sexta-feira, 5 de novembro de 2010

EDUCAÇÃO OU NEGÓCIO?

Por Nival Nunes de Almeida e Lincoln Tavares Silva, 04 nov. 2010

O novo titular na Secretaria estadual de Educação assumiu influenciado pelos resultados educacionais aqui obtidos. Repete-se a fórmula em busca da solução: mudar o gestor, mudar o discurso, acenar para a sociedade a substituição do velho pelo novo.

Gerir a complexidade do sistema de ensino não é tarefa de responsabilidade de um único dirigente. Em duas décadas, vimos mais de quinze novos secretários. E as políticas públicas para a Educação, mudaram? Espera-se dos gestores o entendimento de que qualidade e excelência requerem planejamento a curto, médio e longo prazo, além de ações transformadoras para as comunidades a que servem. Os índices não dependem simplesmente das técnicas de gestão, mas fundamentalmente das políticas.

Diferem os discursos de posse dos dirigentes educacionais e o cotidiano vivenciado ao fim de seus exercícios. Quando conseguem constituir uma boa equipe, notam que anos de sucateamento não são debelados somente com "novas" ideias e uma boa equipe. A descontinuidade de gestores piora os problemas. Propor melhor Educação requer vontade política que explicite qual Educação se deseja oferecer a população. Exige investimentos superiores aos atuais: salários, carreiras e dedicação exclusiva dignos, com formação (inicial e continuada) e ambientes nos quais as condições de trabalho e estudo resgatem sua importância social. Nas instâncias da rede é preciso, além do novo ânimo, acreditar e investir nas possibilidades de mudança, e isso não pode ser esperado de quem ouve novos discursos a cada ano.

No Brasil, presenciamos tentativas de transformar os sistemas e as instituições escolares em organizações-empresas. Este "caminho do sucesso" prolifera por meio de consultorias privadas e propostas de reformas gerenciais das redes. Visa à eficiência e à produtividade no setor. Associa-se à Educação por evidências, priorizando testes, avaliações e mecanismos meritórios. Não amplia a cidadania, a sociabilidade e o entendimento contextualizado dos conhecimentos sistematizados, emperrando aspectos fundamentais ao desenvolvimento dos estudantes da escola básica. Reduz a formação das pessoas à competição e ao alcance de índices. Sua lógica de execução-produto debilita a democracia. O professor vira mero executor de tarefas e cumpridor de metas gerenciais. Os beneficiários viram elementos do fluxo. Felizmente, sua incompatibilidade, inclusive em países centrais do capitalismo, já é questionada por muitos.

Sem que se definam os insumos necessários à qualidade do ensino é estranho avaliar sua eficiência. Há que se delinear o custo-aluno-qualidade como parâmetro de financiamento e estabelecer seus moldes em cada etapa e modalidade da Educação. Aqulio que produz, pela ação pública, impactos sociais positivos é o que a população reconhece como tendo qualidade efetiva. A imposição da eficiência (otimizando recursos) e da eficácia (restrita aos objetivos organizacionais) pode causar a redução da efetividade.

No país, almejamos o investimento educacional de 10% do PIB até 2014. No Rio de Janeiro, há leis que tratam do Plano Estadual de Educação e da Reponsabilidade Educacional. Seus objetivos e metas representam uma discussão a ser ampliada, garantindo a Educação como direito. Para efetivá-la necessitamos de financiamentos que viabilizem oportunidades de pluralidade e inclusão educacional para todas as comunidades, como escolas de tempo integral, com projetos político-pedagógicos respeitados pelos gestores.

Nada surtirá efeito sem a valorização dos profissionais da Educação. Isso já ocorre para os profissionais de outras carreiras equivalentes. Os que têm implantado as reformas centradas em aspectos gerenciais costumam ser altamente valorizados (financeira e profissionalmente). Suas condições de trabalho dão inveja aos educadores que efetivamente atuam na sala de aula.

Mudemos o cenário, se vamos dar importância à Educação. Não será diferenciando escolas, profissionais e comunidades escolares com sistemas de avaliação por premiação/punição que propiciaremos o desenvolvimento com liberdade e a qualidade social na Educação. Atenção para não seguirmos caminhos imprecisos ou equivocados que outros países vêm abandonando!

