quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Escolas estaduais de MG recebem placas com notas recebidas no Ideb

As escolas estaduais de Minas Gerais começaram a receber placas com as notas recebidas no último Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. A placa chamou atenção. Ela traz o índice que é apurado a cada dois anos, em todo o ensino fundamental das escolas públicas do país. Nas provas do ano passado, Valter diz que não se saiu bem. “Achei muito difícil”, diz.
.
A avaliação considera conhecimentos de matemática e português, além de dados sobre aprovação escolar. Em uma escola em Belo Horizonte, o índice do nono ano do ensino fundamental foi de 3,9, menos que a média de Minas, que é de 4,4.
.
“Os nossos resultados não são os piores, mas podem ser melhorados muito. Muito mesmo”, avalia a diretora da escola, Maria Carmem Barbosa. Nas escolas onde forem instaladas, as placas vão ficar em local de muito movimento, bem à vista dos alunos, dos pais de alunos e dos professores para que possam se lembrar, a todo momento, da nota que tiraram no Ideb.
.
“Você precisa dar aos pais os instrumentos para que eles saibam qual é a real qualidade da escola do filho, para que então eles possam se engajar e participar, e a escola brasileira precisa desesperadamente da participação e do auxílio dos pais”, opina o especialista em educação Gustavo Ioschpe.
.
Mas a iniciativa gerou polêmica. O professor da UFMG, pós-doutor em educação, considera que o índice médio é pouco para informar sobre a qualidade do ensino. “A comunidade saber é essencial, agora a forma de comunicar a comunidade precisa mudar. Ela precisa mudar dando uma visão de quantos estão no nível insuficiente, quantos estão no nível básico, quantos estão no nível avançado, e fazer de uma forma que seja informativa”, diz José Francisco Soares, do Conselho Consultivo do Inep.
.
A dona de casa Vitória Vieira acha que o índice já é um avanço. “Aí vai poder haver cobrança das duas partes: dos filhos da gente e dos professores”. Mas ela espera que o Ideb ajude a reduzir diferenças. Em Belo Horizonte, uma escola pública tradicional ficou acima da média. Outra, em uma comunidade, onde Gabriela Ferreira estuda, ficou abaixo. “Pelo menos a gente tentou, conseguiu. Vai melhorar, tomara.”
.
Fonte: Jornal Nacional

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Escola pública mantém nota baixa no Enem

***
O Ministério da Educação (MEC) divulgou ontem as notas por Escola da edição de 2011 do Exame Nacional do Ensino médio (Enem). Entre os cem melhores colégios com o melhor desempenho na prova aparecem apenas dez Escolas públicas, a maioria unidades de aplicação vinculadas a universidades federais, instituições militares e de Ensino técnico. Embora o Enem não sirva como uma avaliação de qualidade educacional, mas principalmente como uma espécie de vestibular de acesso ao Ensino superior, o resultado da edição do ano passado mostra que as Escolas particulares absorveram melhor a proposta pedagógica do exame, composta por testes de ciências da natureza e tecnologias, ciências humanas, linguagens e códigos e matemática, além da redação. Na edição de 2010, 13 Escolas públicas estavam na lista das cem melhores do Enem.
.
O MEC anunciou somente as notas de 10.076 unidades, que representam 40,6% das Escolas de Ensino médio do país. Pouco mais de 1.185 Escolas que tiveram menos de dez Alunos no exame e outras 13.581 com taxa de participação de estudantes concluintes menor de 50% do total da turma foram excluídas da divulgação. Do total geral de médias apresentadas ontem, 199 são federais, 4.968 estaduais, 111 municipais e 4.798 particulares. Na avaliação de Tufi Machado Soares, Professor e coordenador de pesquisa do Centro de Políticas Pública e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), desde que o MEC propôs reformular o conteúdo do Ensino médio em 2009, usando o Enem como base, as Escolas particulares foram as primeiras a se adaptar. "A exemplo da estrutura do Estado, as Escolas públicas são muito engessadas, têm mais dificuldade para mexer no conteúdo, dar mais dinamismo ao que é ensinado", disse Soares durante encontro em São Paulo para discutir o Enem, promovido pelo movimento educacional Todos Pela Educação.
.
O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, ponderou que o resultado não pode ser considerado como ranking das melhores Escolas de Ensino médio do país. "O Enem não é um ranking de avaliação entre Escolas, é uma avaliação dos Alunos, dos estudantes. É insuficiente como avaliação do estabelecimento Escolar porque há Escolas com naturezas muito distintas", disse.
.
José Francisco Soares, Professor titular aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), defende o uso de dados socioeconômico para melhor avaliar as Escolas no Enem. "O que está fora da Escola impacta o que está dentro da Escola. O nível socioeconômico é essencial para se perceber isso. Quando não mostramos essa correlação, a informação que se divulga é de má qualidade."
.
O Colégio Objetivo Integrado, Escola privada de São Paulo, ficou com a melhor média geral do Enem do ano passado: 737,15, considerando as quatro disciplinas e a redação. O Colégio Elite Vale do Aço, de Ipatinga, interior de Minas Gerais, e o Colégio Bernoulli-Unidade Lourdes, de Belo Horizonte, ficaram em segundo e terceiro lugares, respectivamente, com média 718.
.
A Escola pública mais bem classificada no Enem 2011 foi o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (UFV), com média 704. O Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) é a segunda pública melhor colocada, na 29ª posição, com média 676, seguido pelo Instituto Federal do Espírito Santo, de Vitória, no 40º lugar e média 672.
.
As outras sete Escolas que figuram entre as cem melhores notas do Enem 2011 são: Colégio Militar de Belo Horizonte (52º), Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (60º), Colégio Militar de Porto Alegre (73º), Etec São Paulo (74º), Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais (85º), Colégio Pedro II - Unidade Niterói (90º) e Instituto Técnico da Universidade Federal de Tecnologia do Paraná (91º).
.
Fonte: Valor Econômico (SP)

