sábado, 31 de agosto de 2013

Por ano, 3 mil professores desistem de dar aula nas escolas estaduais de SP

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A cada dia, oito professores concursados desistem de dar aula nas escolas estaduais paulistas e se demitem. A média de pedido de exoneração foi de 3 mil por ano, entre 2008 e 2012. Salários baixos, pouca perspectiva e más condições de trabalho estão entre os motivos para o abandono de carreira.
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Os dados obtidos pelo Estado por meio da Lei de Acesso à Informação são inéditos. A rede tem 232 mil professores - 120,8 mil concursados, 63 mil contratados com estabilidade e 49 mil temporários. A fuga de professores também é registrada na rede municipal de São Paulo, mas em menor escala. As escolas paulistanas têm média de 782 exonerações por ano desde 2008.
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Proporcionalmente ao tamanho das redes, o índice no Estado é duas vezes maior. Além disso, a capital conseguiu ao longo dos anos ampliar em 12% o número de efetivos, enquanto a rede estadual tem 10 mil concursados a menos do que em 2008. Os docentes que abandonaram o Estado migraram para escolas particulares, redes municipais ou dão adeus às salas de aula. O bacharel em Educação Física Marco Antonio Uzunian, de 30 anos, decidiu ser instrutor de uma academia e hoje também trabalha em uma empresa.
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Apenas um ano em uma escola estadual na Vila Carrão, na zona leste da capital, foi suficiente para ele desistir. Uzunian é um dos 2.969 efetivos que pediram exoneração só no ano passado. É o maior índice desde 2008. "Na escola eu não conseguia tocar um projeto de verdade, não tem apoio nem companheirismo", diz.
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O bolso pesou na decisão. Depois de concursado, só pôde pegar uma jornada de 10 horas. "Eu não tive opção de jornada maior. Essas 10 aulas me rendiam R$ 680." A Secretaria da Educação não respondeu por que há limite de jornada para novos docentes.
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Crise. Nem a estabilidade do funcionalismo público tem impedido demissões. Formado em Matemática pela Federal do Paraná, Fabrício Caliani ingressou na rede estadual em 2004. Abandonou em 2009 para ficar em escola particular. "Escolhi ser professor por vocação e faço meu trabalho bem feito. O que eu ganhava até me aposentar não ia compensar enfrentar tudo isso", diz ele, que dava aula em Bastos, no interior paulista.
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Mesmo sem ter emprego em vista, Eduardo Amaral, de 39 anos, pediu exoneração em abril de 2012 - depois de 8 anos na rede. "Para além da questão do salário, jornada e condições de trabalho adversas, tem o dia a dia da escola. É um ambiente hostil", diz ele, que hoje trabalha na Câmara Municipal de São Paulo.
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Professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Romualdo Portella considera os dados muito altos. "Temos reconhecido que a questão-chave da educação é o professor, mas precisamos ter atratividade de carreira, boa formação, retenção e avaliação", diz.
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A Secretaria da Educação defendeu que o número de exonerações representa só 1,63% do total de efetivos. Em relação à diminuição do número de efetivados, a pasta argumentou que aposentadorias, mudanças e mortes devem ser levados em conta. O governo não informou quantos concursos realizou desde 2008.
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A questão docente não é uma preocupação apenas do Estado de São Paulo, mas um drama vivido em todo o País. Estimativa recente aponta déficit de 170 mil professores de Matemática, Física e Química. Mas estatísticas do Ministério da Educação (MEC) revelam uma situação ainda mais grave: o número de interessados em ser professor está caindo a cada ano, o que torna mais difícil suprir as demandas.
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De 2006 a 2011, o número de alunos que entraram em Licenciatura e Pedagogia caiu 7,5%. Em 2011, último ano em que os dados estão disponíveis, foi registrado o menor volume de pessoas que ingressaram nesses cursos desde 2004. Foram 662 mil matriculados em cursos presenciais e na modalidade a distância em todo País.
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O total de diplomados interrompeu crescimento registrado entre 2000 e 2009. Desde então, já apresentou queda de 11%. Em 2011, 358 mil pessoas formaram-se em Licenciatura ou Pedagogia, formação padrão para atuação na educação básica (do ensino infantil ao médio). Apesar de desaceleração no ritmo de formação, o número de professores no País tem aumentado nos últimos três anos. Em 2012, existiam 2,1 milhões de docentes de educação básica.