* - Nival Nunes de Almeida d Lincoln Tavares Silva são membros do Conselho Estadual de Cultura do Rio.

Fonte: O Globo (RJ)

3. ENQUETE [Arquivo]

Onde os casos de violência são mais recorrentes?

  • Escolas Públicas 76% (53 votos);
  • Escolas Particulares 2% (2 votos);
  • Ambas 20% (14 votos);
Total de votos = 69.

Data e hora do fechamento da enquete: 04 nov. 2010, 09:22hrs.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

NOTÍCIAS...

Diretor da escola em que professora teria aliciado aluna é exonerado

por DIANA BRITO, DO RIO - 04 nov. 2010

A Secretaria Municipal de Educação informou que exonerou da função, nesta quarta-feira (3), o diretor da Escola Municipal Rondon, Luiz Santos Gomes. Antes de receber a notícia, ele prestou depoimento na 33ª DP (Realengo) para esclarecer se sabia do relacionamento amoroso que uma professora da instituição mantinha com uma aluna de 13 anos.

De acordo com a secretaria, todas as escolas, em casos de denúncia de abuso sexual, são orientadas a comunicar à polícia a suspeita e abrir uma sindicância administrativa para apurar os fatos. Além disso, o órgão orienta que o caso seja registrado no Conselho Tutelar. Na tarde de ontem, a Polícia Civil do Rio informou que Gomes deverá ser indiciado por omissão no caso da professora de matemática Cristiane Teixeira Maciel Barreiras, 33, indiciada sob suspeita de estupro de vulnerável e corrupção de menores.

Para o delegado Ângelo Lages, titular da 33ª DP (Realengo), Gomes foi omisso pois não interveio ao ser informado que a professora mantinha um relacionamento com uma aluna de 13 anos.

Em depoimento na delegacia, o diretor da escola afirmou desconhecer qualquer envolvimento amoroso ou sexual entre as duas. Entretanto, a polícia apreendeu atas de reuniões da mãe da menor com a direção da escola, assinadas pelo diretor, nas quais ela se queixa da professora.

"Ele confessou que a letra é dele. Em um dos documentos, ele escreve que, segundo a mãe, a professora aliciava sua filha, que passava horas com ela, inclusive dormindo em sua casa", disse à Folha o delegado. O advogado do diretor da escola, Carlos Dolezel, disse que o delegado está sendo 'precipitado' ao dizer que seu cliente deve responder pelos mesmos crimes da professora. Segundo Dolezel, o professor não tinha conhecimento dos fatos e o que consta no inquérito policial aconteceu fora da escola.

"A professora chegou a visitar a menina em casa, com a permissão da mãe. Essa história está muito confusa no que diz respeito à relação entre a mãe e a professora. Não creio que haja embasamento jurídico algum para indiciá-lo". Segundo o advogado, a ata afirma que havia "um relacionamento atípico" entre aluna e professora. "Mas não há em nenhum momento qualquer conotação sexual ou amorosa", afirmou o advogado de defesa.

O dono do motel Bariloche, local onde professora e aluna supostamente se encontravam, pediu que seu depoimento fosse transferido para esta quinta-feira (4). A mãe da adolescente também deve ser ouvida novamente hoje.


Fonte: Folha de S. Paulo

TRANSTORNO PSÍQUICO "BURN OUT" ATACA DESILUDIDOS COM O PRÓPRIO TRABALHO

Por GUILHERME GENESTRETI, DE SÃO PAULO - 03 nov. 2010 (Folha de S. Paulo)

Perfeccionismo é fator de risco para esta doença insidiosa, que ataca a motivação de gente que rala, sem distinção de cargos hierárquicos. O "burn out", termo que em inglês designa a combustão completa, está incluído no rol dos transtornos mentais relacionados ao trabalho. Foi a terceira maior causa de afastamento de profissionais em 2009, segundo dados da Previdência Social.

A síndrome é bem mais que "mero" estado de estresse, não pode ser confundida. Esse transtorno psíquico mescla esgotamento e desilusão. Pode ser desencadeado por uma exposição contínua a situações estressantes no trabalho, explica a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente no Brasil da Isma (International Stress Management Association), entidade que pesquisa o "burn out".

"A doença é gerada pela percepção de que o esforço colocado no trabalho é superior à recompensa. A pessoa se sente injustiçada e vai se alienando, apresentando sintomas como depressão, fobias e dores musculares."