Escola pública e o Enem














































 
***
Repete-se e amplia-se, na última edição do Exame Nacional do Ensino médio, a conclusão de que a realidade das Escolas públicas é desalentadora. O desempenho dos colégios mantidos pelos Estados piorou no ano passado em relação a 2010. Dos 50 melhores educandários do país, apenas três são públicos, e todos são federais – na edição anterior, eram seis. É uma disparidade grande demais, que não se explica apenas pelo conjunto de distorções do programa encarregado de avaliar a performance de estudantes e Escolas do Ensino médio. Entre as deficiências apontadas, denuncia-se com frequência que o Enem faz o confronto da Escola pública com instituições privadas que selecionam seus Alunos.
.
O exame seria assim um duelo desigual de estudantes de colégios muitas vezes precários – e em condições socioeconômicas inferiores – com Alunos de Escolas de elite. Há dados que comprovam algumas falhas, como o fato de que, entre as 10 melhores Escolas, em sete eram menos de cem os Alunos que estavam concluindo o Ensino médio e fizeram o teste. Essa seletividade não é suficiente, no entanto, para alterar o conjunto dos resultados e sustentar pretextos desqualificadores do exame. O Enem deve ser mantido e aperfeiçoado, com a correção de eventuais falhas. Seria um desserviço continuar a atacá-lo, como tática diversionista, para esconder as limitações da Educação pública.
.
Os números divulgados pelo MEC são incontestáveis: 92% das Escolas estaduais tiveram nota abaixo da média geral do país, que já é insatisfatória. E esse não é um problema localizado nas regiões mais pobres. Nenhum Estado conseguiu registrar mais de 20% das Escolas com notas acima da média nacional. A precariedade revelada pela amostragem exige, há muito tempo, reações do setor público. Mas a capacidade de articulação dos governos federal e estaduais tem se mostrado insuficiente para que aconteça uma virada na Educação brasileira. Como apenas 12% dos estudantes estão na rede privada, isso significa que 88% do contingente do Ensino médio continua à espera de investimentos em estrutura, em equipamentos e em pessoal.
.
Os avanços proporcionados pelo próprio Enem, que buscam a melhoria das práticas pedagógicas e procuram ampliar o acesso de egressos da rede pública ao Ensino Superior, não são suficientes para compensar os erros das políticas públicas e as omissões de comunidades e pais alheios ao que se passa nas Escolas. O descaso do Brasil com a formação básica assumiu, como têm alertado os especialistas, a conotação de desprezo com parcela da população que mais depende do suporte dos governos. Alunos de Escolas mantidas pelos Estados são, em sua maioria, de famílias de baixa renda. Privá-los de um bom Ensino é também uma forma de ampliar suas privações e negar-lhes a chance de crescer econômica e socialmente através da Educação.
.
O descaso do Brasil com a formação básica assumiu a conotação de desprezo com parcela da população que mais depende do suporte dos governos.
.
Fonte: Diário de Cuiabá (MT)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Semana da Consciência Negra