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A superintendente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação (Cenpec), Anna Helena Altenfelder, lembra de pesquisa recente da Fundação Carlos Chagas (FCC) que mostra que os jovens não querem ser professores. "O estudante do ensino médio respeita o professor, mas diz ‘eu não quero’, porque ele vê a dificuldade e a vida dos docentes", afirma. "Há uma questão da precarização da atividade: do salário, progressão na carreira à valorização social do magistério."
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Perfil. Com esse contexto negativo, a carreira docente não tem atraído, em geral, os alunos com melhor desempenho no ensino médio. "O Estado de São Paulo, por exemplo, tem 98% de seus professores formados nas instituições privadas, que em geral têm as piores condições, professores menos qualificados e formam mal o aluno", diz o professor de Educação da USP Romualdo Portella.
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Dados de levantamento da FCC revelam que 39,2% dos professores do País são de famílias de baixa renda (de até 3 salários). Além disso, 45,6% dos professores têm mães com nenhuma escolaridade ou que cursaram apenas até a 4.ª série.
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Fonte: Folha de São Paulo.
 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Décadas de dilema na escola pública

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Por: Daniela ASrbex
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Na sala de visitas, todos falavam ao mesmo tempo. Parecia reunião de turma da escola. E era. A diferença estava na idade dos participantes. Formandos de 1977, os ex-alunos do ginásio da Escola Estadual Marechal Mascarenhas de Moraes, o Polivalente de Teixeiras, não têm mais 15 anos. Estão na casa dos 50, tornaram-se pais, alguns até avós. O que os une, no entanto, é a profunda ligação com o colégio que os transformou. Por isso, há quase quatro décadas, eles têm encontro marcado para enganar a saudade. Não só os antigos estudantes participam, mas professores da época, diretora, merendeira e outros funcionários. Hoje o grupo de antigos estudantes é composto por procurador federal, oficial da Marinha, empresários, enfermeiros, professores universitários. Juntos, eles são o retrato de uma escola pública que deu certo, cujo projeto pedagógico conseguiu contagiar meninos e meninas por uma vida inteira. A experiência da turma de 77 é provocadora. Trinta e seis anos depois, o Polivalente mudou de cara. É hoje uma das escolas estaduais com o maior número de ocorrências policiais da cidade. É mais que isso. É a imagem do que se transformou a escola pública brasileira. O que os especialistas tentam explicar é em que momento o ensino público perdeu a sua importância na sociedade. O que a sociedade quer saber é como resgatar um modelo escolar recente de sucesso.
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Construído em 1974, o Polivalente mudou o cenário do Teixeiras, na Zona Sul. Era a primeira vez que um bairro pobre receberia uma escola grandiosa no tamanho e na proposta pedagógica, a ponto de fazer muitos alunos do Centro, que já estudavam em colégios particulares, migrarem para lá. Rapidamente, o Marechal Mascarenhas de Moraes conquistou espaço na vida da comunidade e fincou raiz no coração dos alunos da sexta, sétima e oitava séries do antigo primeiro grau, hoje ensino fundamental. Inovador, ofereceu bem mais do que o quadro e o giz. Além das matérias tradicionais, o Polivalente tinha coral, teatro, dança e esporte, dispondo, ainda, de quatro práticas no currículo: industrial, comercial, agrícola e educação para o lar. "Nas práticas comerciais, por exemplo, cada um tinha a sua mesa. Havia balcão, mimeógrafo, nós aprendíamos todo o processo de venda, questões de almoxarifado, estoque, emissão de nota fiscal. Na prática agrícola, contávamos com trator. Criávamos coelho, e a horta produzia tanto que os alunos carentes levavam parte da produção para casa. Na educação para o lar, aprendemos como sentar a mesa, a comer de garfo e faca, a fazer pratos básicos, a dar bainha em uma calça e tivemos até aulas de puericultura e educação sexual. Nas artes industriais, havia uma gráfica. Fomos nós que fizemos o convite de formatura", lembra Geraldo Aquino, 50 anos. Ex-presidente do Centro Cívico, o empresário mantém o espírito de liderança da juventude, sendo o grande responsável por manter a união da turma. "Devo muito ao Polivalente. Os valores que carrego até hoje, aprendi nessa escola", explica Geraldo, que hoje reside em Goiás.
