidade do uso da força física e letal do BOPE. Não é preciso muito para dizer que trata-se de uma ação de “segurança pública” contra o inimigo que, paradoxalmente, era amigo.

Essa é a “nova” e “velha” cara da política de segurança pública que tem como caixa de ressonância o Estado do Rio de Janeiro: a identificação e a busca do inimigo. Identificado o alvo, passa-se para uma negociação e identificação de inimigos políticos. Após a desculpa já formalizada - sempre no campo normativo da lei da justiça militar - chama-se a tropa de choque, o exército privado do governador denominado BOPE. Em seguida, ele vai em rede nacional e criminaliza os que antes eram cartão postal do Rio de Janeiro em tempos de chuva e calamidades públicas. A questão é simples: é possível reprimir brutalmente homens que fazem parte do próprio estado penal, sem falar do uso maquiavélico da mídia que corrobora e dá vida ao espetáculo tão necessário para culpabilizar as vítimas e fazer valer a legitimidade da ação que poderia ser evitada.

O movimento não deixa de lembrar as mobilizações por melhores condições de trabalho em Minas Gerais que resultou na lamentável morte do cabo Valério da polícia militar, após o confronto entre as forças do próprio estado. A história é mais ou menos a mesma, talvez o problema dos bombeiros militares foi o de acreditar que estariam em cuidado e em segurança no interior de um batalhão no qual literalmente foram encarcerados em uma quadra cercada por arames tal como um campo de concentração. Lembrou-me as imagens dos recalcitrantes no campo de futebol após o massacre do Carandiru.

A mobilização dos bombeiros militares ainda não chegou ao fim. Os mais ou menos 600 bombeiros presos foram levados para a corregedoria da polícia militar na cidade de São Gonçalo. Quatorze ônibus entupidos de bombeiros seguiram em comboio. Na saída do quartel, as câmeras - que serão utilizadas contra os próprios bombeiros - mostraram homens dependurados nas janelas, gritando aos companheiros, fortes na mobilização, mas impotentes diante da força repressora. Teimo em dizer que o desfecho não será dos melhores. O governador vai dar uma entrevista coletiva com base nos códigos militares, assessores vão procurar os inimigos produzidos nas últimas horas e as providências com base em processos de exclusão e punição vão encontrar alguns desavisados e acabou a história.

De tudo isso, é preciso entender a mensagem governamental em relação às mobilizações daqueles responsáveis pela segurança social no estado. Uma mensagem clara: contra o direito de mobilização o governo utilizará a lei e a ordem. Uma velha estratégia de segurança oriunda das práticas mais medievais que, guardadas as devidas proporções, temos repetido nas constantes políticas de segurança que teimam em unificar as polícias, criar programas revestidos de democracia e identificar inimigos potentes e passíveis de criminalização ao sabor da política do momento.

O que certamente não se esperava neste cenário é a abertura e a politização dos atores responsáveis pela força ostensiva e pelo monopólio da violência do estado. O SOS humano, seres humanos de joelhos, feito pelos bombeiros militares em pleno campo da corregedoria da polícia militar é um ato simbólico chocante deste movimento que marcará a história da corporação. Mais do que antes vamos ver tais episódios se repetirem. Há pouco tempo a polícia civil e militar em Minas Gerais encenaram uma greve. O mesmo foi visto no Rio Grande do Norte. Em tempos de unificação de polícias nas mesmas academias, vale pensar se é bom para nós e para eles juntarem no mesmo local e instituição corporações que antes se controlavam e agora podem, em futuro próximo, organizarem e se reunirem, inclusive, não somente para reivindicar melhores condições de trabalho, mas também para fundarem associações, sindicatos e até partidos políticos. A polícia e a política do futuro nos mostrarão muitos equívocos que estão sendo apregoadas como verdades e saídas para um estado que tem resumido as questões de segurança pública em casos de polícia deixando em segundo plano a educação, a saúde e o fortalecimento de instituições civis que fazem na realidade os alicerces do que se entende por democracia.

* Professor e sociólogo. Doutor em sociologia pela UFMG
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Da boa e velha "saidinha de banco"

Lúcio Alves de Barros

O problema se arrasta há um bom tempo e pelo andar da carruagem ainda está longe da solução. Vai fazer um ano (Circuito Notícias, n° 197, julho de 2010) que destaquei em um pequeno artigo o problema da “saidinha de banco”: um fenômeno hodierno que, carinhosamente apelidado pela polícia, tem resultado em casos dramáticos e cruéis de homicídio e sequestro. Neste momento, em plena tarde ensolarada vejo pela TV, num destes programas sensacionalistas, um sujeito saindo da moto e correndo rumo a duas pessoas que acabaram de sair do banco. O meliante, com arma na mão desce afoito da moto e, por fortuna das vítimas, por pouco não consegue abocanhar os rapazes que chegavam em casa. O momento foi acompanhado e gravado pelas câmeras domésticas e, de acordo com o histriônico repórter, a polícia está quase o identificando.