*****

Diário de Classe: escolas reclamam que alunos só relatam lado ruim

Voltado para relatar o dia a dia da Escola, o Diário de Classe criado pela estudante Isadora Faber, 13 anos, de Florianópolis (SC), inspirou diversas outras páginas no Facebook, nas quais os Alunos apontam principalmente as deficiências das instituições onde estudam. Uma breve busca na rede social permite encontrar mais de cem páginas semelhantes. A rede estabelecida entre esses estudantes é organizada de uma forma que há até grupos para compartilhar dicas e debater o que deve ser publicado e de que forma fazê-lo. Algumas Escolas, porém, afirmam que muitas atitudes por parte da direção não são tomadas apenas pelo que foi relatado na página, e que os Alunos não têm se preocupado em mostrar as atividades positivas nas redes sociais.
.
O grupo fechado "Dicas diário de classe", administrado pela própria Isadora, conta com cerca de 80 membros, Alunos e criadores de páginas semelhantes. O estudante do 9º ano Guilherme Patrício Araújo, 14 anos, um dos responsáveis pelo diário da Escola Estadual (EE) de São Paulo, explica que os integrantes recorrem ao grupo para debater cuidados que devem ser tomados com as publicações. Entre as precauções, ele cita a não divulgação de nomes, para evitar a exposição de terceiros (recentemente, a casa de Isadora foi apedrejada, e a família desconfia de pessoas citadas na página da garota). Os estudantes também orientam uns aos outros a relerem o texto antes da postagem, a publicar também boas iniciativas da Escola e a abordar assuntos que sejam interessantes para os Alunos. Outro lugar para discussões é a página "Encontros de Diários", acompanhada por mais de 200 usuários da rede social.
.
A motivação para a criação de vários diários de classe veio, em grande parte, da aparição de Isadora em reportagens de televisão. Emerson da Silva Mendes, 17 anos, Aluno do 2º ano do Colégio Modelo Luiz Eduardo Magalhães, em Itamaraju (BA), diz que percebeu problemas em comum entre a Escola onde a catarinense estuda e a sua. "A intenção é buscar soluções e melhorias do mesmo jeito que ela conseguiu", comenta. Em Guarulhos (SP), a estudante Giovanna Magalhães Gomes, 13 anos, também reproduziu a iniciativa para apontar deficiências na Escola Estadual Emília Anna Antônio, onde cursa o 8º ano. Com o aval e a assistência dos pais, a menina já conquistou melhorias importantes para a instituição, como a substituição dos armários quebrados. "Quando chegaram os armários, alguns Alunos vieram me abraçar e comemorar", lembra Giovanna.
.
Apesar de ainda detectar algumas pendências, Emerson estima que mais da metade dos problemas indicados no seu diário de classe já foram solucionados. Defeitos em banheiros, ventiladores, fechaduras, portas, além de vidros quebrados ou trincados, eram as principais reclamações sobre o Colégio Modelo. Alunos de outras Escolas chegaram a solicitar que a página tratasse também dessas instituições, mas, sem autorização para ingressar nas dependências de cada colégio, ele acabou restringindo a ação apenas ao lugar onde estuda. "Tem Escolas bem piores que a minha", lamenta.