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Evandro Mendonça Fortuna, 51 anos, do Centro Regional de Inovação e Transferência Tecnológica (Critt) da UFJF, divide com o amigo da escola a gratidão pelo que recebeu. "Não aprendemos só matemática e português. Aprendemos a ser gente. Quando saí de lá, fui morar sozinho no Rio. Sabia costurar e cozinhar", lembra. A bióloga Vera Lúcia Teixeira, 52, residente em Barra Mansa (RJ), conta que teve o interesse pela biologia despertado nas aulas de ciências. "O professor Jarbas levava a gente a campo. Também plantávamos e aprendíamos a valorizar o meio ambiente de forma prática. Todo mundo adorava ir para a escola. Não ficávamos numa sala só, estagnados. Ao invés de o professor trocar de sala, os alunos é que trocavam a cada disciplina. Era como se a gente fosse em busca do conhecimento", revela a vice-presidente do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul. A diretora da época, Cesarina de Lima, 65, destaca que uma das funções da escola era justamente o despertar de talentos. "A educação é a base de tudo, haja vista os profissionais competentes que nossos alunos se tornaram. A amizade construída entre estudantes, professores e direção perdura até hoje. A gente era uma família polivalente."
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Aluna da turma de 1977, a enfermeira Regina Muniz, 50, não consegue esquecer as revolucionárias aulas no laboratório de ciências, com o professor Jarbas. "Um dos dias mais marcantes para nós se deve à sensibilidade do Jarbas, que permitiu que observássemos os espermatozoides pela lente de um microscópio. Só vim ter uma aula como essa de novo na faculdade", comenta, antes de dar uma gargalhada. "A gente está procurando até hoje o doador desse material. De vez em quando, um assume a autoria", diverte-se Gilson Farani, 50, que atualmente trabalha em um escritório de advocacia.
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'Os professores acreditavam naquela proposta'
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Olhar para trás pode ajudar a dar uma nova direção ao presente da educação. Embora não existam fórmulas prontas para ganhar o interesse do aluno, a experiência do Polivalente de Teixeiras mostra que é possível fazer a diferença e criar um ambiente propício ao aprendizado. Depende de muitas coisas, mas também do comprometimento da equipe pedagógica com a comunidade escolar. "Um dos diferenciais era o interesse dos professores por nós. Sentíamos essa proximidade, e isso foi importante na nossa formação como indivíduos. Por isso, além da nossa, outras turmas tiveram uma história de sucesso", comenta o engenheiro Wesley Braga, 50.
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Toninho Dutra, superintendente da Funalfa, é mais um exemplo. Um ano mais novo do que a turma de 1977, ele teve o interesse pela cultura despertado na escola. "Iniciei teatro lá. Havia humanidade presente em todas as disciplinas, e o projeto pedagógico passava pela questão dos valores. A escola era um lugar de prazer, no qual os professores se aproximavam dos alunos."
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A enfermeira Regina concorda: "Os professores acreditaram naquela proposta e deram muito de si. Isso acabou nos contagiando. Havia uma magia que permaneceu nas nossas vidas." Para a procuradora da Fazenda Nacional Maria Aparecida da Silva, 50, havia acolhimento. "O papel transformador dessa escola na minha vida foi fundamental. Além da proposta da formação intelectual, havia calor humano. O Polivalente reunia gente de vários níveis, e eu estava no da indigência social. Mesmo nessa condição, a escola me mostrou que era possível mudar."
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O depoimento da procuradora é carregado de emoção. Filha de mãe lavadeira e pai servente de pedreiro, ambos analfabetos, ela lembra que não tinha sapato para estudar e que precisava encontrar com a irmã no caminho da escola, a fim de trocar com ela o seu chinelo por um kichute. Como na sua casa haviam dez bocas para comer, muitas vezes, Aparecida chegava com fome no Polivalente e era socorrida pela cantineira Thereza Maria Carnot, hoje com 80 anos. "Ela era um dos corações da escola naquela cantina. Dona Thereza tinha a consciência que primeiro era necessário forrar o estômago para a criança aprender. Ninguém nunca percebeu, mas ela me dava almoço antes do início das aulas. A pedagogia do amor funciona muito. O Polivalente me educou, mas também mostrou que estaria ao meu lado. Tive mobilidade social por conta dessa orientação pedagógica."
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A ex-cantineira do colégio sustenta que tinha consciência da sua missão, mas que não imaginava o alcance das suas ações na vida desses ex-alunos. "Nunca me passou pela cabeça que eu fui tão importante para aquelas crianças. Hoje agradeço a Deus por não ter passado pela vida em vão. Na minha comida, o ingrediente a mais era o carinho."
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Perda de recursos e falta de projetos
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Apesar de ser um ideal democrático, a educação para todos impôs dilemas desconhecidos pelas escolas até a década de 1990, como a massificação do ensino, provocada pela urbanização acelerada. Antes disso, a escola pública ensinava para minorias. Quase metade da população até o início da década de 1980 não frequentava os bancos escolares. Segundo o doutor em sociologia Rudá Ricci, ao universalizar o ensino fundamental, colocando nas escolas quase 100% das crianças de 7 a 14 anos, o Poder Público deu um passo importante em favor da infância e adolescência brasileira, porém não se preparou para isso. O fato é que, nesse período, alunos das classes média e alta trocaram a rede pública pela privada, migração provocada pelo fim do financiamento externo da educação no país. A perda de recursos levou a um quadro de desorganização dos projetos educacionais, culminando na perda de qualidade do ensino e no desmonte de escolas, como as polivalentes. Os salários dos educadores, que na década de 1970 chegavam a 12 mínimos, também foram achatados.
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Fragilizada na sua importância, as escolas públicas tornaram-se endereço dos filhos das classes trabalhadoras, cujos pais e avós, muitas vezes, jamais sentaram num banco escolar. O fato é que muitos filhos da rua conquistaram um passaporte para o mundo letrado, mas o choque de cultura foi inevitável. Para piorar, os professores, que estavam acostumados a dar aula para estudantes ideais, até hoje não conseguiram se adaptar à realidade do novo público. "O professor se acostumou a culpar o aluno pelo não aprendizado. Mas ele precisa entender que, para muitos estudantes, a escola é o único espaço de aprendizagem. Por isso, não pode desistir desse jovem, porque, muitas vezes, a família já desistiu. É preciso apostar que o aluno é capaz", analisa a atual diretora do Polivalente de Teixeiras, Lilian Maria Custódio Toledo, cujo colégio conta com 853 alunos.
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Perfil dos docentes
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O pró-reitor de Graduação da UFJF, Eduardo Magrone, analisou, em sua tese de doutorado, o perfil dos docentes em momentos distintos da história e diz que hoje falta identidade simbólica entre mestre e aluno. "Hoje o professor se veste e fala como aluno e, muitas vezes, tem que vender coisas no intervalo para a mãe do aluno ou assumir outras ocupações nos finais de semana. Já nos anos 1950, tinha formação muito superior à oferecida hoje pelos cursos de pedagogia. Se tornar professora era um bem disputadíssimo para as filhas das camadas média e alta. Com uma formação diferenciada, elas entravam na sala de aula como alguém que simbolicamente não estava na mesma posição do aluno e tinha a sua autoridade reconhecida por sua competência. Hoje, no entanto, o professor, muitas vezes, tem que apelar para recursos constrangedores, e o aluno perde o pouco respeito que tem."
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Além disso, Magrone cita a falta de identificação do professorado com as escolas da rede pública e com o próprio alunado. "O mesmo professor, muitas vezes, tem posturas profissionais diferentes na escola pública e privada, cuja divisão espúria está cristalizada. No fundo, há uma divisão classista. É como se voltássemos ao tempo da escravatura, da casa grande e da senzala. Essa divisão é uma máquina de produzir desigualdades. Na escola de massa, o aluno é um número. Ele não tem identificação com a escola e o professor também não. O professor da rede privada, quando perguntado, diz o nome da escola em que trabalha. Agora se perguntar para o professor da escola pública, ele vai dizer que é na rede municipal ou estadual. Ele não diz o local. Hoje não há mais o sentimento de missão e nem uma forte identidade com a escola e com os alunos."