É a doença dos idealistas, diz Marilda Lipp, do Centro Psicológico de Controle do Stress e professora de psicologia da PUC-Campinas. "O 'burn out' é um desalento profundo, ataca pessoas dedicadas demais ao trabalho, que descobrem que nada daquilo pelo que se dedicaram valeu a pena." O estresse, compara Lipp, tem um componente biológico forte, ligado a situações em que o corpo tem de responder ao perigo. Já o "burn out" é um estado emocional em que a pessoa não sente mais vontade de produzir. "Tem a ver com o valor depositado no trabalho", diz Lipp. "Quem apresenta exaustão emocional, não se envolve mais com o que faz e reduz as ambições pode estar sofrendo do transtorno."

O diagnóstico não é fácil: a apatia gerada pelo "burn out" pode sugerir depressão ou síndrome do pânico. Médicos, professores e policiais são grupos de risco, diz Duílio de Camargo, psiquiatra do trabalho ligado ao Hospital das Clínicas.

DESMAIOS

O professor Cláudio Rodrigues, 43, entrou em combustão total por duas vezes. Começou como um estresse, que foi se acumulando ao longo de dez anos. Ele lecionava 13 horas por dia numa escola da zona sul de São Paulo. E se frustrava com salas lotadas e alunos desinteressados, conta. "Via um aluno meu entregando pizza junto com alguém que nunca tinha estudado. Eu me sentia impotente como professor".

Deprimido, se manteve afastado das salas por dois anos. Em 2004, depois de receber acompanhamento psiquiátrico e tomar medicação, voltou. Em maio deste ano, recaiu. "Nada tinha mudado na escola, estrutura péssima. Eu me sentia responsável por estar levando todos os alunos a um caminho sem futuro." No meio de uma aula, o professor começou a suar e sentir o corpo ficar mole. Saiu e desmaiou na escada. Na semana seguinte, enquanto caminhava para o trabalho, desmaiou de novo. Está afastado desde então. "Sinto uma insatisfação por ver que o meu trabalho não vale a pena", desabafa.

A vigia Lucimeire Stanco, 34, também passou um tempo licenciada por causa de "burn out". Em 2006, ela fazia a ronda noturna em um colégio da zona leste. Passava a noite só e por duas vezes teve que se esconder quando tentaram invadir o lugar. "Sentia desânimo porque não me tiravam daquela situação. Me sentia rejeitada, vítima." Ela se tratou e se readaptou. Hoje, só trabalha de dia, e acompanhada de outros vigias.

Casos como esses são tratados com psicoterapia e antidepressivos mas, segundo Marilda Lipp, a medicação só combate os sintomas. "A pessoa precisa reavaliar o papel do trabalho em sua vida, aprender a dizer não quando não tem condições de executar algo e reconhecer o próprio valor, mesmo que outros não o façam."

FACA NA GARGANTA

"Eu era infeliz e não sabia", afirma a empresária Amália Sina, 45. Hoje ela é a dona do negócio, mas há quatro anos, era a vice-presidente, na América Latina, de uma multinacional e responsável pelas atividades da empresa em 22 países. "Dava aquela impressão de que o mundo girava em torno do trabalho, sempre com a faca na garganta", diz.

Para a empresária, o apoio que teve da família e a prática de exercícios a ajudaram a suportar as pressões. Até ela deixar a função executiva. A empresária adotou a estratégia correta para prevenir um "burn out", segundo o psiquiatra Duílio de Camargo. "A pessoa chega a esse estado sem saber o que tem. Se não tiver acolhimento da família, o desconforto aumenta."

Na visão de Eugenio Mussak, fisiologista e professor de gestão de pessoas, as providências para prevenir essa patologia do trabalho devem partir tanto do sujeito quanto da empresa.

Segundo Mussak, todo mundo que trabalha bastante deve se permitir algumas atividades diárias cuja única finalidade seja o prazer, para compensar o clima estressante. E se o ambiente de trabalho puder criar um "estado de férias", melhor ainda. "Chefes compreensivos, que valorizam o esforço e respeitam os limites de seus subordinados criam um ambiente menos favorável ao "burn out'", diz o professor. Ele continua: "É preciso respeitar o limite entre o que é profissional e o que é pessoal, e a empresa deve estimular o trabalhador a respeitar esses limites também."