.
Os pais de Emerson apoiaram a atitude do filho. No colégio, a vice-diretora, Eliana Sausmickt, assegura que o Aluno não foi reprimido em nenhum momento. "Ele está exercendo o papel de cidadão", diz. "A utilização desse tipo de mídia é irremediável. A gente vai ter que lidar com essa nova realidade", completa. A Educadora, porém, se mostra insatisfeita com o fato de só encontrar pontos negativos salientados na página e por parecer que todos os problemas são resolvidos em decorrência das postagens. "A merenda, por exemplo, já era servida antes, mas estava parada por conta da burocracia, do credenciamento", justifica.
.
Direção questiona veracidade das reivindicações
.
A direção da EE de São Paulo, na capital paulista, avalia como produtivo o diário feito por Guilherme, em conjunto com o colega Victor Nascimento, mas entende que algumas informações publicadas na página são inverídicas, fantasiosas e manipuladoras. A falta de reconhecimento pelas boas atividades promovidas durante o ano letivo também é uma reclamação da direção, que garante que desconhece reparos que tenham demorado muito tempo para serem feitos. Independentemente de reivindicações, as manutenções são feitas constantemente, de acordo com a direção. Guilherme defende que diversas melhorias foram realizadas após a criação da página, como o preenchimento de um buraco no pátio e o conserto de vidros e canos quebrados. As reclamações atuais são relacionadas a infiltrações nos corredores e nas salas, e ao horário da merenda. "Às 9h30, eles servem comida. Queremos que mude, que em pelo menos três dias por semana seja lanche", protesta o estudante. Segundo o garoto, o diário da EE de São Paulo recebe também dicas de Professores sobre como melhorar a página.
.
Com a ajuda dos pais: Giovanna, aluna da Escola Emília Anna Antônio, conta com o apoio redobrado dos pais para manter o diário de classe. A assessoria vale para a decisão sobre o que postar, cuidando para não expor Alunos ou funcionários, e para publicar apenas problemas relacionados à estrutura da instituição. Mas o suporte também é intenso em relação às críticas recebidas. "Meu esposo foi conversar com a coordenação, porque a Giovanna estava começando a ficar coagida dentro da Escola. Alguns Alunos se revoltaram contra o diário", explica a mãe, a microempresária Raquel Gomes.
.
Na hora de captar os registros, a estudante conta que procura não ser vista. "Tiro as fotos escondida, porque tenho medo", confessa. Sobre os problemas retratados no diário de classe criado por Giovanna, a estudante diz que já foram substituídas as tampas de vaso sanitário, mesas e cadeiras que estavam quebradas, bem como os armários antigos. A quadra, no entanto, ainda precisa de reformas, segundo a menina, uma vez que o muro está quase caindo. "A gente ficou bem orgulhoso. Com 13 anos e tão preocupada com os direitos dela, com a Escola", destaca a mãe.
.
Fonte: Terra on line