Não é preciso ir longe para perceber que os recalcitrantes andam aperfeiçoando as técnicas da famosa “saidinha de banco” e, de quebra, não estão de “olho vivo” somente nos idosos de outrora, mas até em jovens e pessoas que labutam no interior das agências bancárias. Não vou cair no conto do vigário e na ladainha de pedir mais policiamento, mas é no mínimo questionável a ação das autoridades que tem visto esse fenômeno a desenvolver. Até o momento uma lei está por ser regulamentada na tentativa de culpar o celular que pode ser o gatilho armado no interior dos bancos. Todavia, uma criança de oito anos já sabe que é preciso somente uma mão no bolso para apertar uma tecla e enviar uma mensagem para o comparsa, ávido de clientes, que está lá fora à espera em uma moto e/ou em um automóvel.

Para se ter a ideia da dimensão do problema: neste exato momento, no qual leio o jornal (Hoje em Dia, 27/01/2011) a polícia já havia registrado 922 ocorrências em 11 meses. Não vou nem me referir à famigerada “cifra negra”, a qual diz respeito às vítimas que, por diversos motivos, não acionaram a polícia. Mas o fato é preocupante e merece maior cuidado. Não é por força do acaso que o fenômeno da “saidinha” tem tomado as manchetes dos jornais, os programas sensacionalistas da TV e a Internet. É óbvio que, passado o cansativo mês de dezembro e o início do ano, tempos de gastos ostensivos e sem lugar, qualquer meliante por mais burro que seja está à procura do que os economistas chamam de capitalização. Penso até que a coisa vai ficar mais feia porque o carnaval tem início somente em março e é neste mês que os picos da criminalidade ficam mais assanhados.

Tenho ciência que a Polícia Civil e a Polícia Militar sabem do que estou falando, mas não escrevo para eles. O senso comum, infelizmente, é incapaz de ter a mínima noção de como funciona o fenômeno da criminalidade. Também sei muito pouco: falo mais do ponto de vista da vítima. De toda forma é um fato: a “saidinha de banco” ficou tão popular que até uma garota universitária, de 20 anos, considerada da classe média, andou treinando a sua com o namorado motoboy, de 27 anos. Eles abordaram um vigilante e conseguiram levar a mochila e o seu dinheiro. O casal estava armado e não custa lembrar que foi numa destas que a “saidinha” levou à morte a economista Patrícia Martins Cardoso, de somente 48 anos, covardemente assassinada com um tiro nas costas na frente do pai. E, na esteira deste caso, vale lembrar que um detetive, há pouco tempo, também foi vítima e ficou sem os seus R$ 50 mil. Mais ou menos no mesmo período foi descoberto uma quadrilha que chefiava um “bando da saidinha” de dentro de uma penitenciária. Depois um senhor foi baleado pelas costas em um bairro conhecido em Belo Horizonte (o Barreiro). Episódios foram registrados na Pampulha, no Jaraguá, no Floresta e em plena Afonso Pena. Para não gastar muitas linhas, friso que “saidinhas” foram registradas em Contagem, Betim, Brumadinho e Ribeirão das Neves, local no qual um motoboy foi roubado em R$ 30 mil.

Creio que os dados, possivelmente já geoprocessados, devem estar pontuando toda a grande BH e, certamente, está difícil para a polícia identificar uma “zona quente de criminalidade” ou uma “zona sensível” como diz os estudiosos franceses. Explico melhor, muitas vezes os meliantes, craques neste delito, seguem a vítima e - por natureza - as pegam no caminho de casa ou do trabalho. Em outras palavras, o delito acompanha a vítima e o registro se dá longe da agência, enganando o estudioso e o estatístico de plantão. Este “crime em movimento”, complexo tal como o de roubo a ônibus, não deixa de trazer a incerteza, o medo e a insegurança. Seria bom que o fenômeno da “saidinha” se tornasse caro aos recalcitrantes, mas tudo indica que não. As motos e os automóveis podem ser roubados e, no geral eles não retiram o capacete e, por minutos, “fazem” a vítima.

É bem verdade que a polícia tem conseguido apreender um aqui e outro ali, mas já se fala que são em média três vítimas por dia de “saidinhas” em Belo Horizonte. Em tempos de polícia comunitária, câmeras de “olho vivo”, vizinhos e “bancos” protegidos, grande montante de policiais no centro da cidade, aumento salarial, viaturas em bom estado e policiais motivados e credenciados com cursos e mais cursos não é possível que inexista uma política eficiente, um “planejamento estratégico” - como gostam de dizer - e com inteligência para, pelo menos, buscar uma compreensão do fenômeno. Caso contrário, é possível esperar a banalização da lei proibindo o celular no interior das agências, novos aprendizados para burlar as investigações, a associação com outros crimes, notadamente o sequestro, pois como proceder com o criminoso que lhe confundiu e abordou achando que no seu bolso se encontrava mais do que ele esperava?