NA MIRA DOS ALUNOS

Professores são alvo de estudantes que, por causa de uma nota baixa ou pura implicância, usam a internet para humilhá-los publicamente

por Telma Brito Rocha

As tecnologias da informação e comunicação, os computadores e os celulares tornaram-se meios facilitadores para publicar imagens e comentários depreciativos. Em blogs, fotologs e redes sociais, alunos ofendem e fazem chacota de seus professores ou demais funcionários da escola, com discursos de ódio que muitas vezes incidem em crimes de injúria, calúnia e difamação. Essa “nova moda” tem nome e chama-se ciberbullying, uma violência virtual que se multiplica de maneira inimaginável na internet.

Nos softwares sociais, como o Facebook, Bebo, MySpace, Linkedin, Hi5 e Orkut, esse último preferido entre crianças e adolescentes e que mantém hegemonia no País com 26,6 milhões de perfis. Comunidades são criadas para expor críticas e rejeição a um determinado professor. Assim, alunos buscam ofender e ridicularizar a figura do docente, usando imagens de animais (burro, macaco), bruxas, caveiras ou até mesmo com algum desenho pornográfico.

No Orkut, eles encontram um canal extremamente eficiente para poder extravasar suas desilusões, alegrias, frustrações e, principalmente, ódio e ressentimento com relação a uma nota baixa que tiraram em alguma avaliação da aprendizagem. Nas comunidades, fotos de professores recebem efeitos especiais negativos. Internautas, de maneira anônima ou não, os criticam sem qualquer censura, fazem votações on-line para humilhar o alvo de seus ataques.

Essas comunidades afetam os professores de forma sucessiva e sua imagem é prejudicada e exposta a vários alunos de diferentes séries da escola, que podem, inclusive, participar postando mensagens ofensivas. Lidos por uma quantidade grande de alunos, esses comentários criam e disseminam uma imagem negativa do professor.

IMAGEM DA PROFISSÃO

Os efeitos do ciberbullying podem ser ainda mais graves que os efeitos das agressões físicas, pois têm potencial muito maior de macular a imagem das vítimas e, de certa forma, é mais seguro para os agressores, por conta do suposto anonimato da internet.

Esse tipo de violência tem contribuído ainda mais para fazer aflorar a questão da insatisfação dos professores no magistério, um tema que tem sido objeto de estudos cada vez mais frequentes nos últimos anos, tanto no Brasil como em outros países. Fatores como o estresse da profissão, associado ao excesso de trabalho, baixos salários, desvalorização profissional, dificuldades materiais, indisciplina do aluno e violência na escola, entre outros, são entendidos como causadores do chamado “Mal-estar docente”.

Essas situações podem ainda levar à manifestação de uma síndrome denominada Burnout – um distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso, cuja causa está intimamente ligada à vida profissional. A síndrome de Burnout (do inglês to burn out, queimar por completo) foi assim denominada pelo psicanalista nova-iorquino Freudenberger, após constatá-la em si mesmo, no início dos anos 70.

É preciso atentar para a gravidade da questão. No entanto, decisões provisórias, sem o enfrentamento cuidadoso do problema, só vão continuar a manutenção do efeito negativo na saúde do professor e desenvolvimento do ensino e aprendizagem de crianças e adolescentes.

As escolas devem saber das medidas judiciais que professores podem tomar e ações pedagógicas que podem ser implementadas. Sem isso, os alunos continuarão a repetir essas atitudes porque terão certeza da impunidade. Vão continuar sentindo-se à vontade para arruinar a imagem do professor ou de qualquer outra pessoa. Dar essa permissão é comprometer a própria formação do aluno.

MEDIDAS PREVENTIVAS

As vítimas de ciberbullying têm o direito de prestar queixa e pedir sanções penais. Caso o autor das ofensas tenha menos de 16 anos, os pais serão processados por injúria, calúnia e difamação. Se tiver entre 16 e 18 anos, responderá com os pais. E se tiver mais de 18 anos, assumirá a responsabilidade pelos crimes. Para garantias legais, salve e imprima as páginas da internet onde foram divulgadas as mensagens de difamação ou ofensa sofrida e procure testemunhas. Não hesite em prestar queixa em delegacia comum ou naquela especializada em crimes virtuais, se houver uma em sua cidade. Outras dicas pedagógicas são fundamentais e podem ajudar na conscientização dos alunos: dialogue com eles sobre o ciberbullying, para que não vejam esse ato como brincadeira.

