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quinta-feira, 2 de maio de 2013

‘Para a classe média, o que prevalece é o capital cultural’

Por Nice de Paula - Publicado:
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Para Jessé Souza, a ideia de classe média ‘condensa os sonhos de ascensão social’
Foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo
.Para Jessé Souza, a ideia de classe média ‘condensa os
sonhos de ascensão social’ Marcelo Carnaval / Agência O Globo
RIO – Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza estuda classes sociais há 20 anos e defende o uso de critérios além da renda. Na sua opinião, fenômeno recente foi a ascensão de uma ‘nova classe trabalhadora precarizada’
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A sociedade brasileira é perversa?
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Sim, porque o nível de desigualdade é enorme. O banqueiro na Avenida Paulista ganhar 500 vezes mais do que a pessoa que limpa a sua sala não é normal. E nós convivemos com essa perversão de forma muito natural e ainda temos esse mito brasileiro de que somos muito gentis.
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O senhor discorda que exista uma nova classe média brasileira?
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Este conceito está inserido na cegueira de pensar que as classes sociais se reproduzem apenas no capital econômico, quando a parte mais importante não tem a ver com isso, mas com o capital cultural, com tudo aquilo que a gente incorpora desde a mais tenra idade.
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Quais são as classes sociais do Brasil?
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Basicamente, quatro. A alta, que tem capital econômico. Tem a classe média, que não é tão privilegiada quanto a alta, mas se apropria de um capital cultural valorizado, saber científico, pós-graduação, línguas estrangeiras, um conhecimento que tem valor econômico. Essas duas são as classes do privilégio. Para a classe alta, o mais importante é o capital econômico, embora o capital cultural tenha uma função. E, para a classe média, o que prevalece é o capital cultural, embora algum capital econômico também seja necessário.
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Quais são as classes “sem privilégios”?
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As classes populares não têm acesso privilegiado a capital econômico, nem cultural nem social, não vão ter acesso a pessoas importantes. Têm que trabalhar desde cedo, são batalhadores. É essa a nova classe trabalhadora precarizada (chamada pelos economistas de “nova classe média”). Ela foi incluída porque tem um lugar no mercado, tem renda, planos e consumo de longo prazo, mas isso não a torna classe média. A outra classe “sem privilégios” são os muito pobres, que não têm nem precondição para aprender, a quem chamamos de maneira provocativa de ralé. Para as classes média e alta, é bom que exista a ralé, porque assim podem desfrutar de serviços que a classe média europeia e americana já não têm, como alguém para fazer a comida, cuidar dos filhos. É a luta de classes invisível, tipicamente brasileira.
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Luta de classes?
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As classes do privilégio economizam um tempo importante para estudo ou para um trabalho mais rentável, enquanto a ralé limpa sua casa, faz sua comida. Luta de classe é uma classe roubar tempo de outra. Quando a empregada deixa o almoço do filho da patroa pronto para ele estudar inglês em vez de preparar sua própria comida, esse jovem ou criança está usando seu tempo para reproduzir seu capital cultural. E a empregada, usando seu tempo para repetir sua condição social.
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E por que haveria essa necessidade de inflar a classe média?
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Porque é bom ser classe média. Ela inclui a noção indivíduos que são livres, são consumidores, cidadãos. Condensa os sonhos de ascensão social. Pertencer à classe média tem um efeito de distinção, como comprar um carro bacana, uma casa bonita.
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O critério de renda não é importante?
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É preciso estar atento às outras condições que formam um ser humano. Por exemplo, toda pessoa precisa ter confiança em si mesma. O filho da classe média pode se dedicar só ao estudo, é preparado desde cedo para ser vencedor. O filho da ralé já chega na escola como perdedor e a escola não é solução para tudo. Na nossa pesquisa, o que vimos não é que não tinha escola, mas as pessoas diziam: “nós ficamos fitando o quadro negro horas e horas sem poder aprender”. Se as pessoas não receberem os estímulos anteriores, a escola sozinha não vai resolver.
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Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/para-classe-media-que-prevalece-o-capital-cultural-7914177#ixzz2S8wI4s9e
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A CLASSE MÉDIA E A ESCOLA PÚBLICA

por Fernando Martins - 27 out. 2010

Faz parte da natureza do ser humano cuidar do que é seu e deixar de lado aquilo que não lhe pertence. Pais dão atenção a seus filhos. Empresários, a seus negócios. Cada um de nós, a nossos problemas pessoais. Em princípio, não há nenhum mal nesse comportamento. Mas ele ajuda a entender um pouco por que a Educação pública brasileira há tanto tempo enfrenta uma crise de qualidade.

Existe uma tese de que a Escola pública deixou de ser boa a partir da década de 70, quando a classe média a abandonou para matricular seus filhos em colégios particulares. Como a Educação governamental não era mais “sua”, essas famílias – instruídas e com noção do que é um bom ensino – deixaram de cobrar qualidade do Estado.

Sobrou nos grupos Escolares uma maioria de alunos das classes mais populares. Eram filhos de pais que, em geral, não chegaram a ter uma instrução formal adequada – para quem os critérios da boa Educação eram menos exigentes. A consequência foi a falta de cobrança popular sobre o Estado. E, em uma segunda etapa, a perda da qualidade educacional de um modo disseminado, restando apenas algumas “ilhas” de excelência no setor público.

Obviamente, essa não é a única causa dos problemas educacionais do país. Talvez nem seja a principal. Tampouco é razoável culpar a classe média e imaginar que ela simplesmente tenha decidido, do nada, deixar a Escola pública. Provavelmente havia razões concretas para isso: a Educação ofertada pelo Estado, que até a década de 60 era referência, já estaria ficando ruim. Mas, de qualquer modo, o êxodo dos estudantes de famílias remediadas teria acelerado o processo.

Por isso, não deixa de ser animadora a informação de que há um refluxo dessa tendência. “Pioneiros” da classe média – por questões financeiras ou para dar aos filhos um contato maior com a realidade social, não isolando-os nos colégios particulares – estão voltando àEscola pública, conforme noticiou a Gazeta do Povo do último domingo, em reportagem de Tatiana Duarte. Ainda que a procura seja pelos colégios municipais ou estaduais que mantiveram um padrão mínimo de qualidade, esse movimento tem o potencial de resgatar a cobrança de pais sobre o Estado pela boa Educação. Os pioneiros da antiga classe média podem ainda se somar aos pais da nova classe média – pessoas que deixaram a pobreza pela força do trabalho e que hoje têm uma noção muito mais clara da importância do estudo do que havia 30, 40 anos atrás.

Agora é esperar para ver no que tudo isso vai dar. Daí pode sair um caminho para outras áreas em que o Estado não cumpre seu papel a contento, como a saúde. Talvez o caminho seja cada um assumir a responsabilidade de cuidar do que é público, assim como cuidamos de nós mesmos. Afinal, o que é do Estado também é nosso.

Fonte: Gazeta do Povo (PR)

domingo, 3 de outubro de 2010

A DESQUALIFICAÇÃO DO VOTO DO POBRE

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos.

por Maria Rita Kehl* no O Estado de S.Paulo

Este jornal (Estadão) teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=138413&id_secao=1

* psicanalista e ensaísta, autora de "Sobre Ética e Psicanálise" (Companhia das Letras), entre outros.