sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MUNDO INFANTIL: reflexões sobre a mídia e sexualidade


por Carla Brittes, Cássia Rocha, Luís Augusto, Paloma Toche, Raquel Barbosa, Simone Moura, Tamires Godoy*

Cada vez mais tem-se observado o excessivo número de comerciais de TV, programas infantis, desenhos animados e jogos eletrônicos carregados de apelos eróticos, de violência e atitudes antiéticas. De acordo com Marcos Nisti (2010), coordenador da campanha “Semana do desligue a TV”, 98% dos lares brasileiros tem televisão.

Conforme artigo publicado pelo site Socialtec, “Erotismo infantil nos programas de TV” de Márcio Ruiz Schiavo professor especialista em marketing social, das 150 crianças entrevistadas por ele, 47,3% manifestaram assistir TV mais de 4 horas diárias e 18,6% assistem mais de 3 horas diárias. Este dado é bastante preocupante. Além dos programas ditos infantis as crianças assistem novelas, programas de humor, séries, entre outras atrações que não são apropriados para determinadas idades.

Nessa atmosfera de desinformação, há algum tempo, surgiu a tendência de se confundir sexualidade com ato sexual e, até mesmo, com o coito. Dessa forma, a discussão sobre sexualidade é alijada do seu verdadeiro percurso, tomando rumos que vão desde o tom da brincadeira à libertinagem. Além disso, para maximizar a confusão no entendimento do assunto, o termo amor, que define um sublime sentimento, é utilizado como sinônimo de ato sexual.

Há que se esclarecer que sexualidade não pode, e nem deve, ser confundida e definida como ato sexual e/ou coito. Sexualidade é o termo que se refere ao conjunto de fenômenos da vida sexual de um ser humano. Ela é um dos aspectos centrais de nossa personalidade e, por meio da qual nos relacionamos com o outro. O ato sexual pode ser definido como qualquer ato que envolva a sexualidade, tais como um toque, um afeto, carícia, olhar, variantes sexuais e até mesmo a penetração. Já o coito é o termo correto para se definir a penetração propriamente dita, a qual muitos confundem como sexo ou ato sexual único (CHAUÍ, 1984).

Muito mais do que o simples debate sobre educação sexual, utilizado muitas vezes apenas para afirmar a diferença dos gêneros, a discussão sobre sexualidade deve ser tratada de forma séria, necessária e sem preconceitos dentro e fora da escola.

A erotização precoce, estimulada de diversas formas, exige do educador atenção redobrada. É urgente a percepção em relação aos desenhos, jogos eletrônicos, filmes e revistas que trazem ora disfarçados, ora explícitos, personagens sensuais que atuam subliminarmente no inconsciente infantil.

Expostos constantemente durante a programação da TV, propagandas, cartazes, etc., a estes estímulos que relacionam amor/sexo, adultos e crianças naturalizam esta relação e legitimam comportamentos sexuais precoces, acreditando-os como manifestação da sensibilidade. Atentando para este fato, observamos como os “marqueteiros” e os profissionais da mídia se utilizam desta associação para despertar o interesse de consumo em seus espectadores e promover produtos. Sendo agentes passivos na relação mercado versus consumidor, as crianças passam a ser alvo fácil para se atingir os interesses comerciais escusos de certas empresas que, se aproveitando de personagens “inocentes”, estimulam o consumo associado à satisfação de necessidades sentimentais.

A televisão é um dos meios de comunicação de maior acesso e por isso é também o principal veículo de estímulo ao processo de erotização na infância. A grade de programação dos canais vem sempre recheada de sexo, mulheres bem aparentadas e produtos para comprar. A mídia, nos dias atuais, parece se resumir a isso e, não raro, três coisas estão interligadas cabendo ainda dizer que tais temas não estão manifestos apenas em programas adultos, mas também nos infantis.