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Mídia, violência e medo: o espetáculo perfeito

.
Lúcio Alves de Barros*
.
Alunos e alunas, amigos e amigas e até jornalistas se meteram a me perguntar sobre a “onda” de criminalidade que assola São Paulo. De imediato pensei em falar alguma coisa, mostrar o que ando lendo ou tecer teorias e teorias próprias do meu ofício. A infeliz ideia lembrou-me os meios de comunicação: eles inventam ali, corroboram dados aqui e chutam qualquer coisa para alimentar outra coisa que pode ser ainda pior. Desta vez optei por outro caminho. Disse que estava acompanhando de longe os fatos e pouco sabia a não ser o que todos já sabem.
.
O fato é que perdi a credibilidade tanto de alunos e alunas como de amigos e amigas. Jornalistas me telefonaram, porque os grandões da temática falam o mesmo de sempre, mas não fiz nada diferente, somente respondi o óbvio. Tudo para o funcionamento deste mundo fantástico, mágico e de representações da mídia. E para não dizer que não falei o que já havia falado, as palavras são claras e de próprio punho.
.
Em primeiro, são óbvias as afirmações de que algo está errado no sistema penitenciário brasileiro. Até o ministro da justiça afirmou que prefere a morte do que se sujeitar ao sistema. Logo, não é preciso mestrado, doutorado ou um ministério para saber que os celulares entram de tudo quanto é forma nas penitenciárias do Brasil. Sabemos que é difícil este empreendimento, os visitantes usam o corpo, a alimentação, as roupas e tudo mais para que os celulares continuem a entrar nos estabelecimentos. De duas uma: ou (1) alguém não está fazendo o devido trabalho de revista e averiguação ou (2) existe a conivência de profissionais da instituição. A questão é simples: se o celular não entrar na cela, não é preciso gastar com bloqueadores. A matemática é para infante: 01 + 01 = 02. Nas penitenciárias, aparentemente, ela pode ser 03, 04, 05, 06 ou mais.
.
Em segundo, é muito curioso o dispêndio de energia e recursos de uma facção denominada PCC (Primeiro Comando da Capital) que agora pode estar operando em três ou quatro estados. Para início de conversa não acredito muito na balela da mídia de que são “organizados” a ponto de criar uma desordem tão grande que pode atingir toda a federação. Seria necessário muito bandido para isso e bandido dos bons. Até os criminosos sabem “quem faz” e “quem não faz” parte do enredo. Também seriam necessárias uma logística e uma administração invejável para controlar ações em um estado que, sabemos, é o mais rico da federação. O crime “organizado”, na realidade, torna-se “organizado” quando o Estado permite que ele faça parte dele e, por consequência, utilize determinados mecanismos oferecidos pelo próprio Estado. Este é o caso do Jogo do Bicho e que não necessita ser bacharel ou ministro para entender.
.
Por último, não é possível a compra da mercadoria oferecida pela mídia sem o mínimo de crítica e compreensão. Os recursos hoje disponíveis para a segurança pública são de grande monta. Policiais Militares e Civis ganham razoavelmente bem. Muitas polícias estão equipadas, não fazem feio frente às polícias de outros países e existe a tentativa de pelo menos de se aproximar da população. Paradoxalmente, convivemos com a violência policial, práticas de tortura, corrupção e tudo mais. Os ataques atribuídos ao PCC, neste contexto, é um pedaço insignificante de um iceberg no caminho de um Titanic chamado mídia que não bate de frente com a realidade da segurança pública. A mídia não é investigativa e oferece ao público míope e ignorante as versões reproduzidas pela própria polícia, e pelo próprio Estado. Os meios de comunicação, neste sentido, não deixam de produzir mal-estar, medo e insegurança. E o medo, tal como o tiro no pé, é paralisante. Faz doer o corpo e engana o cérebro por exigir dele atenção e cuidado.
.
Os meios de comunicação estão na verdade é perdendo uma ótima oportunidade para mostrar os fatos, notadamente, as condições objetivas do problema, coisa que o governo paulista não trata de mostrar. Seria, inclusive, um bom momento para recuperar a credibilidade que há tempos vem deixando a desejar. Não há dúvida quanto à importância dos meios de comunicação para a democracia, mas eles são perversos ao atirar pedras em instituições, pessoas e vítimas de acontecimentos que são históricos, que tem raízes profundas na cultura brasileira e por anos vem necessitando de politicas públicas contundentes. Que a verdade dos acontecimentos de São Paulo venha à luz e que a população possa saber a envergadura do problema que perpassa algumas regiões da cidade e do Estado. Se o imbróglio for tão grande, como quer os meios de comunicação, especialmente a TV, que possamos ajudar sem prejuízos ao erário público, sem insegurança, sensacionalismo barato e medo do amanhã.
.
* Professor da Faculdade de Educação (FAE) /BH/ UEMG

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"As escolas não estão preparadas para lidar com assuntos de exploração sexual", afirma professora

