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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Dois nomes para o amor

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Maria Clara Bingemer*
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Divindade grega que carrega o nome de uma função psicológica, Eros significa o desejo amoroso. Ocupa um lugar importante no pensamento religioso, na vida social, assim como na arte e na literatura dos gregos. Nas cosmogonias órficas que narram a emergência do mundo, Eros é uma potência primordial que não tem pai nem mãe. É de certa maneira o Um que, na origem de todas as coisas, integra e unifica os princípios opostos, como o feminino e o masculino, o uno e o múltiplo. 
Na mística ocidental, tal como na psicologia e em outras ciências laicas, Eros foi entendido ora como o desejo amoroso, força organizadora da vida coletiva, ora como figura central da sociedade, intimamente ligada à educação aristocrática, ao ginásio e à palestra, ora uma potência inquietante, que quebra os membros, perturba a razão, paralisa a vontade, ora um deus malicioso que se compraz no jogo do amor, imiscuindo-se na vida das mulheres no gineceu, enredando as intrigas amorosas ou desenredando-as. No campo da teologia, pelo menos na corrente que predominou no universo cultural do Ocidente, a concepção de Eros como força perturbadora, ligada apenas ao sexo entendido genitalmente predominou. 
Contribui para isso, certamente, o outro nome dado ao mesmo amor que o cristianismo, notadamente o Novo Testamento, cunhou como a nomeação de Deus por excelência: ágape. O vocábulo grego ágape significa afeição, amor, ternura, dedicação. Seu equivalente latino é caritas, traduzido nas línguas latinas por caridade (charité, caridad, carità) e mesmo nas anglo-saxônicas (charity). Isso tanto em textos estoicos como cristãos. A força de ágape no texto cristão reside sobretudo no fato de ao longo de todo o NT não aparecer a palavra Eros. Aparece philia para designar o amor sobretudo feito de amizade. Mas, ao se tratar do Deus, de Jesus e do amor que devem viver seus discípulos, é ágape que predomina soberanamente. O mesmo ocorre para descrever e exortar os discípulos a imitar e seguir Jesus, e serem imitadores de Deus, que é misericordioso e não faz acepção de pessoas.
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Geralmente, a língua profana emprega ágape para designar um amor familiar, distinto do amor paixão ou do desejo amoroso, que pertenceria à esfera do Eros, traduzido em latim por Cupido, nome afim com cupiditas, que significa o desejo, a inveja, a cobiça e uma série de paixões não bem ordenadas. Porém, é fato que, embora Eros convenha mais ao amor dos amantes, inflamado, não é inusual vê-lo presente no cristianismo antigo para designar não o erotismo sexual e sentimental mas o fervor místico. Neste sentido, o padre capadócio Gregório de Nissa, no século IV, prefere Eros a ágape, que lhe parece por demais tranquilo para descrever os estados de alma místicos. E define Eros como uma ágape mais intensa. Na verdade, o conceito de ágape recebe uma promoção repentina e intensa quando o NT, sobretudo alguns autores, notadamente Paulo e João, o adotam e o fazem sinônimo do amor cristão. Neste contexto, ágape significa tanto o amor condescendente e gratuito de Deus pelos seres humanos quanto o amor incondicionado, o devotamento absoluto que os cristãos são chamados a ter pelo próximo, seja ele quem for, mesmo o inimigo.
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Filhos do mesmo Pai, são todos irmãos e portanto o próximo não é somente o que está perto de mim mas o forasteiro, o desconhecido, o estrangeiro, o escravo, o inimigo. Os textos maiores que celebram a ágape cristã são o hino ao amor da primeira carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 13, e toda a primeira Epístola de João. Portanto, se quisermos aqui definir como se situam Eros e ágape dentro do marco do cristianismo – e, portanto, da teologia cristã – poderíamos encontrar alguns pontos que aparecem nos textos paulino e joanino.
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Neles, o específico do amor agápico é seu caráter não provocado ou estimulado. Trata-se de um amor gratuito, independente do valor de seu objeto, desinteressado. Ágape é, pois, o primeiro exemplo de um amor sem apropriação nem cupidez, um amor que nada tem de egocêntrico. A fim de amar alguém agapicamente, não se espera que ele se torne amável ou que nos compraza. Deve-se amá-lo sem condição prévia. E porque se ama assim, cria-se uma abertura em direção a ele ou ela, abertura de certa maneira “pascal”. Abre-se uma “passagem” em direção ao outro ou outra, dá-se um esquecimento de si no outro.
Essas são as verdadeiras nuances do amor cristão, considerado o “puro amor”. Em mais de vinte séculos de cristianismo, parece que a teologia e a mística cristãs não resolveram de maneira integradora e satisfatória seu problema com a integração do Eros com a ágape. Certa tradição cristã tem se caracterizado por colocar sob suspeita aquilo que diz respeito ao Eros. Ligado ao mundo das paixões e dos desejos transgressores e proibidos, vai na direção inversa da que leva ao amor de Deus, este sim, puro e elevado, que dignifica o ser humano e o faz merecedor da salvação eterna. O que, no entanto, parece que hoje se impõe como prioridade à teologia cristã é conseguir ultrapassar a dicotomia que se instaurou entre Eros e ágape, aliando um com o mal e o outro com o bem.
Igualmente primordial é dissociar Eros de uma conotação meramente sexual num sentido genital, aliando-o portanto ao pecado e à transgressão do verdadeiro amor que estaria contido apenas na ágape. Eros e ágape se complementam e interagem mutuamente em fecunda tensão quando se trata do verdadeiro amor. Procurar sufocar o Eros só enfraquecerá e empobrecerá o amor e enrijecerá ágape, o que não é bom para ninguém.
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* Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de ‘Simone Weil – A força e a fraqueza do amor’ (Ed. Rocco). - mhpal@terra.com.br
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Fonte: Jornal do Brasil