Mostre a repercussão e a responsabilidade jurídica que esses atos podem levar. Converse também com os pais, realize palestras com toda comunidade escolar. Verifique se o regimento interno da escola prevê sanções a quem pratica atos agressivos. Em caso negativo, discuta com colegas gestores a possibilidade de incluir o tema.

Participe mais das redes sociais na internet, expresse suas opiniões, combata as agressões com diálogo; é preciso assumir os espaços das redes sociais como espaço de aprendizagens, cooperação e formação. Conheça as representações que os alunos possuem sobre sua prática pedagógica e reflita sobre elas. Assim, poderemos começar a trilhar um caminho mais eficaz em relação ao combate do ciberbullying.

Fonte: Carta Capital: Edição especial (outubro de 2010).

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

S.O.S. Síndrome de Burnout

PEDAGOGIA DA DISTINÇÃO: a escola como sistema de reprodução

Salomão Ferreira de Souza*

“Posso imaginar-me tudo, porque não ou nada. Se fosse alguma coisa não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano, o rei da Inglaterra não pode faz-lo, porque o rei da Inglaterra está privado de ser, em sonho, outro rei senão o rei que é. Sua realidade não o deixa sentir”. (PESSOA, Fernando, por seu auterônomo Bernardo Soares, em O livro dos desassossegos. Cia das Letras, 2006, p. 185).

A autora Anne Van Haecht (2008) faz uma análise da Teoria da Reprodução apontando, inicialmente, as principais influências de três grandes tradições sociológicas: Durkheim, por sua ruptura com o senso comum e o confronto da teoria com a empiria; Max Weber, por sua teoria sobre o método centífico e sua definição das modalidades da legitimação e, finalmente, Marx por sua situação dos sujeitos no espaço das posições sociais e pelo reconhecimento, em Althusser, do papel da escola no esquema de reprodução das relações de força.

No texto Haecht identifica cinco conceitos fundamentais para construção da teoria de Bourdieu e Passeron: poder e violência simbólica que legitima as relações de força; ação pedagógica, constitutiva da violência simbólica exercida pelos educandos do grupo familiar e professores; autoridade pedagógica pelo direito de imposição legitimada; trabalho pedagógico que cuida da formação durável (o habitus) e, por fim o próprio habitus pela interiorização do arbitrário cultural que não se acaba mesmo após o fim da pedagogia que o fixou no imaginário dos sujeitos.

A autora, em sua leitura, entende que é na família que se constroe o habitus primário, mas, é a escola que testa sua eficácia na perpetuação das relações sociais. Afirma Heacht, dessa vez tendo como base os textos A Distinção, (1979) e O Sentido Prático (1980), que Bourdieu pensa a epistemologia na sua centralidade lógica e prática à qual recorremos para agir e julgar os outros e as coisas. Dessa forma a distinção transforma pequenas diferenças em grandes como acontece entre o herdeiro e o bastardo, o primogênito e o caçula, o aprovado e o reprovado no vestibular ou concurso. Para ele, essas práticas simbólicas variam em virtude da objetividade jurídica das diferenças.

Assim as distinções são mensuradas pela qualidade de capital (simbólico ou monetário), os amigos e colegas, o grau de simpatia que acabam por determinar nossa capacidade de pertencer ou não ao grupo, ao clube ou classe social. Em “A Distinção”, Bourdieu afirma que o espaço social é definido pelo capital global e sua estrutura bem como pela evolução dessas duas espécies de capital (social e cultural) na trajetória dos agentes.

Bourdieu (1979), citado pela autora, define metaforicamente a aquisição desse capital simbólico como um espaço de jogo cujas regras seriam o que ele chama de campo e cujas habilidades, inclinações ou aptidões ele chama de habitus. A esse jogo ele denomina metáfora econômica e espacial que combina perfeitamente o campo e o interesse.

Voltando a Haecht, essa conclui que há, na análise de Bourdieu, um claro aumento na duração média dos estudos contra uma tendência de baixo rendimento desse capital. Contra essa inflação, afirma que as diferentes classes sociais se confundiram e perderam a capacidade de domínio de suas incertezas.