A garota de 11 anos morava com os pais e três irmãos em uma comunidade litorânea em Natal, Rio Grande do Norte, e viviam com cerca de um salário mínimo, proveniente de programas de transferência de renda. Apesar do pai alcoolista praticar violência física e psicológica contra a família, a menina era boa aluna, tinha o histórico de pontualidade, assiduidade e cumprimento das normas escolares. Mas seu comportamento mudou de repente. Com sucessivos sumiços de casa, faltas na escola e frequentes brigas pelo bairro e na sala de aula, a mãe suspeita que a filha estivesse induzida ao uso de drogas e sofrendo exploração sexual por pessoas da comunidade, traficantes e estrangeiros.
.
“Eu sei que uma criança sofreu algum tipo de violência porque é notável o rendimento escolar dela cair automaticamente, sem exceção”, afirma convicta a professora Juliana Delmonte, que dá aula de quinta série a terceiro ano do ensino médio numa escola estadual no Butantã, em São Paulo. “Essas meninas faltam muito. Ou a escola perde o sentido e elas a abandonam, ou a escola acaba fazendo muito sentido porque é o único ambiente onde elas não são violentadas”.
.
A professora é conhecida por coordenar o Grupo de Estudos Feministas Gilka Machado, nascido em 2011 numa escola em Interlagos e vencedor do prêmio nacional Construindo a Igualdade de Gênero, do mesmo ano. Divididas em dois grupos de 20 meninas cada, as garotas, vivendo num lugar onde a violência doméstica ou sexual é comum, discutem preconceito contra a mulher no cotidiano, a mulher na mídia e na política, machismo, violência e outros temas similares. Segundo ela, o quadro é recorrente em classes mais pobres e não há nenhum material que aborde o assunto. “De forma alguma a escola está preparada. Os professores, geralmente quando não se omitem, corresponsabilizam e culpabilizam a vítima. A única ação que podemos fazer quando descobrimos algum caso de violência sexual é denunciar e encaminhar para o Conselho Tutelar, não depende só da instituição de ensino”, explica Delmonte.
.
Números crescentes
.
O aumento do número de denúncias é significativo. De janeiro a abril de 2012, o Disque 100 recebeu 34.142 denúncias referentes à violação de direitos humanos contra crianças e adolescentes, representando 71% de aumento em relação ao mesmo período do ano anterior. Desde março de 2011, o atendimento do Disque 100 foi ampliado, passando a funcionar todos os dias, 24 horas.
.
Segundo a Secretaria de Direitos Humanos (SDH), de janeiro a setembro de 2012 foram registrados no país 6.637 casos de exploração sexual no Disque 100. Bahia lidera o número de denúncias recebidas, com 643 ligações (11,4% do total). Em seguida, aparecem Rio de Janeiro com 540 denúncias (9,6%), e São Paulo, com 538 (9,5%). Roraima é o Estado com menos denúncias, apenas nove durante o ano. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) revela que, em 2009 no Brasil, 100 mil meninos e meninas são vítimas de exploração sexual.
.
O caso da adolescente de Natal foi encaminhado e cuidado pelo Centro de Defesa da Criança e Adolescente – CEDECA Casa Renascer, uma organização sem fins lucrativos que atua desde 1991 em Natal, em defesa dos direitos de crianças e de adolescentes em situação de risco pessoal e social, principalmente aquelas violentadas sexualmente. Hoje, a jovem com 16 anos tem um filho, estuda, ajuda a mãe na produção de artesanatos e vive com a família na mesma comunidade de origem.
.
Porém, de acordo com o relatório do CEDECA, não há comprovação quanto à ressignificação da violência vivenciada por ela, considerando que o consumo de drogas e a exploração sexual só foram encerrados em razão da morte do agressor que aliciava a menina, e não em um processo de garantia do direito dessa adolescente. “Entende-se, portanto, que a violência a que esta adolescente foi exposta reflete a realidade de outras crianças e adolescentes na comunidade necessitando, assim, de ações efetivas por parte do sistema de garantia de direitos considerando a vulnerabilidade instalada”, conclui o documento.
.
Iniciativas de combate
.
O governo federal enfrenta essa questão por meio do Programa de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, que integra o Programa Avança Brasil. São realizados mais de 30 mil atendimentos anuais por meio das ações desenvolvidas no Programa Sentinela, com a criação de 25 Centros de Referência em 24 municípios no país. Outra iniciativa federal é o Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infantojuvenil, lançado em 2000 e articulado junto à sociedade civil organizada. O trabalho é responsável por estruturar políticas e serviços que garantam os direitos da criança e do adolescente, e possui eixos estratégicos que estabelecem metas, parcerias e prazos a serem cumpridos para reduzir os casos de abuso e exploração sexual e garantir o atendimento de qualidade para as vítimas e a suas famílias.
.
Criado pelo Conselho Nacional do SESI (Serviço Social da Indústria), com a contribuição de diversas instituições e profissionais que atuam nesse campo, o Projeto ViraVida atua desde 2008 oferecendo formação profissional e emprego a adolescentes e jovens, vítimas de exploração sexual, abrindo caminhos para uma mudar o enredo de suas vidas. O Programa foi iniciado em quatro capitais e hoje atende 1.238 alunos em 19 cidades. Desde a implantação em 2008 até outubro de 2012, 2.552 adolescentes e jovens haviam sido matriculados no ViraVida. A longo prazo, a perspectiva do SESI é levar o programa a todos os municípios atingidos por redes de exploração sexual.
Em âmbito estadual e presente em 30 municípios de São Paulo, o Projeto Ação Proteção busca articular, sensibilizar e capacitar os participantes do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente (SGDCA) para enfrentar a violência sexual. O Projeto é uma iniciativa da Fundação Telefônica em parceria com o Ministério Público do Estado de São Paulo e da ONG Childhood Brasil.
.
Fonte: Portal Aprendiz e Todos pela Educação