Como a primeira aprendizagem da criança é através da imitação, ela internaliza todos os conceitos passados e, se não houver um acompanhamento pedagógico, é claro, ocorrerá uma reprodução desses valores. Marta Kohl (1999) deixa claro como a criança, ao brincar (brincadeira de faz-de-conta), imita o adulto e se comporta de forma avançada a sua idade. Sendo assim, a criança tem o adulto como o seu modelo.

Pode-se observar também que os estímulos eróticos e as referências de gênero com cunho machista são recorrentes nos programas infantis, os quais têm suas atrações apresentadas por mulheres bem apresentadas, maquiadas e com pouca roupa reforçando o mito que o papel feminino na sociedade é o de educar e entreter. As apresentadoras impõem um padrão de beleza que influencia no modo de como a criança quer vestir e ser. Beleza, charme e sensualidade: requisitos básicos para se dar bem na vida. Nota-se que conhecimento intelectual não está na lista.

As meninas vêem seu corpo não apenas como fonte de prazer, mas também de consumo e status social. É muito simples perceber por que isso ocorre, uma vez que o corpo feminino há muito faz parte da exposição banalizada, considerada natural e bela pela mídia. Os meninos absorvem isso com a ideia de que a mulher também é um produto a ser consumido e, caso este tenha algum problema, basta trocar a marca.

A sexualidade é vista somente pelo lado sensual, erótico e excitante, enquanto deveria ser canalizada para a construção de emoções, relações pessoais e afetividade. O brincar, que é típico dessa fase, já não existe, o importante é parecer adulto e adotar os valores da idade decadente. As crianças são “anãzinhas” e daqui a pouco, num retrocesso histórico, o termo “infância” caíra por terra. Tais valores são recorrentes nas programações, visto que a maior parte do dia, a criança fica com a “babá eletrônica”, pois, os pais, cada dia mais atarefados, com menos tempo para se dedicar a seus filhos, muitas vezes desconhecem o conteúdo da programação televisiva ou não refletem sobre o assunto. Assim, sem a intervenção deles ou de outro adulto consciente, as crianças nem sempre capazes de escolher algo adequado, acabam por ficarem horas expostas a uma quantidade absurda de estímulos eróticos, como por exemplo, apresentação de dançarinos de axé, cenas de orgia em clipes musicais, corpos turbinados e flexíveis, criminalidade e violência. Além disso, ainda tem os jogos eletrônicos, os quais apresentam cenas de sexo, de assassinato e assaltos à mão armada.

Diante desta realidade é urgente que educadores percebam como esta naturalização da lascívia vem adentrando o contexto escolar a partir das manifestações culturais. Crianças em danças com excesso de sensualidade, músicas com conteúdo ofensivo, roupas que estimulam o desejo sexual, são coisas aceitas em nome de uma “abertura cultural” às vezes mal interpretada.

Talvez a resistência às investidas da TV seja muito dura e o modismo tente nos engolir. Contudo, no dia adia da sala de aula, ao conhecer cada criança com a qual se lida, que o educador possa descobrir o ponto chave para se atingir realmente a sensibilidade daquele ser que busca, nas interações com seus semelhantes, o desenvolvimento por completo.


Referências

CHAUÍ, Marilena. Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1984.

NISTI, Marcos. A TV não é o único meio que liga as pessoas ao mundo. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos - Acesso em: 12 jun. 2010.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento: um processo sócio-histórico. 4. ed. São Paulo: Ed. Scipione, 1999.


* - Este artigo tem por objetivo despertar no leitor uma visão crítica relacionada à forma como a sexualidade é tratada atualmente no contexto escolar. Foi elaborado pelos estudantes a partir de discussões realizadas no III Núcleo Formativo do curso de Pedagogia, da Faculdade de Educação (FAE) da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), quando foram debatidos temas relacionados a “Criança na idade da mídia”. O artigo foi recentemente publicado na Revista "Elas por Elas", do Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.

Nenhum comentário:

Postar um comentário