Infelizmente, o meliante quer, por definição e função, e não precisa ser criminólogo para entender isso, aumentar o benefício, diminuindo os riscos e os custos. O tempo é fator crucial. Sem a possibilidade de ganho imediato a vítima pode contar com a ajuda de Deus ou com os famosos conselhos: “nunca reaja”, “utilize somente o cartão”, “não ande com dinheiro”, “não faça movimentos bruscos”, “na dúvida, não faça” (provérbio judeu) e “entregue tudo, sua vida é o mais importante”. Não deixa de ser bons conselhos diante de um melhor: “não entre no banco” e, caso precise, vá com “seguranças privados” ou com muitos amigos que podem ajudar a enganar o ladrão, servir de testemunha ou mesmo para chamar a polícia.

* Sociólogo e professor da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais).

sábado, 11 de dezembro de 2010

DEPOIS DO LUTO A LUTA: em favor de uma pedagogia do cuidado


Lúcio Alves de Barros*

Não deixa de ser uma boa tentativa, as primeiras investidas do SINPRO-MG (Sindicato dos professores do Estado de Minas Gerais) em favor dos professores e contra a violência latente e manifesta nas escolas. Infelizmente, as propostas apareceram após o assassinato do mestre em educação física e professor Kássio Vinícius de Castro Gomes. Talvez elas até existissem, mas ainda não haviam chegado até nós. Mas nunca é tarde, visto que a violência nas escolas não é nova e a questão tornou-se séria desde a década de 80. Digo isso devido não somente à comoção oriunda da morte de nosso colega, mas das falas dos professores e professoras que ficaram para contar a história. E elas vieram de todas as formas: umas escutei, outras recebi por e-mail e várias delas recolhi nos intervalos, nas reuniões, nos periódicos e neste grande mundo virtual da internet.

A morte do professor causou mal-estar não somente entre alunos-professores, mas também entre alunos-alunos, professores-professores. Recebi mensagens pedindo "pena de morte ao aluno escroto", outras defendendo medidas repressoras e penalizáveis aos alunos agressores e aos professores que também, para muitos, carregam parcela de culpa. Não deixei de receber críticas e mais críticas às instituições de ensino particular, as quais são criticadas por receber "qualquer tipo de aluno". Muitas foram as lembranças de casos ocorridos em todo o Brasil. Assim veio à memória o caso da professora que teve braços e dentes quebrados em Porto Alegre (RS), da professora do ensino médio que foi atacada a chutes e pancadas na capital de Minas Gerais, da diretora agredida a pedradas em um colégio estadual de Florianópolis (SC), da diretora que apanhou de alunos e amigos dos alunos no meio da rua em Juiz de Fora (MG) e do caso recente do estudante universitário Lucas Zebral de Melo Albuquerque, aluno da FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura), em Belo Horizonte, que foi condenado por injúria contra um professor. Os relatos das testemunhas apontaram que ele dava "encontrões propositais", além de "insinuar", com "expressões chulas", que o docente seria homossexual.

De qualquer modo tentei resumir as narrativas em três blocos não excludentes e complementares. O primeiro bloco de narrativas tem por alicerce que a "a violência está não somente no nível superior". Os docentes contaram casos de professores que "apanharam feio de alunos", que foram "vítimas de agressões verbais", "furtos", "roubos", "carros quebrados", "carros arranhados" e "xingamentos". Apontaram como problema as políticas públicas voltadas à educação e "não acho que as coisas podem melhorar". A violência estaria pior na educação em nível médio e fundamental "onde a droga come solta" e "alunos e alunas só pensam em sexo, conversa e vadiagem". Um professor chegou mesmo a dizer "que não deixa a profissão porque não sabe fazer outra coisa, mas que tem dias que pensa em se matar porque não aguenta mais o descaso do Estado e a falta de interesse dos alunos". Uma docente, que já havia sido minha aluna, disse que certa feita não apanhou porque "o traficante perto da escola não deixou a mãe do aluno bater". Como se vê, e por falta de linhas não vou alongar por aqui, é possível perceber que a violência está presente não somente no nível superior, mas no ensino médio e fundamental e que, pela faixa-etária dos meus colegas não é tão nova assim.