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Declaração de amor a uma mãe caçula


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Maria Clara Bingemer*
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Quem é sabe. Quem não é deseja e imagina. Ser caçula é uma situação de vida, uma experiência existencial, um estado de espírito. Ser a menor dos irmãos, ser sempre a pequenina do pai e da mãe, ser mimada etc. E se além de ser caçula se tem jeito de caçula, cara de caçula e charme de caçula, ainda mais. Fica difícil um dia deixar de sê-lo e resolver acessar a idade adulta. 
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Assim foi com ela. Caçula e ainda por cima temporã. E linda, engraçada e adoravelmente simpática. Mimada desde que abriu os olhos por avós, pais e irmãos, adentrou a vida construindo e reforçando o império que sua caçulice lhe deu, distribuindo charme, beleza e encanto em volta de si. Mas também, muitas vezes, manha, capricho e infantilidade, consequências da maneira como era tratada por todos e todas.
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No colégio, reproduzia o comportamento vivido em casa. Esquecida e distraída, quantas vezes a pobre avó não teve que sair correndo de ônibus para levar um trabalho que havia ajudado a fazer até as duas da manhã e a pequerrucha esquecera sobre a mesa da sala? Mas ouvi-la chorar ao telefone era uma provação pior do que enfrentar o ônibus, o trânsito. Lá ia a vovó cobrir a lacuna deixada pela distração da neta. 
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À sua caçulice se somava um coração altamente generoso e compassivo. Não havia desgraça – verdadeira ou falsa, pois muitas vezes foi enganada em sua boa-fé – que não a tocasse intimamente e não a fizesse mover céus e terras para ajudar. Isso teve impacto em sua vida amorosa. Às vezes, entre os rapazes que a cortejavam, escolhia o mais carente e não o que mais lhe agradava. Assim viveu amores decepcionantes e frustrantes. E as lágrimas que desciam sobre seu rostinho apertavam o coração dos pais e irmãos, que tentavam trazê-la de volta à serenidade perdida.
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Foi no impulso de um desses amores que saiu do Rio de Janeiro e foi morar no exterior. Primeiro recusou-se a ir e manteve-se firme. Mas as lágrimas do rapaz do outro lado do oceano, suas juras de eterno amor acabaram por vencê-la. Vendeu o carro e, diante dos pais indignados, embarcou e lá se foi.  Quando não deu certo, como já era de se prever, os pais suspiraram aliviados. Mas qual não foi a surpresa quando, em vez de voltar correndo pedindo colo, ela lhes comunicou ter encontrado outra pessoa que parecia ser o amor definitivo em sua vida. Ninguém acreditou nem deu muita importância. Mais uma de suas coisas de caçula. Mas a relação foi se firmando, solidificando, superando obstáculos inevitáveis, até que um dia ela comunicou que iria largar o trabalho, fechar o apartamento onde morava e casar-se com ele.
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Os pais quase morreram de preocupação. Como, em uma época onde todo mundo anda louco atrás de trabalho, ela largava o excelente trabalho que conseguira? Como sua caçulinha ousava tomar estas decisões e fazer estas escolhas tão sérias longe deles e de sua sombra protetora? Ela respondeu candidamente que eles mesmos lhe haviam ensinado que o amor é a coisa mais importante do mundo e que deve passar na frente de tudo.
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Três anos depois, a decisão tem pagado seu preço, mas continua firme e inabalável. E, recentemente, deu seu primeiro fruto: Lucas, um adorável menino moreninho e esperto, nascido há dois meses. Ela mergulhou em fraldas, mamadeiras, pomadas, com coragem e valentia. Enfrenta cansaços, noites em claro e muito trabalho, sem ajuda de nenhuma espécie, pois o marido trabalha muito e chega tarde. Os caprichos da caçulinha ficaram para trás. Agora o que conta é o bem-estar e o sorriso de Lucas. 
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Esta mulher é minha filha mais nova. Seu nome é Maria Cândida. E neste Dia das Mães quero declarar-lhe meu respeito, minha admiração e meu amor. Confesso, querida, que não pensei que você chegasse aí como chegou. Mas hoje me declaro admirada e agradecida. Lucas tem muita sorte de ter uma mãe como você. E nós todos, muito orgulho de tê-la como filha e irmã. Não tememos mais por você. Você demonstrou bem do que é capaz! Muita alegria e felicidade é o que desejamos em seu primeiro Dia das Mães!
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* Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de 'A argila e o espírito - Ensaios sobre ética, mística e poética' (Ed. Garamond), entre outros livros.
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Fonte: Jornal do Brasil