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Para a diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE), Victória Mello, a perda da importância do papel da escola na vida das comunidades afetou a valorização e a identidade dos educadores. Segundo ela, a educação passou a ser tratada como mercadoria, produto que está a venda. "A desvalorização da escola acompanha o papel secundário reservado aos trabalhadores brasileiros no mercado de trabalho mundial. Os trabalhos mais complexos são para uma minoria do setor privado e a melhor formação escolar também. Na escola pública, a formação é aligeirada, não sendo necessário tempo de permanência na escola, nem um currículo que compreenda as complexidades do mundo do trabalho atual e nem professores com boa formação. No decorrer desse processo, o professor foi perdendo o encantamento. Tornou-se mero transmissor de conhecimento empacotado de um currículo escolar que vem sendo construído em função de avaliações externas. Com isso, seu papel foi sendo reduzido, resultando na perda da identidade como educador. Isso gera desânimo e adoecimento", destaca Victória.
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Educação só é prioridade no discurso
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"O futuro da escola pública é o passado", afirma o doutor em sociologia, Rudá Ricci. Para o especialista, o compromisso com o indivíduo, presente nas escolas de ontem, precisa ser resgatado. "Isso não é só uma questão de melhoria do salário do professor, mas de um projeto de educação das escolas. Que tipo de pessoas queremos formar? Aquelas preparadas para o vestibular ou as que se constroem, que fazem para si e o país?"
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O pró-reitor de Graduação da UFJF, Eduardo Magrone, faz coro: "A elite brasileira não sabe o que quer e não tem um projeto estratégico de país. Desta forma, a educação fica como sendo a eterna prioridade só no discurso." Para se ter compromisso com o indivíduo, não só com a prestação do serviço, Rudá defende a contratação de professores em tempo integral, para que ele tenha condição de manter seu foco nos estudantes e na formação a longo prazo. "Recursos nós temos, o que não temos é um projeto dos governos para a educação."
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Magrone defende que o projeto para a educação passe pela reformulação dos currículos e pela própria formação oferecida pelos cursos de graduação. "O primeiro choque do aluno de pedagogia e licenciatura é o estágio. As universidades preparam muito mal o professor, porque não preparam para essa escola que está aí. Nas diretrizes curriculares dos cursos de pedagogia, a palavra ensino aparece poucas vezes." O pró-reitor confirma que, apesar da inadequação do currículo, há muita resistência em modificá-lo.
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A solução seria a retomada do modelo do passado ou a construção de um novo modelo baseado nos valores do passado? "Aquela sociedade já não existe mais. Temos que aprofundar o atual modelo no que ele tem de positivo, pois foi esse modelo que colocou para dentro da escola quase 100% das crianças de 7 a 14 anos, que universalizou o ensino fundamental. Então ele tem as suas virtudes. Os principais problemas são de gestão e principalmente o professor. É preciso pensar em como formar o professor para que ele veja esses alunos com um novo olhar e não como alguém que está selado ao fracasso."
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Fonte: Tribuna de Minas (JF-MG)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A criança e a infância

Por Rosely Sayão*
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"Não basta ser criança para ter infância." Essa frase contundente está presente no documentário "A Invenção da Infância" (disponível na internet) dirigido por Liliana Sulzbach, que propõe uma reflexão sobre os estilos de vida de nossas crianças no mundo atual. É uma frase que persegue meus pensamentos, conduz o meu trabalho e que, no último sábado, me fez pensar muito.
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É que no dia 24 de agosto comemorou-se o Dia da Infância. Grandes reportagens a esse respeito nos veículos de comunicação ou mesmo pequenas notas lembrando a data, por acaso apareceram? De um modo geral, pouco vimos a esse respeito. A lembrança da existência dessa data parece ter ficado restrita aos grupos que, de maneira direta ou indireta, trabalham com e/ou para crianças. Faz sentido esse silêncio da sociedade a respeito de uma data que, aliás, não deve ser considerada comemorativa. A infância está desaparecendo e temos contribuído de modo expressivo para isso. Como temos feito isso?
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Para começar a pensar, temos de considerar que ser criança é um fato biológico, mas o modo como ela vive essa etapa da vida, que vai até a adolescência, depende de múltiplos e complexos fatores, entre eles o modo social de pensar a criança. É aí que entramos. De um modo geral, cada vez mais a criança, notadamente a que pertence à família de classe média, tem sido tratada como um ser que precisa ser preparado para o futuro. Há algumas décadas, passamos a acreditar que quanto mais precocemente a criança for engajada em situações de estudos formais, maiores as chances ela terá de êxito no futuro.
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Já temos inúmeros estudos e pesquisas que comprovam que iniciar o contato com o conhecimento sistematizado mais cedo não contribui no aprendizado que deve ocorrer a partir dos sete anos. Por isso, tudo o que conseguimos ao fazer isso é deixar de ver a criança em seu presente, ou seja, a vemos muito mais como um ser que, um dia, será alguém. Também temos deixado a criança cada vez mais tempo na escola. As três ou quatro horas iniciais se transformaram, progressivamente, em cinco, seis, oito, dez e até 12 horas de permanência no espaço escolar! Se considerarmos que ir para a escola é o trabalho da criança, elas têm trabalhado demais, à semelhança de seus pais, os adultos.
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Temos entendido que o tempo de permanência na escola é uma necessidade social já que os pais têm se dedicado muito à vida profissional. Conheço profissionais que trabalham muito além da jornada e justificam o excesso como necessário para dar conta da responsabilidade profissional. E a pessoal, com os filhos, onde temos colocado tal responsabilidade?
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Crianças têm se alimentado como adultos que se alimentam mal. E, como estes, têm enfrentado doenças por causa disso. Esse fato não ocorre por falta de informação dos responsáveis pelas crianças e sim pela falta de paciência e dos cuidados necessários que elas necessitam. Ah, mas elas pedem, exigem até, as porcarias ofertadas insistentemente e disponíveis em todos os cantos. Sim, mas por isso vamos permitir que fiquem escravas de seus impulsos e que consumam como adultos?
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Abordei dois pontos apenas de nossa contribuição direta para o fim da infância. Há muitos outros. Por isso, todo dia deveríamos fazer essa reflexão: queremos que nossas crianças tenham infância, ou já consideramos esse conceito obsoleto?
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*Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças na versão impressa de "Cotidiano".

Educação e humor


Educadores apontam riscos da reforma paulista

Por Paulo Saldaña - O Estado de S.Paulo
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Resgatar boas ideias e introduzir novidades. Essa foi uma das formas com que o prefeito Fernando Haddad (PT) resumiu o programa de reforma da educação municipal, anunciado este mês. Entretanto, mais do que resgatar e inovar, o plano terá de ser capaz de fazer funcionar medidas conhecidas e até existentes na rede, mas que encontraram dificuldades para se tornarem efetivas para a melhoria do aprendizado.
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A linha geral do programa é aumentar a exigência para os alunos do ensino fundamental, acompanhando desempenho, oferecendo recuperação e, caso não haja jeito, reprovando quem não progrediu. A reforma aumenta de dois para cinco anos as chances de retenção - medida criticada pela maioria dos especialistas, que receiam aumento nos índices de reprovação, que só puniria quem tem mais dificuldades e que pode refletir em abandono da escola. Nas estratégias para o acompanhamento surgem as boas ideias a resgatar, citadas por Haddad. Provas e boletins bimestrais e lição de casa obrigatória. Atualmente, a aplicação de provas e lição de casa ficam a critério de cada professor.
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Para a pesquisadora em Educação Paula Louzano, doutora pela Universidade de Harvard, a maioria das ações propostas tem grande risco de não se consolidar porque não deve resolver o problema de aprendizado. "Pesquisas internacionais mostram que, geralmente, as melhores medidas para a educação são as mais complexas. Porque a educação é complexa. Ter prova bimestral, por exemplo, depende do tipo de avaliação, do que se faz com ela", diz.
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Paula afirma ainda duvidar da forma como a Secretaria de Educação vai acompanhar as iniciativas e completa: "A sensação ao se lançar uma reforma é a de que nada estava acontecendo antes na rede, o que não é verdade". A recuperação também será um desafio no novo plano. A implementação de reforço no contraturno na rede já esbarrou em problemas de estrutura e de falta de educadores.
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Professora do Instituto Superior de Educação Vera Cruz, Maria José Nóbrega participou como consultora de um dos programas de reforço em leitura da rede nos últimos três anos. "Além da falta de professores, as escolas não tinham como acomodar os alunos, não havia sala nem transporte. A gente não conseguia fidelizar os alunos. A família não deixava ficar porque não tinha como voltar para casa", diz ela, que atua como assessora em programas de formação do Ministério da Educação.
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Ciclos. Maria José elogia a organização da proposta, mas aponta algumas lacunas. O ponto principal é na divisão dos ciclos - antes separados em dois, passaram a ser divididos em três: Alfabetização (1.º ao 3.º ano), Interdisciplinar (4.º ao 6.º ano) e Autoral (7.º ao 9.º ano).
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"O único que a gente consegue ver o que será é o de alfabetização, porque os outros dois ciclos são uma caixa-preta", diz. Ela aponta também o risco de abandono de currículos. "A educação tem de apostar a longo prazo. Ao desmontar uma proposta e colocar outra, isso passa para o professor que ele não precisa se aplicar com aquilo, porque logo vai mudar de novo."
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O professor de Artes Fabiano Chrisostomo, de 29 anos, afirma ver o projeto de reforma do ensino municipal com otimismo. "A possibilidade de retenção em mais anos vai aumentar o comprometimento do aluno e do professor com o aprendizado. Ajuda a entender melhor o papel da escola", diz ele, que leciona em uma escola de São Mateus, zona leste de São Paulo.
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A pesquisadora Vanda Ribeiro, do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação (Cenpec), ressalta que o processo de implementação é essencial. "Depende muito do arranjo dos processos de ensino, aprendizado, relação com currículo e planejamento. O tiro no pé será se a secretaria não tiver estratégia bem delineada de como vai evitar o aumento da reprovação", diz. "Será necessário mexer no jeito de fazer e vai depender muito do diálogo com a rede."
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Segundo o secretário de Educação, Cesar Callegari, o trabalho para ouvir as propostas dos educadores está se intensificando. "Estamos olhando todas as contribuições, alertas e vários pontos serão retocados. Mas a secretaria tem convicção forte no que anunciamos", diz.
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Fonte: O Estado de Sâo Paulo (SP)

sábado, 24 de agosto de 2013

Educar para crescer


Universidade Fumec não contará com câmeras do Olho Vivo

Os alunos da Universidade Fumec, no bairro Cruzeiro, zona Sul de Belo Horizonte, terão que conviver com o medo e com a insegurança até pelo menos o fim deste ano. Apontada pelo reitor da instituição, Eduardo Martins de Lima, como uma das soluções para coibir a ação de bandidos no entorno da universidade, a instalação de câmeras do programa Olho Vivo no bairro está descartada pelo Governo do estado. Nenhum dos 158 equipamentos previstos para a cidade – até dezembro – irá contemplar os bairros Cruzeiro e Anchieta, conforme adiantou o Hoje em Dia na edição de 28 de maio e reforçou, na sexta-feira (23), a coronel Cláudia Romualdo, chefe do Comando de Policiamento da Capital (CPC). “A distribuição dos equipamentos está mantida conforme planejamento já divulgado”, afirmou. As câmeras serão instaladas na região de Venda Nova (54), no Barreiro (54) e nos bairros Floresta (23) e Cidade Nova (27), na região Leste.
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Segundo o reitor da Fumec, a instituição estaria disposta a custear a colocação dos equipamentos no entorno do prédio, que fica na rua Cobre. “Já colocamos isso à prefeitura, ao Governo do estado e à Polícia Militar. Temos como financiar equipamentos públicos de segurança, como as câmeras do Olho Vivo”, afirmou. De acordo com o tenente-coronel Alberto Luiz, porta-voz da PM, no entanto, o custeio de equipamentos públicos por instituições privadas está fora de cogitação. “A faculdade não está proibida de fazer seu monitoramento por câmeras, mas em via pública isso não é papel da Fumec, seria usurpação da função pública”, explicou.
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Reunião
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A reunião realizada na sexta na reitoria da universidade, entre representantes da Fumec, estudantes, moradores, representantes da PM, da Guarda Municipal, da prefeitura e de associações de moradores foi motivada pela onda de assaltos e ataques a estudantes na região.
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Na última semana, a estudante de Direito, Joice Silva, de 21 anos, foi violentamente abordada por um homem, enquanto se dirigia à Fumec. Ela teve pertences pessoais roubados, foi fisicamente agredida e precisou ser levada para o hospital.
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Segurança
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De acordo com o tenente-coronel Alfredo Alves Veloso, comandante do 22º Batalhão, responsável por monitorar a área, desde o início da semana o policiamento da região foi reforçado. Os bairros serão monitorados e dentro de dez dias uma nova reunião será feita para avaliar a necessidade de aumentar o efetivo. "Até agora, acredito que foi planejado seja suficiente para dar uma resposta positiva a fim de minimizar os problemas relacionados à segurança pública na região", avaliou.
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Fonte: Hoje em Dia (MG)