O segundo grupo de narrativas chama atenção para a "gradação" do tipo de violência. Um deles disse: "no fundamental o aluno belisca, te joga lápis, água, faz piada e até te bate na perna. No ensino médio fura o pneu do seu carro, te chama na porrada, ameaça na internet e por aí vai e, no ensino superior, como a gente vê, a coisa já está é na facada mesmo". Embora tenha sido uma conversa emocionada a comparação colocou em tela o agressor que já estaria em maturação desde a infância. Ele cresce e se enche de hormônios na adolescência e se transforma em um predador após alguns períodos no "ensino superior". Longe dos exageros, a questão é séria e, como já disse, merece ser entendida como problema de segurança pública. Alunos tem andado armados em salas de aula: uma professora disse que "morre de medo de dois alunos que em sua sala só andam armados com a justificativa de serem policiais". Outra disse que já teve que "escutar calada os gritos de uma aluna que se gabava em pagar o seu salário". Aparentemente, e não por acaso, as mulheres são as maiores vítimas, pois das mensagens que recebi uma professora afirmou "que chora toda vez que um aluno a desrespeita e que não percebe isso nos professores que são homens". Também neste caminho encontrei a famosa pérola, ouvida várias vezes em meio aos policiais: "hoje eu disse para minha mulher que saio para trabalhar, mas não sei se eu volto". A frase, apesar de cômica no lugar no qual foi dita, não deixou de produzir algumas respostas como: "Eu já pensei nisso", "É! O trem ta feio", "Daqui há pouco é isso mesmo" e "Quero ganhar insalubridade e periculosidade". Em tais narrativas identifiquei professores medrosos, frágeis fisicamente, extremamente ternos e fleumáticos, o que justifica a fala da pequena e bela professora, já desencantada com o mundo da educação: "Eu estou com medo dos meus alunos".

O último grupo de narrativas apontou para a necessidade de que "alguma coisa deve ser feita". Os docentes que escutei com atenção disseram da importância da existência de "normas" e "regras claras no ensino", principalmente nas redes particulares, as quais "andam a vender diplomas como água em parada de sinal". Comentaram sobre alunos passando sem mérito e sem a possibilidade de aprovação. Assinalaram para a perda da autoridade e do respeito, justamente porque a ideologia do "PP - Pagou Passou" está valendo desde o momento em que o MEC abriu as portas para o ensino privado. Sem normas e fiscalização, os "alunos acham que são deuses" e "que pagam os salários dos professores porque na verdade são clientes" e não discentes ou profissionais em formação. Na realidade, as falas são conhecidas no meio dos denominados "trabalhadores da educação" e não tenho dúvidas que o MEC é co-responsável por essa situação. De todo modo, existe uma crença nascendo de que "as coisas vão melhorar", de que "a educação é a melhor saída para as sociedades" e que "episódios como o do mestre em educação física não podem se repetir". Aprendi que professores são esperançosos, generosos e sofrem com o sofrimento dos alunos. Um discurso foi quase unânime: "é preciso salvar a educação". A fala é interessante porque o docente que leciona em nível superior sabe que é do ensino médio que o seu trabalho depende e nada como melhorar a qualidade da educação dos seus "clientes".

Finalmente, gostaria de terminar deixando clara minha preocupação em relação aos professores que, embora passem pelos mesmos problemas e constrangimentos, tem tentado diminuir a gravidade dos fatos. Muitos deles são coordenadores, supervisores, diretores, orientadores, tutores, estão em cargos de chefia ou comungam com as ordens dos proprietários dos estabelecimentos escolares que não se preocupam com o corpo docente. Em geral, são executivos da educação que pouco sabem de didática, política pedagógica, planos de ensino ou sala de aula. Muitos jamais enfrentaram turmas de 40, 60 ou 80 alunos. É deste pessoal que tenho o maior receio, pois são eles que recebem as "reclamações", os e-mails ocultos, as cartas os abaixo-assinados e, em geral, levam para o campo pessoal assuntos que são pedagógicos e estão atrelados a uma determinada conjuntura e história. Como disse uma amiga, eles ajudam a plantar e cultivar a dúvida entre os professores, alunos e corpo dirigente. Praticamente produzem dois lados dicotômicos que aparentemente devem estar em constante conflito. Existem casos em que tais coordenadores operam como verdadeiros proprietários da instituição e não deixam de distribuir "queixas", "advertências" e "chamadas de atenção em plena reunião". Sinceramente, a diferença deste docente-coordenador para o aluno que decidiu matar o professor é somente a "arma". A morte social, a baixa estima, a síndrome de burnout e as várias moléstias que vem atacando o corpo docente é nada mais que o resultado de nossa falta de respeito com o outro, do direito inegociável do contraditório, da aceitação das limitações, da tolerância sempre viva e da construção de uma pedagogia do cuidado. Não custa lembrar que somos seres vulneráveis, frágeis, caminhando em tempos pós-modernos com certa dificuldade em um mundo carente de valores, utopias e sentidos de vida, com uma única certeza: "a vida é curta e a morte é certa".

* - é mestre em sociologia e doutor em Ciências Humanas pela UFMG. Professor na FAE (Faculdade de Educação) da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais).