segunda-feira, 6 de junho de 2011

Preconceito prejudica desempenho de alunos na sala de aula

Por Antôniop Góis


Maria Helena Souza Patto, docente do Instituto de Psicologia da USP e pesquisadora na área de Psicologia Social da Educação Escolar, afirma que o preconceito de classe pode ser uma das razões que explicam a diferença de expectativas de sucesso entre os alunos mais pobres e os mais ricos na rede pública do ensino básico.

Leia abaixo a íntegra da entrevista.

Folha - Olhando para as estatísticas de hoje, os professores que projetam que muitos de seus alunos não chegarão ao final do ensino médio estão sendo até realistas. No entanto, não se trata de um caso de profecia que tem tudo para se realizar? Há evidências de que essa baixa expectativa do professor afeta o desempenho do aluno?

Maria Helena Souza Patto - Penso que pode haver uma dose de "realismo" nesta previsão, mas é preciso considerar também que ela pode conter outros determinantes mais implícitos e sutis. NesSa atitude "fatalista" pode estar presente uma "naturalização" do existente, quando vários intelectuais e pesquisadores brasileiros e estrangeiros já mostraram que não se pode entender a política educacional de um país sem entender o que se passa nos planos econômico, social, político e cultural. Pesquisas já realizadas com professores sobre as causas do fracasso escolar generalizado (salvo exceções que confirmam a regra), entre crianças e adolescentes que frequentam a rede pública de ensino fundamental e médio no país ( e que estão saindo desses níveis sem terem adquirido habilidades e conhecimentos que cabe à escola ensinar), mostram que um dos grandes determinantes desse resultado é a presença do preconceito de classe e étnico, que estrutura a vida cotidiana nesses estabelecimentos escolares, presente de modo claro nas falas de duas educadoras numa escola de um bairro periférico da cidade de São Paulo:

Professora: O principal é ter carinho em casa. Pode ter até um pouco de fome, mas precisa sentir que tem alguém interessado nela, que gosta dela. A mãe não tem aquela sensibilidade de um elogio. (...) Essas mães são umas coitadas, não têm sensibilidiade, não têm nada. (...) A diferença [entre mães sensíveis e insensívweis] já é de nascença, já nasce com a pessoa, é agressiva de nascença."

Orientadora pedagógica: É muito difícil para a criança da periferia. Escreve aí - pe-ri-fe-ria (enfatiza cada sílaba), porque a gente já sabe a bagagem que esta criança traz de casa.

Com essa visão negativa dos alunos e de suas famílias, educadores estão prontos a se relacionarem com essas crianças de modo a confirmar essas expectativas de que serão incapazes de aprender, por meio de vários comportamentos explícitos (agressões verbais e até físicas, como humilhações em sala de aula, arrancar e rasgar folhas de caderno que contèm erros etc.) ou mais sutis, como a frequência com que as atendem em suas dúvidas etc.

Assim sendo, eu diria que essa profecia se realiza permanentemente nas escolas brasileiras, pois estamos em um país em que a relação das classes que dominam com os que lhes são subalternos sempre foi marcada pela violência e no qual o preconceito de raça e de classe é uma realidade, desde a constituição do sistema nacional de ensino brasileiro, na primeira metade do século 20, quando o racismo científico fazia parte do discurso de nossos cientistas e de profissionais que atuavam na rede escolar procurando, por meio da educação, reverter a tendência à loucura e ao crime que seria característica de negros e mestiços.

Folha - O que fazer para reverter esse pré-conceito que os professores tem em relação a seus alunos?

Trata-se de investir na formação dos professores. Formação esta cada vez mais calamitosa desde os anos 70, quando a educação escolar foi invadida por uma mentalidade tecnicista e o cotidiano escolar foi invadido por uma segmentação do trabalho pedagógico que criou uma hierarquia entre especialistas e professores, e estes foram desqualificados e colocados em posição subalterna em relação a pedagogos, psicólogos, orientadores etc. Recentemente, o Ministro da Educação disse que "é preciso valorizar o professor". No entanto, essa valorização ainda não aconteceu como política educacional sustentada no país. Ao contrário, a proliferação nos últimos anos de cursos de pedagogia em instituições privadas de ensino superior de baixíssima qualidade só tem feito mascarar o problema da formação de professores. Numa política educacional oficial que se contenta com estatísticas, é cada vez maior o número de professores com nível superior, e isso parece bastar aos políticos. Para mim, educadores são trabalhadores intelectuais, ou seja, precisam de formação intelectual, precisam adquirir a capacidade de refletir sobre a realidade brasileira e o lugar que lhes é destinado na manutenção da desigualdade social e na sua justificação.

Florestan Fernandes insistia: a valorização dos professores deve incluir simultaneamente a boa formação, a boa remuneração e a participação ativa desses trabalhadores nas decisões que dizem respeito ao seu trabalho.

Folha - Pensando no outro extremo, também não seria irrealista cobrar do professor que seja capaz de fazer todos os alunos terem sucesso escolar, já que sabemos que condições alheias ao seu trabalho influenciam no rendimento escolar?

São poucas as crianças portadoras de problemas psíquicos e físicos que dificultam a aprendizagem escolar. Como afirma Maria Cristina Kupfer, uma psicanalista voltada para a reflexão e a pesquisa sobre a contribuição dos conhecimentos psicanalíticos para a educação, 98% das crianças estão aptas a aprender. Mas mesmo esses 2% têm direito a esse espaço da infância chamado escola. E são muitas as experiências de ensino, aqui e no exterior, que mostram que as condições de vida dos alunos são menos decisivas em sua capacidade de aprender quando eles frequentam uma escola que os respeita e os acolhe, que os vê como cidadãos e que conta com professores empenhados em exercer sua profissão com compromisso ético-político; e que sabem que cabe à escola realizar seus objetivos, em vez da desculpa muito frequente entre professores: "sem ajuda em casa, não vai".

Isso vem de uma boa formação educacional dos próprios professores. Um dos grandes problemas que temos hoje é que os professores são, eles próprios, produtos da falência do ensino escolar brasileiro.

Assim sendo, tenho recusado convites para participar, por exemplo, de Comissões do MEC de reforma do currículo do ensino fundamental. A meu ver, e como eu disse a eles, esse tipo de medida equivale a começar a construção de uma casa pelo telhado. O que está faltando é compromisso das autoridades com um ensino de qualidade a todas as crianças e jovens _um ensino voltado para a formação intelectual de um povo, e não um ensino limitado à pseudo-formação de um ensino meramente técnico. E para isso é preciso uma real vontade política de investir para valer na formação dos educadores.


Levantamento inédito revela que mais de 28 mil menores infratores cumprem medidas socioeducativas no Brasil


Por Juliana Castro

RIO - Um levantamento inédito do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revela o perfil dos 28.467 menores infratores com processos ativos que cumprem atualmente medidas socioeducativas no Brasil. Deste total, 4.546 são internos em estabelecimentos educacionais, 1.656 cumprem internação provisória e 8.676 estão em liberdade assistida. Os dados fazem parte do Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes em Conflito com a Lei (CNCA), criado em fevereiro de 2009 e atualizado por juízes das varas da infância e juventude em todo o país. Antes, não havia em funcionamento nenhum sistema com informações unificadas.

Mais de 90% dos jovens (25.802) que cumprem medidas educativas são do sexo masculino, contra 2.665 do sexo feminino. Como se trata de um cadastro recente, ainda deve passar por aprimoramentos a fim de fornecer dados mais precisos. A cor dos adolescentes, por exemplo, não foi informada em 13.483 dos casos. Sabe-se que os jovens de cor branca são 4.967 e os negros, 2.101. Os pardos totalizam 7.774 e os indígenas, 47.

Desde que o sistema foi criado, 86.696 adolescentes foram cadastrados. O total de processos chega a 112.673, levando-se em consideração que um mesmo jovem pode ter cometido mais de um ato infracional. Atualmente, existem 80.490 processos ativos e 4.796 foram extintos porque o menor cumpriu a medida estabelecida. Outros 900 deixaram de existir porque foram prescritos.

Mais de nove mil menores cumprem serviços comunitários

Já foram extintos 1.259 processos porque o jovem cumpriu mais de 21 anos. Segundo a lei, o tempo máximo de internação para um menor é de três anos. Há cada seis meses, há uma reavaliação da medida sócio-educativa estabelecida ao jovem.

- Agora, o juiz faz uma pesquisa e vê se o adolescente em questão já praticou algum outro ato infracional . Antes, se o jovem tivesse praticado um ato infracional no Rio Grande do Sul e se mudasse para o Rio de Janeiro, por exemplo, ninguém no estado saberia o histórico dele. Se tivesse um outro problema no Rio, ficaria como se fosse o primeiro - disse o juiz auxiliar da CNJ Nicolau Lupianhes.

Com o cadastro é possível quantificar quantos menores cumprem cada medida educativa. Do total, 992 levaram uma advertência do juiz. Mais de 300 foram incluídos em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento contra o uso de álcool e drogas, cerca de 200 foram obrigados a reparar o dano feito e foi requisitado tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial, em 342 casos. A maioria (9.111), no entanto, foi obrigada a prestar serviços à comunidade .

Grupo percorre unidades de internação e recebe relatos de violência

Além de ser responsável pelo cadastro, o CNJ conta com um programa - o Justiça ao Jovem - que percorre desde junho do ano passado as unidades onde os jovens cumprem medidas socioeducativas. Já foram visitados 26 estados e o Distrito Federal. São Paulo foi deixado propositalmente por último, já que concentra quase metade das quase 250 unidades do Brasil. As equipes que percorrem as unidades são formadas por um juiz - que nunca é do estado que está sendo inspecionado -, servidores de cartório e técnicos. Nas andanças, o CNJ recebeu relatos de violência e, em pelo menos três estados, as evidências dos maus tratos são mais concretas:

- Em Santa Catarina e Pará, por exemplo, a violência era quase que institucionalizada - disse um dos coordenadores do programa Justiça ao Jovem, o juiz auxiliar Reinaldo Cintra.

Nas inspeções, também foram encontrados estabelecimentos em situação preocupante.

- Causou muita preocupação o estado de Pernambuco, pela falta de vagas. Há quase o dobro de adolescentes custodiados em relação ao número de vagas - disse Cintra, que completou:

- Cada estado tem uma situação própria. Em muitos, os jovens ficam em locais úmidos, sem qualquer salubridade. O despreparo é bem característico.

Em cada unidade que visita, o grupo ouve a direção e 10% dos jovens do estabelecimento. Além disso, os processos também são checados, porque as formas como os juízes executam cada um deles varia de local para local. O juiz que comandou a visita produz um relatório, envia aos coordenadores no CNJ que, por sua vez, fazem um resumo para ser apresentado ao presidente do órgão, Cezar Peluso. O texto também é levado ao plenário do conselho. Caso as medidas sugeridas para acabar com os problemas sejam aprovadas, o governador, o Tribunal de Justiça, entre outros órgãos dos estados, recebem as sugestões para colocá-las em práticas. Entre estas sugestões estão o fechamento de unidades, a contratação e a capacitação de funcionários.

Caso os estados não apresentem melhoras, o relatório do CNJ pode servir de base para o Ministério Público entrar com ações judiciais a fim de melhorar o sistema.


Fonte: Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/06/06/levantamento-inedito-revela-que-mais-de-28-mil-menores-infratores-cumprem-medidas-socioeducativas-no-brasil-924619192.asp#ixzz1OVltbDD2
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domingo, 5 de junho de 2011

Olhar de criança e cidadania

Sonia Maria Henrique*

Misto de indignação e mal estar foi o meu sentimento após as leituras dos textos “Cidadania para quem” (Ver: http://www.recantodasletras.com.br/trabalhosacademicos/724625) e “Cidadania como sentimento” (Ver: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2204782) publicados pelo professor Lúcio Alves de Barros da Faculdade de Educação (UEMG/BH).

Nascida em uma cidade do interior de SP (1952) vivi minha infância e juventude sob o árduo período da ditadura militar dentro de uma família da classe operária, onde o ícone maior de exemplo de bondade e benfeitor, para a classe trabalhadora e os pobres, tinha sido o ex-presidente Getúlio Vargas. Muitos episódios marcaram minha infância. Sem entender bem do que se tratava, disputei com outras crianças as vassourinhas douradas distribuídas durante a campanha eleitoral de Jânio Quadros para a presidência da república, acompanhei pelo rádio e jornais o seqüestro do cônsul americano no RJ, meu vizinho sendo convocado pelo exército às pressas num dia de folga, tanques do exército dando proteção a Estrada de Ferro Santos Jundiaí, o exército nas ruas, um clima tenso no ar sob meu olhar de criança.

Novos termos entravam pelos meus ouvidos como, seqüestro, AI-5, tortura, ditadura, exilados, governo militar, etc. No comando da nação não posso me esquecer daquelas imagens de presidentes em seus trajes militares, cheios de estrelas e divisas, como os senhores Geisel, Castelo Branco, Médici e, em especial, o Sr. João Batista de Figueiredo, que certo dia, dando uma entrevista, falou que preferia o cheiro dos cavalos (ele adorava cavalos) do que do “povo”, acho que ele falou brincando.

Alguns anos depois com o fim do AI-5 e a Lei de anistia me lembro da imagem de muitos exilados chegando de avião de volta ao Brasil, dentre eles o escritor Fernando Gabeira que dias depois aparecia nas praias do RJ trajando uma minúscula sunga de crochê e óculos de sol. Já mais atenta aos fatos vi minha aula de matemática ser interrompida, pois, alguns homens do lado de fora da sala vieram “conversar” com meu professor, e também vi a retirada da disciplina filosofia da grade curricular do meu curso colegial, e assim foi entre tantas outras coisas.

Cidadania no Brasil poderia ser traduzida como de deveres para os pobres e direitos para os ricos, já que a Constituição de 1988 preservou privilégios defendidos por grupos de interesses e não apresentou solução para problemas apontados por estudos como o analfabetismo, a violência urbana, o saneamento básico, a educação, a saúde, a desigualdade social, etc., herança agravada por esse período de ditadura no país.

A esperança para que se tenha uma cidadania justa e plena vem justamente do poder de transformação que pode acontecer através da educação, da conscientização do cidadão sobre seus direitos civis, em uma democracia justa para todos.

Não podemos nos omitir da responsabilidade individual de cada um de nós para avançarmos nessa direção.

Não podemos deixar passar a oportunidade de fazer acontecer.


“Para que a educação para a cidadania se torne emancipatória, deve começar com o pressuposto de que seu principal objetivo não é ajustar os alunos à sociedade existente; ao invés disso, sua finalidade primária deve ser estimular suas paixões, imaginação e intelecto, de forma que eles sejam compelidos a desafiar as forças sociais, políticas e econômicas que oprimem tão pesadamente suas vidas. Em outras palavras, os alunos devem ser educados para demonstrar coragem cívica, isto é, uma disposição para agir, como se de fato vivessem em uma sociedade democrática” (GIROUX, Henri. Teoria crítica e resistência em educação: para além das teorias de reprodução. Petrópolis: Vozes, 1986. p.262).



*- Sonia Maria Henrique é estudante do Curso de Pedagogia da FAE (Faculdade de Educação) da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais).

Ônibus com estudantes indígenas é alvo de atentado no Mato Grosso do Sul

Globo.com /G1 MT


CAMPO GRANDE - Um ônibus com cerca de 30 estudantes de aldeias indígenas de Miranda, no Mato Grosso do Sul, foi alvo de atentado na noite de sexta-feira. O ataque ocorreu perto da Aldeia Babaçu, por volta de 23h, na noite de sexta-feira, quando o veículo, que presta serviços à Prefeitura, retornava com alunos indígenas do ensino médio e cursinhos. Segundo relatos, um homem saiu de dentro do mato e atirou contra o para-brisa do ônibus um coquetel molotov, que é uma espécie de bomba de fabricação caseira. Ao mesmo tempo, o veículo foi apedrejado nas laterais. A parte dianteira do ônibus pegou fogo, causando pânico entre os estudantes.

- Foi pânico total , cada um queria escapar - conta o índio terena Edivaldo Francisco Martins, de 29 anos, um dos passageiros.

Três estudantes e o motorista estão internados. O caso mais grave é o do motorista, Laércio Xavier, teve queimaduras no rosto, mãos, braços, pernas e parte do pescoço. Os indígenas temem novos ataques e pedem justiça. Não há pistas sobre a autoria do crime.

Violência do dia a dia



A educação do MEC

MEC abrirá investigação formal sobre material com erros


Agência Estado - 4/06/2011 - 18:32

O Ministério da Educação (MEC) e a Controladoria-Geral da União (CGU) vão abrir uma investigação formal para identificar os responsáveis pelo envio do material didático que ensina que dez menos sete é igual a quatro, entre outros erros, de acordo com informações da Agência Brasil. Os exemplares foram impressos e distribuídos a alunos de escolas de séries diferentes em escolas públicas da zona rural do País. Conforme a agência, a portaria será publicada na segunda-feira (6), no Diário Oficial da União.

Em comunicado oficial, o MEC reconhece que "erros de diagramação, editoração e revisão" foram constatados em fevereiro, por especialistas contratados pelo órgão. Com isso, "os professores de educação no campo foram orientados, então, a utilizar somente livros didáticos em suas aulas". Foram gastos R$ 13,4 milhões na impressão do material didático com conteúdo errado. Os livros foram distribuídos para cerca de 40 mil classes, que atendem 1,3 milhão de alunos.

No segundo semestre do ano passado, foram encontrados erros graves em 200 mil exemplares da coleção Escola Ativa. No total, foram impressos 7 milhões de livros da coleção. A nota oficial minimiza o erro ao afirmar que "o programa Escola Ativa atinge a menos de 1% dos estudantes de escolas públicas de educação básica em todo o País". Para analisar o material, o MEC contratou uma comissão de professores universitários que "chegaram à conclusão de que uma nova versão do material de apoio do programa Escola Ativa só poderá ser reutilizada depois de uma discussão com os coordenadores do programa, no próprio MEC".


Fonte: O Estadão

Bombeiros sem fogo e com fogo “amigo”

Foto de Fernando Guimarães - Agência Globo


Lúcio Alves de Barros*

Vejo em tempo real o momento no qual terminou o movimento dos Bombeiros Militares no Estado do Rio de Janeiro. A história sempre se repete com corpos ou sem corpos, mas sempre com muita humilhação e sofrimento. O banal do episódio é a simplicidade da causa: o direito inquestionável de melhores condições de trabalho e com elas um tímido aumento de salário. Os bombeiros militares do Rio de Janeiro no começo da noite de sexta-feira saíram às ruas em mobilização e já no batalhão central resolveram tomar o órgão público iniciando o começo da repressão e das reuniões das autoridades para barrar o grande contingente mobilizado no interior e fora do quartel.

Os bombeiros teriam “invadido” - por volta das 19h30 da noite - o local no qual eles mesmos têm como templo e símbolo de pertencimento. Até o momento no qual escrevo estas linhas eles se encontravam presos e sob vigilância. Um bom número deles ainda se encontrava nas imediações do quartel aos gritos de desespero e resignação. Os “perigosos” manifestantes, que são de quartéis de todo o estado, usaram apitos e afixaram faixas no pátio e nas imediações próximas do batalhão. O cuidado aqui é com as palavras e as metáforas utilizadas pela mídia, como a “invasão militar”, a “guerra nas ruas”, os “confrontos” e “posicionamentos estratégicos”. Quem assiste as tristes imagens, se não acompanha a história de nosso estado repressor, pensará na existência de uma “nova guerra”, pois todos estão contra todos. Todos funcionários do Estado que recebem as mesmas ordens, seguem mais ou menos os mesmos códigos e regras e possuem - em grande medida - a mesma subcultura e, aos olhos da população, fazem parte da força ostensiva do Estado.

De todo modo a manifestação, como tudo na vida, não saiu do nada. Desde o mês de abril os bombeiros já haviam se mobilizado em ruas da cidade exigindo alguns direitos. Direitos elementares a meu ver que, de acordo com a mídia histriônica e claramente associada ao governo, tem por nome um conjunto de reivindicações cristalizadas no clichê “Dignidade já”. Estas, como de costume, são de aumento salarial tendo como piso R$ 2 mil líquido, haja vista que os bombeiros recebem R$ 950. Obviamente, os bombeiros pedem melhores condições de trabalho e por mais simples que possa parecer, o recebimento de vale-transporte.

Como é da política do governador Sérgio Cabral, logo foi acionado o famigerado BOPE, o qual tratou de resolver a questão da “melhor” maneira possível. Entraram na casa que possivelmente não lhes eram estranha, tocaram em bom som “a casa caiu”, lançaram bombas de gás lacrimogênio e efeito moral e alguns tiros de festim e de verdade foram jogados para cima, para baixo, para os lados e tudo mais. “O governador manda, o Bope faz”, é o lema que vimos no “Tropa de elite” ao vivo e a cores. As imagens e as informações são tristes, desoladoras, vergonhosas. Um conflito entre iguais, um conflito entre oprimidos e vítimas de um estado de arte que tem apostado na repressão e na violência como tática de segurança pública. Passou longe qualquer possibilidade de direitos humanos ou mesmo uma negociação séria e possível de acordo a priori. A tentativa, infelizmente muito tarde, resultou na invasão do batalhão, com portões quebrados e agressão a superiores. O fato tornou-se sério e o desequilíbrio de ambas as partes tornou-se norma.

É preciso perguntar a que ponto chegamos com forças coercitivas do estado se debatendo e se humilhando em rede nacional. Mais de 600 bombeiros militares foram presos, outros, inclusive mulheres e crianças ficaram como alvos no interior do quartel com as bombas e a possibilidade do uso da força física e letal do BOPE. Não é preciso muito para dizer que trata-se de uma ação de “segurança pública” contra o inimigo que, paradoxalmente, era amigo.

Essa é a “nova” e “velha” cara da política de segurança pública que tem como caixa de ressonância o Estado do Rio de Janeiro: a identificação e a busca do inimigo. Identificado o alvo, passa-se para uma negociação e identificação de inimigos políticos. Após a desculpa já formalizada - sempre no campo normativo da lei da justiça militar - chama-se a tropa de choque, o exército privado do governador denominado BOPE. Em seguida, ele vai em rede nacional e criminaliza os que antes eram cartão postal do Rio de Janeiro em tempos de chuva e calamidades públicas. A questão é simples: é possível reprimir brutalmente homens que fazem parte do próprio estado penal, sem falar do uso maquiavélico da mídia que corrobora e dá vida ao espetáculo tão necessário para culpabilizar as vítimas e fazer valer a legitimidade da ação que poderia ser evitada.

O movimento não deixa de lembrar as mobilizações por melhores condições de trabalho em Minas Gerais que resultou na lamentável morte do cabo Valério da polícia militar, após o confronto entre as forças do próprio estado. A história é mais ou menos a mesma, talvez o problema dos bombeiros militares foi o de acreditar que estariam em cuidado e em segurança no interior de um batalhão no qual literalmente foram encarcerados em uma quadra cercada por arames tal como um campo de concentração. Lembrou-me as imagens dos recalcitrantes no campo de futebol após o massacre do Carandiru.

A mobilização dos bombeiros militares ainda não chegou ao fim. Os mais ou menos 600 bombeiros presos foram levados para a corregedoria da polícia militar na cidade de São Gonçalo. Quatorze ônibus entupidos de bombeiros seguiram em comboio. Na saída do quartel, as câmeras - que serão utilizadas contra os próprios bombeiros - mostraram homens dependurados nas janelas, gritando aos companheiros, fortes na mobilização, mas impotentes diante da força repressora. Teimo em dizer que o desfecho não será dos melhores. O governador vai dar uma entrevista coletiva com base nos códigos militares, assessores vão procurar os inimigos produzidos nas últimas horas e as providências com base em processos de exclusão e punição vão encontrar alguns desavisados e acabou a história.

De tudo isso, é preciso entender a mensagem governamental em relação às mobilizações daqueles responsáveis pela segurança social no estado. Uma mensagem clara: contra o direito de mobilização o governo utilizará a lei e a ordem. Uma velha estratégia de segurança oriunda das práticas mais medievais que, guardadas as devidas proporções, temos repetido nas constantes políticas de segurança que teimam em unificar as polícias, criar programas revestidos de democracia e identificar inimigos potentes e passíveis de criminalização ao sabor da política do momento.

O que certamente não se esperava neste cenário é a abertura e a politização dos atores responsáveis pela força ostensiva e pelo monopólio da violência do estado. O SOS humano, seres humanos de joelhos, feito pelos bombeiros militares em pleno campo da corregedoria da polícia militar é um ato simbólico chocante deste movimento que marcará a história da corporação. Mais do que antes vamos ver tais episódios se repetirem. Há pouco tempo a polícia civil e militar em Minas Gerais encenaram uma greve. O mesmo foi visto no Rio Grande do Norte. Em tempos de unificação de polícias nas mesmas academias, vale pensar se é bom para nós e para eles juntarem no mesmo local e instituição corporações que antes se controlavam e agora podem, em futuro próximo, organizarem e se reunirem, inclusive, não somente para reivindicar melhores condições de trabalho, mas também para fundarem associações, sindicatos e até partidos políticos. A polícia e a política do futuro nos mostrarão muitos equívocos que estão sendo apregoadas como verdades e saídas para um estado que tem resumido as questões de segurança pública em casos de polícia deixando em segundo plano a educação, a saúde e o fortalecimento de instituições civis que fazem na realidade os alicerces do que se entende por democracia.

* Professor e sociólogo. Doutor em sociologia pela UFMG
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