Anne van Haecht, após uma breve conclusão, fala das críticas ao esquema de reprodução afirmando que a racionalidade acontece pela negação, em Hegel, e que não podemos dizer que a busca dos interesses individuais contribui para o interesse geral uma vez que é a falta de clareza de seus interesses que leva o sujeito à condição de submissão; a escolha das especializações e o gosto dos indivíduos privilegiados nem sempre visam o ganho, mas a apreciação despretenciosa do assunto. A autora cita Raynaud (1987) para mostrar que Bourdieu demoniza a autonomia do sujeito. Da mesma forma Ferry e Renaut (1985) conjecturam que, se as ações práticas fazem a história, cada ação é o produto de uma determinação direta das estruturas objetivas do mundo social. Como na astúcia da razão, afirma que dessa forma a história é feita pelos sujeitos que desconhecem o que fazem. Ferry e Renaut (1985) apontam na teoria de Bourdieu uma sociologia coisificada e afirmam que a história não é um processo sem sujeito que transforma os indivíduos em autômato, subjugado pelas leis mortas de uma história da natureza.

Assim, tal como destaca a autora em debate, Raynaud (1987), Ferry e Renaut (1985) criticam Bourdieu, principalmente em seus trabalhos sobre a escola e nos estudos sociológicos, pelo determinismo que ele constroe. Lembra ela de Boudon (1977) que levanta a questão do desencarnamento dos indivíduos na sociologia de Bourdieu e os retira do determinismo simplista para colocá-los na família e também em outros grupos sociais, dispondo não somente de recursos financeiros mas de um certo capital social e refere-se a Weber para fundamentar sua crítica. Bordon rejeita esse sujeito irracional de comportamento que não pode ser interpretado pelas razões convenientes, mas por causas pré-determinadas que agiriam sobre os sujeitos sem que eles tenham consciência delas.

A leitura que podemos fazer de Bourdieu e Passeron deve levar em consideração sua visão macro da sociologia, esquecendo os pequenos fenômenos que fazem, de fato e por análise, a diferença nos rumos que cada sujeito toma em sua trajetória de construção cultural e histórica. Vale ressaltar que é nas relações familiares que se constroe o alicerce para o sujeito cultural e histórico. Situar o indivíduo social pela origem familiar e de classe a que pertence é, sociologicamente, pela própria percepção da essência da teoria de Bourdieu, dizer que não adianta o sujeito tentar construir sua própria história, ela é um destino que está escrito nas estrelas e não há muito o que fazer, mesmo porque a sociedade está munida de ferramentas que cuidam de manter essa “verdade”.

Pensando na sociologia macroscópica de Bourdieu e Passeron seria impossível conceber as revoluções. É como querer ignorar a relação dos pequenos burgos da Idade Média com o maio de 68 (Hobsbawm, 2006, p. 318-319), quando há a inversão de poder ou então ignorar as pequenas ações familiares e escolares nos movimentos que, não só apontam para novos sujeitos, novos grupos sociais, novas organizações de poder global mas, principalmente, apontam para possibilidades que vão além do desejo dos países predestinados a colonizar e daqueles que se destinam a ser colônia justificando essa distinção. Aí sim, há realmente um discurso e um grande esforço para se fazer valer a teoria macroscópica pois ela nos impede de perceber o valor das mínimas ações e pequenos fenômenos que são os verdadeiros responsáveis pela construção histórica de cada sujeito dentro de seu grupo.

Referências:

HAECHT, Anne Van. Sociologia da Educação: a escola posta a prova. Por to Alegre: Ed. Artmed, 2008.

HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: o breve século XX - 1914-1991. Companhia das Letras, 2006.


* Salomão Ferreira de Souza - é escritor e graduando em pedagogia na FAE (Faculdade de Educação) - BH - UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais) - Este trabalho tem como objetivo analisar o texto de HAECHT, Anne Van. O esquema da reprodução: da escola ao sistema de classes sociais. In: HAECHT, Anne Van, Sociologia da Educação: a escola posta a prova. Porto Alegre: Artmed, 2008, onde a autora busca em Bourdieu e Passeron elementos para justificar o discurso de distinções e o processo de reprodução negadora das rupturas.